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Desde seus primeiros escritos sobre a clínica, Félix Guattari já deixa claro seu olhar transdisciplinar onde não se desassociam os vários eixos das problemáticas que lhe interessam. Assim, a loucura, a linguagem, a política, estarão sempre numa coimplicação, sem que se possa individualizá-las como objetos de estudo estanques, já que tal seria mesmo impossível. Disso decorre uma consequência importante para a imagem do pensamento que é justamente uma não-clareza, se se pode expressar assim, das gêneses dessas problemáticas. Desta coimplicação emergem, portanto, novos conceitos.

Como já referido, na sua prática institucional em La Borde, Guattari vai buscar novos caminhos para avaliar as potencialidades do discurso e dos sintomas das subjetividades de grupo, em contraposição a uma interpretação individual, standardizada, como tipicamente instituída pelos divãs. Vai também se contrapor a uma institucionalização das práticas médicas que veem nos pacientes esta condição passiva de sujeitados, submetidos a uma relação de poder hierarquizada e despotencializadora. Para ele, seria preciso uma abertura para esta multiplicidade que é a vida, impossível de ser alcançada nos limites desse fechamento que as terapêuticas de então se propunham com suas técnicas e práticas. “Se for cego para todas as coisas dessa ordem e pretender que não fazem parte do campo de análise, é

      

antes de tudo, um antropófago”. In: ROLNIK. Suely. Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo. Porto Alegre: Sulina Editora da UFRGS, 2007. p. 23.

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Ver, sobretudo: RICOEUR, Paul. O justo 1: a justiça como regra moral e como instituição; trad. Ivone C. Benedetti. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2008. pp. 33-61. Apesar de o Autor reconhecer a ambiguidade da relação causa/efeito, nos parece se manter dentro dos limites de uma filosofia da representação, uma vez que propõe a saída das aporias por ele apontadas numa aposta da eficiência do juízo, como instância última de

fechamento do sistema, e não na experimentação radical, como se verá adiante na proposta que vimos defendendo. Nesse sentido: “(...). De fato é essa prudência, no sentido forte da palavra, que cabe a tarefa de reconhecer entre as inúmeras conseqüências da ação aquelas pelas quais podemos legitimamente ser considerados responsáveis, em nome de uma moral da circunspecção. Finalmente, esse apelo ao juízo que

constitui a mais forte defesa da manutenção da ideia de imputabilidade, submetida aos assaltos das ideias de solidariedade e de risco. (...)”. p. 61.

impossível o psicanalista ter acesso a certos problemas, não só certos problemas políticos como também à axiomática inconsciente que é comum a pessoas que vivem na sociedade real100”.

Ora, o que dizer então do Direito? Trata-se ainda o problema jurídico como se estivesse colocado mesmo antes dos estudos do inconsciente de Freud. A teoria da autonomia da vontade, ainda tão propalada, já de há muito foi questionada demonstrando-se sua incongruência com essa instância radical que é o inconsciente. Não é incomum, ainda hoje no discurso jurídico, as referências às tomadas de decisão, mesmo no constitucionalismo atual, como se a tomada de decisão e o consenso fossem frutos dessa consciência pura, considerada ainda nos quadros do claro/distinto, como já referido.

Assim, o Autor, ao modificar na prática clínica as relações de poder que se estabelecem, sentiu a necessidade de um novo conceito para expressar melhor essas relações, o proposto por ele será o de transversalidade de grupo.

Como proteção provisória destinada a preservar, ao menos por algum tempo, o objeto de nossa prática, proponho introduzir no lugar na noção demasiado ambígua de transferência institucional um novo conceito:

transversalidade de grupo. Transversalidade por oposição a:

- uma verticalidade que se encontra por exemplo nas descrições feitas pelo organograma de um estrutura piramidal (chefes, subchefes etc); - uma horizontalidade como aquela que se pode realizar no pátio do hospital, na ala dos agitados, ou melhor, a dos cretinos, isto é, certo estado de fato em que as coisas e as pessoas se arranjam como podem à situação na qual se encontram101.

Como já se pode inferir, o conceito terá uma fruição bastante proveitosa, uma vez que amplia as relações possíveis entre os sujeitos em grupo, daí Guattari se utilizar da expressão grupo-sujeito como o objeto de tal conceito. Demais disso, revela também a problemática do poder, desnudando aí os intricados caminhos por que se constituem as hierarquias paralisantes, e os horizontalismos banalizantes.

Somente a atualização de um nível mais ou menos grande de transversalidade permitirá que se desencadeie, por algum tempo (porque nessa matéria tudo está sempre em constante questionamento), um processo analítico que ofereça aos indivíduos uma real possibilidade de se servirem do grupo à feição de um espelho. Nesse caso, o indivíduo manifestará ao mesmo tempo o grupo e a si mesmo. Se é o grupo na qualidade de cadeia significante pura que acolhe, pode o indivíduo se revelar a si mesmo, para além de seus impasses imaginários e neuróticos. Mas se, pelo contrário, ele se choca contra um grupo profundamente alienado, fixado em seu próprio conjunto deformante de imagens, o       

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GUATTARI, Félix. Psicanálise e transversalidade: ensaios de análise institucional. Trad. Adail Ubirajara

Sobral e Maria Stela Gonçalves. Aparecida, SP: Idéias & Letras, 2004. p. 72.

neurótico terá a ocasião inesperada de um reforço de seu narcisismo, enquanto o psicótico poderá continuar a se dedicar em silêncio a suas sublimes paixões universais. Possibilitar ao indivíduo inserir-se no grupo na modalidade de ser ouvido-ouvinte, e ter acesso através disso ao “para- além” do grupo que ele interpreta, mais do que manifesta, eis a alternativa proposta à intervenção analítica de grupo102.

Não se poderia pensar, dessa perspectiva, por exemplo, o caso da reincidência no âmbito do direito penal? Quer dizer, as cadeias significantes de uma sociedade neurotizada e hierarquizada rigidamente pela própria lei, não induzem este fechamento do delinquente rumo à própria delinquência? Num claro paradoxo, a reincidência só ocorre nos estritos limites da própria lei, tem sua causa na lei que é a imagem dogmática do delito e do delinquente. Portanto, não se sairia desta problemática a não ser buscando esta transversalidade que, de forma alguma se traduz na ressocialização como uma das funções da pena.

Interessante no texto o uso do vocábulo inesperado, como a indicar, nos parece, um efeito colateral, (mas já da perspectiva de um tempo kairós), se se pode dizer assim, da analítica de grupo orientada pela bidimensionalidade vertical/horizontal. Ora, como também nos mostra Foucault103, a delinquência é uma forma de expressão relativa a uma determinada forma de conteúdo, as prisões e instituições legais, são, dito de outro modo, o efeito colateral do sistema prisional institucionalizado, inclusive alcançando terceiros, em clara discordância com a pretensão do próprio Direito de que a pena não passaria da pessoa do condenado.

De outro lado, no Direito tem-se tentado algumas alternativas para pretensamente se contraporem aos meios tradicionais de solução de conflitos, mas deve-se atentar para o fato de que se tais modelos forem instituídos a partir de estruturas já rígidas e sem esse coeficiente de transversalidade, de que fala Guattari, não passarão de reprodução modificada do modelo que sujeita e neurotiza na culpa104 os envolvidos em situações de conflito.

No ponto que mais de perto nos interessa o conceito de transversalidade já evidencia que também as relações discursivas não podem mais ser

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GUATTARI, Félix. Psicanálise e transversalidade: ensaios de análise institucional. pp. 113-114.

103

FOUCAULT, Michel. Vigia e punir: nascimento da prisão. 23 ed., trad. Raquel Ramalhete. Petrópolis:

Editora Vozes, 2000. pp. 215 e ss. Quanto a essa distinção entre formas de expressão e de conteúdo, o tema será abordado subsequentemente.

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Como cediço, já desde Nietzsche, nos parece, o problema da culpa tinha sido colocado em seus devidos termos em relação ao Direito. Confira-se: NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Genealogia da moral: uma

polêmica; trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. O tema da culpa é desenvolvido principalmente na segunda dissertação.

abordadas a partir da mesma bidimensionalidade estruturante do horizontal/vertical, nem mesmo do ponto de vista do significante lacaniano, já evidenciando uma ruptura com os modelos psicanalíticos, em direção ao esquizo. Esta deriva que é característica dos discursos de delírio vai ser colocada em prática na própria escrita, como se pode perceber de alguns dos textos publicados por Guattari105.

Como se sabe o signo vai ser um conceito fundamental na psicanálise, em toda a longa trajetória da teorização do inconsciente, desde Freud, ao longo de toda sua história institucional. Mas é, sobretudo a partir de Lacan, que se vai agenciar os conceitos da linguística para atualizar aquilo que Freud já tinha lançado como as bases do problema106. Para Lacan, a posição do significante na teoria psicanalítica vai ser de fundamental importância.

Guattari, de seu turno, vai mostrar que o signo é desprovido de dimensão, por isso vai nominá-lo ponto-signo. Na verdade, este texto (De um signo ao outro), foi elaborado numa espécie de desmontagem que vai ser operada em dois textos do Seminário II de Lacan107, onde aparece a problemática do significante (Par ou ímpar? Para além da subjetividade; e A carta roubada), em que a interpretação psicanalítica, embora já em rompimento com os postulados freudianos, ainda estão prefixados na triangularidade edipiana. Contra essa posição já se insurge o texto de Guattari, não só em seus argumentos como também como pela sua forma. Nesse sentido, ao invés de uma argumentação linear binária, utiliza-se de aforismos, quase à maneira de Nietzsche, com uma imensa dose de humor e crítica.

No texto de Lacan vão aparecer sinais gráficos (+ e -), onde através de fórmulas lógicas pretende estabelecer as correlações entre as interpretações e os significantes,

       105

Confira-se, sobretudo: GUATTARI, Félix. Psicanálise e transversalidade: ensaios de análise institucional. pp. 173-190. “De um signo ao outro”.

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“Ao partir de uma concepção freudiana de inconsciente, Lacan foi assim o primeiro pensador do século a estabelecer um vínculo fecundo entre a revolução estrutural iniciada em Genebra e a descoberta vienense. Mas, para tanto, foi-lhe preciso romper todo o arsenal conceitual próprio às teorias da intencionalidade e reintroduzir um sujeito (dividido) no cerne da doutrina freudiana. Enquanto Lévi-Strauss foi levado à leitura de Saussure por Jakobson, Lacan passou primeiro por Henri Delacroix e por Pichon para chegar ao Curso, e depois pelas

Estruturas elementares do parentesco para universalizar uma função simbólica compreendida como passagem

da natureza à cultura. Enfim, o estruturalismo praguense de Jakobson e Trubetzkoi permitiu-lhe elaborar uma lógica do significante (e depois do traço unário) que incluía uma teoria do sujeito”. In: ROUDINESCO, Elizabeth. Jacques Lacan: esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento. Trad. Paulo Neves, São Paulo: Companhia das Letras, 1994. p. 284.

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LACAN, Jacques. O seminário: o Eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise; trad. Marie Christine Lasnik Pennot e Antonio Luiz Quinet de Andrade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1985. pp. 221-258.

afirmando inclusive um caráter de generalidade legal dessas correlações, uma vez estabelecida a cadeia simbólica108.

Guattari vai substituir os sinais lacanianos por três pontos sobrepostos (

para positivo e

para negativo), e mostrar que as conclusões são totalmente arbitrárias, dependente de um modelo pré-constituído de significantes e não o contrário. Disso resulta que o estatuto da linguagem ancorado no significante sofre uma deriva e que o delírio e o sem sentido também fazem parte do jogo.

A desmontagem vai se fazendo ponto por ponto, até o desabamento da estrutura, e o que resta é este nada onde o desejo é arbitrariamente sufocado pelo significante. A alternativa, segundo Guattari é já uma outra imagem que vai também se contrapor ao discurso de Lacan: a máquina. Para Lacan, em seu texto sobre o jogo do par ou ímpar, a máquina se coloca como uma exterioridade técnica que, somente capaz de cálculo, é sentida como ameaça ou impotência onde o sujeito estruturado pelo significante não encontra nela qualquer relação. Para Guattari, diferentemente, a máquina será ontológica no processo de subjetivação, donde sua crítica ao estruturalismo:

À diferença da máquina, a estrutura não tem vocação de remeter ao sujeito. A falta de suas articulações internas basta a si mesma: ela não se abre para nada de particular, permanecendo simplesmente disponível no limite de sua lógica interna. Os fenômenos estruturais opõem à prova do sujeito a inércia da repetição ou buscam caminhos de deformação que não as modifiquem fundamentalmente. Ao contrário das máquinas e dos organismos vivos, o princípio de sua transformação não está inscrito no âmago da lei que os funda, mas numa lei articulada para além deles mesmos. Sua alteridade de exterioridade tem natureza distinta da que está na base da subjetividade. O espaço que os sustenta é estéril, não se podendo solicitar a ele dimensão alguma a mais ou a menos. A natureza de não-sentido de sua cotidianidade é diferente da natureza do desejo. Seu mundo do cada um em si e cada um por si desenvolve fantasias mortíferas que mobilizam uma morte que não tem a mesma natureza que nos espreita na base do desejo109.

Como se observa a crítica é ao próprio processo de racionalização por que vai passar a loucura e o desejo como se fossem passíveis de representação, o que é visto por Guattari como uma impossibilidade. A estrutura, assim, permanece na arbitrariedade de um fundamento dado, além de capturar o desejo num estriamento que, como se verá, despotencializa a diferença e, como afirmado pelo Autor, a própria vida.

Aqui já se está sob nítida influência da filosofia da diferença no pensamento de Guattari; e se evidencia que não se pode pensar sem uma outra imagem, e

       108

Idem, p. 243.

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mesmo o inconsciente e o desejo devem sofrer também as retorsões conceituais para que, atualizados, possam expressar tanto as obscuridades quanto as distinções capazes de potencializar novas linhas de fuga.

E é bem por isso que o conceito de máquina não deve ser rebatido sobre a representação, como se se tratasse de metáfora. Nem tampouco deve ser pensado como puramente mecânico. Hoje já temos mais condições de ver este funcionamento além do mecânico das máquinas. Pense-se no exemplo das máquinas Java na informática110. Mas também não é este sentido puramente programático, que reintroduz o significante como o mestre supremo, a que se aduz. As máquinas podem ser a-significantes, autopoiéticas, e as suas relações se dão no registro da afetividade.

Na concepção de máquina que aqui evoco, a discursividade não se dissocia deste foco não discursivo, que é justamente o da sua afirmação autopoiética. Esta explosão da categoria do significante é perfeitamente perceptível na economia da imagem, do imaginário ou das cadeias biológicas, domínios nos quais o significante permanece estranho. É assim que a economia do significante, em Lacan, desenvolve-se sempre numa dimensão de linearidade, em uma dimensão do espaço. Vocês conhecem esta fórmula: “um significante representa o sujeito para um outro significante”. O sujeito é portanto apreendido “numa relação”. Um dado lócus significante, S1, existe numa certa relação com um outro dado

lócus significante, S2, e o sujeito flutua numa espécie de fenda entre

esses dois significantes S1-S2. Esta linearidade estará presente no conjunto das concepções de subjetividade. Esse caráter espacial se reencontra em toda a obra de Lacan, no estádio do espelho mas também em todas as concepções do eu que ele desenvolverá mais tarde. Considero que, ao limitar-se a esta coordenada, perde-se precisamente o elemento de núcleo maquínico, de autopoiese e de auto-afirmação subjetiva. Quer se situe ao nível do indivíduo completo ou da subjetividade parcial, ou ainda da subjetividade social, este elemento passa precisamente pelo viés do afeto, do PATOS, de uma relação PÁTICA. O que nos leva a dizer, de um ponto de vista fenomenológico, que existe algo vivo? É uma relação de afeto. Não é uma descrição, nem uma análise proposicional resultante de uma série de hipóteses e deduções, que chegaria a um veredicto do tipo: logo, trata-se de um ser vivo, logo, trata-se de uma máquina. Há uma apreensão pática imediata, não discursiva, da relação de autocomposição ontológica da máquina111.

Já se percebem aí os ecos spinozanos. Ademais, a ruptura com as formas de expressão psicanalíticas são evidentes, o que leva Guattari ao inconsciente

       110

Máquina virtual Java (do inglês Java Virtual Machine - JVM) é um programa que carrega e executa os aplicativos Java, convertendo os bytecodes em código executável de máquina. A JVM é responsável pelo

gerenciamento dos aplicativos, à medida que são executados. Graças à máquina virtual Java, os programas escritos em Java podem funcionar em qualquer plataforma de hardware e software que possua uma versão da JVM, tornando assim essas aplicações independentes da plataforma onde funcionam. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A1quina_virtual_Java; acessado em 02.02.2013.

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GUATTARI, Félix. A paixão pelas máquinas. In: O reencatamento do concreto. São Paulo: HUCITEC, 2003, p. 39-52. Cadernos de Subjetividade.

maquínico e sua distinção da problemática do desejo não só como componente dessa ontologia, mas também como força ativa dos processos de subjetivação, portanto políticos e sociais. Donde seu engajamento, como já referido, em toda práxis, como forma impossível de ser desconectada de seu pensamento.

Benzer Belgeler