Refletiremos a seguir sobre as motivações que impeliram a Escola Ouro no afinco do desenvolvimento de seu trabalho pedagógico ao longo dos anos, especialmente no período de 2007 a 2012 em que a escola obteve resultados positivos tanto no SARESP, quanto no IDESP como demonstrou a tabela 6.
Para iniciar tal reflexão, retomaremos os resultados alcançados pela Escola Ouro no SARESP e no IDESP nos anos de 2007 e 2008. Em 2007 a escola atingiu índice de desempenho no SARESP de 3,52 e em 2008, o índice decresceu para 3,19. Os resultados do IDESP também acompanharam esse decréscimo, passando de 3,38 em 2007, para 3,10 em 2008. Cabe esclarecer que a queda, nesses dois índices, apenas ocorreu no ano de 2008, pois a partir de então os resultados da escola somente cresceram. Justamente no ano de 2008 em que houve uma pequena queda no índice, culminando no não cumprimento da meta estabelecida pela SEE-SP para a escola, foi o ano em que as leis que instituíram o IDESP e a consequente bonificação por resultados aos profissionais da educação paulista entraram em vigor. Neste ano, o fato da Escola Ouro não ter atingido sua meta produziu uma alteração no trabalho desenvolvido até então pela equipe escolar.
A diretora da escola, a coordenadora e as professoras revelaram que a partir do ano de 2008 a escola intensificou ou modificou suas ações pedagógicas na busca por alcançar melhores resultados no SARESP e, consequentemente, no IDESP.
Modificou pra focar (...). Em 2007 não, o trabalho foi o que tava sendo. Em 2008, que foi o ano que a gente caiu, que a gente não conseguiu foi o ano de interrogação, o que aconteceu? Então a gente buscou, naquele histórico de metas, de índice, o que a gente tinha que alcançar. Só pelo dinheiro? Não. Também pelo dinheiro, mas também, porque você quer alcançar, porque é o seu trabalho e você quer o reconhecimento do seu trabalho. Então o que a gente fez, a gente fez um trabalho mais focado, já era focado, mas ficou mais direcionado (...) (Professora Pérola).
Isto posto, nos remeteremos ao questionamento feito na introdução deste trabalho sobre quais intenções poderiam fomentar ou mobilizar, possivelmente, as ações de docentes, professores coordenadores e diretores de escola para a melhoria dos resultados do SARESP. Levantamos como hipótese o fato dos resultados do SARESP, a partir do ano de 2008, passarem a compor o IDESP, juntamente com o indicador de fluxo e de tal índice implicar em bonificação aos profissionais da educação.
Todas as entrevistas afirmam que houve sim, motivações para que a escola obtivesse bons resultados no SARESP e atingisse as metas do IDESP. A diretora evidencia suas motivações como sendo pessoais, mas trazendo uma conotação profissional muito forte, uma genuína preocupação com a aprendizagem dos alunos, que passa pela competência de seu trabalho e de sua equipe.Segundo a diretora Diamante,
Pessoais são as primeiras, é a minha escola, é a escola que eu trabalho, eu sou responsável por tudo o que acontece aqui dentro no final das contas, E... Embora eu procure dividir essa responsabilidade... Ela tinha que ser uma escola legal, uma escola boa, senão o que é que eu E fazendo aqui? Tempo perdido? São quase 18 anos! Eu tenho que ver esses alunos crescerem, eu tenho que saber que nossos alunos sabem ler, sabem escrever, estão se virando lá fora... A motivação maior minha foi essa. Não dar respostas à um índice, que sempre foi bom, mas é consequência do meu envolvimento, do envolvimento da coordenadora, dos professores e dos próprios alunos, que nessa faixa etária, respeitam muito a escola. (Diretora Diamante).
A coordenadora também destaca seu desejo por bons resultados como sendo motivados pelo sucesso do trabalho realizado na escola que culmina na aprendizagem dos alunos,
Primeira coisa é querer dar certo, é sucesso. A gente não quer o insucesso, é muito triste. Eu me apego muito no que se espera em porcentagem, número de alunos que estão no adequado, que estão no básico, abaixo do básico, eu vejo todos esses detalhes (...). Eu transformo a porcentagem em número de alunos. (Coordenadora Rubi).
A professora Safira destaca a valorização do profissional docente pela comunidade como sendo uma motivação para a escola. “Eu acho que uma grande motivação que nós temos aqui dentro da comunidade é o apoio dos pais e a valorização. Eles valorizam demais o trabalho da gente. Isso é uma grande motivação. A confiança que os pais depositam na escola” (Professora Safira).
As demais professoras salientam também o fator financeiro como sendo uma das razões de motivação pessoal para o alcance de bons resultados na escola, mas não somente; outros fatores como aprendizagem dos alunos, satisfação pessoal e profissional sustentam suas motivações.
A professora Esmeralda evidencia a questão financeira e a autoestima pessoal. “Primeiro o dinheiro, que é uma boa motivação. Ué? Eu trabalho por causa do dinheiro. E segundo a gente se acha” (Professora Esmeralda). Já a professora Pérola destaca o fator financeiro e da autoestima, mas enfatiza a questão do trabalho docente, especialmente o trabalho desenvolvido no 5º ano, pelo fato de serem esses os alunos, público alvo, para a realização das provas do SARESP.
Nesse período de 2007 a 2012, alcançar os índices era importante pra escola inteira, principalmente, para equipe que gera esse número, entre aspas “5º ano”, porque é um contexto, E. Não é o 5º ano que gera, são todas as séries, 1º, 2º... Mas o 5º ano tem que resolver os problemas que não foram resolvidos e é o que conta na prova do SARESP para o IDESP. (...) Um estímulo profissional, financeiro e também de equipe, da autoestima pessoal também, não só profissional. Como já disse, o financeiro é importante, porque o professor ganha pouco, mas o valor de você ser reconhecido pelo seu trabalho é maior do que o dinheiro. É muito maior, porque você fez a coisa certa, não tem preço (Professora Pérola).
A medida de bonificação por resultados alcançados e determinados pelo IDESP motivou modificações nas ações pedagógicas da Escola Ouro no período estudado. A vinculação da questão financeira, imposta por força de lei e normatizações, aos resultados de desempenho escolar, medido pelo SARESP, provocou alterações no fazer pedagógico e, consequentemente, na cultura escolar. Segundo Frago, “estas pressões e exigências conformam a mentalidade e comportamentos, ou seja, a cultura escolar” (FRAGO, 1996, p. 27).
Os resultados da pesquisa mostraram que o SARESP, o IDESP e o programa de bonificação por resultados exerceram, sobre a Escola Ouro, pressões e exigências, culminando por conformar comportamentos em relação ao trabalho pedagógico da equipe docente. No entanto, as modificações provocadas na Escola Ouro não teve como fator exclusivo a bonificação por resultados, somados a isso, as questões da competência e do
compromisso profissional em relação ao desenvolvimento do trabalho pedagógico exitoso, no que tange a aprendizagem dos alunos, o reconhecimento e a valorização docente e a realização pessoal foram fatores preponderantes no conjunto das entrevistas.