Necessário observar que aqui a problemática da diferença vai mudar de natureza, uma vez que Deleuze começa a explorar não mais a diferença em relação à representação, mas a gênese da própria diferença63, e por isso, também, a constante referência ao pensamento de Kant não pode ser objeto de uma interpretação rápida no sentido de ser o próprio Deleuze um pós-kantiano. Justamente porque como ele mesmo vai muitas vezes se referir no decorrer da sua filosofia – mas daí já agenciando os pensamentos de Henri Bergson e Gilbert Simondon –, há nessas relações diferenças de intensidade, por isso a impossibilidade de tal classificação. O que interessa, portanto, é a busca daquilo que vem de fora e nos força a pensar. Para Deleuze, este isto é a intensidade. É a intensidade que é pura diferença e “do intensivo ao pensamento, é sempre através de uma intensidade que o pensamento nos advém64”.
61
DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. p. 236.
62
Idem, ibidem.
63
Nesse sentido: “Os pós-kantianos, notadamente Maïmon e Fichte, dirigiram a Kant uma objeção fundamental: Kant teria ignorado as exigências de um método genético. Esta objeção tem dois sentidos, objetivo e subjetivo: Kant apoia-se em fatos, dos quais ele procura somente as condições; mas, também, invoca faculdades já prontas, das quais ele determina tal relação ou tal proporção, já supondo que elas são capazes de uma harmonia qualquer”. DELEUZE, Gilles. A ilha deserta: e outros textos. pp. 84-85.
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Diante do que se expôs, pode-se dizer que Deleuze estabelece para o pensamento uma gênese potencial a partir da multiplicidade que, na diferença do exercício das faculdades, engendra um plano de imanência em que o intensivo que escapa desse Eu rachado pela diferença desse acordo discordante65, encontra-se dissolvido numa obscuridade (a)fundamental ao próprio pensamento, portanto, pensamento dionisíaco.
(...). O “claro e distinto” não é separável do modelo da recognição como instrumento de toda ortodoxia, mesmo que racional. O claro e distinto é a lógica da recognição, como o inatismo é a teologia do senso comum; ambos já verteram a Idéia na representação. A restituição da Idéia, na doutrina das faculdades, acarreta a explosão do claro e distinto ou a descoberta de um valor dionisíaco, segundo o qual a Idéia é
necessariamente obscura na medida em que é distinta, sendo tanto mais
obscura quanto mais distinta ela for. O distinto-obscuro torna-se, aqui, a verdadeira tonalidade da Filosofia, a sinfonia da Idéia discordante66. (Itálicos no original).
Está-se diante daquilo que Deleuze denomina de precursor sombrio67 na gênese do pensamento, que o afasta por completo não só de Kant, como já referido, mas também de toda a imagem dogmática do pensamento. Já se ouvem também os ecos da filosofia de Nietzsche nesta passagem, mas também o (a)fundamento do espaço-tempo transcendental da individuação na univocidade do Ser.
Quando vai tratar do problema da repetição68, Deleuze vai buscar na problemática do tempo a solução das sínteses que evidenciam a ocorrência da própria repetição. A repetição para si mesma não está mais nos quadros da representação, da imagem dogmática, porque dessa forma a repetição também estaria bloqueada para a diferença, sendo apenas a repetição do Mesmo. No capítulo de conclusão (p. 415 e ss.), vai contrapor duas repetições, uma da representação e outra da diferença, mas já como duas imagens do pensamento distintas, afirmando que a “a memória é a primeira figura em que aparecem as características opostas das duas repetições69”. Vale a pena transcrever as características que se apresentam para o Autor como distintivas da repetição:
65
“(...). O uso transcendental das faculdades é, propriamente falando, um uso paradoxal, que se opõe a que seu exercício se dê sob a regra de um senso comum. Além disso, o acordo das faculdades só pode ser produzido como um acordo discordante, pois cada uma só comunica à outra a violência que a coloca em presença de sua diferença e de sua divergência com todas”. DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. p. 240.
66
DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. p. 241-242.
67
“(...). Dadas duas séries heterogêneas, duas séries de diferenças, o precursor age como o diferenciador destas diferenças. É assim que ele as coloca em relação imediatamente por sua própria potência: ele é o em-si da diferença ou o ‘diferentemente diferente’, isto é, a diferença em segundo grau, a diferença consigo, que relacionou o diferente ao diferente por si mesmo”. DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. p. 199-200.
68
DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. Confira-se: A repetição para si mesma. pp. 127-214.
69
Umas destas é a repetição do mesmo e não tem diferença a não ser subtraída ou transvasada; a outra é repetição do Diferente e compreende a diferença. Uma tem termos e lugares fixos, enquanto a outra compreende essencialmente o deslocamento e o disfarce. Uma é negativa e por deficiência; a outra é positiva e por excesso. Uma é repetição de elementos, casos e vezes, partes extrínsecas; a outra é repetição de totalidades variáveis internas, graus e níveis. Uma é, de fato, sucessiva, enquanto a outra, de direito, é coexistência. Uma é estática, a outra dinâmica. Uma é em extensão, a outra é intensiva. Uma é ordinária, a outra é relevante e repetição de singularidades. Uma é horizontal, a outra é vertical. Uma é desenvolvida, devendo ser explicada; a outra é envolvida, devendo ser interpretada. Uma é repetição de igualdade e de simetria no efeito, a outra é repetição de desigualdade bem como de assimetria na causa. Uma é de exatidão e de mecanismo, a outra é de seleção e de liberdade. Uma é repetição nua, a que só pode ser mascarada por acréscimo e posteriormente; a outra é repetição vestida, cujas máscaras, deslocamentos e disfarces são os primeiros, os últimos e os únicos elementos70.
Mas por que a referência à memória? É preciso lembrar que na própria definição de representação (cf. nota n. 8), apresentada por Deleuze, já está presente o termo memória, mas ainda dentro dos próprios limites conceituais daquela imagem de pensamento dogmática.