4. BULGULAR-YORUM
4.19. Tanburî Cemil Bey’in Suzidilârâ Saz Semâisine Ait Makâmsal ve Formsal
4.19.3. Tanburî Cemil Bey’in Saz Semâisi formu nazarîyatta belirtilen form yapısı ile
Embora Pedro, o Grande tivesse nascido, sido batizado e vivido durante a
infância em Moscou, seu objetivo era tirar a posição central da antiga capital. Uma
tarefa um tanto quanto difícil, pois, geograficamente, Moscou se encontrava em posição
privilegiada, justamente no centro do país, literalmente em seu coração. O filósofo
francês Denis Diderot mencionou em uma das cartas a Imperatriz Ekaterina II:
Um país cuja capital se localiza nas extremidades parece um animal que tem o coração na pontinha do dedo, ou o estomago no dedão do pé.155
De acordo com K. Issúpov, Pedro, o Grande “começou a construir um Estado
dentro do outro.” 156
Petersburgo era uma utopia realizada, uma cidade experimento, o futuro modelo
de todo o Estado. Portanto, ela tinha que possuir todos os traços externos de uma capital
mundial: ritualização da comunicação, regularidade total de todos os planos de
comportamento, tanto pessoal, quanto entre as classes. Como resultado, Pedro construiu
não uma cidade mundial, mas uma maquete de uma cidade mundial; isso porque os
órgãos governamentais, nos primeiros anos, estavam no meio caminho entre a imitação
e a realidade. Só uma coisa se tornou realidade: na Rússia se estabeleceu uma nova
capital com o regime de vida europeu, que também foi prescrito a todas as demais A construção se iniciou em 16 (27) de maio de 1703 e já no ano de
1710 estavam morando na cidade 44.720 famílias de operários, e casas para 350
representantes da nobreza, 300 comerciantes e 300 operários estavam sendo construídas.
155 ISSÚPOV, K. G. O diálogo das capitais no movimento histórico (Dialog stolits v istoritcheskom
dvizhenii). Pro et Contra Moscou – Petersburgo (Pro et Contra Moskvá – Peterburg), RGKHI, Moscou, 2000. P.7.
cidades do Império. Issúpov menciona um fato curioso: quando certa vez os operários
moscovitas, convidados a São Petersburgo para realizar trabalhos de manufatura,
começaram a cantar na rua, foram castigados por perturbarem a tranqüilidade imperial.
Em 1712, a cidade de São Petersburgo foi declarada a capital do Império Russo,
o trono e a corte foram transferidos para lá, mas essa era apenas a constatação de um
fato já anteriormente consumado. Era um acontecimento inédito, e que na época foi
vivenciado de forma dramática pelo povo e gerou muitas conseqüências importantes:
Pela primeira vez na história do trono nacional, o Tsar, para sempre, deixa a capital tradicional dos soberanos moscovitas. É preciso entender aquele pavor sagrado e a sensação de fim do mundo a que foram submetidos pelo feito de Pedro, não apenas entre a nobreza moscovita como também na profundeza da psicologia cotidiana popular. Aqui está o início do fortalecimento da reputação de Petersburgo como “Cidade do Anticristo” e de Pedro como Tsar-lobisomem (“falso”). 157
O Imperador morreu “como que deixando um legado de ódio em relação a sua
cidade”.158
Ao longo de todo o século XVIII, Moscou era percebida como antípoda da
capital do norte, na comparação onde Moscou recebia características como “mãezinha,
ampla e generosa, nacional, russa” (basta lembrarmos os ditados russos: “Petersburgo é
a cabeça, Moscou é o coração”159, “Moscou é a mãe de todas as cidades”160
157 Idem, p.4.
, “Moscou é
158 AFANÁSSIEV, E. L. Moscou no pensamento dos filósofos russos no período pós Pedro (Moskva v
razdumiah russkih myslitelei poslepetrovskogo vremeni [eu acho que todas as citações deveriam estar em russo tb, e transliteradas...]). In: Moscou na literatura russa e mundial (Moskva v russkoi i mirovoi literature). Moscou, Nasledie, 2000. P. 42.
159 Peterburg –golová, Moskvá – siérdtse. 160 Moskvá – vsiem gorodám mat.
famosa por suas noivas, seus campanários e suas roscas”161
A imagem de Pedro também sofreu fortes mudanças no decorrer do século
XVIII. Em meados do século XVIII os maiores poetas russos da época, Antiokh
Kantemir (1673-1723) e Mikhail Lomonóssov (1711-1765), dedicaram vários poemas
épicos enaltecendo o primeiro Imperador; porém, no final do século, Pedro passa a ser
tratado sem exaltação e com muito mais frieza e rigidez. O primeiro a realizar essa
reavaliação foi o príncipe Mikhail Scherbátov (1733–1790), historiador e escritor, que
publicou uma obra com um título característico: “Em referência aos defeitos e à
autocracia de Pedro, o Grande”, que depois fora resumida no livro “Em referência à
danificação dos costumes da Rússia” (1789-1790). De acordo com Scherbátov, foi
Pedro quem iniciou a política de favoritismo, a partir da qual os bons costumes russos
começaram a ser estragados. Mikhail Scherbátov também é autor de “Petição de
Moscou referente ao seu esquecimento”, dirigido à Imperatriz Ekaterina II, escrito em
1787. De acordo com Iussúpov, o “Requerimento do príncipe não é um pedido pessoal
do súdito, direcionado à Imperatriz, e sim a súplica de toda a antiga capital para a
nova”.
, etc.); São Petersburgo era
vista como racional, cerimoniosa e estrangeira. Cada vez mais, Moscou tornava-se uma
guardiã da vida a moda antiga, cidade da alma e da religiosidade popular russa.
162 Provavelmente, o autor elaborou essa carta porque sabia da visão extremamente negativa que Ekaterina tinha em relação à Moscou.
161 Slávitsia Moskvá neviéstami, kolokólniami da kalatchami.
162 IUSSÚPOV, K. Diálogo das capitais no movimento histórico (Dialóg stolits v istorítcheskom dvijénii).
In: Pro et Contra Moscou – Petersburgo (Pro ET Contra Moskvá – Peterburg), RGKHI, Moscou, 2000. P.4.
Eu não gosto nada de Moscou, mas não tenho nenhum preconceito contra Petersburgo [...]. Moscou é uma capital ociosa e o seu tamanho exagerado sempre será a causa disso [...].163
Em sua carta, Scherbátov relembra a história russa na qual Moscou sempre
ocupava um lugar especial, centralizando forças contra os inimigos. Na tentativa de
devolver a atenção de “seus soberanos” para a antiga capital ele reforça a simbologia
sagrada da cidade como sucessora de Roma. Porém, os seus esforços não obtiveram
êxito e Moscou continuou no ostracismo.
As críticas direcionadas à figura de Pedro, iniciadas por Scherbátov, foram
continuadas por poeta escritor e dramaturgo Aleksandr Sumarókov (1717-1777) em
dois ensaios sobre as revoltas dos streltsi: “A primeira e principal revolta dos streltsi
ocorreu em Moscou, no ano de 1682, em maio” e “A segunda revolta dos streltsi de
1682”. Tais obras planejadas como apologia ao grande Imperador no final acabam
mostrando traços de discórdia em relação às inovações e o desejo de regresso aos modos
antigos; nelas muitas vezes Sumarókov exclama:
Estão delirando os que pregam o fato de que nós, antes dos tempos de Pedro, o Grande, éramos bárbaros ou quase animais; os nossos antepassados não eram piores do que nós... 164
O autor reavalia o reinado do irmão mais velho de Pedro, Fiódor, que se torna a
personificação de um governador ideal:
163 Idem.
164 SUMAROKOV, A.P. A primeira e principal revolta dos streltsi acontecida em Moscou em 1682, no
mês de maio (Piérvyi i glávnyi streliétski bunt, bývshi v Moskvié v 1682, v miésiatse Máie). In: Obras Completas. Moscou, 1787, parte 6, P. 172.
Os russos da época não tentavam se transformar nem em alemães nem em franceses, mas sim corrigir-se, iluminar-se e serem originais, dignos, e não cópias frágeis, misturadas e oscilantes dos estrangeiros que rejeitam suas próprias qualidades.165
Sumarókov simpatiza com a simplicidade e a naturalidade dos costumes
moscovitas, assim como muitos dos pensadores da época, que concordam com a idéia
de que a Rússia, ao desprezar o modo de viver de seus antepassados, tomou um
caminho impróprio e se perdeu espiritualmente.
Os escritores do final do século XVIII também refletiam sobre a transferência da
capital para São Petersburgo. Por exemplo, o historiador e político Ivan Bóltin (1735-
1792) aponta para as desvantagens da nova capital, tais como: posição longínqua, terras
inférteis, clima severo, local pantanoso, preços caros dos alimentos, afirmando:
Para toda a Nobreza e o Povo em geral era desagradável a designação da capital para esse local onde Petersburgo fora construída... portanto, mais cedo ou mais tarde, Petersburgo deverá ser deixada e a capital será transferida para o local antigo, ou para outro mais vantajoso em relação aos dois anteriores. 166
Essa opinião de Bóltin era a mesma da maioria nos séculos XVIII e XIX e
também foi expressa nas palavras de Nikolai Karamzín que chamava São Petersburgo
de “o erro brilhante de Pedro, o Grande”. O historiador concordava que a conquista da
saída para o mar Báltico era importante, porém seria mais correto fundar nas margens
165 Idem. P. 171.
166 AFANÁSSIEV, E.L. Moscou no pensamento dos filósofos russos no período pós Pedro (Moskvá v
razdúmiah rússkih mysíitelei poslepetróvskogo vriémeni). In: Moscou na literatura russa e mundial (Moskva v russkoi i mirovoi literature). Moscou, Nasledie, 2000. P. 46.
do rio Nievá uma cidade de comerciantes e não uma capital: “a ideia de firmar lá a
presença de nossos Soberanos era, é, e sempre será prejudicial”. Karamzín exclama:
[...] quantas pessoas morreram, quanta força e quantos milhões foram gastos para a realização desse desejo? Podemos dizer que Petersburgo foi fundada sobre lágrimas e cadáveres.167
Essas últimas palavras se referem a um conceito, na cultura popular, de que São
Petersburgo fora construída “sobre ossos”. Isso nos remete ao “sacrifício de construção”
que sempre deve ser oferecido a qualquer grande construção. Pelo fato de São
Petersburgo não possuir uma lenda de assassinato no início de sua formação, assim
como Roma e Moscou, o motivo obrigatório do “sacrifício da construção” nesse caso
foi realizado depois: como durante a sua construção morreram milhares de pessoas, a
nova capital também foi erguida sobre o sangue, portanto é uma grande cidade
comparável com Roma e Moscou.
Enquanto a imagem de São Petersburgo e de Pedro, o Grande adquiria, com o
passar do tempo, cada vez mais características negativas, Moscou se tornava uma
guardiã das tradições e lendas antigas. O final do século XVIII foi marcado pelo intenso
interesse pela história russa, nessa época foram escritas várias obras historiográficas.
Curiosamente, seus autores não eram historiadores, mas, na sua maior parte, renomados
escritores e poetas russos, entre eles: Mikhail Lomonóssov, Aleksandr Sumarókov,
Mikhail Scherbátov e Ivan Bóltin, entre outros. Até mesmo a Imperatriz Ekaterina II
chegou a escrever “Notas referentes à história russa”, em 1782.
167 KARAMZÍN, Nikolai. “Sobre a Rússia antiga e nova e sobre suas relações políticas e civis” (O
drevnei i novoi Russii v ee politicheskom i grazhdanskom otnosheniah // A história do Estado russo
Tal interesse pela história da Rússia antiga revelou mais um integrante da
oposição Moscou – São Petersburgo, a cidade de Nóvgorod, conhecida como uma
república feudal dirigida pela viétchie (reunião de todos os homens da cidade para a
resolução de questões importantes, que tinha poder até mesmo de julgar e condenar os
príncipes). Na opinião de Mikhail Scherbátov e Mikhail Karamzín, a vitória dos
príncipes de Moscou fez com que a Rússia escolhesse um caminho de despotismo e
repressão ao invés da liberdade e democracia da República de Nóvgorod. Nessa escolha,
Ivan, o Terrível e seu sangrento reinado tornam-se a encarnação da tirania dos tsares. Se
Moscou iniciou esse caminho, São Petersburgo, de acordo com Eduard Afanássiev,
continuou-o:
Dessa forma temos que Petersburgo, nesse sentido, já é uma herdeira posterior de Moscou que finalmente nivelou e igualou tudo e transformou a cultura em um espaço comum facilmente dirigido por metragem... e números. O esforço burocrático dos funcionários retirou todas as cores vivas da particularidade popular e as transformou em um gráfico triste de linhas calmas.168
Não é por acaso que essas reflexões sobre o desenvolvimento histórico-
cultural da Rússia surgiram no século XVIII e intensificaram-se ao longo do século
seguinte. Tudo isso foi conseqüência dos feitos de Pedro cujas inovações (entre elas, a
criação de Petersburgo) mudaram para sempre o rumo da história russa, voltando-a para
o Ocidente.
Embora não fosse correto afirmar que antes de Pedro a sociedade russa não
estava dividida em classes, depois das suas reformas, a distância entre a nobreza e o
168 AFANÁSSIEV, E. L. Moscou no pensamento dos filósofos russos no período pós Pedro (Moskva v
razdumiah russkih myslitelei poslepetrovskogo vremeni). In: Moscou na literatura russa e mundial (Moskva v russkoi i mirovoi literature). Moscou, Nasledie, 2000. P. 49.
restante do povo transformou-se em um abismo. Assim, o historiador Vassíli
Kliutchiévski (1841-1911) afirmava:
Como o vidro racha quando é aquecido em partes diferentes de forma desigual, da mesma forma a sociedade russa, ao absorver a influência europeia de modo diferente em todas as suas camadas, rachou. Não sem motivo alguns afirmavam que as classes superiores da sociedade russa às vezes pareciam, em seu próprio país, com os conquistadores estrangeiros. 169
Essa cisão aconteceu porque a nobreza russa passou a copiar os costumes e a
cultura europeus, enquanto o povo continuava em sua “ignorância”. A aristocracia russa
recebia educação europeizada, passava anos viajando pelo mundo e, quando voltava,
sentia-se estranha no próprio país. A nobreza e o povo literalmente não entendiam uns
aos outros e falavam línguas diferentes (o exemplo mais famoso é Aleksandr Púchkin,
que, quando criança, falava francês melhor que russo). Acredita-se que esse conflito
entre a minoria iluminista e a maioria conservativa foi causado pela assimilação da
cultura ocidental induzida por Pedro.
Aliás, o Iluminismo russo é um fenômeno mais tardio quando comparado com
o Iluminismo europeu e por isso era completamente orientado para o modelo ocidental.
A cultura européia era copiada por russos na tentativa de diminuir o “atraso” em relação
à Europa. Isso foi ilustrado no filme A arca russa (2002), de Aleksandr Sokúrov, o
marquês de Custine, que acompanha o personagem principal em seu passeio pelo
Hermitage, acusa os russos de copiarem demasiadamente os europeus e perderem o seu
caráter genuíno.
A herança que Pedro, o Grande deixou para os russos resultou no afastamento
cada vez maior das classes superiores e inferiores, no fortalecimento do sistema de
servidão (krepostnóie pravo) e na fixação do poder absoluto do monarca como
conseqüência da diminuição da participação da igreja ortodoxa na vida sócio-política do
país. Todos esses conflitos predestinaram o desenvolvimento posterior da Rússia: o
auge da literatura, as discussões entre os eslavófilos e os ocidentalistas e até mesmo a
Revolução Russa de 1917. A oposição das duas capitais, que se formou por completo