3. GÜÇ KAL˙ITES˙I OLAYLARI VER˙I SET˙I
3.2 Türkiye ˙Iletim Hattı Olay Verileri
3.2.2 TE˙IA ¸S Güç Kalitesi ˙Izleme Merkezi Gerçek Veri Seti
A ideia de uma medicina erudita e acadêmica, tida como um saber superior às demais práticas populares e legitimada pelo manto da neutralidade científica, parecia um fato inquestionável para os eugenistas brasileiros. Ao lermos seus textos, temos a impressão de que a medicina se constituía como um corpo unificado, dotada da prerrogativa de decidir não só sobre a vida e morte dos pacientes, mas também como saber capaz de decidir sobre os rumos da nação. No entanto, ao analisarmos os trabalhos produzidos recentemente na área de História da Saúde8 e História da Medicina, percebemos como essa perspectiva foi sendo construída ao longo das primeiras décadas do século XX pelos próprios profissionais da área médica9. Esses estudos foram responsáveis pela colocação de alguns dos problemas que se tornaram caros aos estudiosos do tema.
Primeiro, porque mostraram como, ao longo dos três primeiros séculos da história do Brasil, apenas uma tênue fronteira distanciava o saber médico oficial dos saberes populares, sem que houvesse uma hierarquia entre eles. A diversidade de práticos de cura num mesmo período era enorme. Suas formações eram as mais diversas e nem todos eram chamados de médicos. No que se refere ao Brasil, sempre houve uma grande variedade de métodos de cura desde o período colonial. Havia os físicos, que eram bacharéis licenciados por universidades ibéricas. Os doutores eram aqueles que defendiam conclusões magnas ou teses em Coimbra, Montpellier e Edimburgo. Os
8 Nikelen Witter define a área de História da Saúde como “um campo que se configura complexo e
abrangente, através da qual a vida social, política e cultural dos grupos humanos pode ser percebida e analisada pelo historiador a partir da ocorrência de enfermidades individuais ou coletivas. A proposta é utilizar saúde – visto como um termo que abrange desde práticas populares e científicas até ações e políticas públicas, ocorrência de doenças, interação com o ambiente, etc. – como um veículo para a investigação da organização social. WITTER, Nikelen Acosta. Males e epidemias: sofredores,
governantes e curadores no sul do Brasil (Rio Grande do Sul, século XIX). 2007. 292 f. Tese
(Doutorado em História) - Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense, 2007.
9 Não pretendemos nos aprofundar nas questões sobre o debate historiográfico da área. Uma ótima síntese
sobre os trabalhos recentes na área e a sua contribuição por ser encontrado em: WITTER, Nikelen Acosta. Curar como Arte e Ofício: contribuições para um debate historiográfico sobre saúde, doença e cura. In:
barbeiros praticavam pequenas cirurgias, além de cortar cabelo e fazer a barba. Já os boticários comerciavam drogas e concorriam com os físicos e cirurgiões-barbeiros no
tratamento de doenças. Havia ainda aqueles que, sem habilitação formal, receitavam remédios e faziam curativos, de acordo com horizontes culturais diversos – pajés, benzedores, curandeiros, etc10.
Em segundo, a existência de conflitos não apenas entre a medicina e suas concorrentes populares, mas entre os próprios médicos acadêmicos fazendo desta uma área marcada pela diversidade de correntes e pelas incertezas e contradições em torno de diferentes métodos terapêuticos no tratamento de doença e no combate a epidemias, daí a necessidade do uso do termo “medicinas”. Até que conselhos técnicos pudessem decidir sobre questões relativas à vida e à morte, desenvolveu-se uma feroz luta entre esses diferentes atores sociais pela posse da verdade.
Em terceiro, a ideia de que medicina e magia permaneceram associadas para uma boa parte da população brasileira, influenciando suas escolhas terapêuticas e a busca de curadores – médicos ou curandeiros – até meados do século XX. Práticas consideradas como superstições conviviam com práticas ditas científicas. Os próprios médicos, envolvidos com pesquisas e portando um discurso modernizador e progressista, eram, não raro, indivíduos profundamente religiosos. O conhecimento médico, apesar do discurso de objetividade, possuía explicações mágicas pra uma série de fenômenos incompreensíveis pelos métodos da época. Além disso, muitas práticas como o vitalismo11, hoje tidas como crenças, eram aceitas como religiosas (no caso do vitalismo a força vital poderia ser entendida como alma e a origem do universo como obra direta ou indireta de Deus) e científicas ao mesmo tempo.
10 WEBER, Beatriz. As artes de curar: medicina, religião, magia e Positivismo na República Rio-
Grandense, 1889-1928. Santa Maria: Ed. UFSM; Bauru: EDUSC, 1999, p.21.
11
O vitalismo foi uma teoria defendida por filósofos e cientistas entre meados do séc. XVIII e meados do séc. XIX. Caracterizava-se por postular a existência de uma força ou impulso vital (ou elã vital, conforme classificou Bergson) sem a qual a vida não poderia ser explicada. Tratar-se-ia, assim, de uma força específica, distinta da energia - estudada pela Física e outras ciências naturais - que ao atuar sobre a matéria organizada teria como resultado a vida. Os vitalistas estabelecem uma fronteira clara entre o mundo vivo e o inerte. A morte não seria entendida como efeito da deterioração da organização do sistema, mas como resultado da perda do impulso vital o da sua separação do corpo material. Em biologia, este quadro teórico teve um momento fecundo, porque afastava o vivo do mecanismo e explicações causais e redutivas do pensamento cartesiano, sem cair em explicações de cunho sobrenatural. O vitalismo baseia-se em três proposições principais: 1) Os fenômenos vitais não podem ser inteiramente explicados com causas mecânicas; 2) um organismo vivo nunca poderá ser produzido artificialmente pelo homem num laboratório de bioquímica. 3) a vida sobre a terra, ou, em geral, no universo, não teve origem natural ou histórica decorrente da organização e do desenvolvimento da substância do universo, mas é fruto de um plano providencial ou de uma criação divina.
No caso do Rio Grande do Sul, essas discussões se prolongaram até as primeiras décadas do século XX, somadas à disputa pelo monopólio profissional e pela hierarquização das práticas de cura, onde a medicina ocuparia a posição mais alta. Foram travadas lutas não só no campo social e político, mas também no campo simbólico. Não bastava somente acabar com a concorrência por meios legais, impondo o fim da liberdade profissional. Era preciso unificar o grupo, superando as divergências e também convencer a população de que a medicina acadêmica era superior às demais artes de curar. Foi nesse último ponto que os médicos encontraram uma convergência de opiniões em meio aos seus conflitos internos, pois o livre exercício da cura ameaçava diretamente os profissionais diplomados.
Mesmo que defendessem diferentes propostas terapêuticas e discordassem sobre elas, certamente concordavam que seus métodos eram superiores ao dos “curandeiros” e dos “charlatães”. Primeiro, porque seu conhecimento estava associado à ciência, diferente dos “curandeiros”, que se baseavam em crenças populares e irracionais. Segundo porque a medicina, enquanto arte e próxima ao sacerdócio, era fruto da dedicação e caridade, estando “estreitamente vinculada ao que de mais profundo existe na alma humana”12. De forma alguma poderiam ser comparados a “malta voraz de
famintos aventureiros”, ávidos de ganho e “faltos de consciência”, responsáveis pelo “aviltamento” e pela “desmoralização da profissão”.
Foi essa coesão que possibilitou aos médicos unirem-se e formar um órgão que representasse as suas reivindicações enquanto grupo. Em sessão solene, no dia 21 de maio de 1931, mais de uma centena de médicos atuantes no Estado atenderam ao convite publicado nos “principais jornais da capital” e compareceram ao salão nobre da Faculdade de Medicina de Porto Alegre a fim de fundarem uma associação destinada a “defender os interesses morais e materiais da classe, com o nome de Sindicato Médico do Rio Grande do Sul”13
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Desde suas primeiras ações, fica claro que o objetivo prioritário e mais urgente do Sindicato na época de sua fundação era a regulamentação do exercício da medicina e o fim da liberdade profissional estabelecida no Rio Grande do Sul. Na sessão inaugural,
12 PANTEÃO Médico Riograndense: Síntese Histórica e Cultural. São Paulo: Ramos, Franco
Editores, 1943, p.32.
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ATA da Sessão de Fundação do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul. Boletim do Sindicato
o médico e professor da Faculdade de Medicina Waldemar Job explicou os motivos que levaram ele e seus colegas a promover a fundação de um Sindicato, afirmando que “a nossa revolta visa, sobretudo, os aventureiros estrangeiros e nacionais, os quais protegidos pela liberdade profissional, vigente entre nós, se utilizam da mais nobre das profissões para única satisfação de interesses pessoais”14
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