Jacopo tornava-se cada vez mais triste, e acabou adoecendo. O pai de Teresa foi visitá-lo, e quis convencê-lo a se afastar das Colinas. Poucos dias depois, Jacopo partiu.
Devido sobretudo a esse afastamento, e também ao que foi narrado no final da carta de 2 junho, o adeus de Teresa, ele dá-se conta de que não mais poderá tê-la. Resta nele o sentimento de perda: constatação de um vazio definitivo e irremediável.
A partir desta carta até o fim da primeira parte do romance, a correspondência segue em fragmentos. Essa fragmentação, cheia de lacunas, de vazios, reflete o próprio vazio que ele estava sentindo.
Rovigo, 20 Luglio
Io la mirava e diceva a me stesso: Che sarebbe di me se non potessi vederla più? e correva a piangere meco di consolazione sapendo ch'io le era vicino - e adesso?
Cos'è più l'universo? qual parte mai della terra potrà sostenermi senza Teresa? e mi pare di esserle lontano sognando. Ho avuto io tanta costanza? e m'è bastato il cuore di partire così - senza vederla? né un bacio, né un unico addio! A minuto a minuto credo di trovarmi alla porta della sua casa, e di leggere nella mestizia del suo volto, che m'ama. Fuggo; e con che velocità ogni minuto mi porta ognor più lontano da lei. E intanto? quante care illusioni! ma io l'ho perduta. Non so più obbedire né alla mia volontà, né alla mia ragione, né al mio cuore sbalordito: mi lascierò strascinare dal braccio prepotente del mio destino. Addio.
Rovigo, 20 de julho
Eu a observava e dizia a mim mesmo: o que seria de mim se não pudesse mais vê-la? E corria a chorar, mas me consolava saber que estava perto dela. Mas, e agora?
O que é o universo ainda? Que parte da terra poderá manter-me sem Teresa? E me parece que estou longe dela, sonhando. E eu, que tanta constância tive, como pude partir assim sem vê-la? sem um beijo? sem um único adeus? A cada minuto creio encontrar-me à porta de sua casa, e ler na tristeza de seu rosto, que me ama. Fujo, e com que velocidade cada minuto me leva para mais longe dela! E enquanto isso? quanta ilusão me afagava! mas, eu... fui eu que a perdi. Não sei mais obedecer nem à minha vontade, nem à minha razão, nem ao meu coração aturdido: deixar-me-ei arrastar pelo braço prepotente do meu destino. Adeus.203
203 Note-se a semelhança desta passagem com os versos do poema ―Ainda uma vez – Adeus!‖ de
Gonçalves Dias: ―Tantos encantos me tinham / Tanta ilusão me afagava / De noite, quando acordava, / De dia em sonhos talvez! (XI) [...] / Pensar eu que o teu destino / Ligado ao meu, outro fora, [...] / Pensar que a tua ventura / Deus ab eterno a fizera / No meu caminho a pusera... / e eu! Fui eu que a não quis! (XIV).‖ E o restante da carta se parece com estes versos: ―Pensar eu que o teu destino / ligado ao meu outro fora (XIV) [...] / Adeus qu‘eu parto, senhora (XVII).‖
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Segunda ParteDepois que Jacopo deixou as Colinas Eugâneas, viajou para outras cidades. Essa viagem corresponde aos deslocamentos do próprio Foscolo, feitos durante os anos tumultuados das sucessivas edições das Ultime lettere. No entanto, no romance essa peregrinação torna-se uma viagem sem rumo para o protagonista.
Nesta terceira carta da segunda parte, Jacopo encontra-se em Bolonha, cidade na qual Foscolo viveu e combateu contra os austríacos, de novembro de 1798 a abril de 1799, época da primeira edição parcial das Ultimas lettere. Depois disso, Foscolo, assim como Jacopo, partirá para Florença.
Jacopo sente-se mal em Bolonha, em meio aos muitos indigentes que encontra por lá. Aproveita-se disso para criticar a justiça da época.
Bologna, 12 Agosto
Oramai sono passati diciotto giorni da che Michele è ripartito per le poste, né torna ancora: e non veggo tue lettere. Tu pure mi lasci? Per Dio, scrivimi almeno: aspetterò sino a lunedì, e poi prenderò la volta di Firenze. Qui tutto il giorno sto in casa perché non posso vedermi impacciato fra tanta gente; e la notte vo baloccone per città come larva, e mi sento sbranare le viscere da tanti indigenti che giacciono per le strade, e gridano pane; non so se per loro colpa, o d'altri – so che domandano pane. Oggi tornandomi dalla posta mi sono abbattuto in due sciagurati menati al patibolo: ne ho chiesto a quei che mi si affollavano addosso; e mi è stato risposto, che uno avea rubato una mula, e l'altro cinquantasei lire per fame. Ahi Società! E se non vi fossero leggi protettrici di coloro che per arricchire col sudore e col pianto de' proprj concittadini li sospingo al bisogno e al delitto, sarebbero poi sì necessarie le prigioni e i carnefici? Io non sono sì matto da presumere di riordinare i mortali; ma perché mi si contenderà di fremere su le loro miserie e più di tutto su la lor cecità? – E mi vien detto che non v'ha settimana senza carneficina; e il popolo vi accorre come a solennità. I delitti intanto crescono co' supplizj. No, no; non voglio più respirare quest'aria fumante sempre del sangue de' miseri. – E dove?
Bolonha, 12 de agosto
Já faz dezoito dias que Michele saiu para a posta204, e ainda não voltou. Por isso, não vejo tuas cartas. Tu também me deixas? Por Deus, escreva-me ao menos: esperarei até segunda, e depois partirei para Florença. Aqui, durante o dia fico em casa, porque não posso ver-me constrangido em meio a tanta gente; à noite, vou vagando pela cidade como um espectro205, e me dilacera as vísceras ver tantos indigentes que jazem pelas ruas clamando pelo pão; não sei se por culpa deles, ou de outros – sei apenas que pedem pão. Hoje, ao voltar da posta, deparei-me com dois miseráveis sendo conduzidos ao patíbulo: perguntei àqueles que se aglomeravam em volta de mim, e me foi respondido que um havia roubado uma mula, e o outro, cinqüenta e seis liras para comprar algo de comer206. Ai, Sociedade! Se não houvesse leis para proteger os que se enriquecem com o suor e o pranto dos concidadãos, impelindo-os à necessidade e ao delito, seriam necessárias as prisões e os carrascos? Não sou louco o bastante para pretender reordenar os mortais; mas porque me censuram se estremeço diante de suas misérias e, sobretudo, diante de sua cegueira? E dizem-me que não há semana sem carnificina; e o povo acorre como para uma solenidade. Enquanto isso, com os suplícios os delitos só aumentam. Não, não; não quero mais respirar este ar que exala continuamente o sangue dos miseráveis. Mas aonde ir?
204 ―Posta‖ no original, homônimo em português. Estações das estradas para a troca de cavalo, ou o
correio.
205 ―Larva‖ no original. Termo antigo, também existente em português, que tem o sentido aproximado de
―alma penada‖. Foscolo, Sepolcri, 206 (larve guerriere, ―fantasmas dos heróis‖).
206―No início, esta narração parecia-me exagerada pela imaginação consternada de Jacopo; mas depois vi
que no Estado Cisalpino não havia leis criminais. Julgava-se com as leis dos governos caídos; e em Bolonha com os decretos férreos dos Cardeais, que ameaçavam de morte todo furto qualificado acima de cinqüenta e duas liras. Mas os Cardeais mitigavam quase sempre a pena; o que não pode ser concedido a tribunais da República, executores necessariamente inflexíveis das leis: assim, muitas vezes, a Justiça impassível é mais funesta do que a Eqüidade arbitrária.‖ [N. F.]
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Termina aqui a narrativa da viagem de Jacopo pela Toscana. Em carta anterior (27 de agosto) ele descreve a visita à igreja de Santa Croce e o desejo de conhecer Alfieri, que residia na cidade desde 1792. Essas cartas também refletem as experiências de Foscolo na Toscana, onde combateu como soldado, entre julho e novembro de 1800.
Nesta carta de 25 de setembro, Foscolo trata do problema nacional, mostrando duas pátrias em contraste: a Toscana, idealizada, de quatro séculos antes: terra abençoada pelas Musas e pelas Letras; e a terra sem pátria, na qual Jacopo ―errante pela Itália morta, já pronto para o suicídio, se alegra ao ver a Toscana‖207.
Firenze, 25 Settembre
In queste terre beate si ridestarono dalla barbarie le sacre Muse e le lettere. Dovunque io mi volga, trovo le case ove nacquero, e le pie zolle dove riposano que' primi grandi Toscani: ad ogni passo ho timore di calpestare le loro reliquie. La Toscana è tuttaquanta una città continuata, e un giardino; il popolo naturalmente gentile; il cielo sereno; e l'aria piena di vita e di salute. Ma l'amico tuo non trova requie: spero sempre – domani, nel paese vicino – e il domani viene, ed eccomi di città in città, e mi pesa sempre più questo stato di esilio e di solitudine. – Neppure mi è conceduto di proseguire il mio viaggio: avea decretato di andare a Roma a prostrarmi su le reliquie della nostra grandezza. Mi negano il passaporto; quello già mandatomi da mia madre è per Milano: e qui, come s'io fossi venuto a congiurare, mi hanno circuito con mille interrogazioni: non avran torto; ma io risponderò domani, partendo. – Così noi tutti Italiani siamo fuorusciti e stranieri in Italia: e lontani appena dal nostro territoriuccio, né ingegno, né fama, né illibati costumi ci sono di scudo: e guai se t'attenti di mostrare una dramma di sublime coraggio! Sbanditi appena dalle nostre porte, non troviamo chi ne raccolga. Spogliati dagli uni, scherniti dagli altri, traditi sempre da tutti, abbandonati da' nostri medesimi concittadini, i quali anziché compiangersi e soccorrersi nella comune calamità, guardano come barbari tutti quegl'Italiani che non sono della loro provincia, e dalle cui membra non suonano le stesse catene – dimmi, Lorenzo, quale asilo ci resta? Le nostre messi hanno arricchiti nostri dominatori; ma le nostre terre non somministrano né tugurj né pane a tanti Italiani che la rivoluzione ha balestrati fuori dal cielo natio, e che languenti di fame e di stanchezza hanno sempre all'orecchio il solo, il supremo consigliere dell'uomo destituto da tutta la natura, il delitto! Per noi dunque quale asilo più resta, fuorché il deserto, e la tomba? – e la viltà! e chi più si avvilisce più vive forse; ma vituperoso a se stesso, e deriso da quei tiranni medesimi a cui si vende, e da' quali sarà un dì trafficato.
Ho corsa tutta Toscana. Tutti i monti e tutti i campi sono insigni per le fraterne battaglie di quattro secoli addietro; i cadaveri intanto d'infiniti Italiani ammazzatisi hanno fatte le fondamenta a' troni degl'Imperadori e de' Papi. Sono salito a Monteaperto dove è infame ancor la memoria della sconfitta de' Guelfi. – Albeggiava appena un crepuscolo di giorno, e in quel mesto silenzio, e in quella oscurità fredda, con l'anima investita da tutte le antiche e fiere sventure che sbranano la nostra patria – o mio Lorenzo! io mi sono sentito abbrividire, e rizzare i capelli; io gridava dall'alto con voce
minacciosa e spaventata. E mi parea che salissero e scendessero dalle vie dirupate della montagna le ombre di tutti que' Toscani che si erano uccisi; con le spade e le vesti insanguinate; guatarsi biechi, e fremere tempestosamente, e azzuffarsi e lacerarsi le antiche ferite. – O! per chi quel sangue? il figliuolo tronca il capo al padre e lo squassa per le chiome – e per chi tanta scellerata carnificina? I re per cui vi trucidate si stringono nel bollor della zuffa le destre e pacificamente si dividono le vostre vesti e il vostro terreno. – Urlando io fuggiva precipitosamente guatandomi dietro. E quelle orride fantasie mi seguitavano sempre – e ancora quando io mi trovo solo di notte mi sento attorno quegli spettri, e con essi uno spettro più tremendo di tutti, e ch'io solo conosco. – E perché io debbo dunque, o mia patria, accusarti sempre e compiangerti, senza niuna speranza di poterti emendare o di soccorrerti mai?
Florença, 25 de setembro
Nestas terras abençoadas, despertaram da barbárie as sagradas Musas e as letras. Para onde quer que eu me dirija, encontro as casas onde nasceram e a pia terra onde repousam aqueles primeiros ilustres Toscanos: a cada passo temo pisar as suas relíquias. Toda a Toscana é uma cidade208 contínua, e um jardim; o povo naturalmente gentil; o céu sereno; e o ar pleno de vida e de saúde209. Mas o teu amigo não encontra paz: espero sempre – amanhã, na cidade vizinha – e o amanhã chega, e aqui estou, de cidade em cidade, sentindo cada vez mais o peso deste estado de exílio e de solidão. Nem ao menos me permitem seguir viagem: tinha decidido ir a Roma, para me prostrar diante das relíquias de nossa grandeza. Negam-me o passaporte210; aquele enviado por minha mãe é para Milão: e aqui, como se eu tivesse vindo para conspirar, rodearam-me com mil perguntas; não estarão errados, mas minha resposta será minha partida, amanhã. – Assim nós italianos somos todos foragidos e estrangeiros na própria Itália; e mal nos distanciamos de nosso pequeno território, nem o engenho, nem a fama, nem os nossos ilibados costumes nos servem de escudo: e pobre daquele que tentar mostrar um pouco211 sequer de sublime coragem! Banidos de nossas portas, não encontramos quem nos recolha. Espoliados por uns, ridicularizados por outros, traídos sempre por todos, abandonados por nossos próprios concidadãos, que, em vez de se compadecerem da calamidade mútua e de se socorrerem uns aos outros, vêem como bárbaro todo Italiano que não seja da província deles, e em cujos membros não soam as mesmas correntes. Responda-me, Lorenzo, qual refúgio nos resta? Nossas messes enriqueceram nossos dominadores; mas nossas terras não fornecem nem teto, nem pão aos tantos italianos que a revolução arremessou para longe da terra natal; e que, definhados pela fome e pelo cansaço, só dão ouvidos ao único e supremo conselheiro do homem abandonado pela natureza inteira: o delito! Para nós, então, qual refúgio nos resta, a não ser o deserto e a tumba? e a vileza! E o que mais se avilta, talvez seja o que viva melhor; mas,
208 Dei Sepolcri, 165-172.
209 ―L’aria piena di vita e di salute‖, verso do poeta Galeazzo di Tarsia (c. 1520 – 1553) [N. F.]. 210 Passaporte necessário para passar do Grão-ducado da Toscana aos Estados Pontifícios.
211No original ―Una dramma‖, equivale a uma medida de peso grega, que corresponde a pouco mais de
envergonhado de si mesmo, e escarnecido pelos mesmos tiranos a quem se vende, e pelos quais será um dia vendido.
Percorri toda a Toscana. Todos os montes e todos os campos são célebres pelas batalhas entre irmãos de quatro séculos atrás. Entretanto, os cadáveres de incontáveis italianos que se mataram entre si formaram os alicerces dos tronos dos Imperadores e dos Papas. Subi a Monteaperto onde é ainda infame a memória da derrota dos guelfos212. Mal surgira o crepúsculo da manhã, e naquele triste silêncio, naquela fria escuridão, com a alma possuída por todas as antigas e cruéis desventuras que dilaceram nossa pátria, ó, meu Lorenzo, senti calafrios e arrepiar os cabelos; do alto, eu gritava com a voz cheia de ameaças e de tremores. E me parecia que subiam e desciam da montanha, por caminhos íngremes, as sombras de todos aqueles Toscanos mortos entre si; tinham as espadas e as roupas ensangüentadas; olhavam-se de través, e fremiam tempestuosamente, a bater-se e a lacerar as antigas feridas213. – Oh, para quem aquele sangue? O filho corta a cabeça do pai e a agita segurando pelos cabelos. Para quem aquela celerada carnificina? Os reis, por quem vos trucidais, no fervor da batalha apertam-se as mãos e pacificamente dividem entre si as vossas roupas e a vossa terra. Eu fugi precipitadamente, gritando e olhando para trás. Aquelas hórridas fantasias me perseguiam sempre – e ainda hoje, quando me encontro sozinho à noite, sinto aqueles espectros em torno de mim. Mas com eles, encontra-se um espectro mais terrível ainda: um que só eu conheço214. – Por que devo então, ó minha pátria, acusar-te sempre e sempre compadecer-me de ti, se não tenho eu esperança alguma de corrigir-te nem socorrer-te?
212―Dante alude a essa batalha no Canto X do Inferno [vv. 85-87]. Talvez esses versos tenham dado a
Ortis a idéia de visitar Monteaperto. Porém, o leitor pode encontrar dados mais concretos nas
Crônicas de G. Villani, livro IV, 83.‖ [N. F.] [Trata-se, na verdade, do Livro VI, 79.]
213 Dei Sepolcri, 201-212.
214 Refere-se a uma pessoa que morreu atropelada por ele. Esse acontecimento será narrado na carta de 14