B. Daimi Ve Geçici Yerleşimler
VI. HASIR DOKUMACILIĞI
Este capítulo tem por objetivo expor as práticas de trabalho de pessoas em trânsito por aeroportos e aviões62, tornando esses espaços lugares de trabalho; os modos como esses locais e seus recursos são manipulados para que o trabalho se realize e como essas pessoas gerenciam imprevistos e distância. Para tanto, apoia-se em situações observadas no trabalho de campo, em eventos que são complementados por relatos dos entrevistados; além disso, discute essas ocorrências fundamentando-se em conceitos da Teoria Ator-Rede (TAR). Tal descrição revela os elementos que constituem a argumentação deste estudo, a ser apresentada adiante neste texto.
O capítulo estrutura-se em tópicos associados a determinados aspectos, observados durante o trabalho de campo e que se destacaram na atividade de análise, identificados aqui como Relações Heterogêneas, Objeto, Corpo, Lugar e Sistema Aéreo. Para cada um deles é apresentado (i) o relato do evento observado, (ii) uma discussão do mesmo com base nos conceitos da TAR e (iii), no subtópico complemento (apresentado em uma fonte tipográfica diferente), a visão dos entrevistados sobre, ou relacionado a, o tema em questão. Um aspecto em particular apresenta uma estrutura própria: no caso de Lugar, esse elemento conta com o detalhamento de quatro temas (Aeroporto, Avião, Energia e Confidencialidade) e uma discussão conjunta. O capítulo se encerra com uma visão particular dos eventos observados.
7.1 Relações Heterogêneas
Relato
Em uma tarde de março de 2010, uma segunda-feira, no saguão principal do Aeroporto Internacional Tancredo Neves, em Confins, Minas Gerais, um homem, de aproximadamente 45 anos, responde a um e-mail, enviado por um cliente, por meio do seu computador portátil com acesso à Internet via telefonia celular. Ele trabalha. Ele não é um funcionário de uma companhia aérea, tampouco de uma das diversas prestadoras de serviços que atuam no aeroporto. Ele está naquele local porque está em trânsito. Saiu da sua casa, na qual reside com
62 Uma descrição geral de viagens aéreas encontra-se no Anexo A, assim como algumas particularidades das
viagens realizadas durante a pesquisa de campo deste estudo – relacionadas, por exemplo, com o procedimento de embarque vigente nos aeroportos brasileiros no período da pesquisa de campo e com viagens pela ponte aérea entre as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.
a esposa e três filhos, na cidade de Governador Valadares, e vai a uma sala de congressos, na cidade de São Paulo, em que se realizará uma convenção da empresa para a qual trabalha.
Ele partiu com seu carro de Governador Valadares às 5h daquela manhã, com tempo suficiente para se deslocar até Confins e tomar o avião para São Paulo. A estrada que liga as duas cidades estava em obras, porém; além disso, aconteceu um acidente, e esses elementos fizeram que ele chegasse ao aeroporto faltando 20 minutos para a saída do voo. Ele correu até a área de check-in, contudo não conseguiu autorização da companhia aérea para embarque e perdeu o voo. Só lhe restou, então, solicitar a remarcação da passagem para outro voo e aguardar o novo horário de embarque. Nesse período de espera, como visto acima, ele trabalhou.
O encontro em São Paulo congregará os representantes de vendas de uma empresa farmacêutica com sede em Porto Alegre e centro de distribuição em São Paulo, em que ele trabalha como representante, atendendo os estados de Minas Gerais e Espírito Santo, e o sul do estado da Bahia. Ele comenta, contudo, que nem sempre trabalhou como representante de vendas. Começou sua vida profissional trabalhando com vendas, mas como “não ia muito bem” decidiu trabalhar na indústria, em uma importante mineradora. Comenta que foi uma experiência difícil, mas importante – “quase morri, mas foi a melhor coisa que aconteceu” –; porque percebeu que “se continuasse a trabalhar em um lugar daquele, morreria”; e que seu negócio era mesmo vendas. Naquele período, a família e os amigos tentaram fazer que não desistisse da indústria e pensasse nos filhos, mas ele dizia: “É porque penso nos meus filhos que tenho que sair, para que eles continuem a ter um pai!”. Demitiu-se (após um ano e meio) da mineradora e ficou por três meses sem trabalhar, sobrevivendo com o pouco dinheiro que conseguiu no desligamento da empresa e o seguro desemprego. Foi um momento de vida difícil, conta. Depois disso, conseguiu um emprego em uma empresa que estava começando e aprendeu tudo o que sabe hoje nessa empresa: a usar o Palm63 (teve treinamento) e a Internet
(“aprendeu sozinho, nunca fez curso”). Nessa empresa, começou como vendedor, depois supervisor e depois apoio ao dono, que ficou muito doente e vendeu a empresa após cinco anos. Nesse ponto, ele já sabia que seu “negócio será sempre vendas”. E, nessa atividade, consequentemente, ele desloca-se com frequência entre sua casa, os estabelecimentos dos
63 Palm é um equipamento do tipo PDA – Personal Digital Assistant, ou Assistente Digital Pessoal; um
clientes e, eventualmente, locais definidos pela empresa, para reuniões, eventos etc., como no caso daquele dia.
Embora indignado com a atitude da companhia aérea que não aceitou seu check-in faltando vinte minutos para a decolagem da aeronave, tentou fazer daquele tempo de espera um momento produtivo. Trabalhou, como já visto, fazendo uso do espaço do aeroporto de Confins que disponibiliza tomadas de acesso a energia para carga de baterias de equipamentos eletrônicos. Realizou ainda uma atividade não relacionada a trabalho: fez uma pesquisa, usando seu computador portátil com acesso à Internet, sobre os Incas; ele gosta muito de história e ministra aulas dessa disciplina em um projeto comunitário, para um grupo de jovens.
Discussão
A TAR considera que espaço – particularmente, pode-se considerar também o lugar de trabalho móvel – é o resultado da interação, consequência, efeito, dos modos com que elementos heterogêneos se relacionam. Além disso, sugere que ao explorar processos de espaço devem-se combiná-los com tempo e ação, isto é, a atenção deve estar em processos de tempo, espaço e ação; “qualquer interação parece transbordar com elementos [...] que veem de algum outro tempo, algum outro lugar e gerado por alguma outra agência” (LATOUR, 2005, p. 166, tradução nossa). Esses conceitos são explorados a seguir a partir do evento acima.
Nota-se que a situação de trabalho do representante de vendas descrita acima, que aconteceu em determinado espaço e tempo, é efeito de uma série de relações entre elementos heterogêneos, envolvendo também outros espaços e tempos. O evento, ele mesmo, é uma rede de relações entre o representante de vendas, o destinatário da mensagem de e-mail, os elementos do local (como a construção, a cadeira, e a tomada de energia), e os elementos tecnológicos (tais como o notebook, o dispositivo de acesso à Internet e as antenas de telefonia celular), entre outros. Além disso, tal evento está vinculado a relações que se estabeleceram em outros espaços e tempos, e que compõem a trama associada a seu desempenho. Em outro espaço e tempo, por exemplo, essa pessoa escolheu sua ocupação, descrita na literatura como frequentemente envolvendo viagens; naquele momento, estabeleceu-se a relação pessoa-vendas-viagens vinculado à rede do espaço-tempo-ação observado no aeroporto naquela tarde. Em um espaço e tempo mais explícitos, os problemas na autoestrada naquela manhã, entre Governador Valadares e Belo Horizonte, também se
entrelaçam na rede do evento descrito. Adotando essa mesma perspectiva, podem-se incluir à trama as normas e procedimentos da companhia aérea, definidas em um determinado espaço e tempo, que fizeram que o homem perdesse o voo; a administração do Aeroporto de Confins que oferece um espaço com tomadas para acesso à energia; o serviço de acesso à Internet disponibilizado por uma empresa de telecomunicações etc. Os elementos e as relações envolvidas com a situação de trabalho que aconteceu no local e no momento apresentado pode ser estendida a outros tempos e espaços, como aquele de planejamento das obras na autoestrada entre Governador Valadares e Belo Horizonte, que definiu quando os trabalhos seriam realizados; ou a implantação, em 1997, da Lei Geral de Telecomunicações, que estruturou o setor de telecomunicações no país com base em princípios de competição e serviços universais, que resultou em aumento significativo de telefones, tanto fixos quanto celulares, utilizados pela população (MATTOS e COUTINHO, 2005; LOURAL et al., 2006; ANATEL, 2010).
Observa-se, a partir da análise acima, que poderíamos “seguir as pegadas” que diversos atores imprimiram ao longo de muitos espaços e tempos, e que levaram à situação observada no evento acima. Concordamos, porém, com Latour (2007) em que ainda não sabemos como montar, em um único espaço, todas as entidades necessárias para descrever um objeto – ou no caso deste estudo, um fenômeno –; além disso, como argumenta Law (2003c), as relações que produzem os objetos, fenômenos etc. podem ser infinitas, dificultando ou mesmo impossibilitando qualquer representação.
Além disso, o evento descrito acima expõe que a comunicação por meio do e-mail, entre o representante de vendas e seu cliente, naquele espaço-tempo, uma atividade classificada convencionalmente como trabalho, aconteceu independentemente de um planejamento prévio – o representante não decidiu previamente que iria responder ao e-mail naquele espaço e tempo. Assim como, a atividade teve um ciclo – início, meio e fim – relativamente curto, de alguns minutos, e foi sucedida por uma atividade vinculada aos interesses pessoais do observado. Ambas as atividades, como desempenhadas, tiveram como protagonistas o ator- rede pessoa-tecnologia.
Esse caso revela diversas relações entre elementos heterogêneos envolvidas na ocorrência da situação de trabalho observada naquele local específico, o aeroporto; o caráter eventual –
derivado de imprevistos – e breve da atividade de trabalho, e o fato de essa última estar mesclada com atividades não relacionadas a trabalho.
Sobre essa eventualidade observada, é relevante mencionar que a TAR enfatiza a contingência do mundo. Um escritório convencional e o trabalho desenvolvido nele também são eventuais na perspectiva da TAR. No caso do escritório convencional, no entanto, nota-se também certa estabilidade, o que para a TAR representa algo a ser estudado, por revelar uma situação em que um trabalho constante é realizado para restringir o repertório de atuantes e manter controvérsias sob controle. Além disso, Latour (2005, p. 176, tradução nossa) destaca: “nenhum lugar pode ser considerado maior que qualquer outro lugar; mas se pode dizer que alguns se beneficiam de conexões muito mais seguras com muito mais lugares que outros”.
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