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A Análise Crítica do Discurso é realizada em diferentes países e pode ser definida pelo compromisso que o analista do discurso assume com o seu público, na medida que aquele tem por objetivo denunciar o controle da mente das pessoas pelos discursos públicos.

Entre as diferentes vertentes da Análise Crítica do Discurso , encontramos a vertente sócio cognitiva, da qual Van Dijk é seu maior representante.

Este autor tem por base as contribuições dadas pelas ciências da cognição, das quais seleciona o modelo de memória por armazéns e o processamento da informação, a partir de papéis sociais que orientam as formas de conhecimento social que são avaliativas.

2.6.1 O modelo de memória por armazéns e o processamento da informação.

Kintsch e van Dijk (1975) diferenciam a memória de longo prazo da memória de médio e curto prazo.

A memória de curto prazo é sensorial e quantitativa. É ela que da entrada à materialidade discursiva para o processamento da informação na memória de trabalho que se situa entre a de curto e a de médio prazo. A informação entrada é armazenada no chunk , unidade quantitativa, que após ser lotada a informação nova que está entrando, perde-se. Por essa razão, as unidades de memória contidas no

chunk precisam ser esvaziadas pelo processamento da informação na memória de

trabalho, a fim de facilitar a entrada de novas informações.

A memória de trabalho processa a informação de forma a transformar a materialidade lingüística, ou seja, o que está representado em língua (ou em qualquer outra semiótica), em sentidos. Estes, para os autores, são designados proposições, ou seja, unidades semânticas. Nesse sentido, transforma-se a superfície textual na base de texto. Dependendo dos conhecimentos já armazenados na memória de longo prazo do processador e de suas estratégias de ativação, o número de proposições varia de um processador para o outro. Por essa razão, os autores afirmam que uma base de texto é um n-duplo de proposições, já que nenhum texto tem a mesma leitura, seja pelo mesmo leitor, seja por leitores diferentes.

A memória de longo prazo é o armazém onde se aloca os conhecimentos já processados pelo processador. A memória de longo prazo compreende dois grandes armazéns: um social, designado memória semântica; e um individual, designado memória episódica.

Cada um desses armazéns arquiva os conhecimentos construídos pelo processador, de forma organizada em sistemas cognitivos. Estes, de forma geral, são: conhecimentos de língua, conhecimentos enciclopédicos de mundo e conhecimentos sócio-interacionais. Os conhecimentos de língua compreendem conhecimentos lexicais e gramaticais; os conhecimentos de mundo compreendem as formas de representação do que acontece no mundo e os sócio-interacionais, os

conhecimentos relativos às interações comunicativas, tais como atos de fala, esquemas textuais, contextos discursivos.

Cada um desses conhecimentos é construído em um esquema memorial que compreende o script e o frame. O script ordena, no tempo, as proposições com sentidos secundários; e o frame é uma macroproposição, ou seja, o sentido mais global atribuído ao script. Alem do script há outras maneiras de organizar as formas de conhecimento dependendo deles serem descrições de objetos, planos , rituais, etc.

A memória de longo prazo social armazena em cada um de seus sistemas (língua, mundo e interação comunicativa) os seus respectivos esquemas mentais. A memória de longo prazo social armazena as formas de conhecimento construídas em sociedade, principalmente, pelos discursos públicos institucionais. A memória de longo prazo individual armazena formas de conhecimento construídas a partir de experiências pessoais com o mundo. Compreender a memória de longo prazo, como um armazém social e um armazém individual, propicia explicar porque as pessoas de um mesmo grupo social reagem de formas diferentes frente a um mesmo acontecimento no mundo.

Por essa razão, a Análise Crítica do Discurso postula uma dialética entre o social e o individual: o social guia o individual em suas formas de conhecimento; mas, o individual modifica o social.

Os conhecimentos armazenados na memória social de um grupo sócio- cognitivo de pessoas compreendem o marco das cognições sociais desse grupo.

Van Dijk (1997) discute a diferença proposta pelos filósofos da linguagem entre episteme e doxa. Na filosofia, os conhecimentos epistëmicos são factuais, ou seja, podem ser conferidos no mundo e, por isso, a eles pode ser atribuído o valor de verdade/ falsidade. Por exemplo, se alguém disse “ a árvore do meu jardim está florida”, esse conhecimento é factual, pois as pessoas podem ir ao jardim do enunciador e observar se a árvore está florida ou não, para ,após ,atribuir um valor de verdade/ falsidade ao dito.

Doxa é a opinião pública. Opinar é atribuir valores (positivo /negativo; útil/inútil; agradável/ desagradável; caro/ barato, etc.) a uma forma de conhecimento.

Como os valores não são observáveis, não se pode atribuir a eles valor de verdade/ falsidade; nesse sentido, esses conhecimentos são crenças.

Van Dijk discute essa diferença e postula que todas as formas de conhecimento são avaliativas, ainda que factuais. No caso de, por exemplo, alguém dizer “ ela é mãe “ ou “ ela é uma boa mãe” em ambos os enunciados há valores. Para certos grupos sociais, o conhecimento de mãe é <<o ser que dá a luz a uma criança e que por ela tem amor, de forma a projetar perspectivas de realização pessoal e social para torná-la uma pessoa feliz>>; portanto, todas as suas ações são controladas pela sua função de membro chefe de família que, juntamente ou não com o pai, propiciará o melhor para seu filho. Para outros grupos sociais, “mãe” é<< a mulher que dá a luz e que rejeita seu filho, abandonando-o para ser destruído, na medida em que cancela seu relacionamento social com ele>>.

Assim, dependendo do grupo social, o enunciado – “ ela é mãe “ contém uma forma de representação avaliativa positiva ou negativa << daquela que dá a luz a uma criança a partir do seu relacionamento com o filho>>, e quando alguém diz “ ela é uma boa mãe “ para o grupo social que avalia positivamente a representação mental de mãe, a avaliação positiva está ampliada. Para o grupo social que representa mãe com avaliação negativa, tal avaliação negativa está ampliada.

Logo, para o autor, todas as formas de conhecimento são avaliativas, ou seja, opinativa. Assim, a memória de longo prazo social armazena opiniões sociais, e a memória de longo prazo individual, opiniões pessoais.

A vertente sócio–cognitiva da Análise Crítica do Discurso postula a inter- relação de três categorias analíticas: Sociedade, Cognição e Discurso, pois uma se define pela outra.

Segundo Silveira (2006), essas categorias poderiam assim ser conceituadas: A Sociedade é definida por um conjunto de grupos sociais. Cada um deles é a reunião de pessoas que tem o mesmo ponto de vista para olhar o mundo. Este ponto de vista decorre de objetivos, interesses e propósitos comuns às pessoas que se reúnem em um mesmo grupo social e, por essa razão, as suas formas de cognição são sociais enquanto avaliações.

A Cognição é vista como o conjunto de conhecimentos sociais construídos a partir do que é vivido e experienciado pelo grupo e relativos ao que ele é, ao que

pensa ser e ao que quer ser. As cognições variam de grupo para grupo;logo, há um constante conflito intergrupal.

O Discurso pode ser entendido, tanto como um evento discursivo particular, quanto como discurso público. Os discursos públicos construídos por instituições sociais são designados , discursos públicos institucionalizados. Segundo van Dijk (1997), esse discurso é definido por três categorias, a saber: Poder, Controle e Acesso. Cada uma dessas categorias compreende participantes, suas funções e suas ações. Dessa forma, o Poder é entendido como conjunto de pessoas autorizadas a tomar decisões; o Controle é representado por um conjunto de pessoas que fazem as decisões do Poder serem executadas; e o Acesso é a materialidade discursiva que atinge o público. Logo, nos discursos públicos institucionalizados, o Poder decide o que será informado ao público. O Controle coloca em ação as decisões do Poder, de forma a controlar mesmo as expressões lingüísticas que terão acesso ao público.

Logo, como o que tem acesso ao público é decidido pelo Poder, há um conjunto de conhecimentos sociais que são extragrupais e passam a dominar, ideologicamente, a mente das pessoas.

Dessa forma, os conhecimentos ideológicos são impostos e não apresentam uma dinamicidade que os conhecimentos culturais têm.

Os conhecimentos sociais que apresentam uma dinâmica em suas avaliações e que são construídos a partir do vivido e experenciado pelo povo, definem os traços culturais de um grupo social ou de uma pluralidade de grupos, em uma nação. Segundo van Dijk (2003), as culturas guiam a construção das ideologias. Estas compreendem valores que são impostos pelas classes dominantes, a fim de discriminar socialmente pessoas; mas, as culturas são avaliações contidas em conhecimentos sociais, passadas de pai para filho, que se apresentam de forma dinâmica devido ao uso desses conhecimentos para resolver problemas novos.

Para o autor (1997) , o discurso compreende uma prática sócio-interacional que se define por um esquema mental que contém personagens, suas funções e suas ações. O discurso, nesse sentido, não se define por temas e sim pela maneira de tratar os temas, dependendo do papel representado pelos personagens de cada prática social. É no e pelo discurso que se constrói e transmite as formas de

conhecimento humanas. A materialidade discursiva, para o lingüista, é o texto- produto, ou seja, as formas de representação em língua, lineares, construídas pelo enunciador.

Em síntese, os fundamentos teóricos apresentados neste capítulo da dissertação orientaram a realização de nossas análise que são apresentadas no capítulo seguinte.

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