Segundo Gottmann (1973), foi no século XVII que o significado do
território tornou-se, de fato, compreendido. A oportunidade de assumir o próprio
destino fez com que um maior número de nações dispusesse do território não apenas para possibilitar-lhes mais conforto e segurança como também usá-lo de maneira que os anseios da comunidade política pudessem ser atendidos:
no século XVII, a filosofia política veio para compreender a necessidade para a livre evolução das nações a partir das velhas algemas. Os privilégios da soberania foram reivindicados por numero maior de nações, cujos objetivos foram, primeiro, levar em suas próprias mãos a responsabilidade por sua segurança, e segundo, organizar seus territórios para seus próprios usos e confortos. A oportunidade tornou-se, juntamente com a seguridade, uma aspiração normal das comunidades políticas. O território era, agora, para ser administrado não apenas como um abrigo, uma porção do espaço habitado protegido por um “grande muro” (de fato erguido na maior parte das cidades), mas também como um receptáculo dos meios econômicos [recursos naturais] das pessoas. Entre esses meios tinham de ser inseridos a própria população, o potencial agrícola da terra, a utilidade dos depósitos minerais, os rios e os lagos, a fauna das águas costeiras, o gado, a indústria e as potencialidades das cidades e os lucros do comércio exterior (GOTTMANN, 1973, p. 53, grifo nosso).
A soberania territorial ou o controle do território pelo Estado, portanto, constituiu-se em um dos mecanismos que favoreceu, sobremaneira, a capacidade dos Estados mobilizarem os recursos naturais em poder52. Nesse
sentido, ao longo século XVII, a Holanda tornou-se um dos principais Estados territoriais do sistema internacional53. Primeiro porque, diferentemente de outros Estados que estavam envolvidos com o comércio de mercadorias, a Holanda especializou-se na compra e venda de moedas, negócio este que era
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“Uma soberania territorial mais forte e mais sedentária teve para desenvolver antes das regras ou assembleias poderia começar coletando produtos financeiros substanciais a partir de sua população. (...) O território não tem valor econômico em si; ele gera riquezas de diferentes maneiras como um resultado dos usos para os quais ele é disposto por seus habitantes” (GOTTMANN, 1973, p.56, grifo nosso). A respeito do Estado fundamentado no solo político e solo econômico, ver também: VALLAUX, Camilo. El suelo e el estado. Madrid: Daniel Jorro Editor, 1914, p. 36.
53 Marx (1982, p. 869) demonstrou como a Holanda transformou-se numa nação capitalista
exemplar durante o século XVII: “a história da colonização holandesa, e a Holanda foi a nação capitalista modelar do século XVII, desenrola aos nossos olhos um quadro insuperável de traições, corrupções, massacres e vilezas”.
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mais lucrativo54. E segundo, a Holanda buscou combinar as duas vias de
desenvolvimento: a lógica territorialista e a capitalista. Através das Companhias de Comércio (operadas pelos agentes capitalistas), o Estado Holandês passou a receber e a vender mercadorias para o mundo inteiro:
isso nos traz ao segundo componente da estratégia de acumulação que impulsionou e sustentou a ascensão da classe capitalista holandesa desde a supremacia comercial regional até a global. Esse componente foi a política de transformar Amsterdam não apenas no armazém central do comércio mundial, mas também no mercado central de moeda e capital da economia mundial europeia. O principal movimento tático nesse aspecto foi a criação em Amsterdam, da primeira bolsa de valores com pregão permanente (ARRIGHI, 1996, p. 142).
O segundo ciclo de acumulação capitalista sob a liderança holandesa desenvolveu-se a partir da articulação do Estado holandês com as Companhias de Comércio holandesas55. Assim, uma das características que marcaram esse segundo ciclo de acumulação foi o fato do Estado holandês ter sido capaz de mobilizar o seu exército e, por conseguinte, oferecer proteção aos agentes econômicos holandeses [as Companhias de comércio] bem como o de ter conseguido neutralizar as forças do exército espanhol (GOTTMANN, 1973, p. 47). A figura 3 destaca quais foram os três elementos que favoreceram a liderança holandesa durante o século XVII.
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“Embora a maioria das nações estivesse envolvida no comércio de mercadorias deste ou daquele tipo, o maiores lucros eram obtidos, não na compra e venda de produtos, mas no cambio de uma moeda por outra através de letras de câmbio” (ARRIGHI, 1996, p.132, grifo nosso).
55 De acordo com Arrighi (1996, p. 143), as Companhias de comércio holandesas
desempenhavam a função de articular o comércio mundial de mercadorias, fato este que transformou a Holanda, ao longo do século XVII, em um verdadeiro empório global: “para começar, as companhias de comércio e navegação foram o meio através da qual a classe capitalista holandesa estabeleceu ligação direta entre o entreposto de Amsterdam, de um lado, e produtores do mundo inteiro, de outro”.
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Figura 3 – As três estruturas básicas que asseguraram a liderança da Holanda no segundo ciclo sistêmico de acumulação capitalista ao longo do século XVII. Elaboração: FREITAS,
Elisa Pinheiro de.
O declínio dos Estados ibéricos (Espanha e Portugal) e a ascensão do Estado Holandês levaram a Inglaterra e a França a adotarem a estratégia holandesa de desenvolvimento, ou seja, a articulação do controle do território (que no caso holandês se deu através das Companhias de comércio) com o controle de capitais (compra e venda de moedas)56. Assim, o mercantilismo passou a ser adotado como política de Estado com vistas a alcançar os objetivos de poder (GOTTMANN, 1973, p. 74; ARRIGHI, 1996, p. 145; COSTA, 2008, p. 261).
O modelo de acumulação adotado pelo Estado holandês desacreditou os princípios do metalismo que aduziam, dentre outras coisas, que o enriquecimento de um Estado estava relacionado com o acúmulo de metais preciosos. Os Estados precursores do sistema internacional, como Portugal e Espanha, chegaram a estudar a aplicação de medidas para ampliar a acumulação de prata e de ouro. Até mesmo a Inglaterra e a França proibiram a exportação desses metais57.
56 Sobre a lucratividade do mercado de moedas ver: MARX, 1982, p. 872.
57 Entre os séculos XVI e XVII, a China possuía todos os de recursos de poder [marinha,
população etc] para tornar-se hegemônica. Porém, recolheu-se e não competiu com os Estados europeus. De acordo com Arrighi (1996, p. 35) o fato de a China ter-se recusado em lutar pela hegemonia naquele período estava relacionado com o afluxo de metais preciosos que naturalmente eram drenados para sua economia doméstica. Logo, os europeus para recompensar esse desequilíbrio tinham de descobrir novas fontes de metais preciosos. Pode- se afirmar que a China tomou a postura de uma potência defensiva, uma vez que “um Estado de primeira ordem que só utiliza da potência defensiva adota uma atitude de isolacionismo:
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No entanto, o desenvolvimento do comércio demandava o uso de ouro e ou de prata para efetivar as trocas. Logo, a proibição de exportar ouro/prata tornou-se inconveniente. Notou-se, entretanto, que era possível restituir o ouro e ou a prata, ambos, usados na aquisição de uma dada mercadoria, revendendo esta com lucro. De acordo com Adam Smith (2003, p. 537), os comerciantes influenciaram os Estados a observarem a balança comercial, uma vez que:
quando o país exportava um valor mais elevado do que importava, a balança do país tornava-se credora das nações estrangeiras, as quais necessariamente lhe pagavam em ouro e prata, aumentando com isso a quantidade desses metais no reino; mas, quando o país importava um valor maior do que exportava, devia-se as nações estrangeira uma balança comercial desfavorável que era necessário pagar da mesma maneira, o que fazia diminuir a quantidade de metais no país.
Na verdade, afirmou Adam Smith, não era o acúmulo de ouro e ou de prata que gerava a riqueza, mas sim se o Estado comercializava ou não produtos de maior valor, pois o Estado passaria a ser credor e ou devedor e receberia ou não o pagamento em ouro e ou em prata, sendo, portanto, o acúmulo desses metais uma consequência da balança comercial. O Estado credor teria sua moeda valorizada enquanto que o Estado devedor teria sua moeda desvalorizada.
Ainda, conforme assinalou A. Smith (2003, p. 543, grifo nosso), o problema de um Estado não era a falta de dinheiro [ouro/prata], e sim a carência de matérias-primas e de provisões. A riqueza, portanto, não estaria no dinheiro, e sim na mercadoria: “Seria demasiado ridículo ocupar-me seriamente em provar que a riqueza não consiste em dinheiro, nem em ouro e prata, mas
nas coisas que o dinheiro compra, dinheiro este que tem valor unicamente por
sua capacidade de comprar”.
À medida que o mercantilismo passou a ocupar a agenda dos Estados territoriais centrais, a Holanda viu a sua liderança declinar, uma vez que não havia como impedir o desenvolvimento das práticas mercantilistas por outros
desiste de participar da competição; recusa-se a ingressar no sistema, prefere ser deixado em paz” (ARON, 2001, p. 141).
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Estados do sistema internacional58. Os capitalistas holandeses, por sua vez,
deixaram de atuar no comércio de mercadorias e especializaram-se nas altas finanças (ARRIGHI, 1996, p. 148).
A via de desenvolvimento holandesa não foi apenas imitada como também foi ampliada. O domínio sobre os territórios ultramarinos – fontes seguras de matérias-primas e de outras mercadorias – aliado ao controle dos fluxos de capitais provenientes do comércio a longa distância, constituíam-se nos principais trunfos de poder mobilizados pelas principais potências europeias59. Notou-se que o território constituía-se numa fonte de recursos que
possibilitava ampliar as riquezas do Estado, premissa essa que foi densamente discutida pelos os célebres da Economia Política:
Alguns perceberam os elementos do pensamento econômico que, proclamará, um século mais tarde, com Adam Smith e Karl Marx que a riqueza de uma nação é o trabalho de sua população. No entanto, a população e o território não estão separados na produção de bens e serviços: a produção deve ocorrer em algum lugar, e o lugar ou a área é um dos fatores condicionantes do processo econômico. O território onde os processos se desenvolvem deve estar sob um regime político, inserido num dado sistema de leis e em certa localização com os respectivos meios de transporte e comércio. O território, sendo o habitat das pessoas, é o receptáculo de suas atividades econômicas (GOTTMANN, 1973, p. 57, grifo nosso).
Ao longo do século XVIII e início do século XIX, as disputas territoriais protagonizadas pelas potências europeias, sobretudo, as que envolviam França e Inglaterra, resultaram em transformações significativas na esfera do
58 “Já no começo do século XVIII, as manufaturas da Holanda tinham sido bastante
ultrapassadas, e a Holanda cessara de ser a nação dominante no comércio e na indústria. De 1701 a 1776, um de seus negócios principais é, por isso, emprestar enormes capitais, especialmente a seu concorrente mais poderoso, a Inglaterra” (MARX, 1982, p. 874).
59De acordo com Prado Jr. (1994, p. 23, grifo nosso), a colonização da América constituiu-se
num capítulo da história europeia. E o móvel da expansão ultramarina, posta em marcha no final do século XV, foi a possibilidade de ampliação do comércio: “tudo isso lança muita luz sobre o espírito com que os povos da Europa abordam a América. A ideia de povoar não ocorre inicialmente a nenhum. É o comercio que os interessa, e daí o relativo desprezo por este território primitivo e vazio que a América; e inversamente, o prestígio do Oriente, onde não faltava objeto para atividades mercantis”. Cabe ressaltar também, como demonstrou Moraes (2000, p. 72, grifo nosso), que a carência de provisões no continente europeu, também motivou a expansão para além mar: “Eram as carências da Europa que alimentavam a expansão. Mais do que o “espírito de cruzada”, o ‘gosto de aventura’ ou a ‘busca de glórias’ foi a necessidade de cereais e os baixos níveis dos estoques metálicos da cristandade, que impeliram alguns países europeus a avançar por mares nunca dantes navegados. (...) A carência de grãos era também significativa”.
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sistema político e econômico tanto no interior como fora do continente europeu. Em 1713, por meio do Tratado de Paz de Utrecht60, ficou acordado que o Império Espanhol concederia partes da América do Sul a Portugal bem como a França cederia ao Império Britânico o controle da Newfoundland e a Baia de Hudson. E mais tarde, em 1763 quando foi assinado o Tratado de Paris, as possessões francesas no Canadá e na Índia, além das diversas ilhas espanholas localizadas no sudeste da Ásia passaram para o domínio do Império Britânico (DORAN, 1971, p. 135; GOTTMANN, 1973, p. 73).
Da mesma forma, durante esse período verificou-se, transformações significativas na Europa do Leste. Catarina II e Pedro, o Grande, abriram o Império Russo para o comércio bem como para a cultura proveniente da Europa ocidental. Logo, a Rússia estendeu sua influência para além do Báltico, da Turquia e aliou-se a Prússia e a Áustria com o objetivo de partilhar, entre os três poderes, o território da Polônia (GOTTMANN, 1973, p.73, BULL, 2002, 125).
Contudo, o século XVIII foi marcado pela busca de oportunidades e de prerrogativas que os pressupostos da soberania territorial e do mercantilismo poderiam oferecer para a consolidação das nações (TAYLOR, 1985, p. 98, ANDERSON, 1983, p. 6; AGNEW E CORBRIDGE, 1995, p. 90; SMITH, 1996, p. 66; WALLERSTEIN, 2010, p. 116). Em 1773 o Partido do Chá constituído pelos colonos norte-americanos, reivindicaram, junto ao Império Britânico, condições mais equânimes na distribuição dos lucros advindos do comércio ultramarino bem como a autonomia para se autogovernarem. A Declaração de Independência das treze colônias americanas foi proclamada em 1776. A Revolução Americana constituiu-se, portanto, num primeiro grande momento
60 Conforme assinalou Gilpin (2002, p. 36-37), os Tratados de Paz desde Westphalia (1648), a
passar pelo Tratado de Utrecht (1713) estabeleceram um conjunto de regras e leis internacionais que, dentre outras coisas, previam a perda de territórios como punição para aqueles Estados que não respeitassem esses acordos. As pretensões da França em tentar dominar a Europa ocidental sob o reinado de Luis XIV resultou no Tratado de Utrecht cujas consequências para a França foi à perda de suas possessões para a Inglaterra. E, conforme salientou Bull (2002, p. 123), o Tratado de Utrecht consolidou a ideia de preservar o equilíbrio de poder “A ideia de que a preservação do equilíbrio de poder em todo o sistema internacional devesse ser a meta de todos os participantes do sistema emergiu na Europa no século XVII e no princípio do século XVIII, especialmente como parte das coalizões contra Luís XIV, e foi expresso no preâmbulo do tratado de Utrecht de 1713”.
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de ruptura envolvendo os grandes impérios ultramarinos controlados pelos Estados territoriais centrais do sistema internacional61.
Outra revolução igualmente importante e que serviu de inspiração para os movimentos nacionais posteriores foi a Revolução Francesa, deflagrada em 1789 (WALLERSTEIN, 2002, p. 109). O resultado da Revolução foi a contestação do regime monárquico e posterior instalação de um governo republicano na França. Os ideais de liberdade, fraternidade e igualdade foram proclamados e defendidos, sobretudo, pelos setores da sociedade francesa que constituíam o terceiro Estado do Ancien Régime62.
Nas vésperas de estourar a Revolução, o escritor francês Emmanuel Joseph Sieyès publicara o manifesto O que é o terceiro estado (1789). Inspirado nas teorias formuladas por John Locke e Jean Jacques Rousseau acerca do Estado, Emmanuel Sieyès expôs a importância do terceiro estado para o desenvolvimento da nação francesa.
Para o escritor francês o terceiro estado ou, o seguimento da sociedade responsável pela geração da riqueza nacional tais como os agricultores, os industriais, os comerciantes e os negociantes, eram os que constituíam a estrutura da própria França e sem o qual os “privilegiados nobres” não se sustentariam. Assim, para que uma nação subsistisse, asseverou Sieyès, eram necessários tanto os trabalhos de particulares (isto é, a participação da iniciativa privada nas atividades econômicas) quanto os das
61 “De forma inesperada o Partido do Chá (original de Boston) em 1773, seguida pela
Declaração da Independência em 1776, desafiou a estrutura e a unidade do Império Britânico, a mais rápida e exitosa expansão de todas. A Revolução Americana envolveu demandas por igualdade nas oportunidades do comércio ultramarino e da liberdade em termos de autogoverno. A história é também bem conhecida para precisar reportá-la aqui. Ela foi a primeira e principal mudança em direção a ruptura gradual dos impérios coloniais ultramarinos constituídos ao redor do mundo pelas potências europeias ocidentais, um processo ainda inacabado” (GOTTMANN, 1973, p. 73, grifo nosso).
62 A sociedade francesa estruturou-se em estamentos ou em grupos sociais determinados.
Assim, os herdeiros da monarquia e toda corte real constituíam-se no que se convencionou denominar de primeiro estado, o clero e toda a corte eclesiástica, formava o segundo estado e o terceiro estado era constituído pelos comerciantes, artesãos, agricultores etc, ou seja, o segmento social mantenedor de toda ordem social, mas que não usufruía de nenhuma prerrogativa política. Assim, a Revolução Francesa, antes de tudo, significou a luta pela soberania nacional e pela ruptura do monopólio político, como asseverou Anderson (1983, p. 6, grifo nosso): “hoje nós podemos pensar a aristocracia francesa do ancien régime como uma classe; mas certamente ela foi imaginada desta forma apenas mais tarde. A questão ‘quem era o Conde de X?’ a resposta normal teria sido, não ‘um membro da aristocracia’ mas ‘o senhor de X’, ‘o tio da Baronesa Y’, ou o cliente do Duque Z’. (...)Ela [a nação] é pensada como soberania, porque o conceito surgiu num período em que o Iluminismo e a Revolução foram destruindo a legitimidade do domínio da dinastia hierárquica ordenada divinamente”.
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funções públicas. Sieyès (1789, p. 17-18, grifo nosso), portanto, concebeu a nação como sendo o conjunto de
indivíduos isolados que querem reunir-se e por esse feito formam já uma nação provida de todo o direito. A nação existe antes de tudo, é a origem de tudo. Sua vontade é sempre legal e a lei é a mesma. (...) Se deve conceber as nações sobre a terra como indivíduos fora do vínculo social ou, segundo o que se tem dito, em estado de natureza. O exercício de sua vontade é livre e independente de quaisquer formas civis. Sua vontade é sempre a lei suprema.
Sieyès procurou demonstrar que o terceiro estado era uma nação
completa. E para que um determinado Estado pudesse prosperar, sentenciou,
era necessário somar as obras próprias da iniciativa privada com aquelas que derivavam das funções públicas. Além disso, questionou a nobreza (primeiro e segundo estamentos) por ela ocupar os cargos e as funções públicas valendo- se, estritamente, dos mecanismos de seleção social pautados na hereditariedade. Os princípios de escolha guiados pela capacidade, pelo talento ou pelo mérito individuais eram desconsiderados no Ancien Régime. Por essa razão, defendeu Sieyès, os serviços públicos teriam de ser desempenhados por pessoas que fossem talentosas e capazes.
Embora o conjunto da sociedade francesa fosse sustentado por aqueles que produziam, este seguimento produtivo da sociedade não era valorizado e nem tinha o direito de participar, de forma igualitária, das decisões políticas: “quem ousaria, pois, dizer que o terceiro estado não tem em si todo o necessário para formar uma nação completa?” (SIEYÈS, 1789, p. 29). Nesta afirmação, entreve-se que caso a nobreza privilegiada fosse suprimida, a nação não seria menor em nada, pois que o terceiro estado constituía-se numa
totalidade nacional.
Para Sieyès (1789, p.32, grifo nosso), o Estado que mantivesse determinado grupo social vivendo as expensas do trabalho alheio constituía-se em um dos piores: “o pior [estado] ordenado de todos será aquele onde não somente particulares isolados, mas sim uma classe inteira de cidadãos ponham
sua glória em permanecer imóveis no meio do movimento geral e consumam a melhor parte do produto sem haver aportado nada para fazê-lo surgir”.
Ao longo do manifesto, Emmanuel Sieyès evidenciou o seguinte dilema do Estado francês: o terceiro estado era tudo, porque era responsável pela
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geração de riquezas, mas, ao mesmo tempo, não era nada, porque não tinha o direito de participar ativamente na esfera das decisões políticas. Portanto, a luta do terceiro estado, asseverou, deveria mirar na conquista da participação política com representação isonômica.
A Revolução Americana bem como a Revolução Francesa, ambas ocorridas no século XVIII, foram resultantes das transformações que ocorreram no interior dos governos dos Estados territoriais centrais. O regime monárquico, sob o qual se consolidaram os principais Estados territoriais modernos, foi amplamente contestado com o advento do Iluminismo (ANDERSON, 1983, p.21; AGNEW E CORBRIDGE, 1995, p. 86, BULL, 2002, p. 44).
Cabe ressaltar, igualmente, que o aprofundamento da divisão socioespacial do trabalho engendrou a diversificação das atividades econômicas e administrativas. A monopolização do poder estatal apenas por um determinado estrato da sociedade não atendia os anseios de toda a nação. Assim, os seguimentos sociais alijados da administração do Estado passaram a reclamar o acesso às oportunidades que a participação nas decisões políticas poderia viabilizar, como explicitou Elias (1993, p. 105, grifo nosso):
o que os burgueses procuram alcançar na luta pelo governo monopolista, e finalmente conseguem, não é a divisão dos monopólios existentes, mas uma nova distribuição de seus ônus e benefícios. Dá-se um passo nessa direção quando o controle desses monopólios passa a depender de uma classe inteira, e não de um príncipe absoluto. Ocorre um avanço quando as oportunidades proporcionadas pelo monopólio passam a ser distribuídas cada vez menos segundo o favor pessoal e no interesse de indivíduos, e cada