5. TARTIŞMA SONUÇ VE ÖNERİLER
5.1. TARTIŞMA VE ÖNERİLER
A música tecno/dance (bate-estaca), a iluminação e os shows davam um tom erótico e um clima de “ferveção”, conforme afirmações dos freqüentadores, durante as observações de campo. Além dos shows com GOGO-BOYS, no meio da madrugada eram apresentados shows de strippers.
Durante o mapeamento etnográfico observou-se que apenas em uma boate do Centro tinha um DARKROOM. As boates em geral proporcionavam um ambiente mais propício para cenas sexuais acontecerem, e as praças e ruas escuras do Centro tinham a vantagem de permitirem as cenas sexuais se realizarem. As paqueras em geral aconteciam nas imediações dos bares, mas algumas delas iam parar na Praça. Os mais aventurados mantinham relações sexuais atrás de árvores, arbustos ou muros. Apesar da região ter muitos hotéis baratos, vulgarmente chamados de “pulgueros”, muitos preferiam o escurinho da praça, por opção ou por falta de dinheiro. Os darkrooms das boates cumpriam também essa sua função.
“Quando chega a hora da chepa, tudo pode acontecer. Quando dá umas 4 da manhã, e você não arranjou ninguém pra ficar, vai pro darkroom pra aliviar o tesão.”(sic, anotação no diário de campo)...
A maioria das boates do Jardins tinha DARKROOM. Uma dessas boates tinha um “cruising bar”. Ambos tinham a mesma função: era um espaço para “caçar”, transar e de “pegações”. O DARKROOM era sinônimo de sexo fácil e sem compromisso. Alguns deles não tinham iluminação alguma. Ao entrar, apenas era possível ouvir a respiração, os gemidos, os ruídos de relações sexuais acontecendo... Ao mesmo tempo que havia a privação de um dos sentidos – a visão – havia a exaltação de outros sentidos – a audição, o tato, o olfato. À medida que a pessoa entrava, sentia corpos se aproximando, mãos perambulando seu corpo... Segundo o relato de um rapaz, não havia espaço para a razão, apenas para o desejo. Não era possível ver cenas sexuais acontecendo, mas era possível ouvir, sentir, cheirar. Em alguns outros locais havia uma variação dos DARKROOMS, com uma iluminação branda e pequenos cubículos onde os casais entravam. Nesses locais era possível ver o que estava acontecendo, desde cenas de sexo oral até sexo anal (com ou sem preservativo).
A presença de MICHÊS em algumas boates era bastante sutil. Em geral eles se misturavam e quase não era possível identificá-los. A região do Jardins não era um reduto de garotos de programa, com exceção de uma boate que, após o assassinato de um freqüentador que tinha saído com um MICHÊ, foi fechada pois ficou marcada como um local “perigoso” para se paquerar.
A violência não era tão explícita no Jardins. Manifestava-se de forma mais velada, por exemplo, no “boa noite cinderela”. Uma pessoa sozinha num bar ou boate poderia ser vítima dos assaltantes, que colocavam alguma droga (em geral benzodiazepínicos) em sua bebida para fazer um “seqüestro relâmpago”. Durante o projeto, um de nossos auxiliares de pesquisa estava em um bar e foi abordado por rapazes que queriam informações sobre os bares de São Paulo, pois diziam que eram de Minas Gerais. Nesse dia, o rapaz não estava trabalhando no projeto e estava sozinho. Ele se interessou pela conversa para investigar o fluxo do “turismo gay” nos bares e boates. Mas isso lhe rendeu alguns dias de recuperação em um hospital, após ser uma das vítimas do “boa noite cinderela”. O rapaz tomou um drink com os rapazes, onde provavelmente foi drogado. Os rapazes percorreram os caixas eletrônicos da cidade, sacando dinheiro de suas contas
bancárias. Ele foi encontrado em um bairro nas imediações da Av.Paulista e foi levado para um hospital, sem documentos e totalmente dopado. Após dois dias de desaparecimento, a família o localizou em um hospital da capital.
“Aqui no Jardins é comum a gente ouvir essas histórias. Se o gay é boa pinta e está sozinho, é presa fácil. Fica sozinho num bar ou boate pra caçar.”(sic, anotação no diário de campo).
Durante o decorrer do projeto, tivemos algumas experiências de violência vivenciadas ou presenciadas pelos rapazes do grupo de pesquisadores. Prostituição, violência e drogas eram mais explícitas no Centro. A região da Av.Vieira de Carvalho era muito próxima da Cracolândia, local perto da Estação da Luz conhecida pelo tráfico de drogas. Muitos garotos de rua perambulavam entre os freqüentadores dos bares e boates e realizavam pequenos furtos, correndo para as ruas periféricas sentido Cracolândia. Provavelmente, o objetivo era trocar as “mercadorias” roubadas por drogas. Nossa equipe foi assaltada duas vezes no decorrer das intervenções. Um dos rapazes foi abordado por meninos de rua, que roubaram seu relógio e celular. Outro rapaz de nossa equipe teve sua carteira roubada dentro de uma boate. Todas as noites a equipe presenciava cenas de furtos.
“Eles assaltam a gente pois acham que as bichas não vão reagir. Um dia desses mexeram com um boy (garoto de programa), novo na área, que desceu porrada no moleque.”(sic, anotação no diário de campo).
“A polícia anda por aí, mas não faz nada. A gente não se sente protegido.” (sic, anotação no diário de campo).
Não podemos esquecer que o Centro foi cenário da morte de um rapaz, vítima de uma gang de skinheads. Edson Néris da Silva, morava no Centro, era adestrador de cães, e estava passando pela Praça da República juntamente com seu parceiro quando foi abordado pela gang. Ele foi assassinado no dia 06 de fevereiro de 2000 de forma extremamente violenta, socos, pontapés e pauladas.
“Dados coletados pelo dossiê do Grupo Gay da Bahia, Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis e Grupo Lésbico da Bahia, apontam que, a cada 3 dias, um homossexual é assassinado no Brasil pelo fato de ser homossexual. Na década de 90, registrou-se um aumento da ordem de 120% de crimes dessa natureza em nosso país. As vítimas das agressões de conteúdo homofóbico, não obstante, quando sobrevivem, dificilmente se dirigem à polícia para registrar a ocorrência pois temem a própria reação dos policiais. Freqüentemente, a vítima do ataque homofóbico é vista como responsável pela agressão que sofreu.” (ROLIM, 2000).
A exposição à violência e possibilidade de assaltos não eram motivos que impediam a sociabilidade em tais locais. Segundo alguns homens abordados durante o mapeamento dos bares do Centro, existiam vários motivos para freqüentar tais locais: encontro com amigos que ali se reuniam, paquera, identificação com o tipo de freqüentador e local, preços acessíveis e facilidade de acesso.