A mobilidade foi trazida, por definição, de movimento do ar, ou seja, com uma conotação de fonte de purificação (Balbim, 2003). Portanto, o significado de movimentar-se provém, por definição, de estar saudável. No CAERF, mais ainda, move-se com esse intuito.
Estar em deslocamento no CAERF altera a sensação de “isolamento” mediante uma possível privacidade. Cria uma condição nova em que pessoas em diferentes velocidades estão isoladas uma das outras. Segundo Nasar (1989, p. 49), não há como avaliar a variável colativa “surpresa” no ambiente sem considerar que a pessoa está em movimento. Estar em movimento, distraído ou concentrado, também altera o foco das atenções da pessoa. Elementos que também estão em movimento pelo espaço, assim como aquele que observa, talvez pelo fato de necessitarem do esforço de previsão de comportamento, costumam chamar mais atenção. Numa cena típica (Figura 41), com um usuário do CAERF concentrado na atividade que está desempenhando, percebe-se pelos relatos que os elementos localizados na linha de trajetória da pessoa merecem maior atenção do que os demais que estão dentro do ângulo de visão, mas não podem interferir na trajetória. Quando o possível obstáculo está em movimento e dentro desse ângulo da linha de trajetória do observador, a atenção é redobrada. E isso ocorre com freqüência no CAERF. A área que está fora do ângulo de visão do observador, não
possui visibilidade e só há atenção do observador quando existe algum tipo de estímulo adicional como ruídos, emissão luzes e movimentos bruscos.
Em outra cena típica (Figura 42), com o usuário do CAERF distraído da atividade que está desempenhando em deslocamento, a atenção desprendida no ângulo da linha de trajetória é reduzida e outros aspectos passam a chamar atenção dentro do ângulo de visão do usuário ou numa situação excepcional, como durante o uso do telefone celular. A “distração” relatada como “falta de atenção” faz o rendimento de sua atividade decrescer. Estar acompanhado e envolvido numa conversa também pode fazer o usuário comportar-se dessa maneira, sem perceber. O sentido do deslocamento, em casos no qual a falta de atenção é mais grave pode variar, pois estar distraído pode modificar comportamento condicionamento deslocar-se de maneira reta. Se isso ocorrer, o ângulo da linha de trajetória também muda.
Figura 41.Esquema do foco de atenção de usuário do CAERF numa cena típica
(concentrado na atividade). FONTE: produção da autora
Sentido do deslocamento
Ângulo da linha de trajetória
Ângulo de visão Sem
visibilidade
LEGENDA
Pode-se traçar uma relação entre esse comportamento e o uso dos receptores do aparelhamento sensorial do homem indicado por Hall (1977, p. 50). Para o usuário do CAERF que está concentrado, a decodificação dos receptores à distância, referentes ao exame de objetos distantes, e dos imediatos, referentes às sensações da pele, membranas e músculos, é feita de maneira eficaz. No caso do usuário distraído, o controle dos receptores à distância parece se encontrar deficiente e os receptores imediatos passam a reger boa parte de seu comportamento. Devido à mobilidade, os receptores imediatos do usuário distraído podem acabar não dando conta de promover reações perceptivas em tempo hábil para evitar encontrões com outras pessoas ou obstáculos. Por isso há relatos de pessoas que percebem mudanças entre quem está acompanhado ou sozinho, falando ao celular, “desfilando” ou em diferentes atividades onde a velocidade varia.
Segundo Hall (1977, p. 16), há diversas formas de distorções da comunicação derivadas do fato de nenhuma das duas partes estarem conscientes de que cada uma
Figura 42. Esquema do foco de atenção de usuário do CAERF numa cena típica
(disperso). FONTE: produção da autora 1
Ângulo da linha de trajetória
Ângulo de visão Sem visibilidade Sentido do deslocamento 2 3 LEGENDA
Possíveis focos de distração 1)Telefone celular 2)Lixo
delas habita um mundo perceptivo distinto. Para Hall (1977, p. 67) os olhos, além de serem úteis para recolher informações do ambiente e facilitar a navegação, são um importante agente da linguagem não verbal, pois transmitem informações de punição, encorajamento e domínio, além do homem depender mensagens recebidas pelo seu corpo para se locomover pelo espaço e estabilizar seu mundo visual.
Nesse sentido, quando era sugerido para os respondentes que descrevessem o modo como driblava as pessoas no CAERF, muitos relatavam aborrecimentos advindos de falha no entendimento não-verbal. O ajuste espacial da ultrapassagem, no mesmo sentido ou em sentido contrário, foi descrito como uma negociação visual do comportamento do outro.
Quando eu estou no mesmo sentido a minha preocupação é menor, porque é mais difícil de eu bater nela. (Entrevista 09)
Os relatos indicam o desenvolvimento de um mecanismo social, no qual se espera que os envolvidos no drible/ultrapassagem estejam aptos a fazer pequenos cálculos mentais, tanto espaciais como temporais. Desse cálculo mental, deve-se extrair um “veredicto de passagem”, no qual alguns fatores serão levados em conta, em frações de segundos. Um desses fatores é a posição que ocupa na “faixa” do calçadão. Os respondentes, em geral, relataram haver certa concordância das leis de trânsito de veículos na rua com as “regras” de movimentação do calçadão.
Eu driblo as pessoas no calçadão igual como eu faço no volante. Eu chego bem pertinho da pessoa, assim VUM! Aí passo bem pertinho correndo. Dou um freio em cima e dou uma desviada. Porque às vezes eu vou correndo e me irrita um pouco quando tem uma pessoa mais devagar na minha frente. (Entrevista 09) Além disso, o fator quantidade de pessoas (quanto maior o grupo, maior a preferência) e o tipo de atividade desenvolvida por cada um (em geral quem se desloca com mais velocidade tem prioridade de passagem) também são levados em conta na hora de fazer os cálculos mentais.
Por que a previsão está relacionada à velocidade. E também porque, na maioria das vezes, quando você está caminhando, diferente de estar correndo, você é ultrapassado e não ultrapassa. A não ser que seja frente a frente, mas ai tem um tempo maior pra raciocinar (do que correndo) e todo mundo tá se vendo. (Entrevista 11)
A falha desses mecanismos origina os chamados “encontrões”, aborrecimentos e desvios de rota.
Às vezes não dá. Como é que você vai driblar pessoas que estão andando em quatro, num espaço onde só cabe 4? 3 talvez? Então você vai ter de diminuir, ir pra grama, sair do ritmo. Isso estraga o exercício, o batimento cardíaco, muda o piso, diminui ou aumenta o impacto, muda tudo o que você tá utilizando. (Entrevista 11)
Mas o desvio de rota nem sempre se deve a falhas de negociação. Algumas vezes, a quantidade de pessoas no calçadão não permite que se façam ajustes espaciais, principalmente devido ao posicionamento das paradas de ônibus.
Não tem espaço pra pessoa caminhar confortável lá! Quando você chega na parada de ônibus tem que sair pro meio da rua. Além das bicicletas passando. Você pode ser atropelado. (Entrevista 04)
Quando eu tô correndo, se não for possível desviar delas sem que eu empurre ninguém, tudo bem. Mas tem horas que a pessoa tem que colocar o pé na rua mesmo. Quando eu vou de bicicleta eu desço e subo por aquelas rampas pra deficientes pra não ter de passar pelas paradas. Isso faz com que eu me arrisque na rua com o trânsito. Se eu pudesse evitar todo o calçadão, eu evitaria. (Entrevista 07)
Em geral, era nesse ponto em que as pessoas indicavam também o problema existente entre ciclistas e pedestres.