• Sonuç bulunamadı

1. GĠRĠġ

1.1. Araştırmanın Amacı

1.1.1. Alt Amaçlar

O espaço, no romance Grande Sertão: Veredas, mistura-se, muitas vezes, com o tempo: as marcas da passagem temporal transgridem o calendário, fazem parte da da neblina, citada por Oswando José de Morais (2000). A névoa em que se insere o tempo da memória, do recontar. Todavia, elementos como o dia, a noite, o sol, a chuva, o mês de maio, junho ou novembro, por exemplo, afetam o espaço e as situações por que passam as personagens que nele transitam. A memória também atua no recontar da guerra de Canudos, contudo, a transgressão temporal fica tolhida pelo calendário, pelo tempo datado, que marca a narrativa de Os Sertões, o que aproxima a narrativa da necessidade de datação presente nos textos jornalísticos. Há um parágrafo extraído de Milton Hatoum (2002, p. 166), no romance Relato de um Certo Oriente, que resume perfeitamente a teorização sobre o espaço da memória. Embora restrinjamos nosso trabalho a Os Sertões e Grande Sertão: Veredas e a abrangência da pesquisa relativa à memória seja significativamente mais ampla na escrita de Hatoum, mesmo assim, citemos o trecho:

Assim, os depoimentos gravados, os incidentes, e tudo o que era audível e visível passou a ser norteado por uma única voz, que se debatia entre a hesitação e os murmúrios do passado. E o passado era como um perseguidor invisível, uma mão transparente acenando para mim, gravitando em torno de épocas e lugares situados muito longe de minha breve permanência na cidade. [...] comecei a imaginar com os olhos da memória as passagens da infância, as cantigas, os convívios, a fala dos outros, a nossa gargalhada [...].

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O narrador ratifica a essência da narrativa pelo uso da expressão olhos da memória, porque o ir e vir no tempo e no espaço, misto de alegria e sofrimento, contida nas recordações, aproximam as personagens de Relato de um Certo Oriente dos seres humanos reais, em sua complexidade existencial.

Utilizemos a expressão imaginar com os olhos da memória para mostrar, de modo sintético, a presentificação que a memória consegue dar aos fatos narrados, atualizando-os, o que faz com que não haja uma separação nítida entre os espaços do passado e do presente, a espacialização se conjuga no atemporal. Como nos revela Augusto de Campos (1991, p. 327), ao observar a técnica composicional de Grande Sertão: Veredas, a narrativa se vale dos flashbacks e travelings para permitir que Riobaldo, o narrador da história, possa se transportar para tempos e espaços distintos :

Como Joyce, o nosso Guimarães Rosa enfrenta a problemática de um romance intemporal, ou melhor atemporal. O Grande Sertão não é dividido em capítulos, é um fluxo contínuo, sem pausa, um só fôlego, riocorrente. A ordem dos ventos é a ordem da memória [...] .

Além disso, como afirma Mircea Eliade, o passado não é, simplesmente, o antecedente do presente , ele é a sua própria fonte, o que pode causar o ir e vir na narrativa. Mencionemos um parágrafo de Mircea Eliade (2000, p. 107) em que trata da memória e da recordação

:

A recordação é para aqueles que esqueceram , escreveu Plotino (Enéadas, 4, 6, 7ss.). A doutrina é platônica. Para aqueles que esqueceram, a rememoração é uma virtude; mas os perfeitos não perdem jamais a visão da verdade e não têm necessidade de rememorar (Fedro 250). Existe, portanto, uma diferença entre memória (mneme) e recordação (anamnesis) [...]. Uma memória perfeita é superior, portanto, à faculdade de rememorar. De uma maneira ou de outra, a recordação implica um esquecimento e este [...] equivale, na Índia, à ignorância, à escravidão (= cativeiro) e à morte.

Para os antigos, o esquecimento associa-se ao negativo, à perda da perfeição: só quem esqueceu, precisa recordar. A memória do narrador mítico é, pois, fundamental e a memória do narrador ficcional também o é, pois atua sobre a necessidade de convencer o leitor, em respeitar o pacto com o mesmo e o espaço entra como parte desse jogo do narrar.

O modo como a memória se insere nas duas narrativas de que nos ocupamos diverge uma da outra. O narrador de Os Sertões conta uma história já acontecida, o

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que nos indica o uso da memória para o resgate do contar. No ensaio, A encenação da história em Os Sertões , Berthold Zilly (2001, p. 185) declara:

[...] Em vez de escrever e narrar diretamente situações e eventos, o faz como se falasse de obras plásticas e cênicas representando essas situações e eventos. Recorta a seqüência dos acontecimentos em quadros e cenas, descrita com intensa plasticidade e poder de presentificação, sustendo volta e meia o decorrer do tempo, parando a fugacidade dos momentos, para fixá- los melhor, o que explica o uso freqüente do imperfeito, surpreendente em um relato rico em eventos sucessivos, como também o uso do presente histórico, inusitado em um relato histórico-científico. Ou seja, usa um estilo ora pictorial, ora teatral, como se conduzisse o leitor por uma exposição de desenhos, pinturas e esculturas que volta e meia começam a mover-se, transformando-se em episódios de um drama.

Se, de um modo, a narração se presentifica principalmente ao delinear o espaço natural em trechos no presente histórico, o que disfarça a utilização dos olhos da memória, de outro, não há embaraços em se narrar no pretérito perfeito, mais-que- perfeito e imperfeito, pois os demais recursos literários empregados fazem com que o narrador conte a cena como se estivesse presente nela e leva, assim, o leitor a participar, como observador, da narrativa.

Na narrativa de Grande Sertão: Veredas, por vezes, o narrador Riobaldo lembra a seu interlocutor que a matéria contada, vista com os olhos da memória, leva ao atemporal, como no fragmento: O senhor é bondoso de me ouvir. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O senhor mesmo sabe (p. 82).

Observe-se sobre a recordação, o que diz Riobaldo, em determinado trecho da narrativa:

Agora, tiro sua atenção para um ponto: e ouvindo o senhor concordará com o que, por mesmo eu não saber, não digo. Pois foi que eu escrevi os outros

versos, que eu achava, dos verdadeiros assuntos, meus e meus, todos sentidos por mim, de minha saudade e tristezas. Então? Mas esses, que na ocasião prezei, estão goros, remidos, em mim bem morreram, não deram cinza. Não me lembro de nenhum deles, nenhum. O que eu guardo no giro da memória é aquela madrugada dobrada inteira: os cavaleiros no sombrio amontoados, feito bichos e árvores, o refinfim do orvalho, a estrela-d alva, os grilinhos do campo, o pisar dos cavalos e a canção de Siruiz. Algum significado isso tem? (p. 103)

O narrador apaga de sua memória aquilo que não lhe importa. O esquecimento não o leva à rememoração dos versos que, no presente da narrativa, não têm valor

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para ele. Importa-lhe a cena dos jagunços-cavaleiros, num tempo e espaço que lhe foram aprazíveis: isso a memória não apaga.

Segundo Garbuglio (1972, p. 28) o vaivém em contar a história é uma técnica

deflagrada que impede a ordenação dos fatos, pois à medida que a palavra desentoca o fato e o cristaliza em seu referente, estimula outros acontecimentos que estão ali adormecidos . Isso faz com que a cronologia organizada pela memória se complique e dê a impressão de ser caótica. Tal técnica se acentua na primeira parte da narrativa de Grande Sertão: Veredas.

A rememoração não é tratada pelo narrador de Os Sertões, simplesmente porque, ao tentar transmitir uma linguagem científica, o esquecimento seria uma condição imprópria, mas porque as falhas em nomes de pessoas, lugares e datas indicadas por estudos da obra, mostram que ante tantos detalhes pode-se apontar o esquecimento como uma das causas das confusões ou a oitiva inadequada de expressões pronunciadas por outrem, como é o caso da expressão latina apresentada como: sine calcii linimenti, corrigida, após a terceira edição da obra, para sine calcis linimento, a qual significa sem a liga de cal , conforme observação de Bernucci (p. 369), em nota de rodapé de Os Sertões.

Ao comentar sobre a fundação do arraial da Barra, no século XVII, o narrador cita os aldeamentos e missões ao longo do rio São Francisco: Nossa Senhora do Pilar, Sorobabé, Pambu, Aracapá, Pontal, Pajeú etc (p. 194). Bernucci observa, em nota de rodapé, que a disposição cartográfica difere da apresentada no livro. Segundo ele, partindo da Barra, encontram-se: Pajeú, Pontal, Acarapá, Pambu (p. 194); a chamada Aracapá pelo narrador deve ser a conhecida Acarapá.

O narrador aponta também o término da missão dos freis franciscanos em 20 de maio de 1895. Bernucci (2002, p. 326) alerta o leitor, baseado em José Calasans, o qual afirma, por meios documentais, que a missão, no arraial de Canudos, durou de 29 de maio a 7 de junho de 1895. A precisão temporal não seria fundamental à ficção, porém como a obra, além de literária, liga-se às ciências e à história, torna-se importante a precisão nos dados cronológicos. Em relação à história, muito se deve a José Calasans pelos esclarecimentos e correções realizadas. Ademais, não só os dados cronológicos em correspondência à história verídica, mas também a precisão na localização dos topônimos contribuem para a verossimilhança textual. Todavia, os

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olhos da memória alteram os dados verídicos e, junto com a liberdade, da criação literária colaboram na construção de espaços diferenciados.

Benzer Belgeler