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Os primeiros passos do projeto que deu origem à Lei nº. 9.307/96, surgiram através de uma pesquisa levada a efeito pelo Instituto Liberal de Pernambuco, com a presença de diversos segmentos de nossa

144 Solução extrajudicial dos conflitos individuais. – Trabalho & Doutrina: processo e jurisprudência, n.

sociedade, cujo intuito precípuo era o de avaliar a receptividade da utilização da arbitragem, como forma alternativa de solução de conflitos no Brasil.

Constatada a necessidade de ser revisto o ordenamento jurídico e de se implementar uma via eficaz de solução de conflitos, em novembro de 1991, foi constituída uma comissão relatora com a participação dos juristas145 Carlos Alberto Carmona, Pedro Batista Martins, Selma M. Ferreira Lemes e Petrônio Muniz, sendo patrocinada pelo, então, senador Marco Maciel, com a incumbência de elaborar um Anteprojeto de Lei que dispusesse sobre a arbitragem à altura das mais modernas leis estrangeiras e nivelada com as diretrizes fixadas pela ONU.

Após muitos debates e discussões pelos integrantes da referida comissão, bem como o exame e inserção de várias sugestões apresentadas por outros renomados juristas, além de professores, advogados, sindicalistas, magistrados e de organismos internacionais de arbitragem, o esboço final do Projeto de Lei do Senado n. 78 foi encaminhado, formalmente, à apreciação do Congresso Nacional, em 3 junho de 1992, pelas mãos do senador Marco Maciel que objetivou, segundo sua justificação, “criar um foro adequado as causas envolvendo questões de direito comercial,

negócios internacionais ou matéria de alta complexidade, para as quais o Poder Judiciário não está aparelhado146”.

No Congresso Nacional, o Projeto de Lei sofreu duas pequenas emendas, que não desnaturaram sua essência, e, após aprovação pelas duas Casas Legislativas, foi levado à sanção presidencial, transformando-se, finalmente, na Lei nº. 9.307, em 23 de setembro de 1996.

Anteriormente à “Lei Marco Maciel”, ensina GEORGENOR147, três outros projetos do Executivo foram encaminhados ao Parlamento (em 1981, 1987 e 1988), nenhum logrando êxito. A nova lei brasileira sobre arbitragem tomou por base diplomas internacionais que cuidam do tema de maneira satisfatória: a Convenção para o reconhecimento e a execução de sentenças arbitrais estrangeiras, adotada na Conferência das Nações Unidas sobre arbitragem comercial, de 10 de julho de 1958, não assinada pelo Brasil; a Lei-Modelo sobre Arbitragem Comercial Internacional, adotada pela UNCITRAL (United Nations Comission International Trade Law), na 18ª sessão (Viena, 12 de junho de 1985) – (passou a denominar de

convenção de arbitragem o gênero que se desdobra na cláusula

compromissória e no compromisso arbitral)148, além da Convenção

146 Georgenor de Sousa Franco Filho, A nova lei de arbitragem e as relações de trabalho, ed. LTr,

1997, p. 22.

147 Georgenor de Sousa Franco Filho, A nova lei de arbitragem e as relações de trabalho, ed. LTr,

1997, pp. 22/23.

148 Art. 3º da Lei n. 9.307/96: “As partes interessadas podem submeter a solução de seus litígios ao

juízo arbitral mediante convenção de arbitragem, assim entendida a cláusula compromissória e o compromisso arbitral”.

Interamericana sobre Arbitragem Comercial Internacional (Panamá, 30 de janeiro de 1975, que o Brasil não ratificou).

Foram revogados os arts. 1.037 a 1.048 do Código Civil de 1916 e os arts. 101 e 1.072 a 1.102 do Código de Processo Civil de 1973, e, como YOSHIDA149 bem enfatiza, toda a sistemática anterior foi modificada, sem deixar saudades.

YOSHIDA150, explica, ainda, de forma clara e precisa

alguns conceitos introduzidos pela Lei nº. 9.307, de 23 de setembro de 1996, que, no se entender, proporcionaram a definitiva libertação das amarras processuais que impediram, até então, o desenvolvimento dessa modalidade de solução de litígios no nosso país.

A primeira observação feita pelo predito autor, foi a de que rompendo a secular inexigibilidade da cláusula compromissória, o art. 7º da Lei n. 9.307/96 estabeleceu a possibilidade de se perquirir a lavratura do compromisso judicialmente “havendo resistência quanto à instituição da arbitragem”.

De acordo com o § 4º do art. 7º em questão: “Se a cláusula compromissória nada dispuser sobre a nomeação de árbitros, caberá

149 Arbitragem trabalhista, ed. LTr, 2006, p. 41. 150 Op. cit., pp. 41/43.

ao juiz, ouvidas as partes, estatuir a respeito, podendo nomear árbitro único para a solução do litígio”.

A inconveniente exigência de homologação judicial da sentença arbitral, prevista no art. 1.097 do CPC de 1973, foi abolida pela nova lei de arbitragem no seu art. 18, sob o aplauso unânime da comunidade jurídica.151

Para YOSHIDA152, a homologação judicial, além de

provocar grande dilação do procedimento, anulava outras das virtudes da arbitragem: a sua confidencialidade.

O art. 31 da lei de arbitragem, ao declarar produzir a sentença arbitral “os mesmos efeitos da sentença proferida pelos órgãos do Poder Judiciário e, sendo condenatória, constitui título executivo”, revolucionou os comandos de semelhante sentido inscritos no art. 1.097 do novo CPC e no art. 1.043, parágrafo único, do CPC de 1939, pois atribui à decisão do árbitro natureza inequivocamente jurisdicional.

151 Criticando duramente a homologação judicial, Carlos Alberto Carmona preleciona que “enquanto a

Bélgica (1972), a França (1980), Portugal (1986), a Itália (1983 e, mais recentemente, 1994) e a Espanha (1988) aboliam ou pelo menos mitigavam a exigência de homologação de laudos arbitrais, o legislador brasileiro mantinha-se fiel às suas tradições históricas, emperrando a utilização do mecanismo de solução de controvérsias”. (Arbitragem e processo: um comentário à Lei n. 9.307/96, Malheiros, 1998, p.18).

Conquanto irrecorrível a sentença arbitral, foi preservada às partes a prerrogativa de requerer judicialmente a decretação da sua nulidade, nas hipóteses enumeradas pelo art. 32 da nova lei, a saber:

“Art. 32. É nula a sentença arbitral se:

I - for nulo o compromisso;

II - emanou de quem não podia ser árbitro;

III - não contiver os requisitos do art. 26 desta Lei;

IV - for proferida fora dos limites da convenção de

arbitragem;

V - não decidir todo o litígio submetido à arbitragem;

VI - comprovado que foi proferida por prevaricação,

concussão ou corrupção passiva;

VII - proferida fora do prazo, respeitado o disposto no art.

12, inciso III, desta Lei; e

VIII - forem desrespeitados os princípios de que trata o

Atente-se, que nos arts. 10, II e 13, § 3º, da Lei n. 9.307/96 fez-se menção à possibilidade das partes delegarem a escolha dos árbitros a uma entidade especializada.

As instituições especializadas na administração da arbitragem não eram, então, conhecidas no nosso ambiente jurídico interno, embora muito disseminadas em outros países e amplamente utilizadas nos contratos internacionais.153

A inserção da possibilidade de se realizar a arbitragem institucional, conjugada com as demais reformulações da nova lei brasileira de arbitragem, enfatiza MÁRCIO YOSHIDA154, propiciou o surgimento de grande número de centros, cortes, comissões, tribunais, núcleos, conselhos e câmaras arbitrais dedicados à organização de corpo de árbitros, vinculados a regulamentos e procedimentos arbitrais específicos.

Conquanto seja novidade nenhuma em outros países, e muito pelo contrário, integrem as tradições do comércio internacional e dos países assim chamados desenvolvidos, nunca tivemos, em nosso Direito interno, instituições arbitrais voltadas à administração de procedimentos arbitrais, mormente do naipe da American Arbitration

153 Márcio Yoshida, Arbitragem trabalhista, ed. LTr, 2006, p. 42. 154 Op. cit., p. 42.

Association - AAA, sediada em Nova Iorque, ou da Câmara de Comércio Internacional – CCI, de Paris, conclui, muito bem, YOSHIDA155.

GEORGENOR DE SOUSA FRANCO FILHO156 observa que, a Lei n. 9.307/96 cuida dos aspectos mais relevantes da arbitragem. Se, é certo que se destina àquela comercial, também é igualmente certo que suas normas podem ser aplicadas à trabalhista, à falta de lei específica, e porque revogados os dispositivos das leis substantiva e adjetiva civis sobre a matéria. É importante diploma porque prevê as formas de instituição da arbitragem e todo o procedimento arbitral, incluindo a conversão de demanda judicial em arbitragem, despesas com a utilização desse mecanismo, efeitos executórios do laudo arbitral (ponto altissimamente relevante), hipótese de sua nulidade, inclusive prazo, e reconhecimento de sentença arbitral estrangeira.

A Lei n. 9.307, de 23 de setembro de 1996, sem dúvida alguma é uma grande conquista, contudo, possui pontos susceptíveis de críticas, sobre tudo quando relacionados com a arbitragem trabalhista, sendo certo que tais considerações serão apresentadas no momento próprio deste estudo.

Benzer Belgeler