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A ética permeia toda a vida do indivíduo, seja ela vista em relação ao próprio indivíduo quanto à sua felicidade e à realização pessoal, seja ela em relação ao seu convívio familiar e societário.

E a preocupação com a ética cruzou épocas, justamente por lidar com valores intrínsecos, naturais e básicos aos seres humanos.

A educação da Antigüidade Clássica visava a uma eficiência individual, baseada no desenvolvimento integral para a convivência social, seguindo princípios rígidos e racionais estabelecidos por Sócrates e Platão. Aristóteles, seu discípulo, acresceu um elemento novo e poético: a busca pela felicidade, que é obtida pelo exercício da virtude, que não deve ser somente conhecida, mas exercitada para ser colocada em prática. A felicidade é um objetivo de sua teoria político-pedagógica. “A principal razão da felicidade são as atividades que se fazem de acordo com a virtude, enquanto as atividades contrárias são a razão principal do contrário” (ARISTÓTELES, 2002, p.62).

Para Aristóteles, as virtudes são divididas da seguinte forma: Algumas formas de virtudes são chamadas de virtudes intelectuais e outras de virtudes morais. A sabedoria e o entretenimento e a prudência são virtudes intelectuais; a generosidade e a temperança são virtudes morais (ARISTÓTELES, 2002, p. 63).

Quanto às formas de aquisição das virtudes, diz Aristóteles:

Sendo a virtude, como vimos, de dois tipos, nomeadamente, intelectual e moral, a intelectual é majoritariamente tanto produzida quanto ampliada pela instrução, exigindo, conseqüentemente, experiência e tempo, ao passo que a virtude moral é produto do hábito (ARISTÓTELES, 2002, p. 65).

As virtudes morais não são adquiridas pela natureza do indivíduo e sim pelo hábito, portanto necessitam de instrução, exercício e treino. Dentro dessa ótica, a virtude pode ser ensinada.

Não há dificuldade em buscar na história pensadores que privilegiem a educação calcada na adoção de valores como um pressuposto para uma vida sadia e em harmonia com a sociedade.

Dentre estes é importante mencionar novamente Comenius (1592 - 1670), não por tratar mais ou melhor a ética que os educadores religiosos surgidos após o cristianismo como Santo Agostinho (354 - 430), São Tomas de Aquino (1224 -1274) e Martinho Lutero (1483 - 1546) que o precederam, mas por tratá-la dentro de uma pedagogia inovadora, multidisciplinar, democrática e baseada na experimentação.

Não está longe o pensamento de Rudolf Steiner, fundador da Antroposofia, que busca analisar o conhecimento espiritual com o mesmo rigor científico aplicado a outros conhecimentos do mundo físico: “Sempre se deve levar em conta a totalidade do homem, concebido como corpo, alma e espírito” (STEINER, 1990, p.15).

Pestallozzi (1999) foi discípulo de Rousseau e, como ele, via a educação para formar espíritos livres, preparados através de ações calcadas na moral, advindas de suas próprias experiências. Ele associava a educação intelectual à educação física e moral. A educação deve ser suficiente para, em primeiro, lugar permitir que cada um erija sua escala de valores próprios, usando o seu livre arbítrio, suas tendências e

convicções.

E para que isto aconteça é necessário aprender o que são estes valores o que significa a verdade? A justiça? A lealdade?

O convívio com esses valores e a sua discussão ampliam os horizontes e permitem ver situações sob outros ângulos. A adoção de um código de valores próprios é um bom começo, mas não encerra a questão; é necessário aprender a conviver com eles e constantemente estar reavaliando o seu entendimento, sua adesão e o compromisso.

A família, a escola e a comunidade devem propiciar um ambiente salutar e oferecer estes espaços para discussão além de uma conduta de exemplos capaz de frutificar atitudes verdadeiras, conscientes em que prevalecem o respeito e o amor.

À medida que a criança amadurece, o reflexo que esses valores têm no seu cotidiano apresenta uma maior complexidade e o espaço familiar, social e educacional deve acompanhá-la, amadurecendo proporcionalmente a abordagem. Essas discussões serão tão mais frutíferas e capazes de orientar a criança e o jovem quanto mais eles tiverem compreendido, aceitado e discutido os valores básicos. aí está a importância de um trabalho constante e progressivo voltado à ética.

A necessidade de se trabalhar a questão de valores com os membros de uma comunidade é inquestionável; este é o principal caminho para se ter cidadãos ativos, com uma participação harmônica, crítica e construtiva. Porém, esse trabalho não deve se dar de forma impositiva e autômata, mas sim de forma construtiva e participativa, o que se consegue através de práticas que permitam o conhecimento, a vivência, a discussão, a experimentação e a reflexão que culminem com a livre e espontânea adoção de um código próprio de valores. Esse processo será tanto mais efetivo quanto mais cedo for iniciado, o que justifica a relevância em desenvolvê-lo com crianças.

oferecida de forma leve e descontraída. Os jogos são excelentes instrumentos para o trabalho com valores, o convívio com a ética, com a cooperação, com o fracasso e com o sucesso.

Huizinga (1999) afirma que as regras são um elemento essencial para a existência de um jogo; elas introduzem a perfeição na confusão, pois o jogo exige “uma ordem suprema e absoluta: a menor desobediência a esta ’estraga o jogo’, privando-o de seu caráter próprio e de todo e qualquer valor. (HUIZINGA, 2000, p. 13).

O convívio com estas regras absolutamente aceitas por todos exercita a ética:

Embora o jogo enquanto tal esteja para além do domínio do bem e do mal, o elemento de tensão lhe confere um certo valor ético, na medida em que são postas à prova as qualidades do jogadores; sua força e tenacidade, sua habilidade e coragem e, igualmente, suas capacidades espirituais, sua “lealdade”. Porque, apesar de seu ardente desejo de ganhar, devem sempre obedecer às regras do jogo.

E não há dúvida de que a desobediência às regras implica a derrocada do mundo do jogo. O jogo acaba: O apito do árbitro quebra o feitiço e a vida “real” recomeça (HUIZINGA, 2000, p. 14).

Forma muito semelhante de ver esse assunto é a de Caillois que ensina que a legislação arbitrária e própria é fundamental para separar o momento do jogo da vida corrente.

A equivalência é tão precisa que o saboteador dos jogos, que denunciava o absurdo das regras, se constitui agora naquele que rompe o encantamento, naquele que se nega brutalmente a ceder à ilusão proposta, naquele que lembra o menino que ele não é um verdadeiro cavalo, um verdadeiro submarino, ou, a menina, que não acalenta um menino verdadeiro ou que não serve uma verdadeira comida em sua vasilha em miniatura (CAILLOIS, 1994, p. 36).

Dentro do arcabouço de possibilidades de trabalhar com o lúdico, as histórias são as mais eficientes para o trabalho com valores. Isto porque os valores, por serem abstratos, não são fáceis de serem abordados; as histórias, então, materializam esses valores abstratos, dão-lhes um contexto, e fazem com que as crianças possam raciocinar sobre eles, fazendo assimilações e tomadas de posturas que serão úteis em situações análogas da vida real.

Uma vez aceito que as histórias são capazes de transmitir uma mensagem e que esta poderá ter diversos objetivos, um deles poderá ser contribuir com a construção de valores éticos e morais, permitindo a compreensão e reflexão desses valores.

Voltando às questões do uso do lúdico na comunicação com crianças, seria muito difícil iniciar com os pequenos uma conversa sobre a importância de agir corretamente, eles não iriam entender, e mais do que isso, não teriam “vontade de entender”. Mas isto se torna diferente quando eles são chamados para ouvir uma história, uma história interessante, cheia de magia e de aventura, isto sim, pertence ao seu mundo! E se esta história narrar a atitude de um príncipe valoroso, falar-se-á de formas corretas de ação, mas de uma maneira que a criança seja capaz de constituir, de forma autônoma e participativa, a sua base moral.

As histórias são um celeiro de exemplos; com elas se pode trabalhar a discriminação, o repúdio ao preconceito, a valorização da tolerância, da diversidade, e uma lista infindável de valores, basta procurar, mas para isto é preciso, primeiro, que o contador esteja preparado para aquilo que deseja buscar. Sendo necessário, também, que ele acredite na força do seu papel de educador e nas possibilidades de transmissão desta importante missão através de um contexto lúdico, alegre, ingênuo e repleto de fantasia como uma história.

Assim, as histórias são capazes de, entre estrelas multicoloridas e as poções mágicas, serem condutoras de valores importantes e necessários, capazes, de forma singela e simples, de ajudarem as crianças a valorizarem a magia do amor e da paz.