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Todo direito provém de um fato. Nem todo fato tem força jurídica. Há fatos que são acontecimentos naturais, sem reflexos no mundo jurídico (por exemplo, a chuva que cai)272. Quando o fato repercute na esfera jurídica, surge o fato jurídico.

São válidos os ensinamentos de José Cretella Júnior:

Nem todo fato do mundo interessa ao direito. Na verdade, a maioria dos

fatos do mundo são estranhos ao mundo jurídico. Só interessa ao mundo jurídico o fato do mundo com implicações jurídicas, acontecimento que

interfere na relação de direito, dando-lhe nascimento, extinguindo-a, alterando-a, modificando-a, protegendo-a273.

Washington de Barros Monteiro e Ana Cristina de Barros Monteiro França Pinto afirmam que “esses acontecimentos, de que decorrem o nascimento, a subsistência e a perda dos direitos, contemplados em lei, denominam-se fatos jurídicos (lato sensu)”274.

Com exatidão, Edmir Netto de Araújo preleciona:

270 CARVALHO FILHO, 2012a, p. 541-542. 271 ARAÚJO, 2014, p. 845-847.

272 Edmir Netto de Araújo traz à colação as seguintes situações: “Mesmo fatos da natureza, que ocorrem sem

qualquer participação humana, voluntária ou involuntária, podem produzir efeitos jurídicos. Um incêndio de causas desconhecidas é, geralmente, fato material não jurídico, mas, se alguém celebrou contrato de seguro contra incêndio para sua casa, esse evento terá consequências para o Direito. Uma enchente na cidade poderá ter por causa a negligência do Poder Público na época das chuvas, pela previsibilidade, decorrente da ocorrência de evento anterior semelhante, e pela não adoção de providências (tais como limpeza do sistema de coleta de esgotos e águas pluviais, desvio do curso de canais, abertura ou fechamento de comportas de represas), desencadeando efeitos jurídicos: responsabilidade patrimonial do Estado perante os administrados prejudicados, ao contrário de inundação imprevisível, irresistível, não periódica” (ARAÚJO, Edmir Netto de. Do negócio jurídico administrativo. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1992, p. 16-17, grifo do autor).

273 CRETELLA JÚNIOR, José. Tratado de direito administrativo. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2002, v. 2,

p. 10, grifos do autor.

274 MONTEIRO, Washington de Barros; PINTO, Ana Cristina de Barros Monteiro França. Curso de direito

Todavia, os fatos que mais comumente produzem efeitos jurídicos são aqueles que decorrem da ação humana voluntária, sobre a qual a ordem jurídica ora prescreve efeitos jurídicos imediatamente, independentemente do fato de o ser humano desejar ou não tais consequências, ora admite as consequências jurídicas que a vontade do ser humano, com aquela ação, deseja produzir275.

O Código Civil de 1916, ao tratar dos fatos jurídicos no Livro III, disciplinava, nas “Disposições preliminares”, a aquisição, a conservação, a modificação e a extinção de direitos. Em seguida, no Título I, definia ato jurídico: “Todo ato lícito, que tenha por fim imediato adquirir, resguardar, transferir, modificar ou extinguir direitos, se denomina ato jurídico”.

O Código Civil de 2002 substituiu a denominação genérica “ato jurídico” pela designação específica “negócio jurídico”, considerando a riqueza de conteúdo, aplicando os preceitos do Livro III.

Encontra-se mantido no Código Civil de 2002, no Livro III da parte geral, o título “DOS FATOS JURÍDICOS”, os quais englobam, em sentido amplo, os negócios jurídicos, os atos jurídicos lícitos e os atos ilícitos.

Observa-se que não há uma definição de fato jurídico nem no Código Civil de 1916, nem no Código Civil de 2002.

Carlos Roberto Gonçalves resume o que seja fato jurídico em sentido amplo como “todo acontecimento da vida que o ordenamento jurídico considera relevante no campo do direito”276.

E na classificação apresentada por José Abreu os fatos jurídicos dividem-se em involuntários ou voluntários, que são as ações humanas277.

Os fatos jurídicos (lato sensu) podem ser: a) de ordem natural, fato jurídico natural ou fato jurídico stricto sensu; b) ações humanas, fato jurídico voluntário ou ato jurídico lato sensu. Assim, os primeiros têm origem na simples manifestação da natureza e os últimos derivam da atividade humana.

275 ARAÚJO, 1992, p. 17.

276 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 2011, v. 1, p. 316. 277 As ações humanas podem produzir efeitos jurídicos voluntários (no caso dos atos jurídicos em sentido

lato, ou negócios jurídicos), ou efeitos jurídicos involuntários (atos jurídicos em sentido estrito, lícitos), ou, até mesmo, efeitos em regra indesejados pelo sujeito (atos ilícitos) (ABREU, José. O negócio jurídico e sua teoria geral. São Paulo: Saraiva, 1988, p. 8-9).

3.2.1 Fato jurídico stricto sensu ou fato natural

Fato jurídico stricto sensu seria aquele acontecimento que não depende da vontade humana, mas produz efeitos jurídicos, criando, modificando ou extinguindo direitos.

Maria Helena Diniz classifica o fato jurídico stricto sensu em: ordinários (como morte, nascimento, maioridade, menoridade, aluvião, avulsão) e extraordinários ou irresistíveis (como o caso fortuito e a força maior: terremoto, raio, tempestade)278.

São fatos naturais que produzem efeitos jurídicos, mas que não exprimem qualquer atividade humana.

3.2.2 Ato jurídico lato sensu ou fato humano

O ato jurídico não é exclusivo do direito privado, nem do direito público, ultrapassa as fronteiras, cabendo o conceito à teoria geral do direito.

Comparando-se ato jurídico e ato administrativo, verifica-se que ato jurídico é gênero e ato administrativo é espécie desse mesmo gênero. Trata-se de uma relação de gênero e espécie, mas ambos possuem idênticos elementos estruturais279.

José dos Santos Carvalho Filho, ao comparar as noções de ato jurídico e de ato administrativo, identifica vários pontos comuns:

No direito privado, o ato jurídico possui a característica primordial de ser um ato de vontade, com idoneidade de infundir determinados efeitos no mundo jurídico. [...] Os elementos estruturais do ato jurídico – o sujeito, o objeto, a forma e a própria vontade – garantem sua presença também no ato administrativo. Ocorre que neste o sujeito e o objeto têm qualificações especiais: o sujeito é sempre um agente investido de prerrogativas públicas, e o objeto há de estar preordenado a determinado fim de interesse público. Mas no fundo será ele um instrumento da vontade para a produção dos mesmos efeitos do ato jurídico280.

278 DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro. 29. ed. São Paulo: Saraiva, 2012, v. 1, p. 429. 279 José Cretella Júnior, ao partir da premissa de que o ato administrativo constitui uma espécie de ato

jurídico – que é editado, normalmente, por autoridade administrativa, embora, por exceção, possa nascer da iniciativa de autoridade pública de outros poderes e, mais excepcionalmente, em casos anormais, de pessoa privada que depende de manifestação do Estado; que tem por objeto matéria administrativa –, apresenta a seguinte definição, latissimo sensu: “ato administrativo é a manifestação do Estado, por seus representantes, no exercício regular de suas funções, ou por qualquer pessoa que detenha, nas mãos, fração de poder reconhecido pelo Estado, que tem por finalidade imediata criar, reconhecer, modificar, resguardar ou extinguir determinadas situações jurídicas subjetivas, em matéria administrativa” (CRETELLA JÚNIOR, 2002, v. 2, p. 43-44).

280 José dos Santos Carvalho Filho observa que na sistemática do novo Código devem os atos administrativos

(assim como os atos jurisdicionais e legislativos) enquadrar-se como atos jurídicos porquanto a vontade jurígena será emitida pelos agentes da Administração em conformidade com a lei, mas não poderão ser qualificados como negócios jurídicos, porque a emissão volitiva decorre diretamente da lei, independentemente de o agente desejar, ou não, a finalidade a ser alcançada pelo ato. Nada obstante, é

Assim, ato jurídico lato sensu é um ato humano, ato de vontade que produz efeitos jurídicos.

Quanto à responsabilidade do agente público, defende-se que o ato jurídico pode ser tanto lícito quanto ilícito, apesar de ser mais fácil identificar a responsabilidade na prática de um ato jurídico ilícito.