Foto 80: Cleonice e a família Souza entre várias pessoas anônimas em Bertioga,
1945. Ampliação das dimensões originais: 5,5 x 8 cm.
Durante o período de férias gozadas entre “11.12.44 a 18-1.45” como informa a legenda “Santos-Bertioga (dia da volta) (10-16-1-45)”, o mesmo grupo fez alguns roteiros turísticos descansando, ao que tudo indica, no Hotel Lido. Entre os lugares que conheceram pode-se destacar o Forte de São João ou São Tiago (foto 80), que foi um dos vinte e quatro bens históricos tombados por Mário de Andrade em 1937, segundo Victor Hugo Mori93. Isto permite dizer que, desde então, tal construção era reconhecida como importante para a história do país; suas ruínas contavam as glórias passadas de Bertioga.
Para a análise dessas fotografias, uso a palavra monumento na acepção de sinal do passado, ligado ao sentido etimológico do termo como lembrança ou recordação. Que o Forte em questão seja um monumento nesse sentido, não há dúvidas, para ninguém, nem para o grupo de turistas que, ao posar diante dele, indica que se trata de seu maior atributo. Daí a escolha do cenário para a prática de memorização que
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Texto completo dísponível em: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/12.136/4034
acompanha a atividade de posar e tirar e fotos. Aliás, a própria fotografia pode ser assim concebida na medida em que perpetua o passado, recordando as deambulações de Cleonice e de seu grupo. Sob esse aspecto, todas as imagens mostradas neste trabalho podem ser consideradas também como sinais do passado, como micro-monumentos.
O estado de abandono do forte, construído em 1557, vinha de muitas décadas, pois, com a projeção do Porto de Santos, esse e outros lugares começaram a perder sua importância territorial e estratégica. A situação perdura até os anos 1940, quando o Sr. Armando Lichti comprou as terras adjacentes e, reconhecendo o valor histórico daquelas construções, mandou limpar a vegetação que as cobria. Essa atitude preservacionista permitiu aos turistas visitar suas ruínas, que passaram a constituir a principal atração turística de Bertioga. Em 1943, quando o Brasil se posicionou politicamente contra os países do “eixo” (Alemanha, Itália e Japão), o Exército instalou um posto de vigilância na antiga fortaleza e suas dependências, ficando sob o comando de um oficial-tenente, que lá permaneceu até o fim da guerra, em 1945. No mesmo ano, Armando Lichti tornou a assumir a coordenação da conservação do Forte São João até seu falecimento, em 1950 94.
Na imagem 80, o grupo de pessoas se posiciona ao centro da imagem; Cleonice porém se dilui entre eles e não estrutura a cena. A pouca importância de sua figura faz com que o forte ganhe maior relevância como motivo da foto, pois mesmo a família Velloso, que poderia fornecer estrutura à composição, se encontra à extrema direita perdida entre as figuras. Essa dispersão de personagens conhecidas mostra a importância que sua identificação tem no momento de análise das imagens em uma situação no qual o grupo fotografado é grande.
Se, nesta primeira viagem de férias, o forte (foto 80) destaca-se em razão da posição descentralizada de Cleonice e da família Souza, na segunda, realizada no período em que estiveram no SESC Bertioga, em 1952, é a distância do fotógrafo em relação ao tema que valoriza a construção (foto 84).
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Texto completo Disponível em: http://www.novomilenio.inf.br/bertioga/bh007.htm Acesso em 29/2/2012.
Foto 81: Dircinha à extrema esquerda, Cleonice a seu lado e anônimos no Forte São João, 1952. Dimensões: 7 x 5,5 cm.
O edifício aparece agora plenamente delineado e o grupo posiciona-se, talvez intencionalmente, distante da enorme parede da construção. A estratégia composicional define também o grupo contra a luminosidade aberta do espaço não construído, melhor visualizada no detalhe 81 a.
Detalhe 81a: Detalhe
Se, na viagem de 1945, cujo contexto era o fim da Segunda Guerra Mundial, os visitantes não podiam ir além da fachada (foto 81) - na segunda visita é possível notar que o turismo abriu as portas do forte. Na foto 82, pode-se ver Cleonice, Dircinha e desconhecidos na parte superior da construção que dava para uma das torres. Não só elas figuram ali, mas também outros visitantes.
Foto 82: Da esquerda para a direita anônimo, Dircinha, Cleonice e anônima em Bertioga 1952. Ampliação das dimensões originais: 7 x 5,5 cm.
Na realidade, entre o tombamento do forte e as duas visitas de Cleonice, sobretudo a segunda (na qual fica evidente que o monumento pôde ser visitado), algumas mudanças de atitude em relação à importância do passado podem ser percebidas. Em 1951, foi promulgada a lei que instituía o “Dia dos Monumentos e Fontes Históricas do Município” e, um ano depois, publicado no Diário Oficial de Santos o caderno: Conheça Santos: Santos de Ontem. O caderno continha lendas, histórias, mapas da cidade, listagem e descrição de monumentos (ARAÚJO, 2008:114). Isso mostra que surgia um gosto pelo passado e seus antigos e ilustres personagens; tais fotos revelam também que um monumento como o forte já cumpria uma função relativamente turística desde os anos 1940, apesar das restrições à sua visitação.
Exemplos dessa sensibilidade diante da presença material do passado na coleção CMH, aproximam essa construção de outras como o “Convento em ruínas” (foto 67) em Itanhaém, mas também de um outro ponto visitado em Bertioga e identificado agora como “Ruínas do convento” (foto 83).
O gosto pelas ruínas remonta ao século XVIII, momento em que o tempo passa a ser sentido como algo fugaz: “Timidamente, sem dúvida, mas com segurança, verificou- se no século XVIII o afastamento da concepção de um tempo circular ou imóvel para se começar a imaginar um tempo irreversível” (CLAUDON, 1986:14-15). A criação da fotografia permitiu ao menos uma ilusão de reversão do tempo. Fundamentadas na ilusão de recuperar como reminiscência uma experiência que vai passar, essas fotos tornam o tempo relativamente imóvel.
Foto 83: Férias 11.12.44-18-1-45. Santos – Bertioga – ruínas do convento (10-16-1- 45). Ampliação das dimensões originais: 5,5 x 8 cm.
Na foto 83, embora o grupo seja menor que aquele representado na foto 80, não é possível identificar todos. A quantidade de roupas claras contrasta com o arco de pedra cujo interior está repleto de plantas, está na sombra. Dona Olga e Dircinha se encontram bem no centro da imagem: a primeira, com traje claro, prolonga-se na outra, com traje mais escuro. É como se Olga fosse o tronco e a pequena, suas pernas. O Sr. Souza está à extrema esquerda da foto; ao seu lado direito, uma mulher e, ao lado desta, Cleonice. A fotografia mostra-se como uma técnica e uma prática de congelamento do tempo e, nesse sentido pode ser pensada não só em seu contexto social ou econômico, mas no vínculo antropológico que mantém com a morte (BARTHES, 1984).