O campo de estudo escolhido para o desenvolvimento deste estudo é uma UBS do município de São Paulo.
A escolha desta unidade não se deu de forma aleatória. Foi escolhida a UBS Dr. Eduardo Romano Reschilian como campo deste estudo por ser uma unidade mista, com os dois modelos de AB convivendo (o tradicional e a ESF) o que, em potência, ajudaria a problematizar possíveis diferenças no trabalho, e porque a pesquisadora já atuou como enfermeira da ESF neste serviço por aproximadamente quatro anos (no período de 2001 a 2004), o que permitiria uma fase exploratória de pesquisa bastante informada.
Dessa forma, apesar de ter ocorrido alterações significativas na unidade por conta de mudanças na gestão municipal e local, esta experiência de atuação na unidade proporcionou à pesquisadora conhecimento da área de abrangência da unidade, de seus equipamentos sociais e de saúde e da trajetória histórica do serviço. Isso facilitou o acesso ao campo de pesquisa, pois o conhecimento sobre a realidade de vida e de saúde dos grupos sociais que vivem naquele território e sobre os processos de trabalho em vigor na UBS permitiram que a pesquisadora construísse seu projeto de pesquisa,
partindo de pressupostos concretos da realidade deste serviço de saúde.
A UBS faz parte da Coordenadoria Regional de Saúde da região Sudeste da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) da Prefeitura Municipal de São Paulo (PMSP). Essa Coordenadoria Regional de Saúde é composta pelas subprefeituras de Aricanduva/Vila Formosa, Carrão, Ipiranga, Jabaquara, Mooca, Penha, Vila Mariana, Vila Prudente/Sapopemba. Na AB essa coordenadoria conta com 45 UBS, 196 ESF e 15 Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF). Cada subprefeitura dessa coordenadoria tem uma Supervisão Técnica de Saúde. A UBS Reschilian faz parte da Supervisão Técnica de Saúde do Ipiranga e está localizada no Distrito Administrativo do Sacomã. Este distrito tem uma população de 247.851 pessoas vivendo nos 41 bairros do distrito, segundo dados do censo do IBGE de 2010, sendo que esta unidade está situada no Jardim Maristela (São Paulo, 2012).
O Jardim Maristela constituiu-se como bairro já na década de 1970. Pela proximidade com a região do ABC (área de alta concentração de indústrias), o espaço se configurou como um bairro operário. Na atualidade é considerado um bairro tipicamente residencial, na região periférica do município de São Paulo, com alguns locais de concentração comercial (avenidas comerciais como as avenidas Padre Arlindo Vieira e Nossa Senhora das Mercês). Apresenta como características geo-espaciais, ruas residenciais e comerciais (prioritariamente com casas e pequenos prédios comerciais), favelas urbanizadas e não urbanizadas e conjuntos habitacionais populares. Quase a totalidade das ruas são asfaltadas (excluindo-se apenas as duas áreas de favela que são da área de abrangência da UBS).
A população pertencente à área de abrangência da unidade é de aproximadamente 32 mil habitantes, segundo o último censo realizado no ano de 2010, e se caracteriza por ser uma população com pouco acesso a bens materiais e imateriais.
Na área de abrangência da unidade não há muitos recursos de lazer, cultura e trabalho. Há apenas escolas, creches e algumas poucas entidades filantrópicas e/ou religiosas com atividades direcionadas especialmente para crianças e jovens. Há muitas igrejas (especialmente as evangélicas) e bares, mas o espaço é destituído de áreas culturais e de lazer, acessíveis à população geral, como teatros, cinemas, clubes e parques na região. Há apenas o CEU Parque Bristol (Centro Educacional Unificado) e o SESI (Serviço Social da Indústria) que ficam na região, mas possuem acesso relativamente restrito.
A unidade de saúde conta com seis equipes de saúde da família, que cobrem aproximadamente 90% da população de abrangência da unidade. Além dos profissionais da ESF há profissionais de saúde que atendem seguindo as prerrogativas do modelo assistencial tradicional. Estes trabalhadores (dois pediatras, um ginecologista, dois clínicos gerais, um hebiatra e um psiquiatra) assistem aos usuários que se encontram fora da cobertura da ESF.
Alguns profissionais de saúde, por conta de sua especificidade (principalmente o psiquiatra e a hebiatra), atendem também aos usuários que moram nas áreas de cobertura da ESF. Além disso, a ausência de psiquiatra em outras UBS da região e a demanda crescente por esta especialidade acaba forçando uma espécie de referência desse profissional para toda a área.
A UBS conta ainda com uma equipe de NASF composta por dois terapeutas ocupacionais, dois psicólogos, dois fonoaudiólogos, um psiquiatra, um assistente social e um ginecologista. Estes trabalhadores são contratados em regime de 30 horas semanais e atendem essa e mais outras três UBS da Supervisão Técnica de Saúde do Ipiranga, contabilizando-se o total de 15 equipes da ESF. Essas têm cronograma de reuniões semanais com a equipe do NASF, conforme seus núcleos de assistência (saúde mental, reabilitação, saúde da mulher e criança).
A circulação média de pessoas na unidade é de 500 pessoas/dia para consultas agendadas, procedimentos, acolhimento, grupos, agendamento de consultas e exames.
A Organização Social que administra a unidade, em parceria com a PMSP, desde 2001 é a SPDM. Essa OS tem um contrato de gestão com a PMSP para gerenciar a maioria dos equipamentos de saúde da Supervisão Técnica do Ipiranga. Ela assumiu a gestão desta UBS em 2001 com a implantação das primeiras equipes da ESF e é responsável pela contratação de todos os trabalhadores dessa estratégia, do NASF e da maioria dos auxiliares técnicos administrativos (ATA) que executam atividades burocráticas e atendimento na recepção da unidade. Além disso, desde o início de julho deste ano, a SPDM assumiu também a gerência da UBS, que até então era gerenciada por um trabalhador da prefeitura.
Com a entrada das OS na gestão dos serviços de saúde da PMSP tornou-se possível e naturalizado a convivência de diferentes formas de contratação (diferentes vínculos empregatícios, planos de carreira, cargos e salários) num mesmo equipamento de saúde, além da possibilidade de adesão de um trabalhador estatutário à ESF para complementação do salário, que é defasado na PMSP (Frente Nacional contra a Privatização da Saúde, 2011).