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A investiga‰Šo precedente mostrou que o ressentimento motivou o pensamento grego a abandonar o acordo originŒrio com o ser para encontrar-se com a certeza e a seguran‰a da entidade do ente, promovendo, desta forma, a instala‰Šo da u3brij que suscitou o esquecimento de seu princ•pio e de sua pr‹pria condi‰Šo de possibilidade enquanto estrutura transcendente. A ta_ meta_ ta_ fusika_ •, em “ltima anŒlise, um ultraje, uma desmedida – uma u3brij – com a fu/siv, o me/tron do real, uma vez que preconiza como princ•pio o que •, na verdade, principiado, invertendo o sentido da realidade. Como o transcendido por superar o transcendente? O que a metaf•sica quer • querer o imposs•vel. Esta constata‰Šo, entretanto, esconde um elemento que, at• o momento, foi apenas mencionado, embora nŠo tenha sido problematizado suficientemente por esta pesquisa. Nietzsche, na se‰Šo final da Genealogia da

Moral, dŒ uma pista do cimento que possibilita a ponte entre o ressentimento e a efetiva‰Šo da

u3brij como estopim da metaf•sica:

‹dio ao que • humano, mais ainda ao que • animal, mais ainda ao que • mat•ria, esse horror aos sentidos, ’ razŠo mesma, o medo da felicidade e da beleza, o anseio de afastar-se do que seja apar•ncia, mudan‰a, morte, devir, desejo, anseio – tudo isto significa, ousemos compreend•-lo, uma vontade de

nada, uma aversŠo ’ vida229.

Nietzsche v• por detrŒs da instala‰Šo da metaf•sica clŒssica e de sua futura apropria‰Šo hist‹rica, uma vontade, um querer que se subtrai ’ vida em fun‰Šo da certeza e da seguran‰a de um mundo manipulŒvel, uma vez que os metaf•sicos prefeririam um “nada seguro a um algo incerto para deitar e morrer”230. O fil‹sofo, como jŒ exposto, identifica essa vontade ’ postura de S‹crates, que se consolida com Arist‹teles e toda a heran‰a parmen•dico-plat•nica. Esse querer, que, de acordo com Nietzsche nŠo passa de “uma revolta contra os mais fundamentais pressupostos da vida”231, “• e continua sendo uma vontade!”232, uma vez que “o homem preferirŒ querer o nada a nada querer.233” A vontade de nada • a vontade de controle, de certeza

229 NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral — Uma Pol‡mica. Trad. Paulo C•sar de Souza. SŠo Paulo:

Companhia das Letras, 2001, III, 28, p.149.

230NIETZSCHE, Friedrich. Al‚m do Bem e do Mal – Prel“dio a uma Filosofia do Futuro. Trad. Paulo C•sar de

Souza. SŠo Paulo: Companhia das Letras, 2002, 1, 10, p.16.

231 NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral — Uma Pol‡mica. Trad. Paulo C•sar de Souza. SŠo Paulo:

Companhia das Letras, 2001, III, 28, p.149.

232 NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral — Uma Pol‡mica. Trad. Paulo C•sar de Souza. SŠo Paulo:

Companhia das Letras, 2001, III, 28, p.149.

233 NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral — Uma Pol‡mica. Trad. Paulo C•sar de Souza. SŠo Paulo:

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e seguran‰a socrŒtica fundada a partir das idealiza‰”es, que, no fundo, nada sŠo em rela‰Šo ’ vida e que alicer‰arŠo, com efeito, o pensamento metaf•sico e seu desprezo pela vida.

O pensamento de Heidegger converge para esta posi‰Šo nietzschena e corrobora a tese de que a vontade • o motor efetivo do pensamento metaf•sico. Afinal, Heidegger pondera que a u3brij que proporciona a quebra do acordo originŒrio entre homem e fu/siv via o(mologei~n, instaurando a metaf•sica, se dŒ por um ato da vontade – do Eros – que promoverŒ a o!recij pela sabedoria e, com ela, a substitui‰Šo do ser pela entidade na ordem de compreensŠo do real. Para Heidegger, a vontade, de fato, se evidencia no “tremeluzir inquieto da u3brij irrequieta, [com] o olhar e o comportamento do homem para lŒ e para cŒ, desfazendo o recolhimento, alimentando a dispersŠo pela qual ele se perde de seus confins”234. Enquanto o o(mologei~n imperava, havia compreensŠo e ausculta. A vontade, ao contrŒrio, nŠo aquiesce, pois estŒ sempre insatisfeita ’ procura da realiza‰Šo de si mesma e de seu querer, ontologicamente infinito. Esta no‰Šo serŒ ampliada por Heidegger como “vontade de vontade” (ou de querer) nos textos p‹s-viragem e de cr•tica ’ no‰Šo de “vontade de poder” de Nietzsche235, apresentando-se como o princ•pio que moverŒ a metaf•sica moderna:

Quanto mais voluntariosa a vontade, mais decididamente ela quer. Isso porque todo querer • um querer a si enquanto vontade de vontade. Esta impele, por•m, o avan‰o no sentido da vontade contrŒria (de onde prov•m o “contra”?), e isso na configura‰Šo em que, por toda parte, a vontade de vontade tem sempre a vontade do mesmo – ela quer sempre querer. E nesse mesmo (querer) ocupa a vontade at• nas oposi‰”es mais extremas a toda ocupa‰Šo, oposi‰”es, que, na verdade, nŠo sŠo oposi‰”es, mas somente pretextos com os quais o querer do mesmo se protege. TŠo logo a vontade da vontade se ocupa do que aparece como refratŒrio ’ vontade, ela quer o querer na exclusividade incondicional de querer a si mesmo. Completa-se, assim, o esquecimento do ser e a vontade da vontade se cega na vontade incondicional de ser cega.236

A vontade de vontade • a realiza‰Šo moderna do Eros que proporcionou o aparecimento da metaf•sica. Seu objetivo, como ainda serŒ discutido oportunamente, • o dom•nio e o controle do real por meio da ratio. Afinal, nŠo foi outra coisa que ela fez ao conduzir o homem na antiguidade para a u3brij do ser aquilo que nŠo •. Impotente e frustrada diante do ser, ela teve de criar um mundo al•m dele – composto por entidades – para que pudesse dominar e se assegurar de seu poder. Por este motivo, Nietzsche entende a filosofia – a metaf•sica – como

234 HEIDEGGER, Martin. Herˆclito. Trad. MŒrcia SŒ Cavalcante Schuback. Rio de Janeiro: Relume DumarŒ,

2002, II, ›6b, p.334.

235Principalmente os dois tomos de Nietzsche, publicados em 1961, mas oriundos de cursos da d•cada de 40, e A

SuperaŒ•o da Metaf•sica, de 1951, cuja elabora‰Šo remonta ao per•odo entre 1936 e 1946.

236 HEIDEGGER, Martin. Herˆclito. Trad. MŒrcia SŒ Cavalcante Schuback. Rio de Janeiro: Relume DumarŒ,

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algo que “sempre cria o mundo ’ sua imagem, [que] nŠo consegue evita-lo; filosofia • esse impulso tirˆnico mesmo, a mais espiritual vontade de poder, de “cria‰Šo do mundo”, de causa

prima”237.

A u3brij, denunciada por Nietzsche como ser do homem moderno e identificada por Heidegger como fundamento da metaf•sica, • ela mesma a realiza‰Šo e o predom•nio da vontade no exceder-se para al•m do limite do homem, isto •, a partir da cegueira do querer quanto ’ medida que caracteriza a humanidade do humano, ou seja, ser dotado de lo/goj, e ao fato de dever – necessariamente – co-ligar-se ’ fu/siv por meio de um o(mologei~n com o Lo/goj, o Me/tron em sentido radical. A equa‰Šo, agora, se amplia e se resolve de forma definitiva a partir da estrutura‰Šo da hist‹ria do ser: u3brij = vontade = metaf•sica = esquecimento do ser = hostilidade ’ vida.

Dessa forma, a o!recij pelo saber, o Eros – a vontade propriamente dita – por perscruta‰Šo e controle do real iniciada com S‹crates e desenvolvida por PlatŠo e Arist‹teles, se apresenta como o elemento que consuma o ressentimento com o modo de ser da vida materializada com a metaf•sica ao fomentar a u3brij promovedora do esquecimento do ser em favor do ente, princ•pio formador da hist‹ria do ocidente. Resta investigar, no entanto, como a u3brij metaf•sica se desenvolve por meio da escalada hist‹rica de seu fundamento – a vontade – ao longo do desenrolar de seus cap•tulos subsequentes, isto •, idade m•dia, modernidade e contemporaneidade.

237NIETZSCHE, Friedrich. Al‚m do Bem e do Mal – Prel“dio a uma Filosofia do Futuro. Trad. Paulo C•sar de

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AP‡TULO

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VONTADE DE VONTADE COMO CONSOLIDA‚ƒO DA HYBRIS METAF‡SICA E A SUPERVENI™NCIA DA T…CNICA ENQUANTO AMEA‚A E POSSIBILIDADE DE UM NOVO

IN‡CIO

O que mais devemos prevenir ‚ o crescimento dessa erva daninha que se

Benzer Belgeler