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A presença de coqueirais é um elemento inerente às paisagens que compõem o litoral do Ceará, com seus 573 quilômetros de extensão, avistados a uma longa distância e incorporados às praias, às dunas e às falésias que caracterizam essa porção do território cearense. A esse respeito, Lima (2002) destaca que as comunidades aí instaladas historicamente sempre tiveram uma relação bastante intrínseca com esses coqueirais, que servem ainda hoje como fonte de alimento e renda e fornece matéria-prima para a construção de casas e para a confecção de artesanato e jangadas, por exemplo.

Entretanto, essa característica dos coqueirais funcionando basicamente como um identificador da paisagem comumente associada ao litoral do Ceará vem sendo bastante alterada nestas últimas décadas. Ao ser inserida no contexto da reestruturação produtiva, a produção cearense de coco passa a ser modificada, observando-se a entrada de uma racionalidade capitalista no cultivo dos frutos, a disseminação de coqueiros anão e híbrido e a ocupação de

112 Estados Unidos, Portugal, Venezuela, Cabo Verde e Holanda.

113 Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Canadá, Portugal, França, Áustria, Holanda, Suíça, Cabo Verde,

novos espaços distantes da histórica região de produção de coco – os litorais. Além disso, o foco desse cultivo também muda, passando do coco seco para o coco verde.

De uma produção, até meados do século passado, marcada exclusivamente pelo seu caráter semiextensivo e em certos casos extrativista, notamos atualmente o desenvolvimento de um novo modelo de produção de coco. O cultivo de coqueiro gigante no Ceará, a exemplo do que ocorre no Brasil, está lentamente sendo inserido no processo de modernização produtiva e continua sendo cultivado da mesma forma que o era há dezenas de anos, diferentemente do observado com os cultivos de coqueiro anão e híbrido, que já se iniciam modernos, servidos por eficientes sistemas de irrigação e por insumos das mais diversas naturezas. Com isso, o coco no Ceará deixa de ser apenas sinônimo de extrativismo e se torna, efetivamente, uma atividade intensiva e capaz de proporcionar aos seus produtores uma considerável rentabilidade. A partir da realização dos trabalhos de campo em seis municípios que se destacam no cultivo de coco (Paraipaba, Trairi, Itapipoca, Amontada, Itarema e Acaraú) e de entrevistas com os agentes inseridos no circuito espacial produtivo do fruto, visualizamos de perto a consecução dessa moderna produção de coco no Ceará e ouvimos relatos que evidenciam a reestruturação produtiva do setor em território cearense. No entanto, ressalta-se desde já que esse processo não se dá de maneira homogênea, opondo os produtores que historicamente cultivam coqueiro gigante para a produção de coco seco aos que passaram a cultivar coqueiros anão e híbrido para a produção de coco verde.

É nos espaços onde predominam os cultivos de coqueiro anão e híbrido que se observa nitidamente como está organizada a moderna produção de coco no Ceará. Esse cultivo, que visa basicamente suprir as demandas do mercado de coco verde, já se inicia sob os auspícios da reestruturação produtiva do setor. É em torno dessa produção de coco verde que são instalados os sistemas de irrigação automatizada e é aplicada toda uma sorte de adubos e fertilizantes, os quais garantem uma grande produtividade e uma menor redução das perdas, índices esses que não são obtidos por aqueles que continuam cultivando coqueiro gigante.

De acordo com os produtores entrevistados, quando se iniciou a moderna produção de coco verde em larga escala no Ceará, ainda no início dos anos 1990, já se utilizavam inúmeros insumos, mas o investimento realizado era ínfimo se comparado com o que é feito hoje em dia. Atualmente, esses produtores pioneiros e os que passaram a se dedicar ao cultivo de coco necessitam realizar investimentos muito maiores, no intuito de aumentar a produtividade e

ampliar seu mercado, cada vez mais competitivo114. Assim, apenas os altos investimentos em capital e tecnologia empreendidos por parte de alguns produtores já servem para nos indicam as proporções que tomou o (agro)negócio do coco, especialmente a partir do início dos anos 2010, com o advento da agricultura de precisão no cultivo do fruto.

Segundo um grande produtor de Paraipaba, por nós entrevistado, a produtividade aumentou bastante desde quando passou a produzir coco, e isso se dá em virtude da intensificação do uso de adubos, agrotóxicos e sistemas de irrigação; ainda de acordo com esse produtor: “hoje a produção de coco é sinônimo de tecnologia”. Outro relato, agora do proprietário da maior empresa de insumos agrícolas de todo litoral oeste cearense e que também é produtor de coco115, nos ajuda a entender o desenvolvimento do setor e a modernização do processo produtivo do fruto:

Hoje os produtores de coco estão gastando mais e investindo pesado no coqueiral, não é como antes. Agora eles utilizam vários tipos de fertilizantes, adubos e defensivos. Fazem a pulverização mecanizada das árvores, compram tratores, grades e roçadeiras. Tudo é irrigado, ninguém encontra mais um produtor que não tenha um microaspersor no pé do seu coqueiro; pra mim a irrigação automatizada é a melhor expressão dessa nova produção de coco. Os produtores já sabem o que fazer, estão sempre aprimorando os tratos culturais, que significa que estão cuidando mais do coqueiral, fazendo sempre a pulverização, o roçamento, a poda das árvores, comprando mudas selecionadas. Tanto os produtores quanto os trabalhadores estão se especializando nesse negócio. (....) E essa modernização pode ser observada diariamente, todo dia aparece alguma coisa nova. Nunca teve tanta tecnologia associada ao processo produtivo do coco, e a tendência é tudo ficar cada vez mais tecnificado; e isso é sinônimo de mais produção, de uma maior produtividade. Hoje os produtores estão procurando se informar, muitos deles estão fazendo análises de solo, das folhas e até da água, investindo na contração de técnicos agrícolas e de agrônomos, e tudo isso com o objetivo de corrigir as deficiências naturais que impedem o aumento da produtividade. Essa crescente introdução de “sistemas técnicos agrícolas” (ELIAS, 2003) mais eficientes no cultivo de coco é apontada inclusive pelo Censo Agropecuário de 1995, se comparado com os dados divulgados em 1985116, os quais indicam que nesse ano apenas 286 estabelecimentos irrigavam e adubavam os coqueiros no Ceará, enquanto em 1995 esse valor chega aos 1.781, representando um aumento significativo de 522%. Ainda de acordo com o Censo, em 1985 apenas 110 estabelecimentos irrigavam, adubavam e utilizavam agrotóxicos na produção, ao passo que em 1995 já eram 854. Tais dados comprovam especialmente o

114 Por esse motivo, Arranz (2002, p. 31) vai afirmar que “[...] o termo ‘produtivismo’ é igualmente associado ao

processo de inserção do setor agrícola na economia global, através da concorrência de mercados e da competitividade”.

115 Entrevistado em março de 2014, em Paraipaba.

116 No Censo de 2006 tal variável não foi apresentada, impossibilitando a análise da evolução do uso de inovações

crescimento na utilização desses novos sistemas técnicos, responsáveis por elevar a quantidade produzida com coco a outros patamares.

É importante ressaltar que a expansão do cultivo desse fruto no Ceará e essa difusão do uso de novas tecnologias associadas ao seu processo produtivo se deram diante de uma completa ausência de políticas públicas específicas para promover a reestruturação do setor, ao contrário do que ocorreu em outros Estados do país, como Espírito Santo e Rio de Janeiro, segundo apresenta Souza (2005). Nesse sentido, o governo estadual cearense não atuou diretamente de nenhuma forma na dinamização do cultivo do fruto, exceto com a construção de infraestruturas hídricas e viárias (ELIAS, 2005), as quais não atendem exclusivamente os produtores de coco117. Desde o início até hoje não foi desenvolvido nenhum tipo de programa pelo Governo do Estado com o intuito de realizar quaisquer atividades voltadas para atender as necessidades do setor do coco, nem mesmo em extensão rural e em financiamento agrícola118. Apesar disso, o Ceará aparece como um dos principais pontos de difusão nacional do uso de novas tecnologias na produção de coco, em virtude sobretudo da presença e da forte atuação das empresas Ducoco, Cohibra e Embrapa Agroindústria Tropical. Segundo nos foi informado, a Ducoco foi a primeira empresa do país a utilizar o sistema de irrigação automatizada, em 1999, seguida pela Cohibra e por alguns produtores de Paraipaba, que importaram essa tecnologia de Israel e contaram com o auxílio de técnicos israelenses para a implantação de tal sistema. O mesmo se pode dizer do uso da fertirrigação, adaptada para o cultivo do fruto primeiramente pela Ducoco, Cohibra e Embrapa, depois difundida para o restante do país. De acordo com o presidente da Cohibra, comprovando esse processo,

Há 20 anos não existia tecnologia para a produção de coco no Brasil, e uma das pioneiras na utilização e difusão dessas tecnologias foi a Cohibra, em parceria com a Ducoco. O primeiro grande diferencial na produção de coco foi justamente a difusão da irrigação nos coqueiros; antigamente ninguém pensava que um dia os coqueiros poderiam ser irrigados. E do Ceará essa tecnologia pôde ser incorporada em vários outros lugares do país.

A disseminação dos coqueiros híbridos pelo Brasil também começou, de certa forma, pelo Ceará. Enquanto o cultivo dessa variedade continuava centralizado no Pará através da Sococo, no Ceará a sua produção já estava em larga expansão nas fazendas da Ducoco (foto 11) e da Cohibra, que inclusive se tornou a primeira empresa do país a investir na produção de mudas para serem comercializadas para outros locais. Segundo o presidente dessa última

117 Diferentemente do observado em outros cultivos, a exemplo do de castanha de caju (CUNHA, 2002) e de outras

frutas como melão, mamão e banana (ELIAS, 2002ab), realizados por intermédio de uma forte intervenção do governo estadual.

118 A única exceção é o Banco do Nordeste (BNB), do governo federal, que concede importantes empréstimos aos

empresa, foi do Ceará que saíram os híbridos que estão atualmente sendo cultivados em São Paulo e Mato Grosso, por exemplo. Além disso, foi também no Ceará onde se observou a formação de um dos primeiros espaços a se especializarem no cultivo de coqueiro anão, o perímetro irrigado de Paraipaba (foto 12), no mesmo período em que se deu a expansão da produção de coco nos perímetros instalados em Souza (PB) e em Petrolândia e Petrolina (PE).

Foto 11 – Cultivo de coqueiro híbrido em Foto 12 – Cultivo de coqueiro anão no

uma das fazendas da Ducoco em Itapipoca/CE. perímetro irrigado de Paraipaba/CE.

Fonte: Cavalcante, 2014. Fonte: Cavalcante, 2012.

Além da atuação pioneira dessas empresas e de alguns produtores na modernização e consequente completa reestruturação do setor do coco no Ceará, outro agente que desempenhou um papel fundamental nesse processo chama-se Tasso Jereissati, um dos maiores e mais influentes empresários do Estado, que atua em negócios que vão desde empresas de telecomunicações, participações em bancos, administração de shoppings até empreendimentos agropecuários. Esse empresário e político, que governou o Ceará por três mandatos, durante 12 anos (entre 1987 e 2002)119, teve uma atuação direta para desencadear o início da moderna produção cearense de coco em território cearense.

A atuação de Tasso no negócio do coco começou em 1980, antes mesmo de ser governador, quando o Grupo Jereissati cria a Frutop, empresa do ramo de alimentos que produzia coco ralado e leite de coco, revendidos através da marca Menina, conforme descreve Sampaio Filho (1985). Ainda segundo esse autor, em 1982 foi implantada no município cearense de Itapipoca a empresa agrícola Agropecuária Arvoredo, de posse do empresário. Anos depois ele também compraria uma grande fazenda no município de Itarema. A ideia de se implantar fazendas produtoras de coco estava centrada no objetivo de garantir uma

119 Durante esse período, o governo de Tasso Jereissati foi responsável por fazer pesados investimentos visando

viabilizar a modernização da agricultura cearense e a construção de infraestruturas de apoio ao agronegócio, elencado por ele como um dos principais vetores de desenvolvimento da economia do Ceará, conforme asseguram Elias (2002ab, 2005), Monte (2008) e Araújo (2010), entre outros.

autossuficiência à unidade agroindustrial, fornecendo-lhe matéria-prima sem interrupções. E a variedade escolhida por Tasso para ser cultivada em terras cearenses foi o coqueiro híbrido, contando com uma importante e constante assessoria de técnicos do então instituto francês IRHO (atual CIRAD) em suas fazendas, conforme também aponta Sampaio Filho (1985).

Com isso, Tasso Jereissati criou o que parece ter sido a primeira empresa agroindustrial do coco do Ceará, inaugurando também uma das primeiras empresas agrícolas a investir no cultivo do fruto, e isso no mesmo ano em que a Ducoco iniciou suas atividades, em 1982. O empresário continuou nesse negócio do coco até 1997, quando vendeu a unidade industrial da Frutop (localizada em Maracanaú) e a marca Menina para a Ducoco, como também suas fazendas produtoras de coco localizadas em Itapipoca, já que as fazendas de Itarema tinham sido vendidas para a referida empresa ainda na década de 1980. Dessa maneira, esse ex- governador teve uma forte atuação no início desse ideário produtivista no cultivo do fruto, auxiliando no desenvolvimento do que viria a ser o atual agronegócio do coco.

Além de Tasso, outro político que também investiu no negócio do coco foi Adauto Bezerra, militar que governou o Ceará de 1975 a 1978. Bezerra inaugurou a empresa agroindustrial Cocos do Ceará (Cocesa) no ano de 1986 em Maracanaú, investindo ainda no cultivo de coqueiros híbridos no município de Camocim. Esse negócio durou até 1994, quando tanto a unidade industrial quanto as fazendas foram adquiridas também pela Ducoco, como informou um dos diretores da empresa. A partir dessas aquisições de unidades industriais e fazendas, a Ducoco pôde se consolidar como a principal empresa do ramo do coco do Estado.

Desse modo, no decorrer dos anos 1980 estavam lançadas as bases para o desenvolvimento da moderna produção de coco no Ceará, que envolveu a atuação direta de políticos, como Tasso e Adauto, e de empresas, como Cohibra e Ducoco, com investimentos realizados tanto na produção agrícola quanto no processamento industrial dos frutos. Entretanto, foi apenas no início dos anos 1990 que essa produção começou a se expandir por todo o Estado, ainda hoje em expansão, já que é crescente o número de novos produtores que passam a cultivar o fruto. O número de fazendas, sítios e lotes agrícolas cultivados com coqueiro anão e híbrido não para de crescer, e com ele aumenta a procura por insumos de um lado e por mercados consumidores de outro, dinamizando a geografia cearense do coco. 3.2 A ESPACIALIZAÇÃO DA PRODUÇÃO CEARENSE DE COCO

A compreensão de como se espacializa uma dada produção é fundamental para melhor entender como ela está organizada e como se configura sua geografia particular. Desse modo,

conhecer a espacialização120 da produção cearense de coco se faz importante para percebermos como ela está distribuída no Estado e atentarmos para suas principais características, a fim de melhor apreender como a reestruturação produtiva do setor é capaz de reorganizá-la. De um modo geral, podemos afirmar que esse processo alterou a configuração espacial do cultivo do fruto em território cearense. Nota-se que aos poucos o coco passa a ocupar novos espaços no Ceará, onde encontramos uma produção moderna, intensiva e altamente especializada, visando produzir sobretudo coco verde.

Benzer Belgeler