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IN TURKISH 1. LEAGUE THROUGH 2002–2003

GEREÇ VE YÖNTEM

Muito do que j ´a foi dito aqui pode levar a conclus ˜ao que o historicismo ´e um m ´etodo fatalista e que prega inatividade. Os historicistas, todavia, n ˜ao pensam desse modo. O historicismo “n ˜ao ensina que algo n ˜ao pode ser produzido: ele apenas prev ˆe que nem nossos sonhos, tampouco o que nossa raz ˜ao idealiza, ser ˜ao produzidos de acordo com um

plano” (PH, p. 44, grifos do autor). As leis hist ´oricas nos s ˜ao dadas, resta a n ´os descobri-las

e adaptar nossos planos de acordo com a trajet ´oria da hist ´oria.

Essa ˆansia em interpretar a hist ´oria para prever o futuro oferece ao historicista o ˆanimo necess ´ario para planejar algo que se enquadre na direc¸ ˜ao que ela tomar ´a. O histori- cismo “nega `a raz ˜ao humana o poder de trazer um mundo mais razo ´avel” (PH, p. 45, grifos do autor). Embora grande parte dos autores historicistas12 anuncie um “reino de liberdade”

no futuro, todos sustentam o mesmo ponto: toda atividade s ´o ser ´a produtiva se seguir o curso pr ´e-determinado da hist ´oria. “O historicista pode apenas interpretar o desenvolvimento social e auxili ´a-lo de diversas maneiras; seu ponto, todavia, ´e que ningu ´em pode modific ´a-lo” (PH, p. 46, grifo do autor).

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Historicismo: um m ´etodo pobre?

J. S. Mill, famoso historicista, j ´a apontava a exist ˆencia de dois m ´etodos nas ci ˆencias sociais: um gradual (o que Popper chama de tecnologia social gradual), e o que faria uso de um “m ´etodo hist ´orico”, afirmando a superioridade do segundo. Expomos, ainda que de forma resumida – seria imposs´ıvel trabalhar todos os detalhes, de Plat ˜ao a Neurath, passando por Comte, Marx e Hegel, dos adeptos dessa doutrina –, esse m ´etodo hist ´orico, o historicismo. Sem d ´uvida ´e um m ´etodo sedutor, do contr ´ario n ˜ao teria tantos seguidores. Mas quais s ˜ao suas falhas? O grande objetivo deste cap´ıtulo ´e mostrar que, a despeito do autor ou de sua posic¸ ˜ao a respeito do m ´etodo das ci ˆencias naturais (acreditar ou n ˜ao que ele pode ser usado nas ci ˆencias sociais ou, o que ´e mais comum, fazer uma combinac¸ ˜ao de aspectos seleciona- dos de ambos), o historicismo n ˜ao entende como opera a ci ˆencia natural.

4.1

Historicismo e Utopianismo

A definic¸ ˜ao exposta no cap´ıtulo anterior parece nos apontar que o m ´etodo histori- cista seria contr ´ario ao ativismo. Mas pelo contr ´ario, de modo algum o ´e. Marx1 j ´a diz que tal m ´etodo hist ´orico pode criar “atalhos” para o aparecimento de novos per´ıodos hist ´oricos. An- tes de conformar-se e esperar pelo que vir ´a, o historicismo clama pela ac¸ ˜ao, esperando que n ´os busquemos esse novo per´ıodo que est ´a por vir; evidentemente, o ´unico curso hist ´orico poss´ıvel ´e aquele que o historicista afirma como poss´ıvel. O ativismo, que poderia ser tra- tado como mat ´eria exclusiva de m ´etodo graduais, n ˜ao ´e um dos pontos que caracterizam o historicismo, apesar de frequentemente ser visto como seu aliado. Assim como a tecnologia social gradual, o historicismo tamb ´em ´e um m ´etodo tecnol ´ogico, embora seja definido por seu car ´ater holista. Popper (PH, pp. 66-7) afirma que esse holismo permite que o historicismo se alie com m ´etodos sociais ut ´opicos: “encontramos o historicismo frequentemente aliado justamente `aquelas ideias t´ıpicas da engenharia social holista ou Ut ´opica, como as ideias de um “esboc¸o para uma nova ordem”, ou “planejamento centralizado”. Por outro lado, os histo- ricistas, aqueles caracterizados por Popper como ut ´opicos, o chamam desse mesmo modo. Quem deveria ser verdadeiramente caracterizado como ut ´opico?

Dois dos historicistas mais famosos, Plat ˜ao e Marx, nos iluminam quanto ao fun- cionamento desse m ´etodo holista e ut ´opico. Plat ˜ao era um pessimista e afirmava toda mudan- c¸a ser decad ˆencia; seu plano consistia em impedir qualquer mudanc¸a. J ´a Marx, otimista, acreditava numa nova era, onde todos os homens seriam livres de qualquer coerc¸ ˜ao do estado ou de outros homens. Hoje ambos, Plat ˜ao e Marx, buscariam sociedades chama- das, respectivamente, “est ´aticas” e “din ˆamicas”. O historicista faz um uso err ˆoneo de ambos os termos, tomados emprestados da astronomia. O tipo de sociedade por ele chamado de “est ´atica” ´e exatamente o que um f´ısico chamaria de “din ˆamica“, embora estacion ´aria2. Por essa descric¸ ˜ao dos dois ´e poss´ıvel visualizar o aspecto comum a ambos – historicismo e utopianismo –, seu car ´ater holista. Ambos n ˜ao procuram o desenvolvimento de aspectos sin- gulares do ambiente social, mas da sociedade como um todo. Pode-se notar, tanto em Plat ˜ao como em Marx, uma ˆansia em operar desse modo; Plat ˜ao buscando impedir e controlar a mudanc¸a completamente, Marx tentando racionaliz ´a-la e prever seu curso.

O termo “totalidade”, tal qual usado pelos historicistas, leva a interpretac¸ ˜oes d ´ubias. Dois s ˜ao os significados que ele pode adquirir: a) o conjunto de todas as propriedades (ou aspectos) de algo, bem como as relac¸ ˜oes entre suas partes; e b) certas propriedades de algo, aquelas que em conjunto formam uma estrutura determinada. “Totalidades” no sentido ‘b)’ s ˜ao frequentemente objeto de estudo da ci ˆencia (especialmente ap ´os criac¸ ˜ao da teoria psicol ´ogica Gestalt, que os colocou em evid ˆencia). Essas totalidades ‘b’ s ˜ao mais que meros agregados, “mais que a mera soma de suas partes” (PH, p. 70). Popper (PH, pp. 70-1) nos d ´a um exemplo clarificador. Notas colocadas em sequ ˆencia formam uma determinada melodia; essa melodia ´e um aspecto relacional que uma dessas notas isoladamente n ˜ao teria. Con- tudo, uma melodia est ´a longe de significar todos os aspectos que aquele conjunto de sons pode ter. Do mesmo modo que escolhemos a melodia, poder´ıamos ter escolhido o tom dessa sequ ˆencia, e ambos s ˜ao aspectos igualmente significativos daquele conjunto. Queremos ape- nas atentar para o fato que “totalidades” no sentido ‘b)’ podem ser estudadas cientificamente (podemos estudar uma melodia), enquanto “totalidades” no sentido ‘a)’ n ˜ao (n ˜ao ter´ıamos um estudo, apenas uma lista descritiva infinita). Um estudo cient´ıfico ´e necessariamente seletivo3.

Os historicistas parecem n ˜ao atentar para tal fato. Segundo eles, “totalidades” no sentido ‘a)’ podem ser estudadas cientificamente. J ´a “totalidades” no sentido ‘b)’, de acordo com os mesmos, “podem ser apreendidas por percepc¸ ˜ao direta e intuitiva” (PH, p. 72), o que n ˜ao aconteceria com “totalidades” no sentido ‘a)’, apreendidas apenas ap ´os um longo processo de reflex ˜ao. O que parece ser ignorado ´e que “todo conhecimento, seja intuitivo ou

2Num sistema estacion ´ario existe movimento, embora repetitivo, por isso ele ´e estacion ´ario. Um bom exemplo ´e o sistema solar: ele n ˜ao se modifica, n ˜ao muda suas caracter´ısticas principais (exceto se houver uma influ ˆencia externa). Cf. PH, pp. 103-4.

3Mesmo uma ´ınfima pec¸a do mundo pode ser descrita de infinitas maneiras. A cadeira na qual estou sentado agora pode ser descrita como “uma cadeira”, “uma pec¸a de mobili ´ario”, e assim sucessivamente. Essa lista n ˜ao ´e exaustiva; poder´ıamos passar o resto de nossas vidas listando modos de classificar essa ´unica cadeira. Uma “totalidade” classificada desse modo jamais poderia ser objeto de estudo cient´ıfico.

4.1 Historicismo e Utopianismo 52

discursivo, precisa ser de aspectos abstratos4, pois nunca podemos apreender a “realidade

social concreta nela mesma” (PH, p. 72). N ˜ao ´e poss´ıvel partir de determinados aspectos, estes facilmente descobertos, e determinar o “processo” que os levou a serem formados. Mesmo os historicistas n ˜ao d ˜ao um ´unico exemplo de como esse programa sairia da teoria para a pr ´atica, pois ele ´e imposs´ıvel. Um exemplo anterior5pode nos ser ´util novamente: clas- sificar uma cadeira como uma pec¸a de mobili ´ario seria ´util para um estudo arquitet ˆonico, mas dispens ´avel para um estudo qu´ımico acerca das propriedades do ´atomos que formam a ma- deira (ou de qualquer outro material que possa compor a cadeira). E mesmo numa lista que desse diversas definic¸ ˜oes de “cadeira” sempre poder´ıamos apontar aspectos que foram negli- genciados (e que poderiam ser importantes ou n ˜ao para determinados estudos). Mais grave que apenas propor uma definic¸ ˜ao dessas “totalidades” pretensamente cient´ıficas, os histori- cistas afirmam que a ci ˆencia deve estud ´a-las, control ´a-las e modific ´a-las6. A impossibilidade

de tal modificac¸ ˜ao, por ´em, ´e uma impossibilidade l ´ogica: cada objeto (suas infinitas propri- edades e relac¸ ˜oes), ao ser modificado, criaria uma nova gama de propriedades e relac¸ ˜oes, que por sua vez deveriam ser tamb ´em modificadas para que o objetivo inicial fosse alcanc¸ado, num processo que se estenderia ad infinitum. A impossibilidade ´e vista mesmo num estudo de toda a sociedade, estudo que, por sua vez, deveria tamb ´em ser inclu´ıdo. Isso ´e negligen- ciado pelos historicistas, em sua ˆansia de encontrar e controlar “totalidades” no sentido ‘a)’. O m ´etodo hist ´orico (ou o que deveria ser entendido como tal) est ´a longe de operar com ob- jetos concretos, como acredita o historicista. Uma investigac¸ ˜ao acerca de um aspecto ´ınfimo da sociedade (digamos, a hist ´oria de uma fam´ılia), lida com aspectos determinados dessa hist ´oria: a hist ´oria financeira da fam´ılia, a matrimonial, etc.. E mesmo um estudo desses as- pectos ainda seria deveras incompleto; quem dir ´a estudar algo infinitamente maior, digamos a hist ´oria econ ˆomica da humanidade.

A busca por “estados da sociedade” ou de um todo que englobe todas as proprie- dades de um determinado momento ´e uma busca v ˜a. A hist ´oria n ˜ao deve ser entendida como um desenvolvimento cont´ınuo; antes ´e uma sucess ˜ao de eventos aleat ´orios que adquire um significado quando entendido sob determinado contexto. Uma doutrina como a historicista, ao contr ´ario do que os pr ´oprios pensam, ´e uma doutrina t´ıpica de um per´ıodo pr ´e-cient´ıfico7.

O holismo ´e particularmente nocivo para o pensamento historicista por trazer impl´ıcita a ideia que “experimentos sociais, para serem realistas, precisam caracterizar-se como tentativas ut ´opicas de remodelac¸ ˜ao da sociedade como um todo” (PH, p. 77). Se lem-

4No momento, ainda n ˜ao ser ´a explanado o porqu ˆe serem abstratos os entes sociais; Cf. § 4.3. 5Cf. n. 3, p. 51.

6Alguns, como Popper cita (PH, p. 73), profetizam o ponto em que essa “totalidade” seria modificada a um ponto em que a sociedade se identificaria com o estado. Sua cr´ıtica `a moral historicista se encontra detalhada nos dois volumes de The Open Society and Its Enemies. Contudo, tal assunto n ˜ao ´e o objetivo desse trabalho.

7Embora Popper tente criticar o historicismo apenas no terreno metodol ´ogico, percebemos diversas afirmac¸ ˜oes (como a anterior) ideol ´ogicas.

bramos8 que esses experimentos sociais – ao contr ´ario dos experimentos da f´ısica, onde

procuramos, em primeiro lugar, aumentar nosso conhecimento – s ˜ao conduzidos visando o sucesso pol´ıtico, temos uma noc¸ ˜ao de como um experimento desse tipo pode causar males `a sociedade.

Devemos levar em considerac¸ ˜ao que n ˜ao possu´ımos o conhecimento necess ´ario para um experimento dessa escala. O historicista poderia argumentar que um engenheiro pode construir uma m ´aquina de grande porte, logo ele poderia trac¸ar um plano de grandes proporc¸ ˜oes. Mas o historicista n ˜ao leva em considerac¸ ˜ao todos os pequenos experimentos conduzidos at ´e ent ˜ao que permitem a m ´aquina, nos moldes de ent ˜ao, poder ser constru´ıda hoje. Uma comparac¸ ˜ao desse tipo, portanto, n ˜ao poderia ser feita. Um historicista poderia ad- mitir seu erro, e at ´e mesmo admitir que precisamos da pr ´atica e da experimentac¸ ˜ao. Contudo, ele insistiria que sem conduzir um experimento holista n ˜ao poder´ıamos tentar corrigir essas pequenas falhas. O nosso conhecimento, grande ou pequeno, deve ser usado e transformado num plano de grandes proporc¸ ˜oes. Segundo o historicista, seria n ˜ao mais que o m ´etodo ex- perimental aplicado `a sociedade. Uma experi ˆencia simulando a economia socialista numa pequena vila ´e in ´util; esse experimento s ´o ter ´a algum valor se for aplicado imediatamente `a sociedade inteira. Para os historicistas (e ut ´opicos em geral), “um experimento social (se h ´a)

poderia ser de valor apenas se conduzido num escala holista” (PH, p. 78, grifo do autor)

Popper apresenta duas objec¸ ˜oes a essa constatac¸ ˜ao. Em primeiro lugar, ela negli- gencia o papel dos experimentos graduais, important´ıssimos para qualquer pretensa postura cient´ıfica (e at ´e mesmo pr ´e-cient´ıfica). ´E imposs´ıvel negar que fazemos pequenos experi- mentos todos os dias. Mesmo nossas ac¸ ˜oes mais triviais s ˜ao, de certo modo, experimentos. Do mesmo modo um construtor de barcos s ´o consegue faz ˆe-lo hoje por conta dos diversos experimentos que foram conduzidos no passado e que o ensinaram como lidar com diversas dificuldades na tarefa de construir barcos. Vemos que n ˜ao existe uma barreira demarcando uma atitude cient´ıfica de uma pr ´e-cient´ıfica9. O que muda ´e a nossa atitude cr´ıtica, em cons- cientemente conhecer nossos erros e buscar aprender com eles. Sa´ımos de um est ´agio pr ´e-cient´ıfico `a medida em que assumimos uma postura cr´ıtica, isto ´e, conscientemente pro- curamos nossos erros e tentamos corrigi-los. Nas ci ˆencias sociais nossa atitude deve ser a mesma. Toda ac¸ ˜ao pol´ıtica (e lembremos que Popper considera as ci ˆencias sociais uma ci ˆencia para o pol´ıtico) tem efeitos indesej ´aveis10; a diferenc¸a entre um pol´ıtico iniciante e um

experiente ´e que o segundo procura seus erros e tenta consert ´a-los pouco a pouco.

Em segundo lugar, Popper duvida que experimentos holistas possam contribuir

8Cf. § 1.1.2.

9Novamente vemos uma afirmac¸ ˜ao ideol ´ogica. Propor uma barreira deste modo s ´o ´e poss´ıvel se definirmos primeiro o que ´e uma atitude cient´ıfica. Cf. nota 7, p. 52.

10Qualquer experimento (natural ou social) produz efeitos indesej ´aveis; apenas consideramos como bem su- cedidos aqueles em que esses efeitos podem ser desprezados. Nas ci ˆencias sociais, pela impossibilidade do controle do fator humano e o descontentamento que qualquer medida pol´ıtica pode causar a uma determinada parcela da sociedade, esses efeitos geralmente s ˜ao mais percept´ıveis.

4.1 Historicismo e Utopianismo 54

para nosso aumento de conhecimento. At ´e mesmo considera que experimentos holistas ape- nas podem ser chamados de “experimentos” por serem “uma ac¸ ˜ao cuja conclus ˜ao ´e incerta”, mas nunca como “um meio de adquirir conhecimento” (PH, p. 78, grifo do autor). As raz ˜oes s ˜ao simples. Em pequenos experimentos, podemos examinar cuidadosamente onde erra- mos e que resultado corresponde a qual vari ´avel. Num experimento holista isso ´e imposs´ıvel. Muito ´e feito ao mesmo tempo, e torna-se invi ´avel descobrir que vari ´avel foi respons ´avel pelo fracasso (ou sucesso) do plano. Quais vari ´aveis s ˜ao importantes para cada experimento ´e algo que s ´o pode ser descoberto por meio de experimentos graduais. Uma das raz ˜oes da impossibilidade da realizac¸ ˜ao de experimentos holistas pode ser considerada exclusiva das ci ˆencias sociais. Planos muito grandes tendem a modificar (ou causar algum tipo de inco- veniente) a um grande n ´umero de pessoas. Quanto maior o n ´umero de pessoas atingidas, menor a possibilidade de que todas concordem com o plano em quest ˜ao, o que tende a gerar uma resist ˆencia de certos setores da sociedade que discordam do plano. De certo modo, um experimento holista na sociedade ´e fadado ao fracasso desde o in´ıcio. S ˜ao necess ´arias me- didas autorit ´arias e de supress ˜ao da cr´ıtica11para garantir que o plano acontec¸a sem maiores percalc¸os.

Mardiros (1948) discorda das cr´ıticas de Popper. Ele afirma que “a natureza dos problemas sociais requer soluc¸ ˜oes complexas de largo escopo preferivelmente a reformas graduais individuais [...] tecnologia gradual ou planejamento gradual tornam-se inteligentes apenas quando param de ser graduais” (1948, p. 342), e para corroborar sua tese cita o fen ˆomeno da abolic¸ ˜ao da escravid ˜ao no s ´eculo XIX. Nenhum experimento foi necess ´ario para saber que n ˜ao apenas os escravos deveriam ser libertados, mas que os rec ´em libertos pre- cisariam ser inclu´ıdos na sociedade e isso s ´o aconteceria ap ´os reformas que garantissem a educac¸ ˜ao e o estabelecimento de direitos iguais, por exemplo. Segundo ele, o pr ´oprio Pop- per teria concordado ao escrever que “a diferenc¸a entre as engenharias ut ´opica e graduais torna-se na pr ´atica uma diferenc¸a n ˜ao tanto de escala e escopo” (PH, p. 63); um experimento gradual, ent ˜ao, por poder atingir proporc¸ ˜oes similares ao holista, seria n ˜ao mais que uma variac¸ ˜ao deste.

J ´a o segundo ponto seria n ˜ao mais que uma vit ´oria vocabular, diz-nos Mardiros. “Se por definic¸ ˜ao o planejamento holista ´e estabelecido como o planejamento de tudo, sem d ´uvida ´e imposs´ıvel”; contudo “pode-se asseverar a necessidade do planejamento de largo escopo e sua superioridade sobre planos graduais sem alegar que tudo precisa ser plane- jado” (1948, p. 343). Al ´em disso, o argumento de Popper tamb ´em falharia ao sustentar que experimentos holistas seriam obrigados a organizar a sociedade para que o plano pudesse funcionar, mas, ao fazer isso, seria imposs´ıvel analisar se o plano fora bem sucedido. Ora, isso tamb ´em acontece num experimento gradual. Se queremos eliminar a deliqu ˆencia deve-

11O historicista ignora que ´e poss´ıvel centralizar o poder, mas imposs´ıvel centralizar o conhecimento. Cf. PH, pp.78-9.

mos eliminar os fatores que a produzem, como a falta de educac¸ ˜ao, o desemprego, etc.. Isso modifica as pessoas. Logo, a mesma cr´ıtica poderia ser feita ao m ´etodo popperiano.

Argumento a favor de Popper afirmando que a cr´ıtica de Mardiros n ˜ao se sustenta. Sim, um experimento gradual pode atingir proporc¸ ˜oes similares ao holista. Todavia, Mardiros negligencia que um experimento inicialmente gradual s ´o atinge grandes proporc¸ ˜oes ap ´os um longo processo de deliberac¸ ˜ao e correc¸ ˜ao de falhas. N ˜ao devemos entender que h ´a (como Mardiros parece querer apontar) uma contraposic¸ ˜ao entre tipos de experimentos; h ´a antes um diss´ıdio entre doutrinas. Mardiros e os holistas j ´a assumem a priori que experimentos de grandes proporc¸ ˜oes s ˜ao poss´ıveis, ignorando (e denegrindo) o papel do pequeno trabalho cauteloso e detalhista. Popper, ao contr ´ario, prop ˜oe que busquemos primeiro tratar peque- nas falhas, para s ´o ent ˜ao almejar passos maiores. H ´a “uma diferenc¸a n ˜ao tanto de escala e escopo, mas no cuidado e prontid ˜ao para inevit ´aveis surpresas” (PH, p. 63). Voltemos ao exemplo da escravid ˜ao. Mardiros diz que n ˜ao foram necess ´arios experimentos para saber que os negros libertos deveriam ser inclu´ıdos na sociedade e como isso deveria ser feito; como ne- nhum experimento similar havia sido feito antes, um completamente novo era necess ´ario. Um experimento nos moldes daquele proposto por Mardiros seria conduzido dessa forma, bus- cando trac¸ar um plano de inserc¸ ˜ao completamente novo. J ´a Popper partiria de outro ponto: aquelas experi ˆencias anteriores efetuadas com populac¸ ˜oes desamparadas, por exemplo, po- deriam servir de base para o novo experimento. No caso daquele experimento proposto por Mardiros somos confrontados com um problema: como seriam poss´ıveis correc¸ ˜oes de efeitos indesej ´aveis num plano completamente novo? A resposta ´e simples: seria imposs´ıvel. Muito foi feito ao mesmo tempo, tornando imposs´ıvel detectar onde a falha ocorreu. O holista seria ent ˜ao obrigado a fazer uso de constantes improvisac¸ ˜oes, criando um fato curioso, um tipo de “planejamento n ˜ao planejado”. Essa correc¸ ˜ao seria poss´ıvel caso esse experimento houvesse sido planejado de acordo com a doutrina de Popper: um experimento que, mesmo atingindo grandes proporc¸ ˜oes, respeitou as diversas pequenas etapas que eram exigidas para a sua confecc¸ ˜ao e correc¸ ˜ao.

Benzer Belgeler