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A organização da produção cearense de coco se assemelha muito à própria organização da produção brasileira, uma vez que também no Ceará há um aumento considerável da quantidade produzida e da área plantada com o fruto. Assim, analisando os dados divulgados pela PAM/IBGE (tabelas 17 e 18), percebe-se que de 1990 a 2010 a produção cearense de coco praticamente dobrou, chegando a um aumento de 99%, enquanto a área plantada cresceu quase 25% e a produtividade 60%. Esses indicadores demonstram que o cultivo do fruto no Ceará teve um importante impulso nestas últimas duas décadas110, apontando ainda para uma produtividade em ascensão. Salienta-se que em 2010 o Ceará já concentrava 14% da produção

nacional e 16% da área plantada no país, configurando-se como o segundo principal produtor de coco, atrás apenas da Bahia.

Tabela 17 – Ceará. Área plantada com coqueiros (em hectares), quantidade produzida de coco (em mil

frutos) e produtividade (mil frutos/ha/ano). 1990 – 2010.

1990 2000 2010

Área plantada 35.431 37.316 44.224 Quantidade produzida 133.880 193.729 266.263 Produtividade 3,78 5,19 6,02

Fonte: IBGE/PAM. Elaboração: Cavalcante, 2013.

Tabela 18 – Ceará. Área plantada com coqueiros (em hectares), quantidade produzida de coco (em mil

frutos) e produtividade (mil frutos/ha/ano). Variações absoluta e relativa (em %). 1990 – 2010.

Variação Absoluta Variação Relativa

1990 -

2000 2000 - 2010 1990 - 2010 1990 - 2000 2000 - 2010 1990 - 2010

Área plantada 1.885 6.908 8.793 5,32 19,50 24,82 Quant. produzida 59.849 72.534 132.383 44,70 37,44 98,88 Produtividade 1,41 0,83 2,24 37,39 15,97 59,34

Fonte: IBGE/PAM. Elaboração: Cavalcante, 2013.

Como tais dados se referem à produção total de coco, não há como fazer uma distinção entre os cultivos de coqueiro anão, híbrido e gigante, e entre as produções de coco verde e seco. Mas a partir da realização dos trabalhos de campo, notamos que há uma certa estagnação do cultivo de coqueiro gigante diante de uma acentuada expansão das outras duas variedades, fazendo com que haja um aumento da área total plantada. Merece destaque ainda o crescimento da produtividade, uma vez que já se produz por volta de 6 mil frutos por hectare ao ano, em razão especialmente da difusão do uso de inovações ao processo produtivo do fruto pelo Ceará, que garantem a continuidade da modernização dessa produção.

Ainda nesse contexto, outra variável importante que merece ser analisada é a distinção entre essa produção de coco verde e a de coco seco, tomando como base os dados divulgados pelo Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA/IBGE)111. Esses dados mostram que a quantidade produzida com coco seco obteve um aumento entre 2002 e 2012, algo em torno dos 15%, enquanto a quantidade produzida com coco verde aumentou cerca de 70% no mesmo período (tabelas 19 e 20). Isso indica que o cultivo de coco verde teve um incremento significativo nestes últimos anos no Ceará, sobretudo quando observamos o considerável aumento da sua área plantada em relação à área cultivada com coco seco. Como a maioria dos

111 Há de se destacar que a metodologia utilizada pela PAM e pelo LSPA não é a mesma; por esse motivo, os

resultados podem ser diferentes de acordo com cada levantamento. Além disso, os anos divulgados por esses levantamentos também não são os mesmos.

frutos ainda verdes são advindos de coqueiros anão e híbrido, conclui-se que são essas as variedades em expansão em território cearense.

Tabela 19 – Ceará. Produção de coco, por tipo de produto. Área plantada com coqueiros (em hectares)

e quantidade produzida de coco (em mil frutos). 2002 – 2012.

Coco verde Coco seco

2002 2012 2002 2012

Área plantada 8.651 12.745 35.333 35.441 Quant. produzida 70.817 120.135 131.549 151.925

Fonte: IBGE/LSPA. Elaboração: Cavalcante, 2013.

Tabela 20 – Ceará. Produção de coco, por tipo de produto. Área plantada com coqueiros (em hectares)

e quantidade produzida de coco (em mil frutos). Variações absoluta e relativa (em %). 2002 – 2012.

Coco verde Coco seco

Variação

absoluta Variação relativa Variação absoluta Variação relativa

Área plantada 4.094 47,32 108 0,31 Quant. produzida 49.318 69,64 20.376 15,49

Fonte: IBGE/LSPA. Elaboração: Cavalcante, 2013.

Associada a essa organização produtiva do coco no Ceará está a estrutura fundiária das propriedades que cultivam o fruto. Observa-se que, de um modo geral, essas propriedades se caracterizam por apresentar um pequeno porte, ancoradas no minifúndio. Conforme consta no Censo Agropecuário de 2006, 88% dos mais de 3 mil estabelecimentos que produziam coco no Ceará possuíam até 10 hectares, enquanto os estabelecimentos que tinham mais de 10 hectares não passavam dos 3% (tabelas 21 e 22). Além disso, as pequenas unidades de produção ocupavam quase a metade da área cultivada e produziam 60% do coco cearense, o que não impede que a participação das médias e grandes propriedades também seja importante.

Tabela 21 – Ceará. Estrutura fundiária dos estabelecimentos que cultivam coco: total dos estabelecimentos

(em unidades), área total (em hectares) e quantidade produzida (em mil frutos). 2006.

Total Menos de 10 ha De 10 a 100 ha Mais de 100 ha declaração Sem

Estabelecimentos 3.611 3.197 78 11 325 Área total 12.626 5.741 2.204 2.018 2.663 Quantidade produzida 61.486 37.425 12.588 9.632 1.841

Fonte: IBGE/Censo Agropecuário. Elaboração: Cavalcante, 2013.

Tabela 22 – Ceará. Estrutura fundiária dos estabelecimentos que cultivam coco: total dos estabelecimentos,

área total e quantidade produzida. Proporção (em %). 2006.

Menos de 10 ha De 10 a 100 ha Mais de 100 ha

Estabelecimentos 88,54 2,16 0,30

Área total 45,47 17,46 15,98

Quantidade produzida 60,87 20,47 15,67 Fonte: IBGE/Censo Agropecuário. Elaboração: Cavalcante, 2013.

Obs: A soma total do número de estabelecimentos e da área total não chegará aos 100%, uma vez que foram desconsiderados os estabelecimentos sem declaração.

Em 2006, conforme demostram esses dados, havia apenas 89 estabelecimentos com mais de 10 hectares produzindo coco, mas que já ocupavam 33% do total de terras cultivadas com o fruto. A partir da reestruturação produtiva do setor, a expectativa é que esse número tenha aumentado, haja vista que cresce a quantidade de novas fazendas que passaram a produzir coco no Ceará, como percebemos nos trabalhos de campo. No capítulo 5, item 5.3, aprofundaremos essa questão, onde demonstramos como a expansão do cultivo do fruto é responsável por agravar a concentração fundiária cearense. Além disso, acompanhando também a média nacional, o Ceará tinha, em 2006, 73% de seus estabelecimentos produtores de coco inseridos na categoria de agricultura familiar.

Outra variável importante para a compreender a organização produtiva do coco no Ceará é a forma de comercialização dos frutos. No que tange à primeira destinação da produção, o que se constata é muito semelhante ao observado nacionalmente. Conforme indicam os dados do Censo Agropecuário (tabela 23), em 1985 os intermediários controlavam expressivos 90% de todo o coco comercializado no Ceará, diante da atuação reduzida dos outros agentes inseridos no circuito espacial da produção do fruto, especialmente as cooperativas, as indústrias e os consumidores finais.

Já em 2006 conseguimos observar uma importante mudança na comercialização de coco no Estado (tabela 23), onde o controle dessa atividade pelos intermediários passa para os 62%, em detrimento do aumento da participação das indústrias, controlando quase 35%, o que pode ser justificado pela expansão do número de agroindústrias do coco instaladas em território cearense nas últimas décadas. No entanto, no Ceará, o capital comercial continua no comando do mercado do fruto, agora aliado ao capital industrial, já que 97% do todo o coco comercializado se deu via intermediários e/ou agroindústrias, revelando a dependência dos produtores diante desses agentes, conforme melhor analisaremos no capítulo 5, item 5.2.

Tabela 23 – Ceará. Primeiro destino da produção de coco, por quantidade

comercializada (em mil frutos) e proporção (%). 1985 – 2006.

Mil frutos Proporção

1985 2006 1985 2006

Total comercializado 29.564 59.498 100 100 Vendida/entregue à cooperativa 876 25 2,96 0,04 Vendida à indústria 769 20.757 2,60 34,89 Vendida ao intermediário 26.855 37.063 90,84 62,29 Venda direta ao consumidor 1.064 1.653 3,60 2,78

Fonte: IBGE/Censo Agropecuário. Elaboração: Cavalcante, 2013.

Uma parte significativa do coco produzido no Ceará segue em direção às diversas agroindústrias aí instaladas e à cidade de Fortaleza. No entanto, quando não é consumido no

próprio Ceará, esse fruto, seja ele verde seja seco, tem como foco principal os mercados do Nordeste e do Centro-Sul do país, principalmente os Estados de São Paulo, Piauí, Maranhão, Paraná, Minas Gerais, Goiás, Sergipe e Rio Grande do Norte, que foram os mais citados pelos produtores e intermediários que entrevistamos. Essa informação pôde ser confirmada ao analisarmos os dados divulgados pelo Prohort/CONAB, que contabiliza a produção comercializada em algumas Centrais de Abastecimento (CEASAs) do país, indicando a origem de todos os produtos e a quantidade adquirida por cada uma das CEASAs.

De acordo com essa fonte de dados, entre 2010 e 2015 foram comercializadas 47 mil toneladas do coco advindo do Ceará nas diversas centrais de abastecimento distribuídas pelo país. Desse total, 32% foram comercializadas na CEASA do próprio Ceará, localizada em Maracanaú, na Grande Fortaleza, enquanto 49% foram adquiridas em São Paulo e 16% em Minas Gerais. Destaca-se que a importância de São Paulo – que adquiriu praticamente a metade da produção de cearense de coco distribuída pelas centrais de abastecimento – para o mercado do fruto no país é tão grande, que é aí onde são cotados os preços do coco comercializados por todo o Brasil, como nos informaram os atravessadores entrevistados.

Além desses destinos, um pequeno percentual da produção de coco e seus subprodutos é exportado, já que o foco principal é abastecer o mercado nacional. Semelhante ao que ocorre no contexto nacional, as exportações de coco verde e seco pelo Ceará são inconstantes e com pouca representatividade, ao contrário do observado com a água de coco, que em um período de 10 anos teve suas exportações acrescidas aproximadamente 780% (tabelas 24 e 25). Isso se deve, sobretudo, ao considerável aumento da participação de grandes empresas produtoras e revendedoras de água de coco envasada, que investem pesado na sua exportação. Com isso, o Ceará assume a ponta das exportações nacionais desse produto, uma vez que em 2010 o Estado exportava 46% de toda a água de coco envasada que saía do Brasil, segundo os dados divulgados pela SECEX/MDIC.

Tabela 24 – Ceará. Quantidade exportada de água de coco (em quilogramas). 2002 – 2012.

2002 2004 2006 2008 2010 2012

3.271.803 5.795.252 9.033.430 11.102.398 15.634.484 28.739.648

Fonte: MDIC/SECEX. Elaboração: Cavalcante, 2013.

Tabela 25 – Ceará. Quantidade exportada de água de coco (em quilogramas). Variações absoluta e

relativa (em %). 2002 – 2012.

Variação Absoluta Variação Relativa

25.467.845 778,40

Fonte: MDIC/SECEX. Elaboração: Cavalcante, 2013.

Ainda de acordo com os dados da SECEX/MDIC, em 2002 a água de coco envasada era destinada somente para 5 países112, enquanto em 2010 foi encaminhada para 15 países113, notadamente países da Europa e da América do Norte, indicando uma importante expansão do setor, como se pode comprovar ao analisar os dados apresentados. As exportações cearenses de água de coco se destinaram especialmente para os Estados Unidos, país que importou, em 2010, 84% de toda água de coco exportada pelo Ceará, somando mais de 13 mil toneladas, adquiridas majoritariamente pela empresa Vita Coco, que depois revende esse produto para diversos países europeus. Depois dos Estados Unidos, os maiores importares da água de coco cearense em 2010 foram Reino Unido, Alemanha, Canadá e Portugal.

De um modo geral, esse é o quadro que caracteriza a produção cearense de coco, que, como percebemos, é bastante dinâmica e difícil de ser apreendida exclusivamente a partir da análise de indicadores quantitativos, necessitando, pois, da incorporação de novos elementos qualitativos, apresentados na sequência do capítulo. Além disso, fica evidente que o cultivo do fruto no Ceará não foge àquelas mesmas características que compõem o perfil da produção de coco no Brasil, nem no que tange ao comportamento das variáveis apresentadas e nem quanto ao modo como a reestruturação produtiva do setor se processa.

Benzer Belgeler