Enquanto na criança não se constela a estrutura da antítese entre masculino e feminino, consciente e inconsciente, ela aprende a diferenciar os opostos com base na estrutura macho- fêmea da mãe. Em outras palavras, a criança, na participação da relação primal, desenvolve seus próprios modos de reação ativos e passivos, masculinos e femininos conforme os existentes na mãe. Antes de se confrontar com o princípio masculino como “pai”, ela experimenta o princípio masculino como um aspecto inconsciente da mãe.
Enquanto mãe e filho mantêm uma identidade indiferenciada, a relação primal funciona para a criança como possibilidade de relacionamento com seu próprio corpo, com
seu Self, com o Tu e com o mundo, ao mesmo tempo. Essa relação é de base ontogenética da “experiência de estar no próprio corpo, estar com um Self, estar unido, estar no mundo” (NEUMANN, 1995, p. 25).
Em nossa cultura, o desenvolvimento necessário, por meio do qual a criança emerge da relação primal para alcançar maior independência, corresponde a uma transição do matriarcado psicológico, no qual o arquétipo da mãe é dominante, para o patriarcado psicológico, no qual domina o arquétipo do pai.
Esse desenvolvimento pode ser descrito como um todo, porque a progressão do matriarcado da relação primal para o patriarcado aplica-se, tanto para os meninos, como para as meninas.
Perturbando e acordando a criança, a fome é o seu primeiro estímulo para a consciência. O despertar e a consciência são as primeiras experiências de polaridade às quais a criança é exposta; conseqüentemente, ficam associadas ao desconforto. Enquanto no período embrionário intra-uterino o ser alimentado, o dormir, o ter abrigo na escuridão do inconsciente eram sensações idênticas, as mudanças ocorridas com a entrada da criança no mundo, e até mesmo no campo unitário da relação primal, fazem o princípio da oposição começar a exercer sua influência diferenciadora. Inicialmente, a inevitável coincidência de, despertar com a consciência de fome-desconforto é modificada pela mãe. É ela também quem por primeiro possibilita que o filho faça a associação, tão característica do homem, entre prazer e consciência, pois é através dela que a experiência do despertar, da luz e da consciência liga-se com a saciedade, com o prazer, o calor e a segurança, que em muito suplanta a do desconforto do acordar e da fome.
O senso de segurança e proteção na escuridão do inconsciente é uma experiência primária pré-humana. Segundo Neumann (1995), quando uma criança cai de novo no sono,
está retornando ao estado primário de estar contido na escuridão urubórica. Em outras palavras, o problema não é o de que uma criança deveria dormir sem ansiedade, mas sim de que deveria ser capaz de despertar sem ansiedade. Por ser a mãe-lunar da relação primal o veículo da consciência, da luz em meio às trevas e também, a que traz saciedade e segurança, um distúrbio precoce da relação primal provoca um distúrbio no desenvolvimento da consciência. Isso porque, num desenvolvimento normal, a consciência dá à criança uma vivência de plenitude.
Por essa razão, a mãe boa da relação primal é também a guardiã da consciência e de seu desenvolvimento, é Sofia, e a “mãe ruim” é sempre hostil ao desenvolvimento da consciência, pois lhe interessa intensificar a tendência de permanecer ou de voltar à escuridão do inconsciente. Por essa razão, inversamente, o medo à mãe terrível usualmente tende a fortalecer a consciência, e, freqüentemente, desempenha um papel positivo no desenvolvimento da consciência, durante a primeira metade da vida.
Assim, sob a supervisão da mãe na relação primal, a criança entra gradualmente no mundo humano do dia e da noite e na correlação rítmica de, por um lado, despertar, consciência e dia, e, por outro lado, inconsciente, escuridão e noite.
Daí por diante, a ordem do mundo determinada pelo curso do sol passa a ordenar a existência humana. Mas em circunstâncias normais esse mundo permanece também, de início, dentro da ordem matriarcal, e não há nenhuma coerção violenta ao ritmo do corpo do bebê, nem à mãe, que se encontra unida à criança numa unidade cósmica. Neste sentido, também, a mãe boa da relação primal é a Senhora das Plantas; como citado anteriormente, está sintonizada com o crescimento natural do filho e com os “tempos” do mesmo, que, à semelhança das marés, são determinados por um ritmo lunar inconsciente.
O ritual e o ritmo da vida, que enfatizam, preservam e trazem à consciência as divisões naturais de dia-e-noite determinadas pelo Self corporal da criança, são governados pelo vínculo de Eros, pelo vínculo da mãe com o filho.
O comportamento ritual natural do filho – e da mãe – em relação ao alimento e à satisfação de necessidades, aos jogos e à troca de carinhos, ao dormir e, mais tarde, ao início do processo de aprendizado, é sempre colorido pelo caráter de Eros da relação primal. Está sujeito a um princípio ordenador matriarcal que contrasta com a racionalidade do princípio de Logos. É dominado pelos símbolos e por, uma repetição rítmica intimamente relacionada com o ritmo corporal – os movimentos corporais rítmicos da criança (sugar e bater com os pés, emitir ruídos de satisfação e resmungar) e da mãe (cantarolar e embalar, ninar e acariciar). Sempre que o amor da mãe levar o filho à confiança, esse mesmo filho irá, de modo fácil e imperceptível, integrando-se à ordem racional cotidiana do grupo.
No final do século XIX, segundo Medina (2002), havia uma atitude frouxa em relação ao corpo da criança. Era comum que as crianças fossem mantidas em berços, enroladas em cueiros, tivessem amas para amamentar, enfim, eram mantidas isoladas do convívio social e familiar, como se fossem serem insignificantes, sem importância, sendo apenas significativas no reduto familiar à medida que fossem adquirindo mais autonomia, principalmente locomoção.
No início do século XX, essas situações se acentuaram ainda mais. Por volta da década de 1930, quando as condições sanitárias eram melhores, as condições psíquicas eram piores. A amamentação no peito quase desapareceu. Alimentavam-se os bebês com base no relógio. Móveis modernos e dispositivos elétricos limitavam a exploração e a liberdade de movimentos do bebê pela casa. Com isso, tiveram aumento as doenças psicossomáticas nos adultos.
Gradualmente, a preocupação com o controle e o domínio sobre o corpo da criança cedeu lugar para atitudes voltadas para os sentidos de cordialidade e da aproximação entre
pais e filhos, voltando-se a acreditar na importância de mente e corpo ligados, para o desenvolvimento saudável.
Sendo assim, amadurecimento motor significa que partes importantes do corpo passam a conectar-se ao ego e a ficar, gradualmente subordinadas a ele. Mas, do ponto de vista da imagem corporal, esse ego que comanda e age é um ego-cabeça, pois no homem a cabeça é em alto grau o veículo de orientação sensorial no mundo. O tamanho extraordinário da cabeça em comparação com o resto do corpo, durante a infância, corresponde ao papel do ego ativo, que alcança e, posteriormente, penetra no mundo, e a cabeça é vivenciada como o símbolo central de atividade do ego humano, como os cefalópodes, nos desenhos de crianças, deixam claro.
Enfim, para que todo processo de formação do ego da criança se estabeleça de maneira integrada e harmônica, a relação Self corporal, que é o princípio da relação do indivíduo no mundo, com o Self materno baseia-se, consideravelmente, em todas as experiências tácteis e não verbais dessa relação.
A necessidade de estimulação periférica da pele e de contato se mantém pela vida toda, mas parece ser mais intensa e crucial na fase da ligação afetiva reflexa [...] Certamente, a criança muito pequena necessita de um período ótimo de gratificação de suas necessidades sensuais, que são tanto orais quanto táteis. É por isso que os anos pré-verbais são considerados um período crítico para a aprendizagem tátil. Desse período em diante, declinam as necessidades de contato tátil, mas a estimulação tátil precisa ser ainda graduada segundo a idade, para se gratificar adequadamente as necessidades evolutivas do organismo humano. (MONTAGU, 1988, p.234).
Portanto, torna-se imprescindível a aceitação incondicional dessa proximidade corpórea entre mãe e filho, para surgimento de um indivíduo fortalecido capaz de construir um mundo transformador e criativo, segundo os princípios da constelação da Grande Mãe, acolhedora e protetora.