Benveniste (1974:80) trata a enunciação como “a colocação em funcionamento da língua por um ato individual de utilização”, que o autor opõe ao enunciado, pois o ato distingui-se de seu produto.
2.2.1 A enunciação e o enunciado
De forma geral, a enunciação vem sendo tratada como um ato único que não se repete, pois está diretamente ligada ao quadro enunciativo: pessoas, tempo e lugar. Os enunciados podem se repetir, mas,a enunciação é única pois há mudança de quadro enunciativo de forma a tornar essa repetição, por sua vez, também um ato único, guiado por uma intenção específica.
No prisma discursivo, enunciado só faz referência ao mundo, na medida em que reflete o ato de enunciação que o sustenta. Assim, as pessoas e o tempo do enunciado são selecionados em relação a sua situação de enunciação; desse modo, o enunciado possui o valor ilocutório que ele “mostra” por meio da enunciação.
A concepção de enunciação varia dependendo de estar situada na dimensão discursiva ou na dimensão linguística. Se insistirmos na idéia da enunciação como acontecimento em um tipo de contexto e apreendido na multiplicidade de suas dimensões sociais e psicológicas, operamos primordialmente na dimensão do discurso. Mas a enunciação pode também ser considerada, em um âmbito estritamente lingüístico, como um conjunto de operações subjetivas constitutivas de um enunciado.
Segundo Culioli (1973), embora a definição benvenisteana da enunciação privilegie o pólo do enunciador, não se pode esquecer que a enunciação é uma co- enunciação, que ela é, fundamentalmente, “acomodação inter-subjetiva”.
Kerbrat- Orecchioni (1980) revê diferentes tratamentos dados à enunciação, e propõe diferenciá-la por uma abordagem ampla em relação a uma abordagem restrita.
Na abordagem “ampla”, concepção discursiva, a lingüística da enunciação “visa a descrever as relações que se tecem entre o enunciado e os diferentes
elementos constitutivos do quadro enunciativo” (Ibid.:30); a lingüística da enunciação tende, desse modo, a se imbricar com a análise do discurso.
Na abordagem “restrita”, concepção lingüística, para a autora (Ibid.:32) “investigam-se os procedimentos lingüísticos (shifters, modalizadores, termos avaliativos etc.) por meio dos quais o locutor imprime sua marca no enunciado, inscreve-se na mensagem (implícita ou explicitamente) e se situa em relação a ele (problema de distância enunciativa)” . Denominam-se, freqüentemente, marcas ou traços enunciativos as unidades lingüísticas que indicam a remissão do enunciado à sua enunciação: pronomes pessoais de primeira pessoa, desinências verbais, advérbios de tempo, adjetivos afetivos.
Para Kerbrat–Orecchioni, todo enunciado é construído pela subjetividade da enunciação, de forma a torná-la um ato único e intencional, que orienta o enunciatário a construir sentidos, em outros termos, um << fazer>> do enunciador que leva a um<< fazer>> do enunciatário.
O sistema da língua é social e válido para qualquer membro nativo dessa língua em qualquer lugar. Os estruturalistas, ao tratarem do uso da língua como parole ou fala, entenderam que o enunciador era um codificador, e o enunciatário um decodificador, por serem indivíduos que usam o sistema social imposto da língua.
Kerbrat- Orecchioni critica essa concepção e propõe que o sistema da língua é o mesmo para todos os enunciadores, mas, ao enunciar, o enunciador é um sujeito de intenções e que procede diferentemente em cada ato enunciativo. Esse ato único é visto como o ato de escolher unidades lexicais entre todas as que a língua oferece e regras gramáticas entre todas que a gramática da língua estabelece.
A autora diferencia no quadro enunciativo, duas grandes situações de produção enunciativa: a informativa ou do relato, e a avaliativa, da argumentação.
Dessa forma, propõe uma dicotomia entre elementos presentes no enunciado, resultantes da escolha feita pelo enunciador: elementos não-axiológicos x elementos axiológicos. Os elementos não-axiológicos não refletem as intenções e a subjetividade do enunciador, de forma a construir textos menos subjetivos. Os elementos axiológicos exprimem a subjetividade enunciativa, de forma a construir textos mais subjetivos.
Os elementos axiológicos são diferenciados em afetivos e avaliativos. Os afetivos estabelecem relações, a partir dos sentimentos, e os avaliativos, a partir de opiniões.
Embora haja textos menos subjetivos e textos mais subjetivos, não há objetividade , pois todos eles são subjetivos.
Nesse sentido, quando se conta histórias, embora as histórias sejam repetidas, o ato enunciativo produz mudanças nas palavras do texto.
Na interação comunicativa, o ato da enunciação pode produzir a retomada por repetição de enunciados já produzidos, a complementaridade de enunciados já produzidos e a reformulação de enunciados numa dimensão intertextual.
Na perspectiva da Análise do Discurso, a consideração da enunciação é, evidentemente, central, tendo aparecido desde 1969, no número 13, da revista
Langages - “L’Analyse du discours, em que Dubois a consagrou em um artigo
“Énoncé et Énonciation” , ainda que o paradigma estruturalista estivesse implantado. Muito rapidamente, diversos fenômenos enunciativos foram estudados: em particular, os dêiticos pessoais e espacio-temporais (Guespin, 1976), o discurso citado, a polifonia, as aspas (Authier, 1981), a ponto de se terem tornado uma das características das pesquisas francófonas em análise do discurso. Mais precisamente, as problemáticas ligadas à enunciação são mobilizadas em dois níveis que interagem constantemente:
- O nível local das marcações do discurso citado, de reformulações, de modalidades etc., que permite confrontar diversos posicionamentos ou caracterizar gêneros do discurso.
- O nível global, em que se define o contexto no interior do qual se desenvolve o discurso. Nesse nível, pensa-se em termos de cena de enunciação, de situação de comunicação, de gênero de discurso. Em se tratando da análise do discurso, não é possível, efetivamente, contentar-se com uma definição estritamente lingüística da enunciação, como colocação em funcionamento individual da língua.
Além disso, do ponto de vista da Análise do Discurso, a enunciação é, fundamentalmente, tomada no interdiscurso. Funchs e Pêcheux (1975:20) propõem:
“A enunciação equivale a colocar fronteiras entre o que é “selecionado" e, pouco a pouco, tornado preciso (através do que se constitui o “universo de discurso”) e o que é rejeitado. Desse modo se acha, pois, desenhado num mesmo espaço vazio o campo de ‘tudo a que se opõe o que o sujeito disse’”.