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GEREÇ VE YÖNTEM Denekler
Antes de prosseguirmos, ´e necess ´aria uma pequena digress ˜ao para um outro assunto que se mostrar ´a important´ıssimo quando analisarmos o papel da racionalidade nas ci ˆencias sociais. Essa mat ´eria versa sobre a teoria ontol ´ogica popperiana, tamb ´em conhecida como teoria dos 3 mundos. Faremos n ˜ao mais que uma r ´apida explicac¸ ˜ao, j ´a que esse n ˜ao ´e objetivo principal do trabalho.
Antes de mais nada, ´e not ´orio que Popper se denomina um realista. Niiniluoto (1999, p. 21), afirma que “como uma tese ontol ´ogica, realismo ´e a doutrina que existe uma realidade independente da mente”. A mais acabada sumarizac¸ ˜ao da doutrina popperiana se encontra em seu artigo “On the Theory of Objective Mind” (OK, pp. 106-190), onde Popper desenvolve sua teoria dos mundos ontol ´ogicos. Existiriam 3 mundos distintos (OK, p. 154); os Mundos 1 e 2 correspondem, respectivamente, aos mundo f´ısico (material, org ˆanico e inorg ˆanico) e mental (ou de estados mentais subjetivos), como no cl ´assico dualismo mente- corpo. Como muitos dos que sustentam o dualismo, ele tamb ´em n ˜ao acredita ser o Mundo 2 redut´ıvel ao Mundo 1, isto ´e, o Mundo 2 ´e um mundo aut ˆonomo que n ˜ao pode ser reduzido a um estado puramente f´ısico. Popper oscila entre uma posic¸ ˜ao dualista45, e uma pluralista.
Em sua posic¸ ˜ao pluralista existiria tamb ´em um terceiro Mundo, “o mundo dos intelig´ıveis, ou
ideias no sentido objetivo” (OK, p. 155, grifo do autor). Nesse mundo seriam inclu´ıdas todas
as nossas criac¸ ˜oes intelectuais (mitos, teorias cient´ıficas verdadeiras e falsas, obras de arte etc.).
Para Popper, os habitantes caracter´ısticos desse [terceiro] reino s ˜ao enti- dades abstratas como proposic¸ ˜oes, argumentos, teorias, e n ´umero naturais [. . . ] o Mundo 3 ´e composto por aquelas entidades abstratas, culturais e soci- ais, que n ˜ao s ˜ao (simplesmente) objetos f´ısicos e processos nem est ˜ao ‘nas nossas cabec¸as’ (NIINILUOTO, 1999, p. 23).
Os objetos do Mundo 3 s ˜ao semelhantes `as Formas (ou Ideias) plat ˆonicas: ambos s ˜ao reais, aut ˆonomos e ocupam um lugar central na nossa cognic¸ ˜ao. Todavia, ao contr ´ario das Formas plat ˆonicas, objetos eternos e imut ´aveis, os objetos do Mundo 3 s ˜ao criac¸ ˜oes te ´oricas humanas (muitas vezes surgidas sem qualquer intenc¸ ˜ao) que, depois de geridas, desenvolvem-se independentemente de n ´os. Apesar de Popper afirmar que elas podem ser destru´ıdas, isso n ˜ao ´e completamente verdadeiro: a falta de manifestac¸ ˜ao de uma ideia nos Mundos 1 e 2 n ˜ao significa que ela tenha sido destru´ıda, mas sim que ela ´e desconhecida por n ´os. Imaginemos a doutrinas n ˜ao escritas de Plat ˜ao, ou os poemas dos pr ´e-socr ´aticos: sabemos que eles existiram por fontes secund ´arias, embora n ˜ao os conhec¸amos diretamente.
45Em The Self and Its Brain (POPPER; ECCLES, 2003), Popper assume tal posic¸ ˜ao na discuss ˜ao do problema corpo-mente. A an ´alise do m ´etodo feita aqui baseia-se em opini ˜oes de Popper que v ˜ao, quando muito, at ´e o in´ıcio a d ´ecada de 1970. Seus estudos sobre filosofia da mente s ´o foram feito depois disso, o que nos leva a uma d ´uvida: teria ele mudado de posic¸ ˜ao, ou essa oscilac¸ ˜ao seria apenas uma falha?
2.4 Os 3 Mundos Ontol ´ogicos 32
Caso, algum dia, viesse a ser achado um poema pr ´e-socr ´atico at ´e ent ˜ao desconhecido, pas- sar´ıamos a conhec ˆe-lo. Em nenhum momento a doutrina foi destru´ıda, apenas at ´e o presente momento n ˜ao existiam meios de tomar conhecimento dela.
O Mundo 3 n ˜ao deve ser entendido como uma construc¸ ˜ao et ´erea ou abstrata. Assim como os outros dois Mundos, ele ´e real, podendo afetar e ser afetado pelos outros dois. Podemos dizer que uma teoria criada no Mundo 3, por modificar estados mentais subjetivos (presentes no Mundo 2), alteraria o c ´erebro de um pessoa (um objeto f´ısico, do Mundo 1), mas mesmo essas inst ˆancias presentes nos Mundos 1 e 2 s ˜ao apenas aspectos dessa entidade presente no Mundo 3 e, como tal, n ˜ao podem ser identificadas com aquele conceito presente no terceiro Mundo. Ent ˜ao qualquer construc¸ ˜ao do Mundo 3 pode, mesmo que indiretamente, alterar o mundo f´ısico. Uma reduc¸ ˜ao de n ´umeros, conceitos, e afins, a estados puramente f´ısicos e mentais levaram a conclus ˜oes inaceit ´aveis, o que faz Popper formular sua teoria. Sua teoria pode ser interpretada, ent ˜ao, como uma alternativa `a reduc¸ ˜ao fisicalista do Mundo 3 ao Mundo 1. Pode-se perceber que o conceito de “realidade” assumido por Popper pode ser tomado como sin ˆonimo de “causalidade”: algo ´e real se pode interferir causalmente noutro ser, n ˜ao importa como. Importante notar que independ ˆencia ontol ´ogica em nenhum momento se confunde com independ ˆencia causal, pois posso ser ontologicamente independente de uma pedra, mesmo que possa interagir causalmente com ela.
Normas e instituic¸ ˜oes sociais, por fazerem parte do Mundo 3, operam do mesmo modo. Muitos dos que sustentam que modelos do mundo social s ˜ao objetos concretos o fazem por abrac¸ar o essencialismo46. A confus ˜ao ´e, de certo modo, justific ´avel: ao vermos
um “ex ´ercito”, acreditamos que ele exista. Afinal, pessoas de farda, com uma determinada func¸ ˜ao e hierarquia pr ´opria, ali se postam como parte dele. O que ´e concreto, por ´em, apenas s ˜ao essas pessoas que dele fazem parte; o ex ´ercito ´e nada mais que um conceito criado por n ´os mesmos. N ˜ao pesquisamos sobre “o” ex ´ercito, mas sobre caracter´ısticas (disposta entre os Mundos 1, 2 e 3).
Um objeto, com suas propriedades f´ısicas e n ˜ao-f´ısicas, ´e uma entidade cul-
tural no Mundo 3. Tal entidade tem, por assim dizer, um n ´ucleo material no
Mundo 1 que, enriquecido por meio de relac¸ ˜oes com entidades dos Mundos 2 e 3, se torna um objeto cultural com algumas propriedades relacionais im- plicadas. A despeito das suas ‘caracter´ısticas mistas’, podemos distinguir conceitualmente as frac¸ ˜oes pertencentes aos Mundos 1 e 3 de entidades culturais (NIINILUOTO, p. 33).
Diversas interpretac¸ ˜oes s ˜ao poss´ıveis para essa teoria: o materialismo diria que os Mundos 2 e 3 s ˜ao “produtos evolucion ´arios” (NIINILUOTO, 1999, p. 24) (ou redut´ıveis ao) do Mundo 1, enquanto um idealista poderia considerar o Mundo 3 como um mundo prim ´ario criado por um ser superior. Popper rejeitaria ambas, j ´a que, para ele, nenhum dos 3 Mundos
46Cf. § 1.1.10 para um melhor entendimento de como Popper compreende o diss´ıdio entre o nominalismo e (o que ele chama) o essencialismo.
´e “superior” ao outro ontologicamente: os 3 ocupam uma mesma posic¸ ˜ao; se existe alguma primazia ´e apenas temporal (sem d ´uvida, o Mundo 1 veio a existir primeiro, embora isso n ˜ao implique alguma “superioridade” perante os outros dois Mundos47).