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İslam’da Feminizm

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3. İslam’da Feminizm

Os trabalhadores da AB também sofrem as repercussões da reestruturação produtiva, pois as formas como se organizam os processos de trabalho nessas instituições seguem, embora de forma mais sutil e por isso menos perceptível para os trabalhadores, os modelos gerenciais hegemônicos no mundo do trabalho e que se caracterizam como uma sobreposição entre os modelos taylorista- fordista e toyotista (Peduzzi, 2002; Ribeiro et al, 2004). Esta lógica de se organizar os processos de trabalho na AB, reforçada a partir da instauração das parcerias público-privadas neste nível de atenção, foi discutida no trabalho de Santos (2007), que aponta aspectos relacionados ao fordismo-toyotismo na AB tais como:

Organização e divisão do trabalho fundadas na produtividade, na cobrança repetida, na racionalização extrema – metas que não se colocam em discussão – de tal forma que o trabalho se realiza sob ameaça de um rolo compressor, limitando mesmo o cumprimento da rotina num clima de intensificação do trabalho, persistindo a velha divisão técnica entre trabalho manual e intelectual. O trabalho em equipe aparece apenas como uma forma de racionalizar e agilizar as tarefas (...) [constituindo] um agrupamento de agentes marcados pela fragmentação e pela justaposição das ações (...) Explora-se a subjetividade do trabalhador, instaura-se a polivalência (...) e o alto grau de envolvimento com o trabalho caracterizado pela “entrega total” (Santos, 2007, p. 118 – grifos da autora).

Outro ponto que autores como Favoreto, Camargo Jr (2002), Ribeiro et al (2004), Scherer et al (2005) e Santos (2007) questionam refere-se à possibilidade da ESF, como principal ferramenta de operacionalização do SUS, romper com a hegemonia

do atendimento individual, estritamente biomédico e consagrado no espaço dos serviços de saúde, a partir das formas atuais de se estruturar o processo de produção dos serviços de saúde na AB e os processos de trabalho nesses equipamentos de saúde.

Já no início da implantação das primeiras equipes da ESF no país verificou-se um fenômeno que, posteriormente, se tornaria regra na implantação dessas equipes: a operacionalização desta estratégia através de parcerias público-privadas (Estado e OS). Pode-se considerar este fenômeno como um dos sinais do neoliberalismo e das Reformas do Estado na área da saúde. Se há 20 anos essas parcerias soariam como algo estranho, hoje elas são tão comuns que se naturalizaram, não sendo percebidas pela sociedade e pela maioria dos trabalhadores como formas diferenciadas e sutis de privatização da saúde pública no país. Seguindo a lógica privada de custo-benefício se instaura na área da saúde mecanismos de flexibilização do trabalho.

Alguns estudos (Baraldi, 2005; Nunes et al, 2006; Santos, 2007; Costa, Tambellini, 2009; David et al, 2009) sugerem que um sinal importante da precarização do trabalho em saúde manifesta-se na diversidade de formas de contrato e nos empregadores dos profissionais de saúde, que conformam-se como cooperativas, entidades governamentais e não governamentais. Nesse sentido, muitas vezes acabam coexistindo, no mesmo espaço de trabalho, profissionais com a mesma função, mas contratos de trabalho, salários e benefícios diferenciados. Isso gera uma das contradições presentes nos espaços de trabalho e afeta profundamente os trabalhadores e a sua relação com o trabalho em si.

Como reflexo da reestruturação produtiva no setor saúde ainda, o profissional de saúde da AB vem assumindo novas formas de trabalhar. Agora é exigido dele que trabalhe em equipe (mesmo que a sua formação não contemple este tipo de atuação), com área adscrita de atendimento e co-responsabilização pela saúde de um número fixo de famílias de determinado território. Há metas de

produtividade cada vez mais elevadas que são estabelecidas em nível central e fixadas segundo critérios quantitativos (Peduzzi, 2002; Ribeiro et al, 2004; Nunes et al, 2006; Santos, 2007). Há ainda entre estes profissionais um grande envolvimento pessoal com o trabalho desempenhado na equipe e uma idealização sobre este trabalho (ética, engajamento social e militância), que significam fatores de fortalecimento destes trabalhadores. Porém, os fatores de desgaste são proporcionalmente maiores e mais poderosos e levam a uma confusão sobre os significados do trabalho. Ora o trabalho é visto como libertador e construtivo, ora visto como fonte de sofrimento e dor e uma forma de aprisionamento (Salum e Queiroz, 2005; Santos, 2007; Trad, Rocha, 2011).

É possível perceber, nas formas de organização dos processos de trabalho na AB, características comuns da reestruturação produtiva a outros setores da economia como: polivalência dos profissionais, envolvimento maior com a empresa/instituição, maior intensidade nos ritmos de trabalho, maior conhecimento do trabalho, necessidade de maior criatividade para resolver os diferentes problemas que vão surgindo, uma falsa sensação de autonomia do trabalhador sobre seu trabalho e critérios de avaliação pautados na quantidade e não na qualidade do trabalho desenvolvido (Lacaz, 2000; Trad, Rocha, 2011).

Todos os fatores apontados anteriormente retroalimentam os processos de alienação do trabalhador, que raramente intencionaliza a transformação do objeto do processo de produção dos serviços de saúde, executando práxis reiterativas3. Os processos de trabalho em

3 O conceito de práxis é utilizado por Trapé, Soares (2007) em seu artigo. Elas

utilizam as formulações de Vasquez (1977) sobre este conceito. Segundo as autoras: A práxis se refere à ação do homem que transforma a natureza, fundamentada na teoria que existe para guiar a ação (...) Por outro lado, a forma como a consciência está presente na atividade prática do sujeito, configura diferentes níveis de práxis. Sendo assim, é possível distinguir a práxis criadora da práxis reiterativa. "A práxis se apresenta ou como práxis reiterativa, isto é, em conformidade com uma lei previamente traçada, e cuja execução se reproduz em múltiplos produtos que mostram características análogas, ou como práxis inovadora, criadora, cuja criação não se adapta plenamente a uma lei previamente traçada e culmina num produto novo e único (...) Historicamente, entretanto, esse

que os trabalhadores participam são engessados em instrumentos pré-definidos em níveis hierárquicos inacessíveis. Tais instrumentos muitas vezes não respondem às demandas da realidade concreta onde estes processos acontecem. Em suma, o trabalhador de saúde na AB encontra-se na posição de instrumento do processo de trabalho, muito mais do que sujeito dele, afastado que está da possibilidade de compreender de maneira plena a complexidade do trabalho em si, que numa definição ampliada deveria ser:

Os atos realizados pelo conjunto de trabalhadores da saúde orientados por um projeto [o projeto de intervenção em Saúde Coletiva] que articula clínica e epidemiologia, sob a perspectiva do pensamento social em saúde, e que, na sua articulação, produzem a transformação no objeto (Queiroz, Salum, 1996, p.5).

Outro fator que deve ser ressaltado ao se atentar para o trabalho nas UBS é que os modelos assistenciais vigentes se organizam a partir de lógica que inverte todo o processo de trabalho (inserido numa “cadeia de produção”) ao tomar como objeto a doença (manifestação individual do desgaste das formas de trabalhar e de viver dos grupos sociais) e não os perfis epidemiológicos (perfis de reprodução social e perfis de saúde- doença). A finalidade do trabalho passa a ser apenas tratar a doença e não visa à transformação dos perfis epidemiológicos. Os meios e instrumentos utilizados não promovem mudanças nesses perfis, mas corroboram com o círculo vicioso do consumo de serviços de saúde, que se resume a consultas individuais e exames, sem alterar em nada as formas de viver e de adoecer da população (Queiroz, Salum, 1996).

caráter criador do trabalho representado pelo trabalho artesanal foi sendo substituído pelo trabalho mecanizado, devido às exigências de aumento da produção da sociedade capitalista. Como consequência do próprio desenvolvimento técnico, sobreveio a crescente divisão e especialização do trabalho. "[Assim], os traços característicos da práxis criadora desaparecem do trabalho (...) [do homem]. A atividade parcelada, unilateral e monótona do operário foi fixada previamente, sem que ele tivesse nenhuma participação nisso. Ou seja, não só se fixa por antecipação, e de forma acabada, a finalidade de sua atividade, o objeto ideal que há de realizar, como igualmente todos e cada um dos passos que ele dará também são determinados de antemão, sem possibilidade de desvios (Trapé, Soares, 2007, p. 3).

Esta nova forma de trabalhar na AB, que atinge principalmente trabalhadores de saúde da ESF, compromete a qualidade do trabalho e a saúde dos trabalhadores, devido aos seguintes fatores: sobrecarga de trabalho, impossibilidade de atender a todas as demandas/consultas que se apresentam no trabalho cotidiano dos serviços de saúde, cobrança exaustiva em relação às metas, compartimentalização e fragmentação do trabalho em equipe em função das metas, dos programas e dos protocolos pré-estabelecidos, ausência de autonomia e autogoverno por parte dos trabalhadores em relação ao seu trabalho, ausência de espaços coletivos de reflexão para os trabalhadores sobre questões relacionadas ao trabalho como condições de trabalho, qualidade de vida no trabalho e os processos de trabalho (Lacaz, 2000; Ribeiro et al, 2004; Santos, 2007; Trad, Rocha, 2011).

Estes trabalhadores, apesar de sua inserção privilegiada nos territórios onde trabalham e vivem as pessoas de diferentes grupos sociais, estão apartados da possibilidade de articular vida, saúde e doença desses grupos no momento de construírem suas intervenções, que são direcionadas apenas aos agravos na dimensão individual (Queiroz, Salum, 1996).

2.2.3 Impactos do Neoliberalismo na produção de saúde na AB