Há várias propostas de representação gráfica das línguas sinalizadas, com base em “sistema de notação em palavras” ou “de glosas”. McCleary, Viotti e Leite (2010) consideram que os sistemas de glosas têm pouca aceitação na literatura linguística, por duas razões: (a) dificuldade de serem lidos por pessoas não treinadas e (b) variedade de sistemas existentes. As glosas utilizadas para o registro em Libras adotam as letras do alfabeto e palavras da Língua Portuguesa, grafadas em letra maiúscula (usadas para representar os sinais). Adicionalmente, podem ser indicados códigos, palavras, letras e números sobrescritos ou subscritos para representar marcações não manuais, quantificação, uso do espaço, etc., conforme será ilustrado mais adiante nesta seção.
Nesta tese, as glosas foram usadas para a transcrição dos estímulos do experimento no processo de seleção e validação das gravuras. E para tanto, adotou-se uma adaptação e mesclagem dos sistemas de transcrição propostos por Ferreira (2010) e por Felipe e Monteiro (2008), cujos princípios são descritos a seguir.
a) Utilizam-se palavras da Língua Portuguesa escritas em letras maiúsculas para expressar os sinais em Libras, conforme ilustra a Figura 17.
FIGURA 17– Transcrição em Glosa para os sinais: CASA, BANHEIRO
b) Quando duas ou mais palavras da Língua Portuguesa são necessárias para transmitir o conceito do sinal em Libras (único item lexical em Libras), utilizam-se palavras da Língua Portuguesa escritas em letras maiúsculas ligadas por hífen, conforme ilustrado na Figura 18.
FIGURA 18– Transcrição em Glosa para os sinais: QUERER-NÃO; GOSTAR-NÃO
Fonte: CAPOVILLA & RAPHAEL, 2008, p. 714.
c) A datilologia, ou alfabeto manual, constitui a representação da palavra letra-a-letra feita manualmente, usada em contextos específicos, como por exemplo, nomes próprios de pessoa (exemplo, MARIA), de localidades (exemplo, RUA MONTE SIÃO) e outras palavras que ainda não possuem um sinal da língua de sinais (exemplo, a palavra DIAFRAGMA da Língua Portuguesa) (cf. nota 8). Neste contexto, empregam-se letras maiúsculas com todas as letras separadas por hífen. Observe o exemplo a seguir:
FIGURA 19- Nome MARIA
Fonte: Elaborada pela autora
FIGURA 20– Transcrição em Glosa para os sinais: TRABALHAR, ESTUDAR
Fonte: CAPOVILLA & RAPHAEL, 2008, p. 1263 e 630.
e) Na Libras não há desinência para gênero (masculino/feminino) e número (plural). O sinal, representado por palavra da Língua Portuguesa que possui estas marcas, apresenta o símbolo @ para reforçar a ideia de ausência. Exemplos: AMIG@ para designar “amiga(s) ou amigo(s)”; MUIT@ para se referir a “muita(s) ou muito(s)”; ME@ para representar “minha(s) ou meu(s)”, etc.
FIGURA 21– Transcrição em Glosa para Gênero não marcado para o sinal: VELH@ (= velha(s) ou velho(s))
Fonte: CAPOVILLA & RAPHAEL, 2008, p. 1303.
e.1) Entretanto, é possível referir-se ao masculino e feminino por meio do sinal MULHER em Libras quando se deseja especificar uma pessoa ou objeto do sexo feminino, da mesma forma que ocorre com o sinal HOMEM para fazer menção a algo ou alguém do sexo masculino. Observe os sinais para MULHER e HOMEM em Libras na Figura 22.
FIGURA 22– Transcrição em Glosa dos sinais: HOMEM (masculino) e MULHER (feminino)
Fonte: CAPOVILLA & RAPHAEL, 2008, p. 736 e 927.
e.2) Nos casos em que ocorre a marca de plural, essa pode ser indicada pela repetição ou pelo alongamento do sinal. Na transcrição de formas de plural utiliza-se uma cruz (+) ao lado do sinal que foi repetido para indicar esta noção. Observe o exemplo a seguir:
FIGURA 23– Transcrição em Glosa para marca de plural para o sinal: ÁRVORE; ÁRVORE+ (= “árvores”)
Fonte: FELIPE & MONTEIRO, 2008, p. 27.
f) Representam-se os classificadores14 da língua de sinais (que são morfemas usados em
verbos de movimento e localização) por meio de palavras ligadas por hífen entre (< >) colchetes angulares, precedidos da sigla CL, conforme indicado na Figura 24.
14 Para informações mais completas a respeito do Uso de Classificador confira a seção 2.2.1.3 (Klima e Bellugi, 1979) neste capítulo.
FIGURA 24– Transcrição em Glosa de Classificador para o sinal: CL<UM-IREM-DIREÇÃOA-OUTRO>
Fonte: FELIPE & MONTEIRO, 2008, p. 400.
Na Figura 24 o sinalizador apresenta a configuração das duas mãos em index finger
, representando além de uma pessoa para cada mão, a ação de ir/andar uma em encontro à outra. Usando o Classificador, o usuário de Libras pode sinalizar duas ou mais informações ao mesmo tempo, que nesse caso, indica a existência de duas pessoas movendo-se uma em direção à outra.
g) Os aspectos não manuais (as expressões faciais e corporais) também são incorporados no sistema de transcrição com o objetivo de expressar, nas glosas, as emoções, sentimentos, tipo de frase, dentre outros. As expressões faciais e corporais devem ser destacadas entre colchetes angulares (< >), seguido de símbolos: interrogação - ?; exclamação - !; negação – ñ; topicalização- t, logo após a palavra/sinal a que se referem. (FERREIRA, 2010; FELIPE & MONTEIRO, 2008). Observe a transcrição para os sinais na Figura 25 e 26.
FIGURA 25– Transcrição em Glosa para Expressões não manuais que se referem à sentença interrogativa e expressão de emoção: <COMO>?; <FELIZ>!
FIGURA 26– Transcrição em Glosa para Expressões não manuais que se referem à sentença negativa: <CONSEGUIR-NÃO> ñ
Fonte: CAPOVILLA & RAPHAEL, 2008, p. 450.
As glosas foram importantes neste estudo para que fosse possível sistematizar os critérios de anotações dos dados aqui discutidos.
Sumário
Este capítulo apresentou estudos linguísticos quanto à gramática das línguas de sinais, sobretudo, a fonologia da ASL e da Libras. Tratou-se da organização fonológica na Libras, com destaque para o movimento, o foco de estudo desta tese. E por fim, relatou-se a existência de diferentes formas de representação gráfica da Libras por meio de glosas e apresentou-se apenas uma delas, a que foi usada neste estudo. O próximo capítulo versa sobre os graus de intensidade, contexto escolhido nesta tese para investigação do movimento em Libras.
3 GRAUS DE INTENSIDADE GRAMATICAL NAS LÍNGUAS
Este capítulo aborda o contexto gramatical, relacionado às formas de expressão dos diferentes graus de intensidade gramatical no PB e, particularmente em Libras. Optou-se por esse tema devido à possibilidade de a intensidade gramatical ser quantificada, uma vez que a propriedade de intensificar reflete o aumento ou redimensionamento de uma propriedade. A quantificação pode refletir parâmetros físicos relacionados ao movimento, e esse é o tema escolhido nesta tese. Os graus de intensidade gramatical nas línguas podem ser usados para efeitos de focalização e para dar ênfase relacionada às intenções e atitudes subjetivas do falante em relação ao enunciado ou a alguma de suas partes (GONÇALVES, 2002). Sendo assim, este capítulo pretende discutir a propriedade correspondente à intensidade gramatical relacionada ao acréscimo de um item lexical (ou morfema) e ao acréscimo de um parâmetro físico em Libras e no PB. O termo intensificador é
“usado em algumas classificações GRAMATICAIS das PALAVRAS para indicar uma CLASSE de ADVÉRBIOS que provocam o efeito de aumentar ou diminuir a SIGNIFICAÇÃO de outro ELEMENTO da SENTENÇA. EX. muito, terrivelmente, pouco, um tanto, etc”. (CRYSTAL, 2000, P. 149)
Na língua Portuguesa, o advérbio e o adjetivo expressam graus de intensidade de maneira comparativa e superlativa da seguinte forma: (CEGALLA, 2008)
a. O grau comparativo do adjetivo compara qualidades dos seres, como por exemplo: Sou tão alto como você; Sou mais alto que você; Sou menos alto que você.
b. O grau superlativo dos adjetivos expressa qualidades em um grau muito elevado ou em um grau máximo, como por exemplo: A torre é altíssima; João é o mais alto de todos; Pedro é o menos alto de todos.
c. A maioria dos advérbios modifica o verbo, ao qual acrescentam uma circunstância. Todavia, os advérbios de intensidade podem também modificar os adjetivos e os advérbios, por meio de intensificadores como: muito, pouco, assaz, bastante, mais,
menos, tão, meio, todo, completamente, profundamente, excessivamente, demais, apenas, etc. Na sentença: "Paulo jogou muito bem", a palavra muito intensificou o
sentido do advérbio bem. Por outro lado, na sentença: "A moça é muito linda", a palavra muito intensificou a qualidade contida no adjetivo linda. Observa-se que em ambas as frases muito corresponde a um advérbio.
Os graus de intensidade gramatical estão diretamente ligados à perspectiva (ou ao ponto-de-vista) do emissor que, ao intensificar, encaminha seu interlocutor para juízos de valor a respeito de algo ou alguém, atribuindo ao item enfatizado grande relevância e tornando-o marcado (GONÇALVES, 2002). A intensificação gramatical, segundo Lopes (1992), além de abranger aspectos formais e semânticos, funciona também como um dos operadores pragmáticos da linguagem, apresentando estratégias argumentativas empregadas com a finalidade, dentre outras, de expressar o grau de apreciação, manipular e persuadir, revelando, assim, a intenção da fala. Segundo o autor, diferentes processos de intensificação podem ser agrupados em duas grandes classes semânticas:
Os amplificadores (marcadores de uma intensificação relativa tipo aproximativa, adequativa ou excessiva, situada acima do grau médio, ou então de uma intensificação absoluta ou totalizante);
Os atenuadores (marcadores de uma intensificação do tipo aproximativa ou minimal situada nas proximidades ou abaixo do grau médio).
Os marcadores de intensificação gramatical, segundo Lopes (1992), não se limitam somente a indicar um simples aumento ou diminuição da intensidade. Esses podem indicar também um ponto numa escala de valores situados acima ou abaixo do ponto neutro (ou médio) dela, como é o caso dos amplificadores relativos, os quais são capazes de expressar uma intensificação relativa, correspondente a graus aproximativo-superior, médio-superior e superior. Essa noção de grau, segundo o autor, evidencia que a intensificação gramatical pertence à área da quantificação. Além disso, Lopes (1992) esclarece que o emprego de um intensificador gramatical revela também certas subjetividade e relatividade ligadas à experiência de cada um e à posição assumida pelo locutor perante determinada apreciação, que pode tomar uma dentre duas direções (aumento ou diminuição da intensidade gramatical) a partir de um ponto neutro (LOPES, 1992).
As próximas seções apresentam o debate sobre a relação entre o acréscimo de um item lexical ou morfema, e o acréscimo de um parâmetro físico com graus de intensidade gramatical em PB e em Libras, visando contextualizar o segmento da gramática estudado nesta tese.