B. Daimi Ve Geçici Yerleşimler
IV. TARIMSAL FAALİYETLER
A TAR considera que os objetos, entidades, fatos, controvérsias etc. localizados no espaço físico podem ser somente detectados em uma rede de relações que os tornam visíveis. Uma implicação desse fato é que não se pode detectar um objeto de interesse sem estar envolvido, ou inserido em uma rede de prática (LAW e SINGLETON, 2003).
No caso desta pesquisa, o trabalho móvel estudado está associado ao que acontece em aeroportos e aviões por aquelas pessoas que se deslocam nesses espaços por razões de trabalho. Para investigá-lo a estratégia metodológica adotada neste projeto envolve uma combinação de (i) observação de campo singular – de outros e auto-observação – com o objetivo de explorar, investigar e vivenciar o fenômeno de interesse; e (ii) entrevistas com pessoas com experiências de trabalho móvel com o objetivo de trazer elementos que complementem os eventos observados.
Antes de detalhar os procedimentos de coleta e análise dos dados adotados neste estudo, considera-se relevante uma breve discussão de três aspectos do projeto: (a) a orientação da TAR “siga os atores” e este projeto; (b) a identificação das pessoas a serem entrevistadas, informantes desta pesquisa; e (c) o método de coleta de dados preponderantemente baseado em observação.
A orientação da TAR “siga os atores” e este projeto
Tantas vezes se encontra a recomendação “seguir os atores” nos textos da TAR, que em determinado ponto Latour (2005, p. 227, tradução nossa) comenta: “mais uma vez, mesmo que isso tenha se tornado algo irritante, o único slogan viável é ‘seguir os atores’”. Mas, como fazê-lo? Por exemplo, no capítulo anterior, uma aula foi usada como exemplo, no passo do método da TAR associado a redistribuir o local, e comentou-se sobre os muitos vínculos da sala de aula com outros espaços e tempos. Nesse caso, devemos seguir todos os atores envolvidos com o local, a interação e cada ator humano participante? Por quanto tempo? Quando parar? Em outro momento Latour (2005, p. 121, tradução nossa) reconhece a dificuldade prática dessa ação: “Quão ridículo é requerer que pesquisadores ‘sigam os atores’, quando os atores a serem seguidos movem-se em grande quantidade e em todas as direções como uma colmeia perturbada por uma criança travessa?”. Segundo Latour (2005), a resposta está no fato de que, para a TAR, se o social é um traço, ele pode ser retraçado; se ele é uma montagem, ele pode ser remontado. E essa é a tarefa do pesquisador: produzir uma narrativa sobre o fenômeno de seu interesse; um texto que desempenhe a porção do social em foco, como apresentado no capítulo anterior. Isso a partir de um trabalho de campo envolvendo, por exemplo, conduzir entrevistas, aplicar questionários, tomar notas, fotografar, filmar, e folhear documentos; e que, mesmo assim, ignora, perde e interpreta mal grande parte do que acontece (LATOUR, 2005).
Latour produziu, em parceria com Émilie Hermant [fotos], e posteriormente com a contribuição de Liz Carey-Libbrecht [tradução] e Patricia Reed [web design], o que denomina uma ópera sociológica sobre Paris, Paris: Invisible City. Trata-se de um projeto fotográfico, textual e digital, publicado na Internet, que “retraça” Paris, destacando a importância dos objetos ordinários e os problemas práticos de coexistência na cidade. Os pesquisadores caminharam pela cidade – acredito que seja possível dizer – “seguindo os atores” em diversas direções, em muitos lugares; e o resultado do que foi observado e fotografado converteu-se em uma narrativa (texto+imagem) repleta de ação. Latour e Hermant (2004, p. 5, tradução nossa) descrevem do seguinte modo a tarefa: “o que denominamos o social [...] se tornará visível se formos capazes de vincular, uma a um, os traços muito particulares que passam por ele, traços que se movem rapidamente [...] Paris consiste deles”.
Considerando os objetivos deste estudo e inspirados pelo trabalho de Latour e Hermant (2004), na fase de desenho desta pesquisa discutiu-se possíveis estratégias. Uma delas que se mostrou aderente aos projetos dentro da perspectiva da TAR consistia do acompanhamento de uma pessoa (ou mais pessoas) em viagens a trabalho por meio do sistema aéreo, por um tempo, seguindo também outros lugares, tempos e atores envolvidos, como organizações, metas, e-mails etc. As dificuldades apresentadas por esse esboço de projeto – como a identificação de informantes com disponibilidade para a pesquisa, o custo de tal empreitada (por exemplo, envolvendo a emissão de passagens aéreas sem uma agenda prévia) e a duração do trabalho de campo –, no entanto, inviabilizaram sua concretização. Optou-se, então, pelo formato apresentado acima: uma combinação de (i) observação de campo de outros e auto- observação; e (ii) entrevistas. Desse modo temos várias partes de redes sobre o tema deste estudo sendo mapeadas52.
A identificação das pessoas informantes deste estudo
Dada a estratégia definida para este projeto, como identificar as pessoas de interesse desta pesquisa, principalmente aquelas que se deslocam por razões de trabalho, portam tecnologia e fazem uso dessa tecnologia, em aeroportos e aviões, em atividades relacionadas a trabalho? Primeiramente é preciso considerar que existem situações em que as pessoas se deslocam por outras razões e não apenas aquelas associadas a trabalho – como turismo, migração etc.,
52 Um mapeamento exemplar de uma rede, na nossa visão, pode ser encontrado em: PAIVA, E. N. A FNM e a
Indústria Automotiva no Brasil: Uma Análise Antitética do ponto de vista da Teoria Ator-Rede. Tese de Doutorado apresentada no COPPE/UFRJ em novembro de 2004. Disponível em <http://www.fnm.ufrj.br/>.
descritos por Urry (2007). Além disso, deve-se desconsiderar o caso das pessoas presentes nos espaços de observação que não são o foco deste estudo, como aquelas que trabalham nos espaços de deslocamento, isto é, trabalham nos aeroportos e aviões – como atendentes de
check-in e comissários(as) de voos.
Especificamente, considerando as pessoas que se deslocam por razões de trabalho, pode-se encontrar os casos em que a pessoa trabalha ou não durante o deslocamento, e faz uso ou não das tecnologias para suportar tal atividade, detalhados a seguir:
(i) a pessoa trabalha durante o deslocamento, com o apoio das tecnologias; (ii) a pessoa trabalha durante o deslocamento, porém sem o apoio das tecnologias;
(iii) a pessoa não trabalha durante o deslocamento, porém faz uso de tecnologias em uma atividade não relacionada a trabalho;
(iv) a pessoa não trabalha durante o deslocamento e não faz uso de tecnologias.
Detalhando melhor a situação das pessoas que se deslocam por razões de trabalho e fazem uso de tecnologias, é possível encontrar os seguintes casos53:
(a) a pessoa trabalha durante o deslocamento, com o apoio somente das tecnologias que porta; (b) a pessoa trabalha durante o deslocamento, porém não porta tecnologias e usa tecnologias
disponíveis no aeroporto, como em uma sala de espera, ou VIP54, ou Cybercafé55;
(c) a pessoa trabalha durante o deslocamento, com o apoio das tecnologias que porta e também tecnologias disponíveis no aeroporto;
(d) a pessoa não trabalha durante o deslocamento, porém utiliza nesse período as tecnologias que porta;
(e) a pessoa não trabalha durante o deslocamento, não porta tecnologias, mas faz uso de tecnologias disponíveis no aeroporto;
53 Obviamente, ao longo do tempo, uma mesma pessoa pode ser classificada em várias dessas situações.
54 VIP é a sigla em inglês de Very Important Person; pessoa de considerável influência ou prestígio. Com relação
às salas VIPs, essas são locais destinados a pessoas consideradas “importantes”, no caso dos aeroportos, segundo os critérios de organizações como as companhias aéreas, instituições de cartões de crédito, agências de turismo etc.; têm acesso a essas salas pessoas credenciadas por essas organizações. Em geral as salas VIPs oferecem ambientes para descanso e trabalho, envolvendo um café, computadores para acesso à Internet, espaço com TV, banheiros, sala para reuniões, revistas, jornais, carregadores de bateria de celulares etc.
55 Cybercafé ou Cibercafé é um local que, podendo funcionar também como cafeteria, oferece a seus clientes
(f) e, por fim, há o caso da pessoa que não trabalha durante o deslocamento, porém utiliza nesse período as tecnologias que porta e também tecnologias disponíveis no aeroporto. Nota-se a partir das possíveis ocorrências acima, as diversas questões envolvidas no trabalho de campo deste estudo. Por exemplo, ao observar uma pessoa no aeroporto: a pessoa encontra-se naquele ambiente por que se desloca a trabalho? Se a pessoa lê um documento, trabalha? Se a pessoa usa tecnologia em determinado momento, trabalha? Se a pessoa observa seu entorno, trabalha?
A presença dos temas a “pessoa trabalha” e “a pessoa não trabalha” durante o deslocamento, conduz-nos a outras questões: o que é trabalho? Quando as pessoas observadas e entrevistadas consideram que “trabalham” ou “não trabalham”? Que critério a pesquisadora utiliza, quando observa, para sugerir que as pessoas “trabalham” ou “não trabalham”? Tais questões propõem uma aproximação cuidadosa.
Anteriormente neste texto, foi apresentada a análise de Lazzarato e Negri (2001) sobre o trabalho no cenário pós-industrial que, segundo os autores, transforma-se em atividade imaterial, em que é sempre mais difícil distinguir o tempo de trabalho do tempo da produção ou do tempo livre. Também foi apresentado o trabalho de Bendassolli (2006) que acredita que no cenário pós-industrial houve um enfraquecimento do vínculo essencial, ontológico, entre trabalho e identidade; e, como consequência, o trabalho passou a ser descrito por meio de cinco pequenas narrativas públicas acerca de seu sentido e valor, e cada uma delas defende uma visão particular sobre o que é e por que trabalhar.
Visando refletir sobre trabalho, vejamos dois casos fictícios, apresentados no formato de questões: é possível imaginar uma mulher que trabalha com bordados (feitos à mão), uma bordadeira, aguardando um voo atrasado (ela viaja para participar de uma feira relacionada ao seu trabalho) e trabalhando, isto é, bordando no aeroporto? E é possível imaginar um homem, um torneiro mecânico, aguardando um voo atrasado (ele viaja para participar de uma feira relacionada ao seu trabalho) e trabalhando no aeroporto?
Uma pessoa poderia responder a essas questões: sim, é possível uma bordadeira trabalhar no aeroporto, porque ela pode levar seus instrumentos de trabalho e bordar enquanto aguarda; mas no caso do homem, parece que a dependência de um lugar específico, aquele em que se encontra o torno, transforma essa cena em algo improvável.
Pela lógica das respostas acima, no caso dessas duas pessoas que aguardam no aeroporto, concluiríamos que a mulher trabalha e o torneiro mecânico, não. Mas se consideramos a visão de Lazzarato e Negri (2001) – principalmente quando argumentam que o trabalho característico da sociedade dita pós-fordista pede o investimento da subjetividade daquele que trabalha – talvez o homem também esteja trabalhando no aeroporto. Por exemplo, podemos estender a história acima e imaginar que na próxima semana o torneiro será responsável pelo treinamento ou apresentação de sua experiência de trabalho para outro torneiro da empresa; e sentado no aeroporto, ele organiza, estrutura, qual a melhor maneira de transmitir o que sabe. Desse modo então, mesmo sem o torno, seria possível afirmar que ele trabalha enquanto aguarda o voo56.
Essas reflexões sobre trabalho no cenário pós-industrial ilustram a complexidade desse tema. Dado esse fato, esta pesquisa procurou concentrar-se, limitar-se e ser fiel aos relatos dos próprios entrevistados, o que cada um deles define como trabalho e não trabalho. Com relação à observação de campo, a pesquisadora usou seu julgamento próprio para classificar uma situação que observa como trabalho ou não trabalho, e alguns desses eventos estão apresentados no próximo capítulo.
O método de coleta de dados baseado em observação
A adoção do método de observação para a coleta de dados também merece considerações associadas a essa escolha, tanto a observação de modo geral quanto a auto-observação. Segundo Atkinson e Hammersley (1994), a observação é um método de coleta de dados apropriado no caso de várias correntes teórico-metodológicas, como a fenomenologia, a etnometodologia e a etnografia, e tem sua origem no trabalho etnográfico de estudo de sociedades pequenas, relativamente homogêneas, na qual o pesquisador vive por um longo período de tempo, aprendendo a linguagem local, participando da vida cotidiana e observando atentamente. Alguns autores classificam a observação, segundo o papel do observador, nos extremos participante e não participante; e outros pesquisadores consideram uma tipologia mais detalhada que prevê as possibilidades de atuação: observador completo, observador
56 Relacionado a esse aspecto do uso do tempo nas viagens, é interessante comentar que a pesquisa de Lyons,
Jain e Holley (2007), sobre viagens de trem na Grã Bretanha, revela que 1 em cada 10 pessoas que viajam a trabalho, que observam pela janela a maior parte do trajeto, consideram o tempo consumido no trem muito importante, valioso.
como participante, participante como observador e participante completo, todas com ênfases próprias (ATKINSON e HAMMERSLEY, 1994). Na perspectiva de Holmes e Marcus (2005), nos dias atuais e distantes das experiências dos primeiros antropólogos, a estratégia de investigação etnográfica apresenta alguns desafios, como a multiplicidade e heterogeneidade dos locais de investigação, e a forma de colaboração cúmplice que têm alterado aquilo que os antropólogos esperam de “nativos” como objetos de estudo. As culturas e as populações tornaram-se fragmentadas, móveis, transnacionais, assim como mais cosmopolitas; e a reflexão pós-moderna revelou o peso da crítica política e ética do relacionamento tradicional no trabalho de campo, quebrando a inocência necessária para sustentar a distância entre o pesquisador e seu objeto de estudo, de modo que a cumplicidade com o objeto agora permeia a cena do trabalho de campo (HOLMES e MARCUS, 2005).
O método de auto-observação está associado, entre outras estratégias de pesquisa, à autoetnografia. Ellis e Bochner (2000) consideram que a autoetnografia visa tornar a própria experiência do pesquisador um tópico de investigação; o pesquisador usa seus sentimentos, pensamentos e emoções para tentar compreender uma experiência vivida, e explorando essa experiência particular, espera compreender um modo de vida. Autoetnógrafos variam em suas ênfases, que podem recair sobre o processo de pesquisa (grafia), a cultura (etno) e/ou o self (auto) (ELLIS e BOCHNER, 2000).
A observação de campo desenvolvida neste estudo, de outros e de si mesmo, está muito distante daquela prevista no trabalho etnográfico – como discutem Atkinson e Hammersley, (1994); Holmes e Marcus (2005); e Ellis e Bochner (2000) –; principalmente, quando se observa sua duração, locais de investigação, e uso dos sentimentos e emoções da pesquisadora. A observação teve como foco as pessoas, assim como a própria pesquisadora, que trabalham nos períodos de deslocamento, entre um lugar e outro, em aeroportos e aviões, e procurou investigar principalmente o que as pessoas fazem, como fazem, quem ou o que está envolvido, e o que acontece. Além disso, os métodos foram utilizados como procedimentos de coleta de dados na perspectiva da Teoria Ator-Rede, modestamente procurando seguir os exemplos das pesquisas de campo descritas em Latour e Hermant (2004), Latour (2001) e Law e Singleton (2002).