2.4 İlgili Literatür Taraması
2.4.1 Evlilik çatışması ile ilgili araştırmalar
Além de pedir para descrever os acessos, os entrevistados tiveram de relatar de que forma chegam ao CAERF e qual percurso costumam fazer. Nesse ponto, a maior parte dos entrevistados parou para pensar por algum tempo, tentando descrever seu percurso. A dificuldade parecia ser no tocante aos pontos de referência. Quase sempre, eles usavam elementos presentes no outro lado da avenida para orientar a trajetória em sua fala. O calçadão, nesse momento, transformava-se em um lugar de passagem, que não comunica.
Eu chego no calçadão pela extremidade do Rede Mais (supermercado)...sei lá como se chama. Perto do conjunto dos professores. (pensa um pouco) É porque se eu disser que eu chegava pelo lado de cá e caminhava até o lado de lá, você não vai saber do que eu estou falando, né? Então, entrava pelo conjunto dos professores, ia até a extremidade de lá, caminhava até o outro fim e voltava pela mesma extremidade que a gente entrou. (Entrevista 3)
Cerca de 80% dos entrevistados chegam ao CAERF a pé. Os outros 20% vão de carro ou bicicleta. Desses últimos, todos estão envolvidos com outras atividades que não incluem apenas o calçadão e, devido a isso, necessitam de um meio de transporte mais rápido para se locomover. Apenas um entrevistado relatou que gostaria de acessar o calçadão de carro, mas que não fazia isso por causa da falta de estacionamentos.
Em geral, todos possuem uma idéia de percurso na cabeça antes de começar a utilizar o calçadão e costumam seguir esse trajeto sempre que o usam. Isso permitiu confirmar a suspeita levantada na etapa de observação do local, de que a parte do calçadão, onde foi feito o estudo, é dissociada – espacialmente e funcionalmente - da
outra parte do calçadão, não incluída no contexto desse trabalho, e que fica após a rótula da Via Costeira (ver mapa da figura 19, no capítulo 3, p.55).
O modo como as pessoas descreveram seu caminho, esboça a percepção espacial de começo, meio e fim que cada uma delas possui.
Meu percurso é todo o calçadão. Vou pelo início do calçadão...(pensa)...entro por uma das extremidades...como é que eu vou dizer. O inicio! Para mim, o início é o do Praia Shopping porque eu moro em Ponta Negra. (Entrevista 5)
Além disso, esse levantamento também permitiu apurar o que seriam os limites (Lynch, 1999) daquele espaço para as pessoas. A surpresa foi a ausência de relatos que trouxessem o Parque das Dunas como limite espacial. O ponto de referência mais lembrado foi o Praia Shopping. Os limites foram a Via Costeira e a rua Solón Galvão, que leva ao Campus universitário da UFRN.
Enquanto os dados estavam sendo coletados, sugiram modificações no entorno do CAERF. Dois supermercados foram construídos, um na extremidade mais próxima do Conjunto dos Professores e outro mais ou menos no meio do percurso de 2,4 km do calçadão. Para dar acesso a esse último supermercado, foi construída uma passarela por sobre a Av. Eng. Roberto Freire (Figura 34) e, no canteiro central dessa mesma avenida, abaixo da passarela, foram colocados alguns metros de telas-divisórias, com intuito de impedir os perdestes de atravessar a avenida por baixo da passarela. Antes da existência do supermercado, quando perguntadas a respeito do trajeto que faziam no CAERF, as pessoas relatavam irem até a “ponta” do calçadão e voltar. Após a construção, quando ainda foram entrevistadas quatro pessoas, as pessoas relatavam ir até “o supermercado”.
Figura 34. Passarela no CAERF
FONTE: Arquivo da autora
As pessoas que utilizam os bancos para atividade estática relataram irem a pé, de carro ou bicicleta, dependendo da proximidade de onde vinham, talvez pelo fato da atividade física não ser o foco central de sua ida ao calçadão. Um deles relatou ir namorar e a outra, auxiliar o posto móvel de assistência à saúde, onde são feitas medições de pressão.
17
Uma das perguntas do roteiro de entrevista pedia para que os entrevistados descrevessem como procediam para driblar os usuários em mais baixa velocidade. A maioria dos entrevistados demonstrou surpresa com a pergunta, pois segundo eles, o mecanismo é lógico. No entanto, muitas e diferentes formas de drible foram relatadas. Alguns disseram driblar do jeito que dava, sem nenhuma tática de drible pré-concebida.
Tento sempre observar a melhor forma. Não tem uma técnica. Só me antecipar ao que vai acontecer...e tentar causar o menor mal pra todos. (Entrevista 11)
17 Responderam a essa pergunta somente os praticantes de atividade física. Os usuários de paradas de ônibus, obviamente, não precisam fazer dribles ou ultrapassagens, pois ficam paradas. Dos usuários de bancos, todos eles já percorrem o calçadão como praticante de atividade física, por isso também responderam a pergunta. Apenas um dos entrevistados que utiliza o banco do CAERF para namorar, relatou nunca ter percorrido o calçadão e, por isso, também não respondeu a pergunta.
Para os que descreveram estratégias de drible previamente pensadas, a tática de ajuste espacial é sempre a mesma e eles tentam reproduzi-la em cada necessidade de drible. Quando a estratégia não obtém êxito, os “estrategistas” em geral atribuem a responsabilidade do “encontrão” à outra parte envolvida, pois segundo eles, a estratégia deveria ser conhecida por todos. A estratégia mais citada foi o mecanismo de drible e ultrapassagem semelhante ao que os veículos fazem pelo código de trânsito brasileiro: manter-se sempre do lado direto da “pista”-calçadão e, havendo necessidade, verificar se há espaço para uma ultrapassagem segura (sem encontrões) e efetuar o drible. Cinco entrevistados relataram usar essa tática e atribuem a responsabilidade pelo “encontrão” àqueles que andam na “contra-mão”.
Não tem muito mistério. Pra ultrapassar, tem que cair pra esquerda. O ideal era que o calçadão fosse orientado pra ter mão e contra-mão, porque as pessoas são desorientadas e vêm nos sentidos errados. (Entrevista 5)
Outra forma descrita pelos usuários foi a de negociação espacial através de linguagem não-verbal. Quando há disputa entre duas pessoas por um único espaço, os respondentes demonstram ao outro a intenção de ocupação através do olhar ou posicionam-se em direção à lacuna.
As pessoas não sabem andar à direita, como carro, por isso as pessoas se trombam. Ai, pra driblar, eu olho pra pessoa pra ver se ela se toca e se afasta. Senão, como é que vai ficar? E sempre dá certo, geralmente elas se afastam pra eu passar. (Entrevista 12)
Um ciclista também relatou usar linguagem não-verbal para fazer ultrapassagens. Ele afirmou não se sentir confortável em usar a buzina para pedir passagem no CAERF, pois as pessoas se assustam com o barulho e encaram como falta de educação. Portanto, para avisar que está chegando perto, ele precisa olhar e acenar. Quando não dá tempo de indicar que quer passagem, ele precisa agir rapidamente para verificar se há carros na avenida e efetuar o drible.
Segundo os entrevistados, sair do calçadão diante da necessidade de drible é algo comum, principalmente quando se trata de passar pelas paradas de ônibus e pelos “paredões”. Para o entrevistado 18, passar pelos abrigos de ônibus é muito difícil porque o painel de propaganda que fica na lateral das paradas de ônibus (Figura 35) impede a visibilidade de quem vem correndo e não se pode prever o comportamento de quem está do outro lado. É aí que ocorrem os “encontrões”. Quatro entrevistados alegaram precisar sair do CAERF para fazer ultrapassagens.
Figura 35. Aglomeração nas paradas: situação corriqueira da necessidade de drible,
agravada pela barreira visual nas paradas. FONTE: produção da autora
Geralmente vou correndo pela margem da grama, porque é uma parte que ninguém usa e não tem o risco de ser atropelado, se eu precisar driblar alguém eu vou logo pra grama (Entrevista 18)
Quando eu tô correndo sozinho e tem um ônibus parado, eu corto pelo lado de fora, vou até a rua pra passar. Eu não vou onde o pessoal tá embarcando, eu vou pro meio da rua pra não perder o ritmo. Se não tem ônibus parado, mas tem gente na parada, eu desço pelo lugarzinho reservado por ônibus parar e corro ali, nunca vou pela calçada. (Entrevista 10)
O desafio, além da dificuldade de driblar as pessoas no CAERF, é manter a velocidade. Alguns entrevistados comentaram que é a velocidade constante que garante o sucesso da atividade física. Por isso, ter de reduzi-la traz aborrecimentos.
Às vezes, quando tem parada, se não vier ônibus, dá pra desviar pela pista sem reduzir o ritmo. Quando eu tô no mesmo sentido que os outros e as pessoas não me vêem, porque estão de costas pra mim, eu tento ir por um cantinho entre o calçadão e o Parque das Dunas. Mas às vezes tem quatro mulheres conversando, uma do lado da outra, aí elas não abrem (passagem) de jeito nenhum! Ai você tem que parar, andar no sentido delas um pouquinho, até que elas se toquem que tem gente atrás e abram espaço. O pior é nas paradas e do lado do aeromodelismo, porque fica bem estreitinho aí você tem que dar uma parada. Pra você manter a mesma velocidade tem que descer pra pista. (Entrevista 1)
5.3.9 A atenção
No intuito de avaliar os elementos e ocorrências que atraem a atenção dos usuários, foi perguntado se algo “tira a sua atenção” da atividade que está desempenhando.
O primeiro desafio do entrevistado era refletir sobre o que seria tirar a atenção. Para algumas pessoas, isso significava reduzir a dedicação à atividade para perceber outras coisas, enquanto para outras, significava aumentar percepções sobre outras coisas para melhorar o desempenho da atividade. O uso do walk man ou encontrar com outras pessoas no CAERF, para uns parece melhorar o rendimento, pois desconcentrar-se da atividade “corrida”, por exemplo, faz com que o exercício seja menos sentido, o que pode diminuir o cansaço “psicológico”. Nesse caso, a atenção retirada seria vista como “distração positiva”, mas na grande maioria dos casos teve uma conotação negativa. A diferença está no foco da atenção que foi retirada: se é na atividade desempenhada ou no espaço ao redor do respondente.
Quando eu caminho, eu olho mais pro lado verde porque é mais agradável, mas às vezes eu perco a atenção por causa dos veículos. É que tem a atenção boa e a atenção ruim, né? Na boa, você olha porque quer, pra ver. É o que eu faço com o Parque das Dunas. A ruim é quando passa um carro e tira a sua atenção por causa do barulho. (Entrevista 09)
Por haver esse aspecto prejudicial, muitas pessoas utilizaram o momento de resposta a essa pergunta para criticar alguns aspectos do calçadão. Precisar driblar as
pessoas nas paradas ou assustar-se com a movimentação e barulho dos carros foram as duas ocorrências relatadas como as que mais tiram a atenção. E sempre que um desses problemas era relatado, havia uma preocupação em fornecer possíveis soluções, como: retirar as paradas de ônibus do calçadão e fazer um calçadão mais afastado da rua, respectivamente18.
Um entrevistado relatou ter medo de que algum carro da avenida invadisse o calçadão e o atropelasse. Outro comentou que temia somente os ônibus porque eles andam sempre à direta da pista, rente ao calçadão, portanto. Em geral, esses fatores que punham medo aos entrevistados eram citados como fatores de “atenção redobrada”. Do mesmo modo, a presença de cães também foi referida como fator de perda de atenção na hora de fazer exercícios no calçadão, tanto por quem transita com os cães, como por quem freqüenta o CAERF sem animais.
O fato de eu caminhar com cachorro costuma tirar a atenção do povo. (Entrevista 03)
Prestar ou não atenção em determinados aspectos foi descrito, na maioria das vezes, como um mecanismo involuntário, não controlado pelo usuário. No entanto, alguns relataram conseguir bloquear alguns desses estímulos que retiram a atenção. Ou seja, uma redução proposital da percepção – por vezes bloqueando um dos sentidos – com o intuito de não prejudicar o rendimento físico na atividade desempenhada.
O barulho dos carros e os odores são muito desagradáveis, mas você acaba filtrando, né? (Entrevista 4)
No caso das pessoas que utilizam os bancos, todos relataram não haver grandes fatores de retirada de atenção. Pelo contrário, em geral, estão muito concentradas em suas atividades, seja um exercício de alongamento (atividade dinâmica) ou em conversar com seu namorado(a) (atividade estática). Para quem aguarda nas paradas, o
que os distrai são as pessoas que cruzam na frente do ponto de ônibus, tanto correndo, quanto caminhado. Os entrevistados relataram que não é raro haver encontrões e, por vezes, alguns xingamentos. A entrevistada 14 relatou que além das pessoas passarem atrapalhando a visibilidade dos ônibus que estão vindo na rua – o que pode impedi-la de
tomar o ônibus -, também é desagradável estar arrumada para trabalhar, enquanto os
passantes que esbarram nela estão suados e sujos.
Para os ciclistas, a redução da atenção pode ser mais arriscada. Segundo eles, são diversos os motivos que tiram a atenção, desde encontrar pessoas conhecidas a driblar usuários “distraídos”. Um dos ciclistas relatou ter de prestar atenção a todo o tempo no que está fazendo, pois já quase atropelou algumas pessoas no CAERF. De acordo com os relatos, o fato de estar em maior velocidade confere ao “velocista” maior responsabilidade pelo encontrão. Isso talvez aconteça, pelo tempo mais reduzido que as outras pessoas têm para reagir, devido ao fato de que quem tem mais velocidade confere maior choque na hora da colisão, ou porque a velocidade altera o grau de atenção do desportista.
Quando você está correndo é mais difícil de prestar atenção nas coisas do que quando está andando. Correndo você fica prestando mais atenção na corrida. Caminhando dá pra prestar atenção nas coisas porque você fica mais descontraída. (Entrevista 02)
Da maneira semelhante, segundo os relatos, estar sozinho ou acompanhado também modifica a atenção que é dada pelo usuário àquilo que está ao seu redor. Uma das entrevistadas relatou que “quem vai sozinho ao calçadão parece notar menos atenção ao que está a sua volta”, porque fica mais concentrado no exercício, principalmente se vai com walk man. Quem vai acompanhado presta mais atenção ao redor, ou porque está mais distraído da atividade que exerce, pelo fato de estar conversando ou porque o outro chama a atenção para o entorno durante a caminhada.
Umas das suspeitas também reside no fato de que, por se sentir mais segura acompanhada, a pessoa está mais apta a olhar ao redor.
Freqüentar sempre o mesmo espaço, no mesmo horário, faz com que os usuários do CAERF estabeleçam relações de cordialidade uns com os outros. Um hábito bastante observado é o de cumprimentar as pessoas que se tornam conhecidas com o passar do tempo. No entanto, 75% dos entrevistados relataram que, algumas vezes, o costumeiro “bom dia”, “olá”, “boa noite” acaba não acontecendo. Falta de tempo ou falta de atenção? Na verdade, quanto maior a somatória das duas velocidades de encontro envolvidas, menor o tempo para agir. Quase sempre, quando não dá tempo de cumprimentar, as duas partes vêm em sentidos opostos. Os que estão acompanhados disseram ser muito comum deixar de cumprimentar alguém porque ficam conversando e se distraem. Os que correm sozinhos e os ciclistas disseram que não dá tempo porque passam muito rápido e, quando reconhecem a pessoa, já é tarde demais. Nesse caso, o usuário parece ter duas opções ao se dar conta de que não teve tempo de cumprimentar o outro: seguir em frente ou voltar para falar. Todos os respondentes alegaram optar pela primeira opção. Para eles, mudar o sentido para a direção oposta é um esforço muito grande, pois o que está em jogo é o sucesso da atividade que estão desempenhando.
Muitas vezes, vejo alguém...mas ai ele está conversando, distraído e não dá pra falar com ele. Às vezes dá pra fazer algum gesto rápido. Mas eu nunca parei,
parei (ênfase na ação) pra falar mesmo, senão atrapalha. (Entrevista 1)
Os caminhantes, seja sozinhos ou acompanhados, não atribuem somente à velocidade o motivo de não terem tempo de cumprimentar os conhecidos. Segundo eles, o ruído dos carros na avenida, o uso do walk man ou o fato de estarem “distraídos” do mundo exterior e concentrados na atividade física os fazem não perceber o outro.
Às vezes, pelo fato de caminhar, você fica mais aéreo e não presta atenção. O caminhar é quase uma terapia, é uma atividade reflexiva. Você caminha e fica pensando na vida, bem mais do que quando está correndo. Ai a pessoa passa e você nem viu, geralmente quando ela vem correndo. Caminhando dá tempo. (Entrevista 9)
Entre os 25% que disseram sempre dar tempo de cumprimentar pessoas conhecidas, estão os usuários de paradas de ônibus, os que utilizam os bancos do calçadão e um caminhante que alegou que, quando não dá tempo, sempre volta para falar com o outro. Obviamente, no caso dos usuários de paradas de ônibus e de bancos, por estarem parados, a velocidade de encontro é mais reduzida, ou seja, há mais tempo para agir. Por fim, os usuários demonstraram estar cientes de que a falta de atenção no CAERF pode contribuir para problemas mais sérios, como o de pôr a vida de alguém em risco.
Poderia acontecer coisas mais sérias se eu não tivesse atento. Uma vez, vinha um ônibus e um cara na bicicleta vindo na avenida. Ai não dava pra eu passar pela calçada porque tava lotado e eu fui cortar (ultrapassar as pessoas) descendo pela avenida. Mas ai eu vi a bicicleta a tempo, porque se tivesse ido, só tinha espaço pra um, ou seja, um dos dois iria ser jogado pra cima do ônibus. (Entrevista 10)