Há um elemento presente na experiência religiosa, mas não apenas nesta, que é explicitado quando se considera a dimensão espiritual da pessoa: o mistério da existência humana. Entendo por mistério tudo aquilo que não pode ser plenamente compreendido ou explicado pelo conhecimento científico ou filosófico disponíveis, ultrapassando a racionalidade humana. Sua presença pode ser reconhecida e é vivida como surpresa, admiração. O mistério da existência é experimentado como gratuidade, já que sua vivência não pode ser forjada, mas apenas acolhida. Ele provoca interrogações, mobilizando possibilidades de significação, pois o ser humano busca compreender a si mesmo e ao mundo. Nesse movimento, admitir o mistério da sua condição aponta para uma característica marcante da humanidade: algo a ultrapassa; a vida é dada ao homem, mas este não pode compreendê-la totalmente. O mistério é inerente à vida, não só no que se refere às questões transcendentes, mas também na sua concretude cotidiana.
Na clínica psicológica, a dimensão do mistério se mantém fortemente presente, pois por mais que se busque entender os efeitos do encontro humano, por mais que haja condições que facilitem o atendimento, por mais que se recorra às teorias, métodos e técnicas, nada explica seguramente a transformação vivenciada na relação. O que de fato muda? O que produz a mudança? Cada abordagem dará uma ou mais respostas, mas cada resposta aponta apenas um aspecto parcial da realidade. O ponto é que, ao reconhecer o ser humano como múltiplo, singular e dotado de uma ontologia específica, na atuação clínica sempre há algo que foge ao controle e que se passa na relação interpessoal, ultrapassando-a. No encontro
entre terapeuta e cliente, a consideração de algo que os ultrapassa – a dimensão do mistério – produz uma abertura frente ao fenômeno que se delineia na intersubjetividade, possibilitando experimentar algo novo. Este mistério, perceptível na relação clínica, está presente no cotidiano, de forma que chega a ser difícil ignorar sua existência. Sempre há situações, gestos, sensações que rompem o habitual, acontecimentos que colocam a pessoa diante da imprevisibilidade e movimento do existir.
Segundo Prado (1999), entre as diversas vivências humanas, duas se destacam por colocarem a pessoa diante do mistério: são as experiências estética e religiosa. A arte e a experiência mística buscam desvelar algo que se vive intensamente. São formas de expressão, de vazão daquilo que pertence à ordem do inefável, pois o universo cultural muitas vezes não tem palavras que dêem conta de tais experiências. Somente uma linguagem e um universo fluido, como o artístico ou o religioso, permitem expressar esse tipo de vivência, que tem um caráter totalmente singular. Além das experiências artísticas e religiosas, a experiência de encontro verdadeiro com outro ser humano rompe as representações e mesmo a linguagem habitual. A vivência plena de uma relação e a constatação do que ela acarreta, para mim, também colocam a pessoa diante do mistério, exigindo formas de expressão peculiares.
Prado (1999) considera a fé e a arte os lugares da mais absoluta originalidade, nos quais a pessoa é única e singular. Nessas situações, a pessoa é instigada a se desdobrar, se transcender, a buscar uma forma de dar voz ao que experimenta. Ao deixar-se tocar pelo caráter misterioso dessas experiências, cria diferentes ferramentas para lidar com elas, produzindo um saber sobre si mesma e o mundo. Tal possibilidade também existe na psicoterapia enquanto encontro humano. No âmbito da psicologia clínica, considero este processo de diferenciação fundamental para o crescimento e o desenvolvimento da pessoa, do cliente e do terapeuta.
Safra (1999) aponta a vivência do sagrado como um caminho para a singularidade. O sagrado pode estar relacionado à arte ou a outros universos, não estando necessariamente ligado a crenças em um Outro Absoluto. Ele manifesta o desejo de uma potência de ser. Para Ales Bello (2004), a busca de potência é algo marcante na existência humana, e se manifesta mais claramente na busca religiosa. O ser humano percebe sua finitude e seus limites, mas tem um desejo imenso de superá-los, de ir além. Busca realizar-se sempre mais, desejando a potência, tanto no âmbito da sua vida, quanto em relação ao sentido último da existência. Assim, quando algo novo o atravessa, indo ao seu encontro como totalmente diferente, isso se torna indício da potência procurada. Ela pode ser inferida pelos sentidos quando a pessoa se vê diante de algo concreto que a deixa maravilhada. Este algo, então, se torna uma manifestação do sagrado. Em outras palavras, a experiência do sagrado se dá quando a potência é identificada com uma realidade material, adquirindo um sentido. No contato com o mistério a pessoa pode, então, encontrar potências.
Nesse sentido, penso que a pouca abertura para o que é imprevisível, inefável e incompreensível na vida – o mistério mesmo – diminui a potência, no sentido do poder da pessoa sobre a própria vida, reduzindo a sua capacidade criativa e de singularização. Para Safra (1999), o sentimento religioso pode ser compreendido como “uma tentativa de busca do sagrado, entendido como o anseio da potência de ser” (p. 175). Nesse ponto, crescimento pessoal, do ponto de vista psicológico, e desenvolvimento religioso se encontram, sendo possibilidades e caminhos diferentes na busca pela potência de ser. Mas a dimensão psicológica jamais esgota ou substitui essa busca de potência no seu sentido pleno e mais amplo como é apontado por Ales Bello (2004). Na dimensão religiosa, há uma busca de aproximação por uma potência pertencente ao âmbito do divino, algo que transcende totalmente a realidade e a condição humanas.
Otto (1992) ressalta a força do sagrado e os aspectos vivenciais da experiência religiosa. Suas colocações aproximam-se da dimensão hilética da religião, como apontada por Ales Bello (2004). Ambos enfatizam as sensações trazidas pela forma física e concreta de certas coisas que apontam para uma abertura ao transcendente. Otto analisa elementos em diversas culturas ao redor do mundo, como paisagens exuberantes e construções imponentes, que despertam sentimentos de maravilhamento, apontando para a existência de algo maior. Este sentimento é algo específico que ele chama de numinoso. Segundo o autor, ele surge da faculdade humana de conhecer, sendo solicitado pelas impressões sensíveis. Através da descrição fenomenológica de lugares e construções humanas, Otto retrata claramente a dimensão do mistério presente no mundo e a resposta dos homens é vista como a busca de relacionamento com esse mistério, tido como o Absoluto, o Totalmente Outro. Para ele, as várias tentativas de explicação e reflexões sobre essa vivência se transformaram, ao longo do tempo, nas diversas denominações religiosas. Este momento da tentativa de compreensão e nomeação do que se vive, para Ales Bello (2004), pode ser entendido como noético, pois aí o aspecto racional é utilizado para conferir significados. Porém, o processo de impactar-se com a realidade está atrelado ao ato de conferir sentidos, em um movimento simultâneo e complementar. Na forma como Otto relata tais questões na sua obra, tal separação é acentuada ao criticar o fato de as religiões se afastarem da vivência do numinoso e se apegarem excessivamente a regras e doutrinas, pois é justamente o aspecto vivencial que motiva a aderência religiosa. Sua descrição fenomenológica do numinoso e do misterium tremendum, mostra a força viva do mistério presente desde os primórdios da humanidade e a forma como toca o ser humano, mas apresenta uma oposição clara entre elementos racionais e irracionais, sendo estes últimos compreendidos por ele como pertencentes ao campo do sentimento. Tal separação pode ser observada em várias passagens da sua obra. Ales Bello (2004), por sua vez, ressalta que o sentimento religioso não é algo meramente subjetivo e projetivo. Ele é
produzido na relação com o mundo que, por sua dimensão misteriosa, solicita uma resposta de outra ordem. As elaborações racionais são parte desse processo, na tentativa de conhecê-lo melhor e se aproximar do sagrado, mas nunca são apenas e totalmente racionais, já que na perspectiva fenomenológica, a vivência é a articulação de todos estes aspectos, é a fronteira entre eles. Assim, na vivência do sentimento numinoso, estariam presentes os aspectos hilético e noético simultaneamente.
Diante dessas considerações, a expressão senso religioso parece mais adequada do que o termo sentimento religioso. A apreensão e vivência religiosas envolvem mais do que sensação e posterior elaboração. Há um conjunto de eventos subjetivos e objetivos acontecendo conjuntamente, envolvendo a pessoa inteira, em todos os aspectos que a constituem. Senso religioso refere-se à exigência de significado da vida, expressando-se nas perguntas sobre o sentido de todas as coisas, diante do mistério da realidade humana. Tal concepção engloba um conceito de razão e experiência específicos, voltados para a totalidade e complexidade do fenômeno religioso (Massimi & Mahfoud, 1999; Giussani, 2000).
O domínio religioso, portanto, tem características próprias, muito específicas, difíceis de apreender em um primeiro contato com o tema. Cada estudioso desse campo, ao apresentar sua perspectiva, aponta novos aspectos, mostrando que a dimensão religiosa é muito mais rica e complexa do que se mostra em uma primeira aproximação. Sem o mergulho atento nessa dimensão, deixando de lado os a priori, é fácil desenvolver uma postura cindida e reducionista. É preciso estar atento à colocação de Otto (1992): “Se há um domínio da experiência humana onde aparece algo que é específico deste domínio e só neste pode observar-se, é o da religião” (p. 18).
Ales Bello (1998) enfatiza a autonomia do campo religioso em relação aos demais, alertando para o equívoco de se reduzir a religiosidade a uma experiência psicológica ou a qualquer coisa que caiba dentro de representações. Existe, aqui, um caráter transcendente. Ela
também ressalta a especificidade deste campo, afirmando que a religião tem seu papel e função no mundo, pois lida com questões que a ciência e a filosofia jamais poderiam responder (Ales Bello, 2004).