As discussões acerca da diversidade cultural se fazem cada vez mais presentes nas sociedades contemporâneas, sejam em torno do currículo trabalhado no âmbito da escola e
das salas de aula, sejam relacionadas com os saberes decorrentes dessas diversidades, especialmente quando relacionadas com os contextos socioculturais dos quais são alvo os sujeitos e as comunidades.
Por isso, ao indagar sobre que identificação ou identificações os sujeitos têm com o mundo da alta modernidade, diante da multiplicidade de escolhas que orientam suas vidas e redimensionam os contextos em que se situam, é preciso compreender se as suas identidades se encontram entre o local e o global. Há que se questionar também que representações expressam suas atitudes e práticas, em meios a tantas mudanças.
As respostas a essas questões dizem respeito aos compromissos assumidos com os propósitos de vida que cada um assume na procura da satisfação de seus ideais. Então, as identidades – aqui entendidas como identificações – não são “fixas” (HALL, 2011) e, em tempo de alta modernidade, mais do que nunca, se apresentam efêmeras, mutáveis, já que estão subordinadas às circunstâncias de vivências tempo e espaço. Os sujeitos aprendem a significar as suas identificações com a realidade social que os circundam, respondendo de forma cativa, ou não, aos ditames impostos pelas estratégias dos sistemas econômicos de sua temporalidade.
Nessa perspectiva, as Representações Sociais dos pais de alunos por meio das cantigas de roda no tempo social de alta modernidade foram percebidas a partir da compreensão dos processos de ruptura do espaço-tempo, podendo ser observada na fala do GFI: “Porque antigamente a gente não via essa brincadeira de roda na escola, a gente tá vendo agora. A gente só brincava mesmo em casa, lá nas portas, nos terreiros. Agora que a gente já vê a escola brincar”. Essas identificações feitas pelos pais dos alunos corroboram com as situações pedagógicas realizadas nos espaços escolares e nos contextos familiares e/ou nos espaços livres de suas comunidades.
É importante ressaltar que os saberes constantes nas cantigas trazem não só a pluralidade cultural desses lugares, mas também um valor historicamente educativo, que traduz os saberes de um tempo, e que deve ser preservado. A experiência prévia de cantar a brincar a tradição oferece à criança a possibilidade de ajustar-se a situações por meio de atitudes e de comportamentos socializados, mais ou menos conhecidos por ela. De modo que, ao cantarem e brincarem nos espaços livres da comunidade, com suas mães, avós e amigos da vizinhança, essas crianças e esses pais ainda conseguem protagonizar esses eventos que tradicionalmente fizeram parte de tantas vidas passadas e das vidas de hoje. Como podem ser verificadas nas narrativas a seguir:
“Quadrilhas, bastante quadrilha aqui. [...] Festejos também, aqui tem muito
“Tem outros lugares, outros trabalhos que as pessoas têm, como horta. A gente cultiva coentro, cebolinha, cheiro verde pra tá temperando o feijãozinho da gente. Como a minha colega falou aqui da palmeira, ela dá muito produto, tá entendendo? Dá a palha pra cobrir a casa, do talo ela faz a cerca, o adubo estruma o canteiro
para plantar. Então dá muita coisa, né? [GFIII]
“A nossa cultura é a roça! Se eu botar meus fie só na roça, eu digo que eles num vai ter a educação que hoje o mundo moderno exige né?! Vai ficar como eu ignorante, sem saber falar, sem saber se comunicar. Aí eu tenho que fazer o quê? Eu tem que botar primeiro ele na escola, as folga que ele tiver, à tarde, no caso ele estuda de manhã, à tarde se ele já tiver já condição de me ajudar, aí eu coloco, um pouco, ele
As narrativas dos pais de alunos falam das comemorações, de suas festas, de como cultivam os seus santos, falam do lugar onde vivem, de suas plantações, de sua relação com a natureza, com a roça, de onde tiram o seu sustento e de como preservam os valores, os costumes, sua cultura. As suas falas evidenciam como se comunicam, até hoje, com as gerações passadas, e com as de agora, como expressam, em suas atitudes, os modos de relacionamentos e de condutas com o outro e consigo mesmo e com o tempo e as comunidades de fazem parte.
Figura 19 – Comunidades Riacho Fundo, Tabuleiro e Baturité
Fonte: Acervo Pessoal
Jovchelovitch (2008, p. 138), ao referir-se sobre a vida cotidiana da comunidade, aponta os saberes comuns como “um conjunto de sentidos e recursos já ali existentes, do qual
os membros da comunidade retiram as normas, regulamentações e padrões de comportamento. Ao mesmo tempo seu horizonte se renova e reconstrói a partir da experiência da vida cotidiana”. Assim, as cantigas de roda ainda estão sendo praticadas no cotidiano das escolas e desses lugares onde se efetivou a pesquisa.
Nesses contextos de práticas culturais, especialmente, as cantigas de roda cantam os artefatos culturais de suas comunidades, como a baladeira, a roça, o cofo, o abano e a retirada do talo da palmeira para produção artesanal da cerca. Trazem dos saberes populares as suas identificações com o mundo em que vivem. Expressam as particularidades do local e da região dando feição ao campo.
Trazem ainda as escolhas impostas pelos usos de novas Tecnologias de Informação e Comunicação, imperativas nos processos atuais de Educação e de socialização, seja pela via da televisão ou pela internet. Em tempos de alta modernidade, essas condições não refletem a realidade, porém, em parte as formam. Não se deve concluir que os meios de comunicação sejam portadores de verdades absolutas. “Os meios de comunicação criam um reino autônomo de ‘hiper-realidade’, onde o signo ou a imagem é tudo”. (GIDDENS, 2002, p. 32). Esses avanços geram para a sociedade possibilidades e facilidades, mas também podem gerar o ‘risco’ de acomodação.
Portanto, ao apropriarem-se das práticas culturais dos tempos passados e dos atuais, os sujeitos desta pesquisa assumem as cantigas de roda como potencializadoras de saberes pedagógicos e culturais dos lugares de que fazem parte. A figura abaixo apresenta as RS expressas pelos docentes por meio das cantigas de roda.
Figura 20 – Representações Sociais Expressas pelos Pais dos Alunos por meio das cantigas de rodas
Fonte: Elaborada pela autora a partir dos dados coletados.
RS expressas pelos pais de alunos por meio das
cantigas de roda Comunicação, Socialização, Movimento, Amizade Antigamente, Lugar Saberes do povo e culturais, Brincadeira, Alegria, Diversão
Neste contexto, as Representações Sociais expressas pelos pais dos alunos por meio das cantigas de roda são construídas no cotidiano, resultam na constatação das singularidades, identidades e suas diferenças, que se constituem em saberes e fazeres oriundos do cotidiano dos espaços escolares e das comunidades onde se concretizam as falas, as ações, as atitudes dos sujeitos individualmente e/ou em grupos sociais de pertencimento. As RS destes sujeitos estão carregadas de valores, crenças, experiências, vivências, toda complexidade que possa abranger o cognitivo, o social e o cultural que caracterizam a criação e recriação das práticas didático-pedagógicas e culturais dos pesquisados
Considerando que o objeto de estudo desta pesquisa foi desenvolvido à luz da perspectiva teórico-metodológica das TRS e fundamentado nas abordagens que subsidiaram as categorias iniciais: Educação do Campo, Cantigas de Roda, Representações Sociais e Alta Modernidade, pode-se constatar o alcance dos diferentes objetivos que ela se propôs.
Sendo assim, no que se refere à Educação do Campo, a pesquisa trouxe como resultado a compreensão das RS dos docentes e dos pais de alunos por meio das cantigas de roda como saberes do povo, saberes culturais; brincadeiras que trazem alegria e diversão. Quanto às Cantigas de Roda, são consideradas práticas culturais de um tempo e espaço que traduzem modos de vidas, crenças e costumes quando cantadas e brincadas, seja nos espaços escolares seja nas comunidades, lugares de que fazem partes docentes e pais de alunos.
As Representações Sociais dos docentes e pais de alunos foram reveladas a partir da comunicação estabelecida entre os grupos sociais de pertencimentos, que puderam partilhar saberes e fazes interdisciplinares, promovendo a socialização, o movimento de mudança do ir e vir da cultura nos espaços de aprendizagens significativas, que são também de afetos. A ótica da alta modernidade, que possibilitou um mergulho nas perspectivas sociológica, antropológica, histórica e culturalista, envolveu os sujeitos pesquisados e a pesquisadora no momento de reflexão acerca da produção dialética do conhecimento, da comunhão de pensamentos sobre o mundo, o homem e a sociedade.
A figura a seguir traz uma síntese das categorias iniciais e as encontradas no percurso da pesquisa, que se traduzem em práticas culturais e nelas encontram as possibilidades que podem guiar os seus interesses de aprendizagens, de socialização, de trocas intersubjetivas, que, para eles, são significativas, porque se veem e se encontram dentro das perspectivas do contexto vivenciado.
Figura 21 – Representações Sociais por meio das Cantigas de Roda
Fonte: Elaborada pela autora a partir dos dados coletados.
CANTIGAS DE RODA