Quase desde os seus primórdios, o cinema se consagrou a contar histórias. Até hoje, estudiosos se dividem entre os que veem a tarefa de narrar como uma vocação do filme e aqueles que acreditam que esse caminho foi tomado como um resultado do contexto da época. Seja como for, o cinema é hoje uma mídia utilizada, sobretudo, para narrar histórias, e a influência recebida pelo teatro e pela literatura é inegável. Por essa razão, os três meios
61 compartilham elementos de narração, tais quais: personagem, ação, tempo, espaço e evidentemente ponto de vista. É patente que cada um deles expressa esses elementos de acordo com suas possibilidades materiais: para a literatura, a linguagem verbal em especial; para o cinema e o teatro, os recursos audiovisuais – embora seja óbvio que tanto as imagens como o som sejam trabalhados diferentemente em cada arte30.
O tipo de narrador costuma ser a maneira mais visível de se expressar a perspectiva narrativa. Como já vimos, trata-se do ponto de vista psicológico, e indica principalmente se o relato está sendo feito na primeira ou na terceira pessoa, e se ele é objetivo ou subjetivo. Mas já vimos que o conceito de foco narrativo extrapola em muito essa identificação. Para entender melhor como o ponto de vista se manifesta nas narrativas, a tipologia de perspectiva narrativa, elaborada por Chatman (1980), pode ser útil. Para ele, a visão do narrador e dos personagens, pode se manifestar de três formas: literal, figurativa e transferida. O ponto de vista literal é perceptual e se realiza por meio dos olhos de alguém. A visão figurativa é conceptual e representa a visão de mundo de alguém. Por fim, o ponto de vista transferido garante uma vantagem ou interesse diegético para um ou mais personagens. Vejamos agora como cada um deles se manifesta na literatura e no cinema.
2.7.1 O ponto de vista literal
O ponto de vista literal ou perceptual31 tem a ver com a visão propriamente dita do narrador ou personagem. Não podemos falar em ponto de vista literal quando se trata do autor implícito. Não apenas porque ele nunca é um ser humano e porque faz parte do mundo do discurso (e não da história), como porque não é ele que relata os acontecimentos e que, de certa forma, viu os eventos – a visão aqui é utilizada no sentido de conhecimento, ainda que parcial ou equivocado. Ele apenas delega essa função ao narrador. Já o narrador, embora também pertença ao mundo do discurso e nem sempre seja um ser humano (dotado, portanto, do sentido da visão) ou um personagem intradiegético, de certo modo, viu os eventos que está a narrar – porque literalmente os presenciou, os escutou da boca de outra pessoa ou
30 Deixaremos de lado o teatro, infelizmente, por questões de tempo e espaço, uma vez que ele não está incluído
no corpus de nossa pesquisa.
31 Encaramos o ponto de vista literal/perceptual como um construto de valor didático, pois cada olhar do
narrador e do personagem já vem carregado de conceitos. Nesse sentido, o ponto de vista literal e o conceptual, que veremos mais adiante, são indissociáveis.
62 simplesmente afirma tê-los inventado. No caso do personagem, o ponto de vista literal é aquele em que ele presencia os eventos, de tal modo que isso tem uma influência na apresentação dos valores da obra – seja por meio da construção do personagem, da ação, etc. Pensemos, por exemplo, na importância do olhar literal de Bentinho na construção dos pontos de vista de Dom Casmurro (Machado de Assis, 1899).
No cinema, podemos identificar, como ponto de vista literal do narrador, o olhar da câmera que narra, ou seja, tudo o que nos é mostrado na tela. Quanto ao personagem, temos vários recursos cinematográficos para exibir o seu ponto de vista literal. Os mais evidentes são provavelmente: a câmera subjetiva, o enquadramento subjetivo e o flashback. A câmera subjetiva acontece quando o espectador parece estar vendo com os olhos do personagem. O maior exemplo de câmera subjetiva no cinema é certamente A dama do lago (Lady in the lake, Robert Montgomery, 1947), no qual, na maior parte do tempo, a câmera apresenta o olhar do protagonista, fazendo, assim, o espectador identificar-se com sua visão. O enquadramento subjetivo é menos radical: ele permite que o espectador veja o que o personagem está vendo, mantendo a câmera, por exemplo, em cima de seu ombro – nesse caso, temos aproximadamente o ângulo de visão do personagem, embora não estejamos dentro dele, como no caso da câmera subjetiva. Já o flashback, como já vimos, significa uma volta para trás nos eventos narrados. Vale lembrar que uma coisa é o olhar literal, outra é a interpretação que o personagem faz do que ele vê – o que já nos leva ao próximo tipo de foco narrativo que é o ponto de vista conceptual. No caso do cinema, também podemos falar de um ponto de vista literal sonoro, que inclui não apenas a música, mas todos os ruídos veiculados pelo filme.
2.7.2 O ponto de vista conceptual
O ponto de vista conceptual ou figurativo refere-se à visão de mundo expressa pela instância narrativa. Nesse caso, podemos afirmar que o autor implícito possui um ponto de vista conceptual, a ótica, e que ele é a síntese das perspectivas apresentadas pelas outras instâncias: narrador e personagem. Na literatura, de um modo mais explícito, o narrador pode se expressar por digressões e comentários – como no estilo do autor intruso, definido por Norman Friedman (2002, p. 173), para quem a marca deste é “[...] a presença das intromissões e generalizações autorais sobre a vida, os modos e as morais, que podem ou não estar
63 explicitamente relacionadas com a estória à mão”. Ainda que se trate de um narrador aparentemente neutro, pode-se ainda apreender sua visão de mundo graças ao que e ao como ele narra, ao tipo de personagem que conduz, seja de que maneira for, o fio da narração (ou seja, o herói); ao desfecho (feliz, infeliz, moralista, etc.), que porta um julgamento sobre o relato; etc.
No cinema, o ponto de vista conceptual se manifesta de modo semelhante ao da literatura, mas dessa vez por meio dos recursos audiovisuais, disponíveis ao meio. Por exemplo, em qualquer filme de ação, inúmeras estratégias da história e do discurso levam o espectador a diferenciar o herói do bandido. Isso é obtido por meio da utilização de conceitos pré-existentes na cultura, mas que são manipulados pelo narrador. No caso do autor implícito, também temos uma ótica, uma visão de mundo transmitida pela obra. Quanto ao narrador, é preciso prestar atenção também a elementos como: os objetos que compõem planos e sequências, os enquadramentos, os ângulos, a montagem, etc. Tudo o que é mostrado e da maneira que é mostrado tem significado.
Quanto ao som, é importante determinar se ele pertence ao ponto de vista conceptual do narrador, do personagem ou de ambos, pois pode haver uma coincidência entre os sentimentos encontrados nas duas instâncias. Também deve ser analisado o tipo de música e ruídos escolhidos, sua relação com os personagens e com os eventos, os lugares onde eles aparecem, etc.
2.7.3 O ponto de vista transferido
Diferentemente dos outros dois, o ponto de vista transferido, como vimos, não pressupõe uma ação, como perceber e conceber. Também conhecido como ponto de vista de interesse, ele apresenta um estado passivo. Não pode, portanto ser apresentado pelo autor implícito ou pelo narrador. É uma perspectiva própria do personagem. A maneira mais evidente de identificá-lo é por meio da escolha do fio condutor da narração. Este é colocado quase que tão somente no personagem ou personagens de maior interesse para a narrativa – costumeiramente o herói ou os heróis. Então, podemos ver que, ao mesmo tempo em que pode haver um ponto de vista literal do narrador em um personagem, esse mesmo ponto de vista é considerado transferido, visto do ângulo desse personagem.
64 Mas o ponto de vista transferido também pode ser um resultado do ponto de vista conceptual do autor implícito e do narrador. Dessa vez, não pela presença constante do personagem nas páginas ou na tela, mas por sua importância na história contada e pela sua construção (física e psicológica) – tanto o tempo de tela quanto a construção dos personagens serão explorados mais adiante, neste mesmo capítulo. Nesse caso, temos a coexistência do ponto de vista conceptual com o ponto de vista de interesse. Este só não é possível no caso em que o personagem é o próprio narrador. Podemos observar, portanto, que os três pontos de vista apresentados por Chatman podem coexistir. Em relação aos recursos verbais ou audiovisuais utilizados, são os mesmos já expostos acima.
Agora, algumas palavras sobre três elementos de manifestação propriamente dita dos pontos de vista que vão nos interessar particularmente neste trabalho: a denotação/conotação das imagens (no caso do ponto de vista literal/conceptual do narrador), a construção dos personagens (no caso do ponto de vista literal/conceptual do narrador) e o tempo de tela (no caso do ponto de vista transferido).