73
DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. p. 466.
74
NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 150.
A problemática do tempo na filosofia da diferença, quando Deleuze agencia Bergson e Freud em seus conceitos para estabelecer que são três as sínteses do tempo e que é somente na terceira síntese que se dá o eterno retorno enquanto eterno retorno da diferença, será abordada aqui de forma sumária.
Resumidamente, na primeira síntese, que é passiva, ocorreria um para- além do princípio de prazer75, no sentido de que essas sínteses se relacionam com o tempo do presente vivo, onde ocorrem as integrações das excitações recebidas pelos sentidos, por isso Deleuze fala também de contemplações-contrações de segundo grau76. Este para-além, no entanto, significa que não é o prazer, mas sim o hábito, como síntese passiva, quem precede o prazer e o possibilita. “Portanto, a repetição no hábito, ou seja, a síntese passiva de ligação está ‘para-além’ do princípio77”.
Deleuze advertirá, contudo, que não se faça a confusão da passividade com a inatividade (Kant – não há síntese do sensível), pois senão a síntese não seria nem mesmo possível. Por isso que “as sínteses passivas de contemplação ou de contração [que] dão conta, ao mesmo tempo, da possibilidade de ter sensações, da potência de reproduzi-las e do valor de princípio adquirido pelo prazer78”. Já se percebe, portanto, pré-individuais e a- subjetivas.
Já a segunda síntese, que é ativa e que deriva das sínteses passivas, mas como ultrapassamento, implica uma ativação do Eu, que, confrontado com a realidade tende a uma integração79 dos “eus locais” advindos das sínteses passivas. Na trilha dessa
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“A reflexão filosófica deve ser chamada ‘transcendental’; esse nome designa uma certa maneira de considerar o problema dos princípios. De fato, rapidamente se percebe que, por ‘além’, Freud não compreende absolutamente exceções ao princípio de prazer. (...) Ou seja, não há exceções ao princípio de prazer, embora haja singulares complicações do prazer propriamente. É justamente onde começa o problema; pois se nada contradiz o princípio de prazer e se tudo com ele se concilia, isso não quer dizer que ele dê conta desses elementos e processos que complicam sua aplicação. Se tudo entra na legalidade do princípio de prazer, isso não quer dizer que da mesma forma tudo saia dele. E como as exigências da realidade também não bastam para dar conta dessas complicações, que com frequência têm sua origem na fantasia, deve-se dizer que o princípio de prazer reina sobre tudo, mas não governa tudo. Não há exceção ao princípio, mas há um resíduo irredutível ao princípio; nada é contrário ao princípio, mas há algo exterior e heterogêneo em relação a ele – um além...”. DELEUZE, Gilles. Sacher-Masoch: o frio e o cruel; trad. Jorge Bastos. Rio de Janeiro: Zahar, 2009. p. 109-
110).
76
DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. pp. 165-166.
77
DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. p. 167.
78
DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. p. 168.
79
“A passagem das sínteses passivas às ativas é o que Deleuze, em Apresentação a Sacher-Masoch e Diferença
e repetição, problematiza quando indaga sobre a passagem do prazer como processo ao prazer como princípio.
A investigação de Deleuze tem como ponto de partida o conceito de ligação, ou catexia, que Freud apresentou em textos como Projeto, ou em Denegação. O prazer se torna princípio a partir da ligação de excitações
esparsas. A ligação pode ser pensada como investimento. Todavia, de acordo com Deleuze, temos a ativação do prazer pela ligação. A ligação aparece como um princípio transcendental. O que Deleuze denomina, aqui,
argumentação, complexa como se percebe, Deleuze se depara com certos paradoxos, que o forçam a pensar um conceito que vai ser importantíssimo em sua filosofia, que é o virtual80.
Quando se referiu ao ultrapassamento, se referia ao tempo das sínteses, ou seja, presente e passado. Isto porque para que houvesse aquela ativação do Eu, o confronto com a realidade se daria numa relação dita objetal. Mas como bem observa Deleuze, há vários outros objetos que não os reais, e várias outras formas de relações desses objetos para o “eu” das sínteses. Com o exemplo da criança que aprende a andar, conclui que não apenas há uma relação entre as excitações dos objetos reais que a põe em movimento, mas que também ela constrói para si, outros objetos, ditos virtuais, que coexistem aos objetos reais81.
(...). Na verdade, a partir da síntese passiva de ligação, a partir das excitações ligadas, a criança se constrói sobre uma dupla série. Mas as duas séries são objetais: a dos objetos reais, como correlatos da síntese ativa, e a dos objetos virtuais, como correlatos de um aprofundamento da síntese passiva. É contemplando os focos virtuais que o eu passivo aprofundado se preenche agora com uma imagem narcísica. Uma série não existiria sem a outra; e, todavia, elas não se assemelham82.
Já se observa que essa coexistência das sínteses e dos tempos implica uma impossibilidade da identidade do Eu penso, pois está sempre numa relação dividual consigo mesmo. De outro lado, implica também uma retorsão no próprio tempo, porque “o que qualifica o objeto virtual é o passado puro, (...) contemporâneo de seu próprio presente, preexistindo ao presente que passa e fazendo passar todo presente. O objeto virtual é um trapo de passado puro83”. Mas isso ainda não implica o retorno da diferença.
Na terceira síntese, é a forma vazia do tempo que vai aparecer como relação entre o Ser e o (não)-Ser. Não de forma negativa, como já se viu, e por isso o não entre parênteses, mas na afirmação da confrontação com a morte. “A morte é antes de tudo a forma derradeira do problemático, a fonte dos problemas e das questões, a marca de sua
transcendental é a condição da passagem do prazer como processo para o prazer como princípio”. In: BRUNO, Mário. Lacan e Deleuze: o trágico em duas faces do além do princípio do prazer. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004. pp. 162-163.
80
Foi através das retorsões da filosofia de Bergson que Deleuze transformará o conceito de virtual numa potência dentro da filosofia da diferença.
81
DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. pp. 169-170. Como ser verá, no decorrer de seu pensamento, Deleuze fará uma nova retorsão desse conceito de virtual, afirmando que o que se opõe ao virtual não é o real, mas sim o atual, pois ambos têm realidade, ainda que heterogêneas.
82
DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. p. 170.
83
permanência acima de toda resposta, o Onde e o Quando? que designa este (não)-ser em que toda afirmação se alimenta84”.
Pode-se, assim, então, brevemente concluir85:
A primeira síntese é a fase de fundação linear do tempo, constituindo o
presente vivo dos hábitos infinitos que formam a multiplicidade de
durações das coisas existentes. A segunda síntese é a fase do fundamento circular do tempo, síntese de um passado puro que faz que todo presente passe, já que o presente é aqui apenas a atualidade de um tempo, “desde sempre” já passado. A terceira síntese resume, enfim, as duas outras dando uma nova ordem para o tempo, pois submete o passado (tempo da condição) e o presente (tempo das identidades produzidas pelo hábito) ao
futuro inovador. A terceira síntese garante o caráter criador da
atualização, mas ao mesmo tempo desfaz a ordem linear do tempo que vai do virtual ao atual. Ela não é nem fundação, nem fundamento, e sim princípio de desmoronamento do tempo, pois toda criação pressupõe uma libertação de uma reconvocação do Ser pré-individual. Eterno retorno é o nome do Ser pré-individual, do Caos criador que seleciona tudo aquilo que existe e faz voltar apenas aquilo que difere. Eterno retorno é o nome absoluto do Ser enquanto o Ser é, em última instância, Tempo.
Agora se pode responder à problemática da memória. Num primeiro momento, para deixar explicitada a relação que há na segunda síntese do tempo com o transcendental, pois é na fulguração da síntese passiva que as intensidades do virtual se pronunciam, como que transformando a linearidade do tempo em arcos que se fecharão num círculo, aquilo que também é denominado por Deleuze de síntese passiva da memória86; mas num segundo momento para reconhecer sua insuficiência na terceira síntese. A linha que se curva em seu extremo e rompe o ciclo rumo ao eterno retorno da diferença no confronto com a morte como potência do (não)-ser, (Zaratustra mordendo e arrancando a cabeça da negra serpente). “É sempre a partir de um sinal, isto é, de uma intensidade primeira, que o pensamento se designa. Através da cadeia quebrada ou do anel tortuoso, somos violentamente conduzidos do limite dos sentidos ao limite do pensamento, daquilo que só pode ser sentido àquilo que só pode ser pensado87”.
Já se percebe também que a terceira síntese provoca uma revisitação das duas outras, onde o futuro será o tempo da criação e do novo. Por isso também a morte
84
DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. p. 189.
85
GUALANDI, Alberto. Op. cit., pp. 71-72. No texto de Deleuze, sobre a terceira síntese: “(...). Com efeito, repete-se eternamente, mas agora este ‘se’ designa o mundo das individualidades impessoais e das singularidades pré-individuais. O eterno retorno não é o efeito do Idêntico sobre um mundo tornado semelhante; não é uma ordem exterior imposta ao caos do mundo; ao contrário, o eterno retorno é a identidade interna do mundo e do caos, é o Caosmos”. DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. p. 468.
86
Confira-se: DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição.p. 143 e ss.
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não significa uma negatividade de dissolução, ou uma negatividade de relação como na dialética hegeliana.
(...), o instinto de morte para Deleuze é mais silencioso do que essa ameaça de dissolução que se dá no dualismo entre as pulsões e a representação. Não se trata de um mal radical, em suas faces de mal-estar, desdobradas em violências, crueldades, sofrimentos. O instinto de morte está “além do bem e do mal”, ele é puro devir. É nessa dimensão fora da história que podemos pensar as rupturas silenciosas de uma ética trágica. Nela aprendemos a lição do eterno retorno: não há retorno do negativo. (...). A ideia do “sim contra o não” vem de um ensinamento prático (ético) de Nietzsche: a diferença é feliz. Na lógica seletiva do eterno retorno, só a alegria retorna88.
Ora, o tempo jurídico não chega a abordar nenhuma dessas problemáticas que se põem a partir da segunda e da terceira síntese, pois ainda quer soberanamente reconstruir a realidade do que se passou. Mesmo quanto à primeira síntese, o fato jurídico é a tentativa de racionalizar o absurdo, tomando-se como premissa a identidade do passado e do presente como momentos rememoráveis por completo, estáticos (ou seria melhor extáticos?) e desprovidos de qualquer intensidade.
Tampouco a positivação das leis, seja pela representação consensual, como gostaria a dogmática e mesmo o pós-positivismo, não se desvencilham dos vícios da representação, uma vez que têm como ponto de partida a linearidade progressiva de um tempo inexistente, como se a lei fosse capaz de imunizar o tempo de si mesmo, de suas dobras, paradoxos e devires. Aqui também se observa o absurdo do paradigma da segurança que não é outra coisa senão a negação da própria diferença, numa situação ideal de equilíbrio do tempo linear.
Tudo se passa no Direito como se, apesar de logicamente estar configurado a partir das críticas de Kant, no entanto, no que concerne ao desenvolvimento como ciência, sua relação referencial com o tempo é, ainda, pré-copernicana! Quer isto dizer que a lei contiuna sendo pensada como uma imagem do tempo eterno de regularidades estáticas que são chamadas a atuar sobre o caso que, através do processo é submetido, simultaneamente, aos rigores lógicos modernos no que concerne aos juízos da lei, mas a partir de um tempo que submete o caso a verdades eternas. O passado é submetido ao presente como rememoração perfeita e completa na representação, até se atingir a certeza. O direito seria uma fantástica máquina do tempo capaz de trazer o passado ao presente como imagem dogmática da própria verdade. Por isso também, no que concerne à aplicação, a operação mecânica do decalque fica patenteada, uma vez que a subsunção se faz do modelo à cópia.
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