AGED FEMALES
TARTIŞMA VE SONUÇ
J ´a tendo clarificado os pontos em comum entre historicismo e holismo, nos vol- taremos exclusivamente ao historicismo e suas demais falhas. Iniciaremos com uma cr´ıtica a dois aspectos importantes daqueles historicistas chamados de anti-naturalistas, que n ˜ao concordam com a uni ˜ao do m ´etodo entre ci ˆencias sociais e naturais. Eles afirmam serem os m ´etodos completamente diferentes, n ˜ao sendo poss´ıvel concili ´a-los, e isso se deve a um p ´essimo entendimento do que ´e o m ´etodo das ci ˆencias naturais. Sem d ´uvida diferenc¸as existem, mas as semelhanc¸as s ˜ao tantas que podemos afirmar ser um m ´etodo ´unico. Estes pontos s ˜ao a variabilidade das condic¸ ˜oes experimentais e a possibilidade de generalizac¸ ˜oes.
4.2 Experimentos e Generalizac¸ ˜oes 56
Um f´ısico, ao realizar experimentos, sabe que resultados diferentes podem ocorrer mesmo sob condic¸ ˜oes que, `a primeira vista, parecem semelhantes. Um longo processo (tanto te ´orico como pr ´atico) ´e necess ´ario para que se definam quais condic¸ ˜oes devem ser similares para a realizac¸ ˜ao de um determinado experimento. “A quest ˜ao do qu ˆe deve ser descrito como “condic¸ ˜oes iniciais” depende do tipo de experimento e pode ser respondida apenas por meio de experimentos” (PH, p. 86). Esse processo de experimentac¸ ˜ao, embora n ˜ao parec¸a, ´e aplicado todo o tempo.
Podemos descrever como se d ´a esse processo. Ap ´os o estabelecimento das teo- rias que guiar ˜ao o experimento, conduzimos um primeiro experimento que determinar ´a quais condic¸ ˜oes s ˜ao relevantes. Se queremos calcular com qual velocidade uma esfera rola por cima de uma superf´ıcie, n ˜ao nos interessa qual a cor da esfera; mas dezenas de outros fato- res podem interferir no processo, como a massa, a velocidade inicial, a acelerac¸ ˜ao, o material da qual ´e fabricada e o di ˆametro da esfera, eventuais forc¸as (gravitacionais, eletromagn ´eticas ou mec ˆanicas) que podem vir a agir sobre ela, o coeficiente de atrito e inclinac¸ ˜ao da mesa, etc.. Esses fatores n ˜ao s ˜ao determinados a priori: eles dependem do tipo de experimento que queremos conduzir, e a pequena lista acima, onde dez desses fatores s ˜ao listados, est ´a longe de ser exaustiva; poder´ıamos listar dezenas de outros fatores, mais ou menos impor- tantes a depender do experimento a ser realizado. Se procur ´assemos investigar como se d ´a a incid ˆencia de luz sobre essa mesma esfera, a cor (e mais dezenas de outros fatores) seria importante e a massa dispens ´avel. Isso refuta a afirmac¸ ˜ao historicista de que a repetic¸ ˜ao de experimentos ´e exclusiva das ci ˆencias naturais. As ci ˆencias sociais tamb ´em poderiam con- duzir experimentos utilizando fatores similares, desde que em primeiro lugar investigassem quais fatores s ˜ao relevantes para o experimento em quest ˜ao.
O mesmo pode ser dito a respeito do isolamento artificial. Segundo os historicis- tas, seria imposs´ıvel conduzir nas ci ˆencias sociais experimentos artificialmente isolados. ´E claramente imposs´ıvel isolar um determinado objeto de todas as influ ˆencias externas. Pre- cisamos descobrir quais influ ˆencias s ˜ao nocivas para o experimento em quest ˜ao, e apenas essas precisam ser evitadas. Apenas por meio de experimentos podemos descobrir quais s ˜ao esses fatores nocivos e quais n ˜ao precisam serem isolados para o experimento em quest ˜ao.
As diferenc¸as t ˜ao apregoadas pelo historicista entre as ci ˆencias naturais e sociais n ˜ao resistem a um exame mais profundo. O historicista afirma ser imposs´ıvel o m ´etodo do experimento pelas diferenc¸as entre per´ıodos hist ´oricos. Mas n ˜ao s ˜ao os fatores relevantes para um experimento aquilo que muda num per´ıodo diferente? Provavelmente um homem hodierno, se transportado para algum ponto do passado, descobriria que muitas das suas expectativas n ˜ao seriam realizadas. Mas apenas por meio de experimentos eles poderia descobrir que houve um mudanc¸a no ambiente social. Se isolado, esse homem continuaria a manter suas mesmas expectativas; o contato com outras pessoas o faria perceber, por meio de pequenos experimentos (muitas vezes conduzidos at ´e mesmo inconscientemente), que o
ambiente havia mudado. O mesmo acontece nas ci ˆencias naturais. Um mesmo experimento realizado na linha do Equador e no P ´olo Norte provavelmente teria resultados diferentes; mas s ´o por meio de um experimento saber´ıamos que as condic¸ ˜oes do ambiente mudaram e, por conseguinte, porqu ˆe o nosso experimento n ˜ao apresentou o mesmo resultado. Por tais motivos, ´e equivocada a m ´axima historicista de que o m ´etodo experimental n ˜ao pode ser aplicado `as ci ˆencias sociais.
Agora nos voltemos a uma segunda m ´axima historicista, que generalizac¸ ˜oes usu- ais do m ´etodo experimental seriam imposs´ıveis pela exist ˆencia de per´ıodos hist ´oricos dis- tintos. Embora tenhamos iniciado com observac¸ ˜oes sobre como o m ´etodo experimental se articula na pr ´atica, de modo algum experimentos s ˜ao anteriores `a teorias12.
Alguns historicistas afirmam que nossas generalizac¸ ˜oes estariam confinadas a determinados per´ıodos hist ´oricos. Normalmente, entendemos que certos aspectos do nosso dia a dia s ˜ao exclusivos da nossa determinada ´epoca. Pequenas coisas, como o modo de vestir, como nos cumprimentamos, s ˜ao de fato v ´alidas apenas em determinadas ´epocas (ou determinadas culturas). Essas constatac¸ ˜oes levam o historicista a concluir que toda e qual-
quer regularidade seria, ent ˜ao, espec´ıfica de cada ´epoca. Afirmar isso ´e um ponto trivial. Mas
o historicista afirma mais: isso seria uma caracter´ıstica exclusiva das ci ˆencias sociais. Logo, ser´ıamos impossibilitados de descobrir (se ´e que existem) leis sociais v ´alidas em quaisquer per´ıodos.
Popper nos esclarece que essa situac¸ ˜ao de forma alguma ´e exclusiva das ci ˆencias sociais. Uma mudanc¸a no ambiente f´ısico tamb ´em causaria mudanc¸as em aspectos que as- sum´ıamos anteriormente como v ´alidos. Imaginemos a Terra hoje (com v ´arios continentes distintos) e a Terra milh ˜oes de anos atr ´as (quando ainda existia somente um grande conti- nente, Pangeia). Sem d ´uvida, o clima de um trecho da Pangeia que seria correspondente ao Brasil atual seria completamente diferente do que estamos acostumados hoje. Um ho- mem subitamente transportado do Brasil para a Pangeia ficaria espantado com essa enorme mudanc¸a, j ´a que ele esperaria um clima similar. “Noutras palavras, longe de tornar experi- mentos sociais imposs´ıveis, a doutrina da diferenc¸a entre per´ıodos hist ´oricos ´e apenas uma express ˜ao de que, caso transportados para outro per´ıodo, continuar´ıamos a conduzir nossos experimentos graduais, embora com resultados surpreendentes ou desconcertantes” (PH, p. 87).
Ao formular uma lei, mesmo n ˜ao podendo garantir sua validade em qualquer am- biente f´ısico, assumimos que ela ´e v ´alida. Kepler criou leis baseadas no sistema solar em que viveu; mas em nenhum ponto da lei ´e especificado que elas s ˜ao v ´alidas apenas no nosso sistema solar. Assumir que n ˜ao podemos assegurar a validade de uma lei no ˆambito social seria um sinal de uma p ´essima postura cient´ıfica. Procuramos leis que sejam invari ´aveis. As-