Com o fim do segundo conflito mundial, um novo sistema interestatal foi engendrado, em decorrência do processo de descolonização da Ásia e África: “depois da segunda guerra mundial, concedeu-se a todos os povos ocidentais ou não ocidentais o direito a autodeterminação, ou seja, a se constituírem em comunidades nacionais e, uma vez constituídos, a serem aceitos como membros plenos do sistema interestatal” (ARRIGHI, 1996, p. 66). Uma nova ordem geopolítica, portanto, teve seu início com o fim da Segunda Guerra Mundial:
no terceiro período, após a Segunda Guerra Mundial (1945-65), os Estados Unidos fundaram uma nova ordem mundial hegemônica similar aquela estrutura básica dominada pela Grã-Bretanha em meados do século dezenove, mas com instituições e doutrinas ajustadas a uma economia mundial mais complexa e a sociedades nacionais mais sensíveis as repercussões políticas das crises econômicas (COX, 1983, p. 170).
Agnew e Corbridge (1995) denominaram esta nova ordem que emergiu pós-1945 de ordem geopolítica da guerra fria. Os EUA e a URSS haviam se tornado os dois principais Estados da ordem geopolítica em questão por terem saído como vencedores da Segunda Grande Guerra e com o status de superpotências (COSTA, 2008, p. 223)106. Cada uma dessas superpotências
106“A emergência dos Estados Unidos e da União Soviética, em 1945, de tal forma superava a
situação da Inglaterra, França e Alemanha que, desde então, pareceu impróprio usar "grande potência" para descrever um status comum a todos aqueles países. Parecia assim necessário reservar a qualificação de "grande potência" para os dois primeiros, considerando as principais potências europeias como "intermediárias" ou "secundárias" ou então falar dos Estados Unidos
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atuou em suas respectivas zonas ou esferas de influência com o objetivo de conter crises políticas ou qualquer outra perturbação que pudesse romper com a estabilidade da ordem internacional:
Como os Estados Unidos não são apenas uma das potências dentro da aliança do Ocidente, mas gozam de posição de liderança ou primazia, certos conflitos dentro da aliança são mantidos dentro de limites, ou impedidos de atingir a superfície da atividade política consciente. Como a União Soviética desfruta de uma posição hegemônica na Europa Oriental, que está pronta a defender pela força, certos conflitos de interesse naquela região são, por essa razão, resolvidos ou contidos (BULL, 2002, p. 236).
O mapa político “O mundo em 1945” (figura 4), como poderá ser visto na próxima página, oferece-nos uma visão geral de como ficara a divisão do mundo com o fim da Segunda Grande Guerra. Porém, convém lembrar que, em 1919, mas, sobretudo, após 1945, um novo tipo de fronteira ganharia significado no mundo moderno, ou seja, a linha que separava os Estados
comunistas daqueles Estados cujos regimes eram definidos pela ordem democrática, liberal e capitalista (GOTTMANN, 1973, p. 141; WALLERSTEIN,
2002, p. 120; COSTA, 2008, p. 223). Por essa razão, a doutrina da contenção constituiu-se numa das principais marcas da ordem geopolítica da guerra fria107. A política de contenção, planejada sob a liderança americana, tinha como objetivo exercer determinado controle econômico e militar sobre a URSS108.
e da União Soviética como "superpotências", um status superior ao de "grande potência" (BULL, 2002, p. 232).
107 Sobre o discurso do Presidente Wilson no Conselho dos Quatro em 17 de Março de 1919 no
qual ele alertou sobre a necessidade de criar estratégias para conter o bolchevismo ver: KEYNES, 2002, p. 41.
108 A política de contenção, de acordo com Morgenthau (2003, p. 138), constituiu-se numa
política de cunho imperialista com o claro objetivo de conter a expansão comunista. Sobre a teoria da contenção ver também: Hedley Bull, A Sociedade Anárquica (São Paulo: Imprensa Oficial de São Paulo, 2002), p. 137.
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Aquela era identificada como sendo um gigante adormecido e que a qualquer momento poderia ser despertado. Por isso, a necessidade de conter a URSS no interior de suas fronteiras109.
A doutrina do efeito dominó se referia aos conflitos locais e/ou regionais que, caso não fossem contidos, poderiam se espraiar globalmente. Por fim, a estabilidade hegemônica poderia ou não ser assegurada por meio de um ator político com capacidade de exercer liderança sobre o sistema internacional. Assim, a manutenção das relações diplomáticas entre os Estados poderia emanar ou não de um Estado hegemônico. Os EUA, logo, se comprometeram em serem os guardiões do liberalismo internacional, além de terem dado garantias, a partir da reconstrução da Europa ocidental, de que iriam preservar as condições favoráveis ao bloco constituído pelos Estados capitalista (AGNEW E CORBRIGDE, 1995; ARRIGHI, 1996; COSTA, 2008, p. 164).
A liderança dos EUA no sistema internacional constituído pós-1945, significou, também, a ascensão de instituições supraestatais tais como a Organização das Nações Unidas (ONU). Idealismo [paz baseada na ONU] e
realismo, ambos, foram articulados durante esse período de hegemonia
americana (COSTA, 2008, p. 167). Ademais, o Tratado de Bretton Woods, engendrou as bases para o controle das finanças mundiais pelos EUA, controle esse que se efetuaria através do Fundo Monetário Mundial (FMI), do Banco Mundial (BIRD) e do GATT (Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio)110
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“Após a II Guerra Mundial, durante a qual outros regimes políticos mostraram-se mais ameaçadores para as potências ocidentais, a União Soviética emergiu como a segunda maior potência mundial; seu exército ocupou grande parte da Europa central e algumas áreas mais a leste. Os regimes comunistas dominantes foram estabelecidos em metade de uma série de estados da Europa do leste e ligados por uma firme aliança militar com a URSS. Uma nova fronteira se espalhou através do continente da Europa, do Ártico ao Adriático, separando os comunistas e as alianças ocidentais e firmemente fechada pelas políticas decididas em Moscow. Winston Churchill descreveu-a como “a cortina de ferro” em 1946, e a expressão se tornou comum no vocabulário político. Embora originalmente significativa para a Europa, a descrição “cortina de ferro” para designar a fronteira ao entorno dos estados comunistas aplicou-se também na Ásia, especialmente depois da Revolução Chinesa de 1949 em que o regime comunista liderado por Mao Tse-Tung assumiu o controle sobre toda a China continental” (GOTTMANN, 1973, p. 142).
110 O GATT foi criado como a instituição que seria responsável pelo controle do comércio sob a
hegemonia dos EUA: “Da mesma forma, o principal instrumento de formação do mercado mundial sob a hegemonia norte-americano, o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT) deixou nas mãos do governo em geral e do governo dos Estados Unidos em particular o controle sobre o ritmo e a direção da liberalização comercial.(...) Esse aspecto da hegemonia norte-americano reflete a centralidade dos investimentos diretos e não do comércio na
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(GOTTMANN, 1973, p. 140; ARRIGHI, 1996, p. 68; MORGENTHAU, 2003, p. 207).
Três aspectos adotados pela política americana influíram diretamente na constituição da ordem geopolítica da guerra fria bem como possibilitaram o
quarto ciclo de acumulação capitalista sob a égide dos EUA: a) a concentração
econômica, isto é, a consolidação de um modelo de capitalismo baseado nas grandes corporações (TNCs); b) a difusão desse padrão de capitalismo e c) a defesa intransigente da livre iniciativa111.
O paradigma do capitalismo americano se difundiu, mundialmente, pelo estímulo ao crescimento econômico através das políticas fiscais monetárias; pelo compromisso com a unidade global do mercado, baseado na produção de mais mercadorias por preços mais baixos e mais divisão do trabalho; pela adoção do dólar, como moeda de troca, pela maior parte dos países que compunham o sistema internacional; pelo emprego de ações neutralizadoras em relação ao bloco dos países socialistas. O objetivo daquelas ações era deter qualquer política econômica ideológica associada com a URSS; e, por fim, pelo esforço em manter as fronteiras políticas, fato este tensionado por meio da doutrina Truman (AGNEW E CORBRIDGE, 1995, p. 40).
A defesa do princípio da autodeterminação das nações transformou-se numa contraposição ao imperialismo territorial exercido pelas potências europeias. A bandeira da autodeterminação dos povos foi liderada pelos EUA. O objetivo era enfraquecer a influência das antigas potências europeias no plano das relações internacionais. Conjugado ao princípio da autodeterminação dos povos defendeu-se também o estímulo ao desenvolvimento do Estado de bem-estar social com o objetivo de alavancar o consumo em massa (AGNEW E CORBRIDGE, 1995; WALLERSTEIN, 2002). É preciso destacar, porém, que quando os interesses das corporações americanas eram desafiados pelas
reconstrução da economia capitalista mundial desde a segunda guerra” (ARRIGHI, 1996, p. 73).
111 Sobre a ingerência das Corporações Americanas nas políticas internas dos Estados da
América Central, ver: COUTINHO, Lourival; SILVEIRA, Joel. O petróleo do Brasil: Traição e Vitória. 2 ed. Rio de Janeiro : Editora Coelho Branco, 1957, p. 34. Ver também o capítulo 5 e 6 deste trabalho.
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políticas nacionais dos Estados onde elas estavam instaladas, o governo americano não deixou de intervir, fosse de forma direta ou indiretamente112.
Por fim, os acontecimentos que se sucederam no interior da ordem geopolítica da guerra fria, demonstraram que os Estados que passaram a constituir o então chamado Terceiro Mundo (estados-nações periféricos formados a partir dos processos de descolonização) não poderiam ser desconsiderados no plano da geopolítica da economia internacional. Uma das razões para isso era o fato de que, em muitos deles, se concentravam os recursos naturais que se tornaram estratégicos para o ciclo de acumulação capitalista sob a liderança dos EUA, como, por exemplo, o petróleo. Acresce ainda, o fato de alguns Estados, dados como insignificantes na arena geopolítica, conseguiram resistir às incursões das duas grandes potências como foi caso do Vietnã, de Cuba e do Irã.
A guerra fria acabou se transformando mais num acordo mútuo entre EUA e URSS do que em um conflito de fato, haja vista que não se tinha claro quem era – entre as duas superpotências – a grande vencedora. O fato de ambos possuírem ogivas nucleares capazes de uma destruição sem precedentes na história humana fez prevalecer à manutenção do equilíbrio de poder entre as duas grandes superpotências (WALLERSTEIN, 2002; BULL, 2002, 133).
Por fim, ao final dos anos de 1960, o sistema internacional já era constituído por aproximadamente 126 Estados soberanos e membros da ONU. A população mundial alcançara a marca de 3,5 bilhões113. E o processo de
descolonização prosseguia firmemente. Em 1960, a ONU, em assembleia geral, havia enunciado a Declaração sobre a garantia de independência para
112 O caso do governo de Arbenz, na Guatemala constituiu um caso concreto de como era
difícil enfrentar os interesses das corporações americanas. Em 1947, com o objetivo de realizar uma reforma agrária baseada no direito burguês, portanto, uma reforma agrária capitalista, Arbenz foi tido como revolucionário e comunista. Porém, a questão que estava por detrás da difamação, era que a reforma agrária desafiava os interesses da United Fruit, companhia americana que explorava a produção de banana na Guatemala. Tanto, que no Caribe, um dos ditos mais populares era Deus fez a banana; o diabo fez a United Fruit. O fato é que os EUA financiaram e treinaram, fora do território da Guatemala, Castilho Armas, mercenário e traidor da pátria guatematelca e que derrubou o governo de Arbenz (COUTINHO E SILVEIRA, 1957, p. 29).
113 ONU
– Organização das Nações Unidas. Ampliação dos Estados-membros da Organização das Nações Unidas, 1970. Disponível em:< http://www.un.org/en/members/growth.shtml#1970. > Acesso em 27 jun. 2012.
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os países e populações colonizadas, que dentre outras questões, constatava as mudanças que estavam ocorrendo no plano das relações internacionais:
Acolher a emergência nos anos recentes de um grande número de territórios dependentes para a independência e liberdade, e reconhecer, amplamente, a tendência poderosa em direção à liberdade em tais territórios que ainda não alcançaram a independência114.
Ademais, as relações comerciais, entre os Estados do sistema internacional, tinham sido ampliadas. Em 1971, os EUA e a China comunista haviam estabelecido acordos comerciais (GOTTMANN, 1973, p. 145). Neste contexto de transformações políticas, econômicas, territoriais e sociais, a ordem da guerra fria caminhava para o início do seu fim. Mas que mundo, então, estava se constituindo a partir dessas mudanças? Que papel os recursos naturais, sobretudo, os recursos estratégicos, como o petróleo, passariam a desempenhar num contexto pós-colonial? Quais foram as implicações do imperialismo continental dos EUA para os estados da América Latina? Essas e outras questões serão discutidas no próximo capítulo.
114 ONU
– Organização das Nações Unidas. Declaration on the Granting of independence to colonial countries and peoples. 1514, 12 december 1960. Serviço de documentação da Organização das Nações Unidas
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Capítulo 2
A Geopolítica dos Recursos Estratégicos de poder: Petróleo, Segurança Energética e Desenvolvimento Nacional
É fútil retórica falar em poder sem se referir à questão energética, pois esta abala os alicerces das atuais potências hegemônicas e fundamenta o poder que sempre mobilizou a evolução das civilizações (Vasconcellos e Bautista Vidal).
1. O petróleo sob a égide da ordem geopolítica interimperialista e a formação