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5.5. Mekanik Deneyler

5.5.4. Çentik darbe deneyleri

O século XIX se constituiu como a “era das nacionalidades” bem como a “era dos imperialismos”. E a concepção de nacionalismo que foi sendo delineada durante esse período, pressupunha o direito a soberania territorial, a leis fundamentais, a mobilização dos recursos do território conforme a necessidade da comunidade política e o direito ao autogoverno. Estes pressupostos orientaram a fragmentação dos espaços acessíveis no decorrer do século XIX e continuaram a influir no século posterior (GOTTMANN, 1973, p. 95, HOBSBAWN, 1996, p. 126, ARON, 2002, p. 386).

Novos Estados territoriais foram se consolidando na Europa e em outras partes do mundo. Da fragmentação do Império Turco, surgiu a Grécia (1830), a Romênia (1859) e a Bulgária (1878). A Bélgica constituiu-se em 1830 quando se separou da Holanda. Em 1871, a vitória da Prússia sobre a França84, consolidaria a Alemanha como potência hegemônica na Europa

Ocidental (KEYNES, 2002, p. 8; AGNEW E CORBRIDGE, 1995, p. 90;

82 Até o início do século XIX, a produção industrial na Europa Ocidental era um simples

apêndice do comércio. O comerciante, primeiramente, dependia da produção do artesão que, por sua vez, imprimia um ritmo lento na confecção das mercadorias. Portanto, a produção era um acessório do comércio. À medida que o comerciante, ele mesmo passa a ser responsável pela produção das mercadorias, tem-se a introdução das máquinas. Tal fato mudou a forma de organizar a produção. O surgimento da fábrica supôs a reestruturação da sociedade. A fábrica precisava que terra, trabalho e dinheiro estivessem a disposição para que fosse possível ampliar a produção de mercadorias (POLANY, 1986).

83 Para Polanyi (1986, p. 126), o que ocorreu no século XIX era totalmente novo: mercado

autônomo e deslocado da sociedade e da política: “como mostramos não existiu nem no sistema tribal nem na feudalidade ou no mercantilismo um sistema econômico separado da sociedade”.

84 Morgenthau (2003, p. 241) destacou como sendo um dos fatores que levara a Prússia a

conquistar a vitória contra a França foi o gênio militar de Frederico o Grande que liderou o exército prussiano com muita precisão.

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ARRIGHI, 1996, p. 59). A unificação política entre a burguesia industrial do norte com os proprietários de terra do sul da península itálica resultou numa revolução pacífica e, por conseguinte, na formação da Itália em 1870 (COX, 1983, 166).

Na Ásia, a restauração Meiji não apenas engendrou as bases para a formação do Japão como Estado territorial como também introduziu naquele país as tecnologias estrangeiras. Assim, o Estado japonês investiu em inovações e só depois transferiu o conhecimento tecnológico para o setor privado (RAFFESTIN, 1993, p. 243; AGNEW E CORBRIDGE, 1995, p. 90). Por fim, o Japão tornou-se o único Estado não ocidental que alcançara o status de potência85. No plano do sistema internacional, o período de 1870 a 1945 correspondeu ao surgimento de uma ordem geopolítica que, dentre outros aspectos, se caracterizou pela intensa competição entre os Estados nacionais mais fortes da Europa: Inglaterra, Áustria, Prússia (Alemanha), França e Rússia (BULL, 2002, p.134).

A rivalidade interestatal europeia resultou na fragmentação dos territórios ultramarinos. No Congresso de Berlim, em 1885, foi assinado um acordo geral que definiu a repartição do continente Africano pelas potências Europeias86. Ademais, há quem afirme que o processo de colonização ao qual,

ambas, a Ásia e a África foram submetidas tenha sido pior do que aquele que ocorreu na América, pois

nenhum continente foi mais completamente dominado e nenhum foi tão inferiorizado em poder diante das metrópoles ocidentais. (...) A Grã-Bretanha ficou com a parte do leão nessa conquista territorial. Ao

85 É interessante ressaltar que as nações não europeias foram todas subjugadas com exceção

do Japão que foi o único Estado não ocidental a se constituir como potência. Ademais, o Japão espreitou como os chineses reagiram às incursões do Império Britânico (1840). Entenderam, portanto, que era preciso mudar as estruturas da sociedade japonesa para poderem enfrentar as potências europeias. A Restauração Meiji (1868) foi uma mudança vertical ou, em outra palavras, de cima para baixo: “o paralelismo entre o Japão e a Prússia tem sido frequentemente evocado. Em ambos os países o capitalismo tinha formalmente instituído não pela revolução burguesa, mas por uma revolução de cima efetuada por uma velha ordem aristocrática-burocrática” (HOBSBAWN, 1996, p. 215). Assim, os japoneses adotaram todos os valores e padrões ocidentais.

86 É preciso ressaltar que essa corrida territorialista (século XIX) empreendida pelas potências

europeias tem a ver com o fato de que, com o estabelecimento da Doutrina Monroe (1823), o continente americano ficou restrito para expansão colonial: “O nacionalismo europeu continuou a expansão dos impérios coloniais no século dezenove para liderar a fragmentação do mundo fora da Europa. Embora a Doutrina Monroe tivesse restringido em alguma dimensão a corrida por territórios na América, África e Ásia ofereceram um campo aberto para a colonização” (GOTTMANN, 1973, p. 99).

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fazê-lo, ressuscitou a dominação imperial numa escala que o mundo nunca tinha visto até então (ARRIGHI, 1996, p. 54).

O domínio dos principais Estados europeus sobre os vastos territórios coloniais (na África e na Ásia) era inconteste, sobretudo, em virtude da capacidade que aqueles Estados tinham em mobilizar seus efetivos militares. Muitas nações tentaram resistir às incursões europeias, mas não lograram êxito por não serem suficientemente fortes militarmente87.

E por mais que possa parecer um paradoxo, o imperialismo do século XIX funcionou como um sistema de proteção para que as potências europeias não ficassem vulneráveis aos perigos que representava a economia de mercado autorregulado (POLANYI, 1986, p. 214). Afinal, bem estabelecidos a partir da soberania territorial, “os Estados mais poderosos desejavam mais territórios, geralmente ultramarinos” (GOTTMANN, 1973, p. 97).

O controle sobre os territórios coloniais, por sua vez, assegurou às potências europeias não apenas o acesso às matérias-primas como também ampliou a oferta daqueles recursos essenciais que garantiram, aos Estados nacionais europeus, ofertarem melhores condições de vida as suas populações88, como salientou Semple (1911, p 67, grifo nosso):

existe uma grande diferença entre aqueles estados cujos habitantes subsistem exclusivamente a partir dos seus produtos próprios dos seus países e aqueles que confiam mais ou menos sobre outras terras. Grandes estados industriais como Inglaterra e Alemanha que

87Para Hobsbawn (1996, p.183), as maiores vítimas do colonialismo foram as “sociedades e

estados enfraquecidos”. O Egito, por exemplo, tornou-se grande exportador de produtos agrícolas para a Inglaterra. Diante das conquistas avassaladoras postas em marchas pelos europeus, os povos não europeus ou resistiam ou se entregavam com o objetivo de “adquirir a ciência e a tecnologia do ocidente sem perder suas próprias culturas e instituições” (Idem, p. 190). O poder das armas e do comércio, portanto, foram as forças que fizeram Estados não europeus se curvarem diante das potências europeias: “os casos da China e do Egito são nas suas particularidades, típicos desta segunda escolha [resignar-se as imposições do conquistador para adquirir ciência e técnica]. Ambos eram Estados independentes com base em antigas civilizações e numa cultura não europeia, minados pela penetração do comércio e das finanças ocidentais” (HOBSBAWN, 1996, p. 190).

88 Para Aron (2002, p. 137, grifo nosso), tanto os marxistas quantos os defensores do

imperialismo colonial concordavam que as colônias eram vantajosas para os Estados territoriais centrais: “a direita colonialista e os marxistas no fundo estavam de acordo a respeito das vantagens das colônias: taxas de lucro mais elevados, garantia de mercado para os produtos manufaturados, fornecimento seguro de matérias-primas. A única diferença entre eles dizia respeito ao julgamento de valor sobre o empreendimento colonial em si e seus objetivos. Os marxistas denunciavam a exploração - que a seus olhos era a causa e a finalidade do imperialismo -, enquanto a direita colonialista justificava em termos de missão civilizadora uma empresa cujos benefícios para o Estado colonizador não se envergonhava de proclamar”.

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extrai apenas uma porção de sua comida e matéria-prima a partir de seu próprio território, sustentam suas densas populações através do comércio internacional.

Nos últimos anos do século XIX, porém, a liderança inglesa no plano das relações interestatais, foi declinando, pois a Grã-Bretanha havia financiado a expansão material dos Estados industrializados. Estes contraíram dívidas junto aos Estados periféricos (América Latina) que, consequentemente, haviam se especializado enquanto fornecedores de matérias-primas. Para quitar a dívida com os Estados periféricos, a Inglaterra importava bens manufaturados das nações europeias industrializadas e os revendiam para a Índia e China89.

Por mais que se constituíssem enquanto periferias do sistema internacional, Índia e China foram centrais no processo de crescimento da economia mundial: “o princípio fundamental da acumulação do capital, além disso, não foi dentro do ‘coração’ dos países industrializados, mas mais na estrutura do coração da periferia do império britânico e das relações Estados Unidos – Inglaterra” (AGNEW E CORBRIDGE, 1995, p.35).

Mediante a progressiva queda da hegemonia inglesa90, a Alemanha e os EUA se fortaleceram enquanto economias nacionais capazes de rivalizar com a Grã-Bretanha uma vez que “as economias nacionais alemãs e americanas trabalharam muito diferentemente da economia nacional britânica. O que elas compartilharam foi uma vantagem competitiva no tamanho e dinamismo de seus mercados domésticos” (AGNEW E CORBRIDGE, 1995, p. 31).

O desenvolvimento alemão, contudo, diferiu do americano. A Alemanha não tinha um vasto território, mas passou por um forte processo de industrialização impulsionado pelo Estado e que ficou conhecido como via

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“No caso da Inglaterra, exportávamos mais para a Alemanha do que para qualquer outro país, com exceção da Índia; e importávamos mais da Alemanha do que de qualquer outro país, excetuados os Estados Unidos. Todos os Estados europeus, exceto aqueles situados a Oeste da Alemanha, tinham mais de uma quarta parte do seu comércio exterior dirigida para aquele país. No caso da Rússia, Áustria Hungria e Países Baixos essa proporção era bem maior” (KEYNES, 2002, p. 11, grifo nosso).

90“(...) Uma vez a Inglaterra foi à oficina do mundo, mas uma nação depois da outra, por meios

de medidas fiscais e políticas nacionais definidas, libertaram-se da dependência em relação a indústria Britânica. Alemanha, França, Estados Unidos e Japão tornaram-se nações industriais, e mesmos países jovens como Canadá e Austrália fizeram grandes sacrifícios para construírem as suas industrias nacionais (ZIMMERMANN, 1917; p. 38-39).

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Prussiana91. Os EUA, por sua vez, combinara a via territorialista e capitalista. A

marcha para o oeste consistiu num “territorialismo interno sem precedentes” (ARRIGHI, 1996, p. 60). O desenvolvimento da economia norte-americana, portanto, consolidou-se não apenas sobre um território continental com vastos recursos como também num forte e dinâmico mercado interno (AGNEW E CORBRIDGE, 1995, p. 32; ARRIGHI, 1996, p. 224; HOBSBAWN, 1996, p. 198).

Alexis de Tocqueville em A democracia na América (1987) apresentou, no primeiro capítulo da obra, uma minuciosa descrição sobre a geografia do território norte-americano. E previu que os EUA, bem como a Rússia, ambos, alcançariam o status de superpotência. Imbuído de um espírito perspicaz, Tocqueville inferiu sobre a função do território para a expansão e consolidação de uma nação. Ainda, notou que existiam, efetivamente, certa igualdade e homogeneidade na América Anglo-saxônica, fatores esses concorriam para o fortalecimento nacional92.

Além de dispor de um amplo território, os EUA contou com os fluxos abundantes de capitais da própria Inglaterra, algo com o qual os alemães não puderam contar. Ademais, os norte-americanos se transformaram nos maiores exportadores de recursos energéticos a partir de meados do século XIX93. Assim, à medida que a Inglaterra foi perdendo sua capacidade competitiva, foram emergindo os Estados nacionais imperiais que passaram a disputar a zonas territoriais de acumulação. Durante esse período,

o sistema interestatal rapidamente polarizou em dois grupos antagônicos. Primeiro, encabeçado pela Inglaterra e França (com o apoio tácito dos americanos), orientados para manter o imperialismo do livre comércio. O outro encabeçado pela Alemanha, que estava

91 Até os dois primeiros decênios do século dezenove, a Alemanha ainda não estava unificada,

fato que viria a ocorrer a partir de 1833 com a criação de um mercado comum: “na primeira parte do século dezenove na Alemanha ainda dividida em vários estados, fragmentada, em termos de seus espaços econômicos, por numerosas e envolvidas em teias de costumes e pedágios. Uma união costumeira estava, portanto, sendo preparada, e a Zollverein, unificando a Alemanha como um pequeno ‘mercado comum’, foi estabelecido em 1833. (...) Carecendo de uma ampla expansão ultramarina, a Alemanha estava pensando em termos de organizar-se pela autossuficiência em um estado fechado” (GOTTMANN, 1973, p. 89).

92 Sobre as análises de Alex de Tocqueville em relação aos EUA ver também: Gottmann, 1973,

p. 104.

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“Nas décadas de 1870 e 1880, a exportação de querosene era responsável por mais da metade de toda a produção americana. Em termos de valor, ele era o quarto artigo de exportação; o primeiro entre os manufaturados e a Europa era de longe o maior mercado (YERGIN, 1992, p. 44).

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comprometida com a expansão de suas possessões territoriais e desafiar a hegemonia financeira britânica (AGNEW E CORBRIDGE, 1995, p. 32).

O componente de rivalidade interestatal impôs a polarização entre a Alemanha e a Inglaterra. Ademais, durante o período de 1875-1940 a anexação territorial foi ampliada de modo que, em 1890, o mapa político do mundo era constituído por Estados-nações e territórios coloniais (AGNEW E CORBRIDGE, 1995, p. 3). A expansão do liberalismo econômico e do imperialismo concorrera para a ruptura do equilíbrio de poder entre os Estados que constituíam o sistema interestatal.

A conjunção e a intensidade desses fatos, consequentemente, desestabilizaram a ordem geopolítica interimperial, culminando com a irrupção das duas Grandes Guerras Mundiais [1914/18 -1939-45]. A anexação territorial e o imperialismo, ambos, fizeram com que nações inteiras fossem exploradas e destruídas ora com a inflação ora com a deflação, dentre outros flagelos.

Indubitavelmente, Keynes foi um dos melhores autores que descreveu e explicou o cenário econômico-político que precedeu a deflagração da Primeira Guerra Mundial bem como as razões que levariam a Europa a mergulhar em uma Segunda Grande Guerra. Até 1870, a Europa tinha conseguido manter o equilíbrio populacional. Da mesma forma, havia engendrado no interior do próprio continente, uma divisão regional do trabalho, o que tornara a Europa autossuficiente (KEYNES, 2002, p. 4). Contudo, nos últimos anos de 1880, o continente europeu havia passado por transformações significativas.

O aumento da população provocara uma explosão demográfica e, consequentemente, houvera maior pressão sobre os víveres de primeira necessidade. Segundo Gottmann (1973, p. 102), a população da Inglaterra havia aumentado de 9 milhões, em 1801, para 32 milhões em 1901. Também entre 1801 e 1901, a população da Bélgica saltou de 3 milhões para 6,7 milhões e a população da França, de 28 milhões para 40 milhões94.

94 No decorrer do século dezenove a Europa passou por uma verdadeira explosão

demográfica. A demanda por alimentos e outros recursos, caso não fosse atendida, geraria sérias tensões tanto no interior das economias nacionais quanto no plano das relações internacionais, conforme diagnosticou Keynes (2002, p. 16): “muito mais poderia ser dito para tentar retratar as peculiaridades econômicas da Europa do ano 1914. Para maior ênfase selecionei os três ou quatro fatores de instabilidade mais importantes - a população excessiva

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Alemanha e Rússia também tiveram forte incremento demográfico. De acordo com Keynes (2002, p. 8-9), a população alemã saltara de 40 milhões, em 1870, para cerca de 68 milhões em 1914 e a população russa de 100 milhões, em 1890, alcançou o patamar de 150 milhões em 1914. Além do aumento populacional, a Rússia consubstanciou uma revolução de caráter socialista cujo resultado fora à queda do regime monárquico-feudal Czarista95

bem como a ascensão do partido comunista ao poder, constituindo a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) em 1917.

Na Europa central, a Alemanha havia passado a desempenhar papel vital na dinamização econômica daquela região. De uma nação agrícola, a Alemanha havia se constituído numa máquina industrial complexa, que dependia de fatores externos e internos para o seu funcionamento. Ainda, a descoberta do potencial calorífico do carvão transformou-o num dos recursos

vitais para o desenvolvimento da siderurgia, fenômeno este que será tratado

com mais profundidade no próximo capítulo96.

“Movido por uma ambição insana e uma autoestima desastrosa”, os alemães erraram em ter interrompido a paz do Concerto da Europa, asseverou Keynes (2002, p. 1). Assim, a primeira Guerra Mundial (1914-18), por um lado, foi polarizada pela França e Inglaterra, ambos, defensores do livre comércio e, do outro lado, pela Alemanha. O resultado desse confronto “culminou na completa desintegração do mercado mundial e em violações sem precedentes

dependente de uma organização artificial e complicada, a instabilidade psicológica dos trabalhadores e capitalistas, a instabilidade da reivindicação europeia com respeito ao suprimento de alimentos do Novo Mundo, juntamente com a sua dependência, agora completa, desses alimentos”.

95“Os acontecimentos extraordinários ocorridos na Rússia, nos últimos dois anos, essa ampla

sublevação da sociedade que derrubou tudo o que parecia mais estável - a religião, a base da propriedade, inclusive da terra, assim como a forma de governo e a hierarquia das classes sociais - podem ser devidos mais às influências profundas da população em crescimento do que a Lênin ou ao Czar Nicolau; e o poder de perturbação social da fecundidade excessiva do país pode ter desempenhado um papel mais importante na derrubada dos laços da convenção do que o poder das ideias ou os erros da autocracia (KEYNES, 2002, p. 9)”

96 A utilização do carvão propiciou amplo desenvolvimento industrial na Europa central:

“esses fatores de ordem, segurança e uniformidade, que a Europa nunca tinha gozado em uma área tão ampla e populosa, ou por um período tão longo, prepararam o caminho para a organização desse vasto mecanismo de transporte, distribuição do carvão e de comércio internacional que tornou possível uma ordem industrial nos densos centros urbanos. Fato que é por demais conhecido para exigir consubstanciação detalhada com dados estatísticos, mas que é bem ilustrado pelos dados sobre o carvão, que tem sido a chave do crescimento industrial da Europa Central, pouco menos do que da Inglaterra: a produção de carvão pela Alemanha cresceu de trinta milhões de toneladas em 1871 para setenta milhões em 1890, cento e dez milhões em 1900 e cento e noventa milhões em 1913” (KEYNES, 2002, p. 10, grifo nosso).

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dos princípios e normas e regras do sistema de Westphalia” (ARRIGHI, 196, p. 65).

Contudo, o Tratado de Paz assinado em Paris (1918-19), ao impor uma espécie de “Paz de Cartago” com o objetivo de anular econômica e politicamente a Alemanha, ingleses e franceses lançaram a Europa numa situação de instabilidade crescente que desembocaria na Segunda Grande Guerra.

Conforme as considerações de Keynes (2002), o Tratado de Paris (1919) visava destruir as bases econômicas da Alemanha. Contudo, ao fazê-lo, não seria a Alemanha a única a ser prejudicada, mas toda a Europa que se tornara um todo econômico:

o sistema econômico alemão existente antes da guerra dependia de três fatores principais: 1) o comércio ultramarino representado pela sua marinha mercante, suas colônias, seus investimentos estrangeiros, suas exportações, e as ligações dos seus comerciantes com o exterior; 2) a exploração do seu ferro e carvão, e as indústrias baseadas nesses produtos; 3) seu sistema de transporte e suas tarifas. Deles, o primeiro era certamente o mais vulnerável, embora não o menos importante. Ora, o Tratado busca a destruição sistemática de todos os três, mas principalmente dos dois primeiros. (...) Se a distribuição do carvão europeu passar a ser uma competição renhida para suprir primeiro a França, em seguida a Itália, passando depois a uma disputa entre os demais países, o futuro da indústria europeia será negro, aumentando as possibilidades de uma revolução. É uma situação em que os interesses e reivindicações particulares, por mais bem fundados no sentimento ou na justiça, devem ceder lugar à soberania do expediente (KEYNES, 2002, p. 43/65).

É preciso ressaltar, que em 1917, a Rússia retirou-se da Primeira Guerra em decorrência da Revolução comunista97. Os EUA, portanto, se aliaram a França e a Inglaterra. As circunstâncias do período levaram os EUA a romperem com o seu isolacionismo em relação ao sistema internacional98.

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“A Revolução Bolchevique, em Outubro de 1917 criou uma nova situação no mundo: um dos principais poderes, especialmente em termo de tamanho, ambos, em área e população, tinha adotado um sistema econômico, político e social totalmente diferente de todos aqueles então existentes no mundo. O choque para o sistema político Europeu foi grande – o maior desde a Revolução Francesa” (GOTTMANN, 1973, p. 141).

98 Conforme foi destacado anteriormente, a Doutrina Monroe (1823) tinha como propósito evitar

que as potências europeias intervissem no continente americano assim como ficou estabelecido que os EUA também não interfeririam nas políticas dos estados europeus. Mas, o que levaria, então, os EUA a mudar o direcionamento de sua política externa na aurora do século XX? De acordo com Morgenthau (2003, p. 34), as questões relacionadas à política

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Como potência em ascensão, os EUA compreenderam que não poderiam negligenciar o seu novo status. Assim, enquanto potência os EUA passaram a pensar o mundo como uma totalidade que abrangeria amigos e inimigos (MORGENTHAU, 2003, p. 43; COSTA, 2008, p. 166).

Nos anos de 1920 a 1930, tanto os EUA quanto a Inglaterra abandonaram o dogma liberal e passaram a intervir em suas economias domésticas com o objetivo de estancar a depressão econômica que atingira todos os Estados capitalistas, inclusive o Brasil, como se verá no quarto

Benzer Belgeler