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TEKNİK ÖZELLİKLER VE SAĞLANMASI GEREKEN ŞARTLAR 46. Oyun Sahası

A primeira etapa para o estudo do ponto de vista narrativo deve ser a separação entre o que Gérard Genette (2007) chama de modo e voz. O ponto de vista ou visão ou perspectiva é, segundo ele, um dos dois modos de regulação da informação em uma narrativa – o segundo modo é a distância, que tem a ver com a quantidade de informação transmitida por meio do showing e do telling. No primeiro caso, a informação narrativa é filtrada por um ou mais personagens. Genette (p. 190) faz a diferença entre modo e voz:

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[…] a maior parte dos trabalhos teóricos sobre esse assunto (que são essencialmente classificações) sofrem, na minha opinião, de uma irritante confusão entre o que eu chamo aqui modo e voz, isto é, entre a questão qual é o personagem cujo ponto de

vista orienta a perspectiva narrativa? e uma questão totalmente diferente: quem é o narrador? – ou, para ser mais direto, entre a questão quem vê? e a questão quem

fala?

Em um estudo posterior, Genette substitui as questões quem vê? e quem fala? por qual é a origem da percepção?, por considerar que essa palavra exprime melhor as diversas facetas que pode assumir a filtragem da narração tanto pelo narrador, quanto pelos personagens. Ele mantém, todavia, a distinção entre modo e voz – cuja relação determina a chamada situação narrativa. Genette propõe, então, o termo focalização para designar a perspectiva narrativa, que, até o momento, era chamada de ponto de vista, campo, visão e foco de narração. Para ele, só existem dois pontos de vista: interior (subjetivo) ou exterior (objetivo), que podem se manifestar por meio de quatro vozes: o herói-narrador, a testemunha-narradora, o narrador onisciente e o narrador não onisciente.

Apresenta, em seguida, a seguinte tipologia: narrativa não focalizada ou de focalização zero (a narrativa clássica, em geral); narrativa de focalização interna (fixa, variável ou múltipla); e narrativa de focalização externa. No primeiro caso, o narrador sabe e diz mais que o personagem; no segundo, ele diz apenas o que sabe o personagem; no terceiro, o narrador diz menos do que sabe o personagem. Ele ressalta que nem sempre é simples identificar o tipo de focalização de um relato, que a categoria tende a variar no decorrer de uma narrativa, podendo coexistir em seus diversos tipos.

A distinção entre o modo e a voz foi um grande passo na teoria do foco narrativo. Entretanto, a teoria genettiana, como qualquer outra, tem suas limitações. A principal delas nos parece ser a atenção insuficiente concedida à riqueza e à complexidade da focalização – o que prejudica a sua aplicação, sobretudo, nas narrativas fílmicas, que não apenas não foram suficientemente contempladas por suas reflexões – embora o assunto venha à baila em vários momentos de seu trabalho –, como apresentam as peculiaridades audiovisuais. Em outras palavras, acreditamos que Genette não explora suficientemente as especificidades das diferentes focalizações, apresentando-as sempre em relação à posição do narrador – uma etapa necessária, mas que não dá conta do fenômeno. Para o cinema, a distinção entre modo e voz é importante na medida em que separa o narrador fílmico (invisível na maior parte dos filmes de ficção) dos personagens (modo) que podem funcionar como focalizados e cuja perspectiva é usada como fio condutor da narração. Mas, a nosso ver, são as funções narrativas de Seymour Chatman que vão detalhar o papel da focalização.

59 2.6 CHATMAN: FUNÇÕES NARRATIVAS E PONTOS DE VISTA

Para Chatman (1990), não adianta apenas substituir uns pelos outros os termos de ponto de vista, visão, foco narrativo, focalização, etc. São necessárias diferentes denominações para os diferentes atos mentais de agentes narrativos, sejam eles narradores ou personagens, que apresentam diversos comportamentos, atitudes e interesses. A questão é: nem todos os personagens focalizadores desempenham o mesmo papel, e não basta constatar se eles sabem e/ou dizem menos, mais ou a mesma coisa que o narrador. É necessário identificar como eles estão regulando a informação narrativa. Por essa razão, Chatman propõe uma terminologia com três funções narrativas para os personagens focalizados: filter (filtro), center (centro) e interest-focus (foco de interesse). Quanto ao narrador, Chatman (p. 143) o denomina slant (ponto de vista) e o diferencia de filtro:

Eu proponho ponto de vista para nomear as atitudes do narrador e outras nuances mentais apropriadas para a função de reportar do discurso, e filtro para nomear a extensão maior de atividade mental experimentada por personagens no mundo da história – percepções, cognições, atitudes, emoções, memórias, fantasias, etc.

O termo ponto de vista reúne, então, os aspectos psicológicos, sociológicos e ideológicos das atitudes do narrador. Eles podem variar de neutros até bastante tendenciosos, podendo ser implícitos ou explícitos (comentário e comentário crítico). Sua ideologia pode ou não estar de acordo com aquela dos personagens, do autor implícito e do autor real. Ele olha diretamente para o discurso, não para a história, e não pode ultrapassar o discurso e viver no mundo diegético – nem mesmo em se tratando de um narrador autodiegético. Pode fazê-lo apenas por meio das palavras e imagens de outros.

Já o filtro é definido, por Chatman (p. 144), da maneira seguinte:

“Filtro”, por outro lado, parece um bom termo para capturar algo da função mediadora da consciência de um personagem – percepção, cognição, emoção, sonho – como eventos experimentados em um espaço dentro do mundo da história [...] A história é narrada como se o narrador estivesse sentado em algum lugar dentro ou ao lado da consciência de um personagem e filtrasse todos os eventos por meio do sentido do personagem sobre eles. [...] O que gosto sobre o termo “filtro” é que ele enfatiza a questão da escolha, feita pelo autor implícito, das experiências imagináveis do personagem que melhor acentuam a narração – quais áreas do mundo da história o autor implícito quer iluminar e quais quer manter obscuras.

Centro é o termo proposto por Chatman (p. 147) para a segunda função narrativa que ele identifica, ou seja, “[...] a apresentação de uma história de tal modo que um certo

60 personagem é de importância superior”. Mas isto, segundo o autor, é bastante diferente de filtragem, uma vez que, no caso do centro, nós podemos ou não ter acesso à consciência do personagem central – o filtro sempre permite esse acesso. A terceira função narrativa denominada por Chatman é o foco de interesse. Este se distingue do tipo anterior porque até mesmo um personagem secundário pode ser eventualmente foco de interesse da narrativa, enquanto o centro designa necessariamente um personagem central para a história. O foco de interesse é importante para as análises fílmicas porque ele não exige a expressão dos estados mentais dos personagens. Trata-se antes de um tipo de empatia entre o narrador e o personagem focalizado. Chatman (p. 148) explica:

O ponto de vista do interesse é de particular importância na mídia narrativa a exemplo dos filmes. Muito frequentemente nós não vemos as coisas do ponto de vista ótico de algum personagem ou sabemos o que ele está pensando, mas nós nos identificamos com ele, interpretamos eventos como eles o afetam, desejamos a ele boa sorte ou um castigo merecido.

Chatman ressalta que essas funções narrativas podem ocorrer simultaneamente, mesmo no cinema, e que o ponto de vista do narrador sempre está presente – não necessariamente ele coincide com o dos personagens. A importância da noção de foco de interesse na narrativa fílmica vem do fato de que esta geralmente apresenta um narrador implícito, como se a história se desenrolasse diante de nossos olhos, sem a necessidade de uma narração. Apenas eventualmente o narrador se expõe por meio de técnicas como a voz over, legendas, etc. Dessa forma, o filme geralmente se mostra/se conta por meio do olhar de um ou vários personagens, ou antes, por meio de sua presença (pode haver mais de um foco de interesse em um filme). Mas, no estudo da perspectiva, não basta determinar sua origem: é preciso saber como ela se manifesta, como veremos a seguir.