• Sonuç bulunamadı

O escritor inicia seu artigo falando da chegada a Natal da indígena Tapuya, principal representante da antropofagia, com a qual realiza uma entrevista. Nessa entrevista, a indígena se autodenomina “Miss Macunaíma”, devido à sua relação com o estudioso Koch Grünbeg, ao qual forneceu informações sobre as lendas de Macunaíma.

No primeiro quartel do século XX, novas correntes artísticas começaram a circular em muitas cidades européias, que viviam várias transformações sociais, políticas, econômicas, tecnológicas, culturais, que modificaram o

cotidiano com novas invenções tecnológicas, como o automóvel, o rádio, o telefone e, principalmente, o cinema.

A industrialização alterou a economia das potências com os lucros acumulados pela produção em larga escala de artigos manufaturados, o que garantiu às classes dominantes a sensação de conforto, segurança e otimismo em relação ao futuro. A capital da França, Paris, abrigava artistas brasileiros, atraídos pelo dinamismo cultural e pelo ritmo eletrizante da vida social, com seus cafés, bares e cabarés. Em meio a esse contexto surgiram as vanguardas artísticas, como o futurismo, o cubismo, o dadaísmo, o expressionismo e o surrealismo.

No Brasil da década de 1910, as estéticas parnasianas e simbolistas ainda norteavam as criações poéticas, mas já demonstravam sinais de esgotamento, e vários escritores procuravam renovar as formas de expressão artística. O país também vivia grandes mudanças políticas, sociais e culturais, inclusive com a urbanização e a chegada de novas tecnologias que transformavam o ritmo de vida e o cenário de cidades como Rio de Janeiro e São Paulo.

O progresso e o cosmopolitismo eram contrapostos ao subdesenvolvimento e à miséria estrutural de vastas regiões nacionais, nem sempre distantes dos centros populosos. A capital do país, o Rio de Janeiro, vivia em péssimas condições de saneamento básico e sofreu uma ampla urbanização, o que a modernizou. O novo planejamento urbano, contudo, previa uma recolocação de moradias populares, excluindo do centro urbano os pobres, massacrados pelo desemprego e pela carestia. Em 1904, o Governo lançou uma campanha de vacinação obrigatória que fez explodir a insatisfação popular, ocorrendo uma verdadeira batalha, que recebeu o nome de Revolta da Vacina, violentamente reprimida. Em São Paulo, um grupo de trabalhadores anarco-sindicalista organizou uma greve geral em 1917, reivindicando melhores salários e condições de trabalho (redução de jornada, segurança etc.). O país passava por um período histórico conturbado, que resultou no fim da República Velha (1889-1930).

Foi nesse cenário tumultuado que os modernistas refletiram sobre a realidade brasileira e procuraram renovar a cultura do país. A partir de meados da década de 1910, começaram a organizar-se em grupos, principalmente no

Rio de Janeiro, no Recife e em São Paulo. Escritores e poetas, cujas obras e eventos eram patrocinados pela aristocracia enriquecida com o café e a industrialização, começaram a introduzir novas faces na literatura brasileira. Eram artistas — músicos, arquitetos, literatos, escultores — que buscavam algo novo. Era um pequeno grupo de jovens artistas ligados à elite paulistana, que se voltou para questões literárias e culturais, irradiando e enriquecendo as produções de arte divulgadas no meio intelectual.

O modernismo ganhava expressão, e São Paulo tornou-se palco de manifestações de independência cultural contra a estagnação do resto do país. Nesse contexto cultural, os escritores buscaram romper com a corrente tradicional, e em 1920 começaram a preparar a Semana de Arte Moderna. No ano seguinte, escritores paulistanos foram ao Rio de Janeiro para dialogar com intelectuais como Ribeiro Couto, Renato Almeida, Villa-Lobos, Ronald de Carvalho, Álvaro Moreira, Sérgio Buarque de Holanda e Manuel Bandeira. A partir desse encontro, começou-se a trilhar o caminho para a realização da Semana de Arte Moderna, considerada o marco inicial do movimento.

Nesse mesmo ano, Bandeira publicou seu livro A cinza das horas, que ganhou ampla repercussão nas páginas da Revista do Brasil e tornou o poeta conhecido como aquele “capaz de determinar correntes”. O poeta uniu-se, prontamente, a esses jovens artistas, publicando seus poemas em outras revistas paulistanas, como Klaxon, Terra Roxa e Revista de Antropofagia.

Sobre a relação de Bandeira com o movimento paulista, Wilson Martins (1991, p. 77) analisa:

O modernismo foi não apenas uma ruptura com o passado, uma quebra brutal na “direção” estética, mas, ainda, uma interrupção da história literária: seus doze apóstolos começaram a contar de 1922 o ano I da literatura brasileira.

A Semana de Arte Moderna foi um grande acontecimento artístico, que teve por objetivo mostrar as novas tendências da arte, que já vigoravam em cidades da Europa. Entre as muitas atividades artísticas e culturais dessa Semana, destaca-se a declamação feita por Ronald de Carvalho do poema “Os sapos”, de Manuel Bandeira. O poeta carioca não veio pessoalmente a São Paulo, mas participou de forma inusitada, logo na abertura, com a leitura de seu poema — que, após ser declamado, foi imediatamente vaiado pela platéia.

Assim, Manuel Bandeira, que compartilhava do horror ao lirismo comedido e erudito das gerações anteriores, criticou um sapo parnasiano (Vede como primo/ Em comer os hiatos!), ao lado de “sonetos que não passam de pastiches parnasianos”. Esse poema fora publicado em Carnaval (1919), mas só depois da declamação ganhou o estatuto de manifesto modernista, pois delimitou o fim de uma época cultural. Conforme Bandeira (1957, p. 54-55),

naturalmente a sátira dos “Sapos” estava a calhar como número de combate e, com efeito, por ocasião da Semana de Arte Moderna, três anos depois, foi o meu poema bravamente declamado no Teatro Municipal de São Paulo pela voz de Ronald de Carvalho sob os apupos, os assobios, a gritaria de “foi não foi” da maioria do público, adversa ao movimento.

Dessa maneira, Bandeira não esteve ausente dos eventos da Semana, pois, além de ironizar o ritmo da poesia parnasiana, comparando seus autores a sapos coachando, também teve seu poema “Debussy” posto em música por Villa-Lobos, sob o título de “O novelozinho de linha”.

Bandeira tinha procurado transpor para o poema a maneira do autor de

La jeune fille aux cheveux de lin, em que o verso repetido: “Para cá, para lá...”

reproduzia a linha melódica inicial, que acabou sendo resgatada de forma perfeita por Villa-Lobos:

[...] foi Villa-Lobos cem por cento e até suprimiu naquela música o nome inútil do compositor francês, intitulando-a “O novelozinho de linha”. E ela foi cantada, não sei se vaiada, num dos concertos de Semana de Arte Moderna. [Bandeira, 1957, p. 77]

Depois da Semana, Bandeira caiu no gosto dos modernistas paulistanos. E seu poema “Bonheur lyrique” foi publicado na primeira edição de Klaxon. Na quinta edição da revista, apareceu “Poème”, futuramente incluído em

Libertinagem com o título de “Chambre vide”.

O envolvimento com o grupo paulista deu-se também em outros eventos, como em sua participação, em 1925, no jornal A Noite, do Rio de Janeiro, cujo organizador de colaboração era Mário de Andrade. O prestígio alcançado por Manuel Bandeira poderá ser mais bem visualizado por intermédio da crítica da época. Faz-se então necessário percorrermos as idéias de alguns críticos, para vermos como receberam a obra bandeiriana.

Benzer Belgeler