As métricas “riqueza de espécies” (Karr 1981), “percentual de abundância de indivíduos que se abrigam na vegetação marginal” (Ferreira & Casatti 2006), “riqueza de nectônicos” (Araújo et al. 2003, Casatti et al. 2009a, Quadir & Malik 2009), “riqueza e percentual de abundância de bentônicos” (Karr 1981, Lyons et al. 1995, Bozzetti & Schulz 2004, Quadir & Malik 2009), “riqueza e percentual de abundância de reofílicos” (Harris 1995, Pont et al. 2007, Casatti et al. 2009a) e “riqueza de espécies não tolerantes” (Araújo et al. 2003, Bozzetti & Schulz 2004, Pont et al. 2007, Quadir & Malik 2009), apesar de mostrarem-se sensíveis em outros estudos para discriminar locais de alta integridade daqueles de menor integridade biótica não foram sensíveis para avaliar a integridade biótica dos trechos aqui estudados.
Nos trechos de primeira ordem, as métricas foram as mesmas do estudo de Casatti et al. (2009a). Os menores escores foram atribuídos ao “número de espécies nativas”, “dominância de Simpson”, “número de espécies nectônicas” e “número de espécies reofílicas”. Essas métricas estão relacionadas à estrutura da comunidade e ao uso do hábitat, que são umas das características que primeiro são alteradas com a degradação (Roth et al. 1996), pois a eliminação de micro-hábitats nesses ambientes acabam também eliminando as espécies mais sensíveis (Schlosser 1991) e efetando a riqueza de espécies nativas e indicadoras de hábitats íntegros como as de hábito reofílico e nectônico.
Nos trechos de segunda ordem seis métricas foram validadas. Relacionadas à estrutura da comunidade foram: “percentual de abundância de espécies nativas”, adaptada diversas vezes a partir de Karr (1981), tende a diminuir em resposta à
degradação, pois os impactos estruturais eliminam hábitats específicos de diversas espécies (Karr & Dudley 1981); “percentual de riqueza de Characiformes e Siluriformes” e “percentual de abundância de Characiformes e Siluriformes” já foram utilizados por Ferreira & Casatti (2006) e Casatti et al. (2009a). Sua robustez em discriminar os impactos antrópicos pode estar relacionada ao fato de que essas duas ordens são predominantes na região Neotropical (Castro et al. 2003, 2004) e condições degradadas poderiam afetar essa proporção. A métrica “dominância de Simpson”, inicialmente utilizado por Ferreira & Casatti (2006), indica um desvio da condição esperada, visto que uma comunidade diversa e íntegra não apresenta alta dominância de uma espécie e espera-se que isso ocorra em ambientes mais degradados, onde espécies mais tolerantes seriam favorecidas (Ferreira & Casatti 2006, Casatti et al. 2009a). Referindo-se ao uso do hábitat, “percentual de abundância de nectônicos” tende a diminuir em condições de degradação, pois ambientes assoreados tendem a perder esse hábitat pela diminuição na altura da coluna d’água (Bozzeti & Schulz 2004). E com relação à tolerância à ambientes pouco oxigenados a métrica validada foi “percentual de de abundância de tolerantes”, referida como capaz de discriminar ambientes degradados daqueles mais íntegros, pois em em condições impactadas há um aumento no número de indivíduos com adaptações à hipoxia (Bozzetti & Schulz 2004, Casatti et al. 2009a).
As métricas selecionadas para avaliação da integridade biótica dos trechos de terceira ordem foram cinco: “percentual de riqueza de Characiformes e Siluriformes” e “percentual de abundância de Characiformes e Siluriformes”, que assim como dito acima para os riachos de segunda ordem, foram úteis na detecção dos sinais de degradação; “riqueza de Siluriformes” foi proposta por Ferreira & Casatti (2006) como
grupo tende a ser maior em ambientes mais conservados (Stopiglia 2001, Garutti 1988), e, assim como o previsto, diminuíram em condições de homogeneização do substrato por deposição de sedimento. As métricas “riqueza de tolerantes” e “percentual de abundância de tolerantes” também discriminaram os efeitos da degradação ambiental, que proporcina o aumento em número de espécies e na sua abundância.
Algumas métricas foram validadas tanto para trechos de segunda quanto de terceira ordem: “percentual de riqueza de Characiformes e Siluriformes”, “percentual de abundância de Characiformes e Siluriformes” e “percentual de abundância de espécies tolerantes”. Houve algumas mudanças apenas nos valores limites para os escores, mas essas métricas foram sensíveis igualmente para as duas hierarquias fluviais. A robustez dessas métricas pode ser devido ao fato de que ambientes degradados estão mais sujeitos à colonização por espécies mais tolerantes que substituem as espécies mais sensíveis (Karr 1981) ao caráter filogeneticamente conservador de ambientes lóticos Neotropicais, que as proporções das ordens dominantes (Characiformes e Siluriformes) alteradas apenas quando sob imposição de fortes danos físicos no hábitat.
As métricas redundantes geralmente são eliminadas das avaliações de integridade, pois acabam por enviesar o índice final para mais ou para menos, de acordo com o tipo de resposta da métrica à degradação. De acordo com Stoddard et al. (2008) não são necessários mais que uma métrica por categoria de avaliação, visto que isso afrouxaria o poder do índice. Por outro lado, algumas métricas, apesar redundantes em alguns ambientes, podem ser úteis em outras situações, como no exemplo citado por Karr & Chu (1999). Estes autores mencionam que os invertebrados bentônicos de corpo mole são indicadores de degradação na América do Norte, mas, ao incluir algumas espécies de moluscos, indicam boas condições em índices utilizados no Japão. Desta
forma, nem sempre essas métricas devem ser desconsideradas, podendo ser úteis dentro do rol de opções disponíveis quando na ausência de outra utilizada no IBI.
Muitos estudos com índices multimétricos baseiam-se em outros já desenvolvidos, utilizando as mesmas métricas aplicadas ou adaptando-as (Karr & Chu 1999). Por isso, a utilidade das métricas redundantes não pode ser descartada, pois na impossibilidade de obter-se uma métrica validada, o leitor estará ciente que outra poderá ser usada com a mesma confiabilidade. Assim, reiteramos que apesar das métricas redundantes terem sido retiradas desta avaliação final, sua importância e confiabilidade não diminuem, visto que foram validadas por meio de estatísticas confiáveis.