2. GENEL BİLGİLER
2.3. Fiziksel Tespit Uygulanmasında Kullanılan Materyaller
Com a dispersão espacial da produção evidencia-se a formação de diversas regiões voltadas para o cultivo de coco ao redor do país, configurando claramente uma especialização produtiva centrada na produção do fruto. A esse respeito, Santos (1996, p. 54) assegura que alguns lugares tendem a tornar-se especializados, e “essa especialização se deve mais às condições técnicas e sociais que aos recursos naturais”, uma vez que “quanto maior a inserção da ciência e tecnologia, mais um lugar se especializa, mais aumenta o número, intensidade e qualidade dos fluxos que chegam e saem de uma área” (SANTOS, 1994, p. 51). As especializações territoriais produtivas, de acordo com Santos e Silveira (2003) e Silveira (2011), indicam especialmente uma concentração geográfica das atividades que perpassam um determinado circuito espacial produtivo. Para Ramos (2003, p. 378), “por um lado avolumam- se os fixos, base da nova organização, e por outro aumenta o dinamismo dos fluxos, revelando a intensificação das relações mantidas com áreas mais e mais longínquas”.
Como exemplo dessas regiões especializadas na produção de coco no Brasil podemos citar aquelas onde o cultivo do fruto desponta como uma das principais atividades econômicas e onde observamos a existência de um circuito espacial produtivo de coco melhor estruturado e mais dinâmico. Dentre essas regiões107 destacamos, sobretudo: Litoral Norte Baiano, Médio e Sub-médio São Francisco (entre Bahia e Pernambuco), Alto Piranhas (na Paraíba), Litoral Oeste Cearense, Nordeste Paraense, Litoral Sul Sergipano, Litoral Norte Capixaba, Recôncavo Baiano, Litoral Nordeste Potiguar, Litoral Norte Fluminense e Litoral Sul Alagoano.
Nessas regiões, que podem ser formadas por apenas um município ou até mesmo por um conjunto de vários municípios, observamos a existência de inúmeras fazendas, empresas agrícolas, empresas agroindustriais e empresas de pesquisa agrícola voltadas para o setor do coco, além de importantes centros de comercialização, distribuição e escoamento dos frutos, pontos de comercialização de insumos e órgãos públicos que regulam o setor, para citar alguns estabelecimentos. A presença desses fixos, entre outros fatores, é que vai induzir essas regiões a uma certa especialização produtiva, ou então assegurar uma especialização já existente.
Dentre esses fixos, os principais deles e que agem como indutores dessa especialização são as empresas, sejam elas agrícolas e/ou agroindustriais. Na imagem a seguir (imagem 09) podemos observar um paralelo entre as principais regiões especializadas na produção de coco
107 Chegamos a tais recortes nos baseando em dados e cartogramas oriundos da PAM (IBGE – 2010). Os recortes
de tais regiões especializadas no cultivo de coco não obedecem às divisões oficiais do IBGE, portanto não se tratam de mesorregiões e ou de microrregiões, e sim da localização de um conjunto de municípios (ou de apenas um município) que se configuram enquanto importantes polos da produção de coco no país.
no Brasil e a localização das cinco maiores empresas do setor (já indicadas no subcapítulo anterior). É visível que há uma relativa justaposição da localização das unidades de produção agrícola e industrial dessas empresas e as principais regiões de cultivo do fruto no país, com destaque para o nordeste do Pará e os litorais de Ceará, Bahia, Sergipe e Espírito Santo, que, além de abrigarem unidades produtivas, são também altamente especializados na produção de coco, assim como o sub-médio São Francisco, entre Bahia e Pernambuco. Chama atenção também o Estado de São Paulo, que abriga a sede administrativa de duas das maiores empresas do setor (Ducoco e Kero Coco).
Imagem 09 – Principais regiões especializadas na produção de coco no Brasil e localização de
unidades das maiores empresas do setor.
Organização: Cavalcante e Mendoza, 2015. Base cartográfica: IBGE, 2010.
No interior do Nordeste, por exemplo, a configuração mais evidente da formação dessas regiões especializadas no cultivo de coco, além das observadas em seu litoral, pode ser notada especialmente nos perímetros irrigados públicos federais aí instalados, onde essa produção do fruto já nasce moderna e inserida no contexto da reestruturação produtiva do setor. Em diversos perímetros irrigados encontrados nessa região percebe-se uma importante especialização no
cultivo de coco, que passa a ser responsável por dinamizar a economia dos municípios onde estão inseridos tais perímetros, levando a uma reestruturação produtiva e territorial dos mesmos, já que anteriormente não havia produção de coco em nenhum perímetro irrigado nordestino.
Ressalta-se que há um total de 71 perímetros irrigados em todo o Nordeste, construídos e mantidos pelo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) ou pela Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf). Todos esses perímetros possuem dinâmicas socioespaciais e produtivas bastante particulares, sendo comum o grande cultivo de frutas, a exemplo de banana, melão, manga e uva, muitas delas voltadas para a exportação e para atender diretamente as necessidades das agroindústrias lá instaladas. A introdução de novos cultivos nesses perímetros depende, na maioria das vezes, das motivações dos próprios produtores, que possuem à sua disposição uma rede hídrica já instalada e lotes com forte potencial agrícola. Há uma rotatividade de produções que chega a ser bastante intensa, sendo comum a substituição de antigos cultivos por novos.
Recentemente, um dos novos cultivos introduzidos nesses perímetros foi o de coco, produzido tanto por pequenos quanto por grandes produtores. A difusão desse cultivo nesses locais contribui sobremaneira para modificar o arranjo espacial da produção do fruto no país, que começou a ser realizada também no interior nordestino. Esse processo, ainda em curso, já foi inclusive atestado por alguns pesquisadores, como podemos observar nos relatos abaixo, que associam a introdução do coco nos perímetros irrigados à expansão do consumo da água.
A produção de coco, tradicional do litoral nordestino, começa a ser desenvolvida nos perímetros irrigados, com o intuito de comercializar os frutos ainda verdes (BROGGIO, 1999, p. 227).
A partir de meados dos anos 2000 tem-se notado um aumento da exploração do coco voltado para atender o mercado de água. Essa tendência tem deslocado a produção do fruto para áreas não tradicionais, a exemplo dos perímetros irrigados do Nordeste (SIQUEIRA et al., 2002, p. 06).
No que se refere ao mercado de água de coco, a crescente demanda registrada nos últimos anos gerou uma grande mudança de cenário da cultura do coqueiro no Brasil, com a implantação de grandes projetos em perímetros irrigados utilizando a variedade de coqueiro anão verde (FONTES; WANDERLEY, 2006, p. 12).
De acordo com o coordenador de operações agrícolas do DNOCS108, a introdução do cultivo de coco nesses perímetros irrigados alterou fortemente a “vocação agrícola relacionada a cada um deles”, que inicialmente não foram criados no intuito de produzir tal fruto. Além disso, o representante do DNOCS destaca que o motivo básico para a expansão e consolidação
da produção de coco nos perímetros está diretamente vinculado à grande disponibilidade hídrica e à possibilidade de instalação de sistemas de irrigação, fatores cruciais para o desenvolvimento do coqueiro anão visando a produção de coco verde, atrelado à grande expansão nacional e internacional do mercado e do consumo de água de coco.
Dentre os perímetros irrigados nordestinos que vêm se especializando no cultivo de coco destacamos aqueles inseridos nos vales dos rios São Francisco, entre a Bahia e Pernambuco (localizados na região de Juazeiro/Petrolina e de Rodelas/Petrolândia), Piranhas, na Paraíba, e Curu e Acaraú, no Ceará. É basicamente nesses locais onde se materializam com mais intensidade os processos advindos com a reestruturação produtiva do setor, uma vez que é sobretudo aí onde se difundem as principais inovações técnico-científicas e agronômicas e se expandem os fixos e fluxos relacionados ao circuito espacial produtivo do fruto.
Essa difusão e consequente especialização da produção de coco em direção aos perímetros irrigados nordestinos pode ser comprovada ao analisarmos os dados divulgados pelo Serviço de Monitoramento da Produção dos Perímetros Irrigados (SMPPI), do DNOCS. Como se pode observar na tabela abaixo (tabela 16), entre os anos de 2000 e 2012 o cultivo do fruto nesses perímetros teve um importante aumento, tendo a área plantada com coqueiros apresentado um acréscimo de 77% e a quantidade produzida de quase 80%. Conforme informou o gerente do DNOCS entrevistado, foi no início dos anos 1990 que os perímetros nordestinos começaram a esboçar uma considerável produção de coco, se expandindo com mais intensidade depois dos anos 2000 e que atualmente ainda continua em acelerado crescimento.
Tabela 16 – Perímetros irrigados geridos pelo DNOCS. Área plantada com coqueiros (em hectares) e
quantidade produzida de coco (em unidades). Variações absoluta e relativa (em %). 2000 – 2012.
2000 2012 Variação absoluta Variação relativa
Área plantada 3.379 6.007 2.628 77,77 Quant. produzida 38.361.533 68.702.110 30.340.577 79,09
Fonte: DNOCS/SMPPI. Elaboração: Cavalcante, 2014.
Desses perímetros geridos pelo DNOCS o destaque vai para o Curu-Paraipaba, o Curu- Pentecoste, o Araras Norte e o Baixo Acaraú, localizados no Ceará, e para o São Gonçalo, localizado em Souza, na Paraíba. Inclusive, o perímetro irrigado São Gonçalo foi o pioneiro na produção de coco no interior nordestino e rapidamente transformou o município de Souza em uma referência nacional no cultivo de coqueiro anão, como demonstra Lucena (2010). A título de informação, o coco é atualmente o cultivo que ocupa a segunda maior área plantada se tomarmos a área completa de todos os perímetros do DNOCS, representando 15% da área total cultivada, atrás apenas do cultivo de banana. O coco já é também o principal produto cultivado nos perímetros do Ceará e da Paraíba, ocupando a maior área plantada em ambos Estados.
Já dentre os perímetros geridos pela Codesvaf, de acordo com o próprio órgão, o destaque vai para o Apolônio Sales, o Barreiras e o Icó Mandantes, localizados no município pernambucano de Petrolândia, para o Curará, localizado em Juazeiro, e para o Rodelas, localizado no município de mesmo nome, ambos na Bahia. Além desses cinco, destaca-se também, mas com uma menor participação da produção de coco, os perímetros Senador Nilo Coelho (Casa Nova/BA e Petrolina/PE), Formoso (Bom Jesus da Lapa/BA), Maniçoba (Juazeiro/BA) e São Desidério/Barreiras Sul (localizado já no oeste baiano), além do Cotiguiba/Pindoba, instalado no Platô de Neópolis (SE). Percebe-se que a produção de coco continua em larga expansão especialmente na região do Vale do São Francisco, conforme indicou uma reportagem do portal G1/Petrolina109, sobretudo no perímetro Senador Nilo Coelho, que em 2014 já possuía 2.262 hectares plantados com coqueiros.
Desse modo, constata-se que muitos dos perímetros irrigados instalados no Nordeste, construídos pelo DNOCS ou pela Codevasf, estão ficando especializados no cultivo de coqueiro anão e na produção de coco verde, modificando sobremaneira a estrutura produtiva de tais espaços. A produção de coco realizada nesses perímetros, cada vez mais especializada e altamente exigente em capital e tecnologia, contribui fortemente para a dinamização da produção nordestina, que encontrou no Sertão um novo espaço passível de expandir o cultivo do fruto, graças à presença da irrigação. Se anteriormente era no litoral nordestino que se produzia todo o coco da região, agora esse fruto já é cultivado também no Sertão, que assume a liderança no cultivo de coqueiro anão, indicando uma importante alteração na geografia do coco no Nordeste, e por sua vez no Brasil.
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Depois dessa apresentação de algumas das mais relevantes dinâmicas que caracterizam a reestruturação do setor do coco no Brasil, podemos nos perguntar, por exemplo, como o Estado do Ceará é inserido nesse processo, e ainda quais os principais rebatimentos diretos dessa reestruturação produtiva na configuração dos espaços de produção de coco aí encontrados e na organização dos agentes que compõem seu circuito espacial produtivo, os quais serão analisados nos capítulos seguintes. Destacamos que essa contextualização da produção brasileira é fundamental para melhor compreender como a produção cearense se insere nesse contexto maior de reestruturação produtiva, já que não conseguiríamos apreender o local sem levar em consideração o global que o dinamiza, segundo afirma Dimitrova (2005).
109 Fonte: http://goo.gl/Zn1UDW, Portal G1/Petrolina – “Produção de coco cresce no Vale do São Francisco”,
Capítulo 3