A escolha dos sujeitos na pesquisa fenomenológica é regida pelo interesse do pesquisador em acessar determinada vivência. Assim, as pessoas são procuradas por apresentarem certas características que facilitem o acesso ao tema pesquisado.
A intencionalidade da amostra na busca de variações reflete a lógica da pesquisa fenomenológica, que se articula sobre a tensão entre universalidades e singularidades (Gomes, 2001, p. 119).
Para atingir meus objetivos, considerei que os colaboradores dessa pesquisa precisavam preencher os seguintes critérios: serem psicólogos clínicos adeptos das abordagens fenomenológico-existenciais, ou seja, terem como pressupostos teóricos e metodológicos os mesmos descritos no corpo deste trabalho. Isso significa que os psicólogos sujeitos da pesquisa foram escolhidos entre os que trabalham com ênfase na experiência vivida pelo cliente, de acordo com a perspectiva deste, priorizando a relação intersubjetiva dialógica como promotora de crescimento e mudanças. Os psicoterapeutas foram escolhidos também se considerando a experiência e competência em trabalhar segundo estes pressupostos, avaliada através de seu currículo, trabalhos publicados sobre o assunto, bem como o contato pessoal e situação no meio profissional. Este critério foi importante, pois desejava verificar especificamente as dificuldades em aplicar tais pressupostos, diante da necessidade de se trabalhar o tema da religiosidade quando este era colocado pelo cliente. Os psicólogos deveriam admitir alguma dificuldade com o tema e
se dispor a participar dessa pesquisa. No entanto, alguns profissionais contatados se esquivaram sutilmente de ceder a entrevista, movimento que respeitei, ao passo que outros sequer deram uma resposta, evitando me encontrar novamente em ocasiões informais. Percebi algum receio de falar sobre essas questões e mesmo algumas pessoas que já haviam concordado, desmarcaram sem encontrar tempo para agendar outro horário. Tal movimento me chamou bastante a atenção, reduzindo o número de entrevistas em relação ao que eu esperava.
Assim, entrevistei seis psicólogos, dos quais cinco possuem formação em Gestalt-terapia, abordagem que se baseia na fenomenologia e adota os pressupostos buberianos para a compreensão da relação terapêutica, entre outros já assinalados.
Foi firmado com os entrevistados um termo de compromisso, no qual me comprometi a utilizar nomes fictícios e alterar quaisquer dados que pudessem identificá-los, para preservar o sigilo. As entrevistas foram gravadas e todos tiveram acesso à sua transcrição e síntese, podendo opinar e alterar aquilo que não correspondia às suas experiências.
O número de entrevistas foi considerado suficiente a partir da compreensão possibilitada pela sua análise. De fato, foram escolhidas quatro entrevistas entre as seis realizadas, por expressarem melhor o tema buscado em termos de vivências. Entre as pessoas que concederam a entrevista, duas racionalizaram e teorizaram muito, sem compartilhar suas vivências diante do tema, o que era fundamental para a pesquisa. Assim, optei por não desenvolver as análises destas, comunicando-os de que o número de entrevistas que eu possuía já era considerado suficiente e fazendo uma devolutiva do que foi conversado entre nós, apresentando-lhes sua síntese.
3.2. Entrevistas
Foram realizadas entrevistas individuais focais, semi-estruturadas, as quais, segundo Moreira (2002), consistem na apresentação de temas que permitam o fluxo de idéias, com espaço livre para o pensamento e a fala do entrevistado, além da introdução de questões que
se façam necessárias no decorrer da sua fala. A importância da utilização da entrevista, segundo Martins & Bicudo (1994), reside no fato de esta se constituir um encontro social, um convite ao diálogo com a finalidade de obter informações de relevância para pesquisador e entrevistado. Minayo (1996) chama a atenção para o caráter histórico e social da fala, que pode revelar sistemas de valores, normas, símbolos e condições estruturais do sujeito. Segundo esta autora, a importância da entrevista se deve ao aprofundamento qualitativo e à possibilidade de trocas e comparações advindas dessa estratégia. Ales Bello (2004) assinala um ponto fundamental para a fenomenologia, que fornece respaldo ao uso da entrevista: mesmo atribuindo significados diferentes às vivências, todos os seres humanos têm uma estrutura comum, que permite a compreensão empática dos significados atribuídos.
Certamente, a utilização de relatos orais apresenta algumas limitações e dificuldades. Como o vivido puro nunca pode ser acessado, a fala é sempre uma interpretação e traz em si vários significados constituintes do fenômeno. Isso evidencia uma característica humana: o fenômeno se constitui na interação, velando e revelando a singularidade da pessoa. A entrevista é uma busca conjunta pela vivência circunscrita através do interesse do pesquisador. Busquei, através do acesso a esta, compreender qual a ressonância nos psicólogos entrevistados de questões sociais e individuais que contribuem para a forma como lidam com o tema da religiosidade na clínica. Surgiram questões culturais, relativas à formação do psicólogo dentro das universidades, assim como questões relativas ao contato com o sagrado e vivências de ordem espiritual. O ponto fundamental é que elas foram amarradas de forma peculiar pela subjetividade daquela pessoa em questão, no campo relacional estabelecido comigo enquanto entrevistadora. Segundo Mahfoud (2003), o sentido se abre ao sujeito no movimento reflexivo de uma compreensão compartilhada. Dessa forma, a entrevista se constitui, não apenas em momento de obtenção de informações, mas em intervenção, na busca conjunta por compreender sua vivência diante do tema proposto.
Tudo isso pressupõe um trabalho empreendido pelo pesquisador e por seus colaboradores, no esforço de ir além das representações, crenças e pensamentos já instalados, na busca pela conexão com o vivido. Para que isso seja possível, a escolha da pergunta desencadeadora na entrevista é fundamental, pois esta deve contribuir para a aproximação da experiência. A pergunta endereçada aos entrevistados nessa pesquisa foi a seguinte: “Como é atender uma pessoa que traz para a sessão uma questão religiosa? Como você fica diante disso? Conte-me a sua experiência”. Busquei, assim, a descrição da vivência em toda a sua vitalidade, tensão e movimento. Segundo Amatuzzi (2001b), a entrevista conduzida dessa forma possui uma dimensão clínica, pois “o vivido mobilizado é a mola propulsora do desenvolvimento individual e cultural” (p. 21). A entrevista mobilizadora produz conhecimento, além da mudança pessoal e do crescimento dos envolvidos no processo de pesquisa. Torna-se também uma intervenção, com todas as implicações éticas provenientes desse fato.