B. Daimi Ve Geçici Yerleşimler
II. KAYIKÇILIK
Neste tópico, explora-se como as ideias de Serres sobre tempo e espaço se refletiram na visão da TAR – em sua perspectiva de mundo e na forma de descrevê-lo –; assim como apresenta- se a visão de tempo e espaço na que denominamos Fase Complexa da TAR.
Para Serres, o mundo é compreendido – seja implícita ou explicitamente –, com muita frequência, somente em termos de proximidade-distância, definido como um espaço homogêneo, uma superfície em que o caminho do local ao global é sempre dado e não problemático. Essa visão purificada, ordenada, é um resultado de longo prazo; tem como base noções que foram fundamentais para a geometria euclidiana e, mais tarde, para a geografia cartográfica – um espaço em que tudo pode ser calibrado e quantificado sem complicação ou confusão (BINGHAM e THRIFT, 2000).
Essa crítica de Serres à noção de espaço homogêneo leva o filósofo a propor uma noção de “geografia filosófica” que procura restaurar um pensamento que considere a multiplicidade do mundo (BINGHAM e THRIFT, 2000). Nesse novo contexto, espaço e tempo não são mais concebidos como existindo, de modo independente, como uma moldura de referência fixa dentro da qual eventos e lugares acontecem; mas, de modo inverso, são o resultado da interação, consequências dos modos que corpos se relacionam entre si (LATOUR, 1997a). Para Latour (1997a) não são abstrações vazias que são importantes aqui, mas as muitas e variadas “outras entidades que são necessárias para manter-nos em existência” (Ibid, p.175). Como Latour argumenta:
“Deuses, anjos, esferas, pombas, planetas, motores, não estão no espaço e não envelhecem no tempo. Pelo contrário, espaços e tempos são traçados por deslocamentos reversíveis ou irreversíveis de muitos tipos de móveis. Eles são gerados pelos movimentos de móveis, eles não emolduram esses movimentos. Diga-me o que está em movimento e que transformação experiencia por meio desses movimentos, e eu lhe direi que tipo de espaço e que tipo de tempo é assim projetado.” (LATOUR, 1988b, tradução nossa).
O termo “gerados”, na citação acima, se refere ao fato de um dado deslocamento nunca ser meramente uma “passagem suave”, isto é, alcançar uma posição a partir de outra sempre requer uma grande barganha de trabalho e a intervenção de todo tipo de ator que raramente são “intermediários” transportando de modo confiável, mas quase sempre são “mediadores” definindo caminhos e destinos em seus próprios termos (BINGHAM e THRIFT, 2000).
Um exemplo de como as ideias de espaço e tempo de Serres se refletiram na TAR é encontrado em Latour (1997b). O autor resume que a TAR, por meio de sua visão de ator- rede, permite rever as metáforas espaciais: perto e longe, acima e abaixo, local e global, e dentro e fora. Elas são substituídas por associações e conexões. Segundo esse autor, “[...] visando obter os efeitos de distância, proximidade, hierarquia, conexão, externalidade e superfícies, um trabalho suplementar enorme tem que ser feito.” (Ibid., p. 5).
Pensar em termos de rede torna possível ir além da noção de “perto e longe”: elementos que estão próximos quando desconectados podem estar muito distantes quando suas conexões são analisadas; ou, o inverso, elementos que parecem estar distantes podem estar próximos. Por exemplo, duas pessoas desconhecidas, que conversam ao telefone a um metro de distância
uma da outra, estão mais conectadas, mais próximas, às pessoas com as quais conversam que entre elas mesmas. Os conceitos convencionais de proximidade e distância tornam-se um tipo de conexão, um tipo de rede entre várias outras existentes. A noção de rede ajuda a redefinir espaço não como social, ou real, mas como associações (LATOUR, 1997b).
No caso da escala maior e menor, a noção de rede permite dissolver a distinção macro-micro; substituí-la pela metáfora das conexões. Uma rede não é maior que outra, mas mais longa ou mais intensamente conectada. Com relação às noções de fora e dentro, o conceito de rede transcende essas ideias porque não apresenta fora e dentro. O que existe entre as redes ou está conectado – mas então a rede é expandida – ou não existe (LATOUR, 1997b).
Em outro texto, Trains of Thought (Linhas de Pensamento, tradução nossa), Latour (1997a) apresenta a visão de tempo e espaço como resultado, efeito, também neste caso refletindo as ideias de Serres. Para a TAR, na discussão da construção de tempo e espaço é necessário considerar duas dimensões: a primeira delas define a razão entre transformação e transporte; e a outra define a visibilidade relativa do trabalho a ser feito visando deslocamento. Com o objetivo de explorar esses conceitos, Latour (1997a) cria um exemplo, uma história: o caso de um casal de irmãos gêmeos viajando por vias diferentes para um mesmo destino. Ela vai a pé, abrindo caminho por uma densa floresta; e seu irmão viaja para o mesmo destino por meio de um confortável e veloz trem, como o trem de passageiros de alta velocidade TGV (sigla de
Train à Grande Vitesse, em francês). A cada movimento, a viajante enfrenta grandes
dificuldades; enquanto o seu irmão aprecia a viagem tranquila e rápida que participa.
Latour (1997a) argumenta que a mulher irá equacionar deslocamento com transformação e não diferenciará espaço e tempo, e transformação, modificação, envelhecimento, história; e seu irmão irá notar dois fenômenos aparentemente diferentes: movimento pelo espaço no tempo, por um lado, e transformação, do outro. Para ele, haverá uma estrutura imutável que emoldura a transformação. Dado que a relação entre transporte e transformação difere para esses viajantes, Latour (1997a) sugere que a produção de tempos e espaços também será diferente.
Para a TAR, tempos e espaços são consequências dos modos com que entidades se relacionam entre si, da quantidade e da natureza das entidades. As entidades podem ser do tipo intermediário, isto é, aquele que transporta significados ou forças sem transformação –
conceito definido acima neste texto –; ou podem ser do tipo mediador: transforma, translada, distorce e modifica o significado ou os elementos que supostamente carrega (LATOUR, 2005).
Com os elementos descritos acima é possível situar os gêmeos da história de Latour (1997a) em uma dimensão que considera a razão entre transporte e transformação, isto é, a quantidade de intermediários comparada à quantidade de mediadores como no Gráfico 1.
Gráfico 1: Dimensão que considera a razão entre transporte e transformação. Adaptado de Latour (1997a).
Para completar sua argumentação sobre a construção de tempo e espaço, Latour (1997a) introduz outros elementos à história dos irmãos gêmeos. Apresenta a viajante como uma enviada à floresta por uma empresa para explorar o futuro caminho do trem a ser planejado, projetado e construído. Nesse caso, cada local, que na situação anterior havia bloqueado e dificultado o caminho da viajante, com o desenrolar do projeto de implantação da linha férrea, torna-se um intermediário que empresta a sua força, objetivo, e fim para a movimentação e velocidade do trem. Latour (1997a, p. 176, tradução nossa) comenta: “a velocidade depende crucialmente do número de intermediários relativo ao número de mediadores”. Na visão desta pesquisadora, essa afirmação também parece válida no caso de uma reunião que busca consenso dos participantes sobre determinado tema. O tempo necessário para alcançar o consenso seguramente é menor quando os participantes apresentam opiniões alinhadas, que quando suas ideias são diferentes e contraditórias entre si, dificultando o consenso ou até mesmo impedindo tal resultado.
Produção de Mediações Produção de Intermediários Transporte Transporte --- --- Transforma
Transformaççãoão
Pessoa na floresta Pessoa no TGV Produção de Mediações Produção de Intermediários Transporte Transporte --- --- Transforma
Transformaççãoão
Pessoa na floresta Pessoa na floresta Pessoa no TGV Pessoa no TGV
Latour (1997a) também acrescenta à viagem do irmão, um acontecimento: os habitantes, de uma das cidades pela qual o trem passa, decidem protestar sobre o fato do trem não mais parar na estação do local, sentando sobre os trilhos e colocando obstáculos no caminho do trem. Imaginando que isso possa acontecer em cada cidade pela qual o trem passa, Latour (1997a) sugere que a história voltará ao caso da floresta em que cada passo demandava negociação e aqueles que participavam se deslocavam, porém modificados – “cada transporte era pago com imensa transformação, uma metamorfose durável e memorável” (Ibid., p. 176).
Os complementos da história dos irmãos, citados acima, acrescentam a ela uma passagem progressiva, da trilha para a rede de alta velocidade, e uma passagem reversa, da rede para a floresta. Dessa forma, o autor incorpora a segunda dimensão relevante para a discussão da construção de espaço e tempo: aquela que define a visibilidade relativa do trabalho a ser feito com o objetivo de obter um deslocamento (Gráfico 2).
Gráfico 2: A razão entre transformação e transporte, e a visibilidade relativa do trabalho a ser feito visando deslocamento. Adaptado de Latour (1997a).
A mulher produz mediações, ela vê e sente o trabalho de transformação e não é capaz de diferenciar espaço e tempo de um lado, e corpos em movimento de outro. A engenheira conhece a quantidade de trabalho necessária para produzir cálculos, estruturas de referência, trânsito que flui; e investe sua energia para que as instituições, de quem o transporte depende, funcionem adequadamente. O homem não vê dificuldade em distinguir um corpo em movimento de uma estrutura de referência, visto que o trabalho de outros se tornou invisível e nenhuma transformação o força a pagar por seu transporte. Mas, o passageiro cujo trem parou repentinamente sente a passagem do tempo e a importância do espaço (LATOUR, 1997a, p. 177). Produção de Mediações Produção de Intermediários Transporte Transporte --- --- Transforma
Transformaççãoão
Invis
Invisíívelvel ---
---
Vis
Visíívelvel
Trabalho Não Trabalho
Pessoa na floresta Pessoa no TGV “Construção” “Protesto” Produção de Mediações Produção de Intermediários Transporte Transporte --- --- Transforma
Transformaççãoão
Invis
Invisíívelvel ---
---
Vis
Visíívelvel
Trabalho Não Trabalho
Pessoa na floresta Pessoa na floresta
Pessoa no TGV Pessoa no TGV
Latour (1997a) argumenta que é possível tirar cinco lições dessa visão das duas dimensões – a razão entre transformação e transporte, e a visibilidade relativa do trabalho a ser feito visando deslocamento – envolvidas na construção de tempo e espaço. A primeira lição é que a distinção entre tempo subjetivo e objetivo está associada somente ao passageiro do trem. Nos dois momentos da sua viagem – quando ela flui e quando é interrompida –, as perspectivas são diferentes: no primeiro momento, não há tempo; e no segundo momento, o passageiro passa a ter uma visão subjetiva do tempo. Com a inclusão do tempo objetivo ou científico, dois fenômenos surgem: o trabalho dos engenheiros visando que a viagem flua tranquilamente e o sentimento do viajante que esquece o trabalho de “fazer” o tempo. Do mesmo modo, com a noção do tempo subjetivo ou “vivido”, duas questões surgem: o sentimento de surpresa do passageiro quando o trem em que viajava para subitamente; e o trabalho daqueles envolvidos em processos pouco rotinizados em que subjetividade e objetividade quase não podem ser diferenciadas.
A segunda lição, segundo o autor, é a ideia de que o tempo passa, ou não, dependendo do alinhamento de outras entidades. Em um mundo feito de intermediários, de deslocamentos sem transformação, há um tempo separado do espaço, uma estrutura imutável para medir o deslocamento e, por definição, não há processo. Já em um mundo de mediadores, de transporte por deformação, existem muitos tempos e espaços; e mais profundo que o tempo é a questão da obediência e desobediência de humanos e não humanos (LATOUR, 1997a). May e Thrift (2001) resumem do seguinte modo esse princípio da TAR: o tempo não é em si um determinante importante de mudança. Nessa visão, não é suficiente “dar tempo ao tempo”; é necessário acompanhar o que fazem humanos e não humanos.
A terceira lição refere-se a evento: a noção de evento não pode ser diferenciada em componentes espaciais e temporais. Se um lugar é considerado um não lugar, ele também é considerado não evento. Quando um lugar é considerado um topos, ele também é considerado um kairos. Mais importante nesse caso é a questão sobre quem ou o que é relevante. Latour (1997a, p.178) pergunta: “que agentes podem interromper, modificar, interessar, ou interferir com outros, produzindo assim muitos topoi-kairoi?”. May e Thrift (2001) resumem do seguinte modo esse princípio da TAR: o evento não pode ser dividido em componentes espaciais e temporais.
A quarta lição enfatiza que, a cada narrativa, simultaneamente se encontra um movimento no espaço, no tempo e no agente. Por exemplo, a história da mulher na floresta, conduziu o leitor por três diferentes eixos ao mesmo tempo: outro tempo, outro lugar e outro personagem. Mais profunda que a questão de tempo e do espaço é o ato de deslocamento, translação. Não se deveria falar em tempo, espaço e agentes, mas em processos de tempo, espaço e ação (timing,
spacing, acting). May e Thrift (2001) resumem do seguinte modo esse princípio da TAR: em
uma narrativa haverá simultaneamente um deslocamento no espaço, no tempo e na ação.
E, finalmente, a quinta lição considera que ao explorar os processos de tempo, espaço e ação deve-se sempre combiná-los com suas intensidades. No caso de tempo, deve-se ir além da passagem do tempo como medida pelo relógio, deve-se considerar historicidade; no caso do espaço, diferenciar a intensidade de se estar em um espaço, em um topos-kairos, de simplesmente se localizar em um ponto de um mapa; e, finalmente, no caso do agente, diferenciar o movimento de um agente a outro (repetição extensiva) da modificação de todos os agentes (repetição intensiva). Na ausência de um termo para expressar essas três intensidades, Latour (1997a) propõe usar o contraste entre abrir uma trilha e seguir uma rede, entre transporte com transformação e transformação sem deformação. May e Thrift (2001) resumem do seguinte modo esse princípio da TAR: a questão dos processos de tempo, espaço e ação deve ser combinada com considerações de suas intensidades.
Além disso, Latour (1997a) argumenta que nossa estrutura imaginária de tempo e espaço que acomoda todos os eventos parece ter origem na natureza peculiar dos objetos usados nas disciplinas científicas para construir seus instrumentos de medida. A circulação desses corpos rígidos gera um tipo específico de espaço-tempo, assim como a circulação de qualquer outro corpo com diferentes propriedades gerará espaços-tempos-agentes diferentes. Isso não significa que estamos em um espaço isotrópico e um tempo isócrono, mas que, dentro de canais metrológicos, há efeitos de isocronia e isotropia produzidos, cuidadosamente monitorados, intensamente institucionalizados, pela circulação de objetos que se mantêm relativamente sem transformação quando transportados.
Um exemplo desse relacionamento de tempo e espaço e objetos pode ser encontrado no trabalho de Tonelli (2000, p. 2) que “procura interpretar os sentidos que as pessoas atribuem à velocidade e à aceleração da vida cotidiana, a partir das relações que elas estabelecem com as novas tecnologias, especialmente o computador, no trabalho”. Tonelli (2000) explora, entre
vários aspectos, a construção do tempo linear, o tempo do relógio, e mais detalhadamente o sentido de velocidade e aceleração em um mundo caracterizado pelo uso intenso do computador. E uma de suas considerações é que talvez seja possível argumentar que a nova organização do trabalho depende do tempo descontínuo, da mesma forma que o modelo taylorista-fordista dependeu do tempo linear.
Em síntese, tomando como base as lições acima apresentadas por Latour (1997a), este estudo concentra-se em processos de espaço, tempo e ação (timing, spacing, acting) combinados com suas intensidades. O estudo de espaço de trabalho, por exemplo, de acordo com a perspectiva da TAR deve envolver o estudo do desempenho do fenômeno singular envolvendo espaço, tempo e ação de trabalho (no caso deste projeto, trabalho móvel).
Retomando o objetivo desse tópico, dada a perspectiva de mundo adotada pela TAR – o mundo é topológico – a questão seguinte é: como descrevê-lo? Para Bingham e Thrift (2000), a TAR considera que a descrição também deva ser topológica. Desse modo, Serres e Latour começam a confundir a distinção tradicional entre o que o mundo é (a questão ontológica), e o que pode ser conhecido sobre ele (a questão epistemológica); como Latour mesmo coloca na discussão da TAR:
“Esta solução torna-se senso comum uma vez que é aceito que uma narrativa ou uma explicação ou uma prova é sempre adicionada ao mundo, ela não subtrai nada do mundo. Aqueles adeptos da reflexividade, assim como seus inimigos pré-relativistas, sonham subtrair conhecimento das coisas. A TAR mantém-se adicionando coisas ao mundo e seu princípio da seleção não é mais se há um casamento entre narrativa e realidade – essa ilusão dual é dissolvida – mas se há ou não viagem.” (LATOUR, 1997b, tradução nossa).
A metáfora da viagem empregada aqui é importante, segundo Bingham e Thrift (2000). Se, como Serres e Latour sugerem, estar no mundo consiste em vincular espaços e tempos incomensuráveis, então é assim que o conhecimento também deve proceder para compreender tal mundo, isto é, deixando de lado a noção de métodos mutuamente exclusivos e hierarquizados – como mito, literatura e ciência – e explorando novos canais de comunicação entre modos aparentemente estranhos de conhecer. Trata-se de uma abordagem enciclopédica, no sentido de construir uma síntese, uma tentativa de fazer justiça a um mundo repleto, complicado, enredado, e sempre em movimento; não esperando uma revelação, mas talvez um
breve momento de discernimento; construindo legendas, em sua etimologia dupla: como lendas, histórias, e como ajuda para ler o mapa, atribuir sentido ao mundo (BINGHAM e THRIFT, 2000).
Bingham e Thrift (2000) resumem do seguinte modo a contribuição da TAR para a noção de tempo e espaço. Seguindo circulações, ela tem produzido um sentido de mundo de conexão parcial em que todos os tipos de espaços, em constante processo de deslocamento, podem coexistir, sobrepor-se, hibridizar-se, mover-se juntos, mover-se separados. Latour e Serres não argumentam que precisamos substituir uma estrutura espacial temporal, a euclidiana, com outra, a relativista, mas que no mundo deles tal estrutura não existe, exceto como uma construção metrológica que somente vai longe e rápido – o mundo deles é fluido. Além disso, esse sentido de multiplicidade de espaços que se movem e se dividem permite-nos rever lugar; dado que lugares não somente delineiam os traços de espaços, mas têm um papel ativo que está inscrito em suas atividades: em suas numerosas diferenças, os lugares são os meios pelos quais híbridos se estabelecem como tais e, ao permitir o desempenho de suas diferenças, confrontam mudança.
De modo geral, os conceitos sobre espaço e tempo da TAR estão alinhados com o momento de reaparecimento do lugar na contemporaneidade, de que fala Casey (1997), e apresentado no Capítulo 3 deste texto. Tal ênfase teve início, como mostra esse autor, nos estudos com foco no corpo humano, entre outros; e culminaram no presente com a visão de que o lugar em si não é algo fixo, mas em processo, parte de algo em andamento e dinâmico. Reforçando esse último aspecto, segundo Bingham e Thrift (2000), Latour e Serres repovoam espaço e tempo com todas as figuras que foram removidas por uma ideia de divisão abstrata, por meio da focalização no movimento, no processo, no constante burburinho do mundo à medida que elementos diferentes se relacionam, frequentemente em estilos novos e combinações não consideradas; “em outras palavras, eles buscam redescobrir a riqueza do mundo” (Ibid., p. 281).
Espaço e a TAR na Fase Complexa
A visão de tempo e espaço na fase que denominamos Fase Complexa da TAR merece destaque neste estudo. Focando na perspectiva de John Law (2003f), alguns outros aspectos sobre espaço e tempo se apresentam.
Law (2003f), ao explorar o que a TAR se tornou após um tempo (no que denominamos neste texto Fase Complexa), procura investigar possibilidades de tratar as dificuldades com o termo “rede”; por exemplo, conotações diferentes – que aquelas aplicadas pela TAR – que o termo assume: considera-se que vivemos em meio a “redes sociais”, viajamos usando uma “rede de trens” e estamos enredados em “redes de poder”. O autor argumenta que pensar topologicamente pode ser uma forma de tratar a questão (nota-se aqui, novamente, a influência do pensamento de Serres). A topologia é um ramo da matemática, no campo das geometrias não euclidianas, em que se investigam as propriedades de figuras geométricas que permanecem invariantes sob transformações topológicas (como ações de encolher, esticar, deformar etc.) (SPERLING, 2008). Em seus textos, Law e seus coautores (LAW e MOL, 1994; LAW e MOL, 2003; LAW, 2002; LAW e SINGLETON, 2003) investigam quatro formas de espacialidade: euclidianismo e regionalismo (com as quais estamos mais familiarizados), redes (forma proposta pela TAR em sua Fase Clássica), fluidos e fogo (formas presentes na Fase Complexa da TAR).
Destaca-se que essa discussão da TAR sobre espacialidades está associada às origens dessa teoria. A TAR é uma abordagem que contesta a ideia da universalidade dos fatos científicos (universalismo neste caso definido como algo que transcende localidades), isto é, argumenta que a ciência precisa ser localizada; e, ao questionar-se sobre onde e em que tipo de espaço a ciência se localizaria, a TAR considera que seria em espacialidades (versões de espaço) em que o não transcendentalismo pode residir, como regiões, redes, um espaço fluido e um