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Neste tópico, será estudado o regime disciplinar do servidor público temporário, especificamente nos aspectos relacionados ao conhecimento de seus direitos, deveres, proibições. No capítulo seguinte, serão aprofundados os procedimentos apuratórios das faltas disciplinares cometidas, com a garantia do direito de defesa na apuração das faltas disciplinares, bem como as formas de controle interno e externo.

Para tanto, elegeu-se para análise a Lei Federal n.º 8.745, de 9 de dezembro de 1993, que dispõe sobre a contratação por tempo determinado para atender a necessidade temporária de excepcional interesse público dos órgãos da Administração Federal direta, das autarquias e das fundações públicas.

4.2.1 Direitos

As vantagens de ordem pecuniária e os direitos em geral do servidor temporário no âmbito federal estão previstos na Lei n.º 8.745/93 e, subsidiariamente, em algumas disposições da Lei n.º 8.112/90, conforme artigo 11 da Lei n.º 8.745/93.

O servidor temporário faz jus às mesmas vantagens pecuniárias concedidas ao servidor público efetivo. Por exemplo: remuneração, gratificações pela prestação de serviço extraordinário, gratificação natalina, diária, ajuda de custo, adicional de insalubridade, periculosidade ou atividades penosas, adicional noturno, adicional de férias e gratificação por encargo de curso ou concurso.

Quanto às vantagens de ordem geral, os servidores temporários têm direito a férias, afastamentos conciliáveis com a situação peculiar da temporariedade da função, petição e aposentadoria.

É importante ressaltar que o artigo 8.º da Lei n.º 8.745/93 manda aplicar o disposto na Lei n.º 8.647, de 13 de abril de 1993 (Regime Geral de Previdência Social)378, aos contratados por tempo determinado para atender a necessidade temporária de excepcional interesse público.

378 A Lei n.º 8.647/93 dispõe sobre a vinculação do servidor público civil, ocupante de cargo em comissão

sem vínculo efetivo com a Administração Pública Federal, ao Regime Geral de Previdência Social e dá outras providências.

4.2.2 Deveres

A infringência pelo servidor temporário dos deveres e proibições a que está sujeito implica o ilícito administrativo, com a respectiva responsabilização funcional ou disciplinar. Pode também ocasionar o ilícito administrativo penal, em se tratando de responsabilidade penal, e/ou o ilícito civil, que enseja a responsabilidade civil, e mesmo a responsabilidade por atos de improbidade administrativa.

Com muita propriedade, Edmir Netto de Araújo destaca alguns deveres funcionais:

Os deveres funcionais representam normas de conduta (atitude ativa) do servidor, apontando para ele a forma ideal e regulamentar para o desempenho de suas atribuições públicas. Assim considerados, referem- se mais propriamente à presença física do servidor na repartição, ao bom ambiente de trabalho que deve ser preservado para que o serviço seja produtivo, à própria pessoa do servidor inserido nesse ambiente (ou mesmo, em certos casos, fora dele), e às regras gerais sob as quais os serviços devem se desenvolver379.

Para Carlos Borges de Castro, os servidores públicos contratados pelo regime da Consolidação das Leis do Trabalho subordinam-se a deveres gerais dos funcionários, como assiduidade, pontualidade, discrição e à maior parte dos específicos, o mesmo ocorrendo em relação às proibições380.

Não são somente os servidores estatutários e empregados públicos que devem observar os deveres, os servidores públicos temporários também estão sujeitos a deveres que podem ser gerais, como assiduidade e pontualidade, ou específicos, como residência obrigatória, discrição e outros, pois os deveres do servidor não são, em princípio, diferentes dos deveres do trabalhador comum.

Adotando-se a classificação de Edmir Netto de Araújo, os deveres do servidor temporário podem ser assim divididos381:

a) quanto à presença do servidor: ser assíduo e pontual ao serviço; b) quanto ao ambiente de trabalho: tratar com urbanidade as pessoas;

c) quanto ao procedimento do servidor: manter conduta compatível com a moralidade administrativa; ser leal às instituições a que servir; representar contra ilegalidade, omissão ou abuso de poder;

d) quanto à prestação de serviços: observar as normas legais e regulamentares; cumprir as ordens superiores, exceto quando manifestamente ilegais; levar ao

379 ARAÚJO, 2014, p. 419, grifo do autor. 380 CASTRO, 1981, p. 77, p. 79 e p. 140. 381 ARAÚJO, 2014, p. 418-431.

conhecimento superior as irregularidades; guardar sigilo sobre assunto da repartição; zelar pela economia do material e pela conservação do patrimônio público; exercer com zelo e dedicação suas atribuições.

Tais deveres devem ser observados pelos servidores temporários sob pena de serem aplicadas sanções após sindicância ou processo administrativo disciplinar em que seja assegurada a ampla defesa e o contraditório.

4.2.3 Proibições

As proibições, as vedações, os deveres negativos são todas as ações que o servidor público temporário não pode fazer ou praticar, quando no exercício de sua função. Como diz Edmir Netto de Araújo, representam “um freio (atitude de abstenção, inércia) à conduta do agente em relação ao Poder Público em geral, em relação à própria repartição em que trabalha, e à forma de prestação de seus serviços à pessoa jurídica estatal”382.

Tal como os deveres, as proibições também importam em imputação de responsabilidade administrativa, com aplicação de penalidades que podem variar, sem que essas apenações impeçam a responsabilidade civil, penal e por ato de improbidade administrativa.

Edmir Netto de Araújo adota o seguinte critério para distinguir os deveres das proibições: é preciso determinar se a atitude é ativa ou passiva, pois “o cumprimento de um dever supõe, em tese, um comportamento ativo, ao passo que uma vedação corresponde, em regra, uma atitude passiva, de abstenção”383. O referido autor classifica as proibições

de forma a tornar clara e objetiva a sua compreensão384. Utilizando a classificação adotada por Edmir Netto de Araújo serão enumeradas as proibições referentes aos servidores temporários com base na lei federal (Lei n.º 8.745/93):

a) Proibições relativas ao cargo ou função:

a.1) acumulação de cargos, empregos e funções (art. 118 a 120 da Lei n.º 8.112/90) – trata-se de vedação constitucional, prevista no artigo 37, XVI e XVII;

a.2) utilização indigna do cargo ou função (art. 117, IX, XII, da Lei n.º 8.112/90); a.3) exercício de atividades empresariais incompatíveis com a função pública (art. 117, X, XVIII, da Lei n.º 8.112/90);

382 ARAÚJO, 2014, p. 431, grifo do autor.

383 ARAÚJO, 2014, p. 432, grifos do autor. O referido autor ressalta que essa classificação nem sempre é

exata.

a.4) patrocínio de interesses privados (art. 117, XI, da Lei n.º 8.112/90);

a.5) aceitação de representação de Estado estrangeiro (art. 117, XIII, da Lei n.º 8.112/90);

b) Proibições relativas ao procedimento do servidor no exercício de suas funções: b.1) manifestações e atividades perturbadoras da atmosfera de trabalho (art. 117, V, da Lei n.º 8.112/90);

b.2) usura (art. 117, XIV, da Lei n.º 8.112/90);

b.3) ausência do serviço durante o expediente, sem prévia autorização do chefe imediato (art. 117, I, da Lei n.º 8.112/90);

b.4) cometimento a pessoa estranha à repartição, fora dos casos previstos em lei, do desempenho de atribuição que seja de sua responsabilidade ou de seu subordinado (art. 117, VI, da Lei n.º 8.112/90).

c) Proibições relativas à própria prestação de serviços:

c.1) retirada e/ou utilização de documentos, materiais ou objetos da repartição (art. 117, II, XVI, da Lei n.º 8.112/90);

c.2) desídia (art. 117, XV, da Lei n.º 8.112/90);

c.3) recusa de inspeção médica (art. 130, § 1.º, da Lei n.º 8.112/90);

c.4) recusa de dar fé a documentos públicos (art. 117, III, da Lei n.º 8.112/90); c.5) resistência injustificada ao andamento de documento e processo ou à execução de serviço (art. 117, IV, da Lei n.º 8.112/90).

Edmir Netto de Araújo ressalta:

A Consolidação das Leis do Trabalho não especifica proibições (ao menos, assim referidas) a empregados, mesmo públicos, da mesma forma que não disciplina deveres funcionais, preferindo arrolar, em seus artigos 482 (principalmente), 723, 725, 730 e 731 as justas causas para a rescisão unilateral e brusca do contrato de trabalho385.

Mais adiante, Edmir Netto de Araújo explica que isso ocorre porque a maior parte das infrações a esses deveres e proibições encontra como correspondente uma justa causa para a demissão ou a punição do empregado, no regime trabalhista386.

Considera-se que infringir uma proibição é mais grave do que infringir um dever, logo as sanções aplicadas para as proibições têm uma gravidade maior.

Da mesma forma, os servidores temporários estão sujeitos a proibições. Uma vez tendo praticado algo que não poderiam fazer, responderão por seus atos, sendo-lhes

385 ARAÚJO, 2014, p. 433, grifos do autor. 386 ARAÚJO, 2014, p. 433.

aplicada uma sanção após a regular apuração de suas faltas, sempre com a garantia da ampla defesa e do contraditório.

5 PROCESSO ADMINISTRATIVO DISCIPLINAR