Função da Instrução
Vamos investigar mais detalhadamente o processo de elaboração dos experimentos a partir de uma estrutura básica. Este é o momento de plantar raízes.
O padrão de movimento inspirar/expirar associado a relaxar/contrair a musculatura pélvica detona alterações dos estados do corpo. Esta é a ignição para o processo de construção das instruções em virtude das relações que vão se estabelecendo entre movimentos de dança e diferentes estados do corpo. Este é um processo em que à instrução inicial vão sendo agregadas novas instruções coerentes com as conexões que emergiram. O padrão gera a sensação de suspensão e expansão. A suspensão do corpo com relação à gravidade e a sua expansão muscular criando espaços entre as vértebras e por todas as articulações. Expandem-se também as possibilidades de dobrar e torcer. Estes eventos conduzem às espirais (torções do dorso) geradas pela rotação da bacia para os lados direito ou esquerdo do corpo. Aqui temos o padrão de movimento adotado associado à rotação da bacia. Daqui emergem novas cadeias de movimentos induzidas pelas alterações decorrentes do fluxo que se estabelece. Simultaneamente, aumenta a possibilidade de realizar deslocamentos em vários níveis do espaço. O esforço necessário à realização deste trabalho opera com diversos ritmos respiratórios induzindo
o corpo a explorar diferentes qualidades de movimento distribuídas por diferentes níveis do espaço, o que possibilita agregar à instrução o padrão de movimento suspensão/queda/recuperação. A instrução inicial evoluiu para a instrução (I1). Sementes de onde emergem raízes.
Trata-se de cadeias de movimentos de onde surgem muitas outras possibilidades de movimentos. É dentro das probabilidades de ocorrência de diferentes cadeias de movimentos que vemos como a instrução evolui. Para cada corpo, uma cadeia de movimentos selecionada. A esta cadeia específica atribui-se verbos e advérbios, de modo a encontrar diferentes qualidades de movimento para cada recorte relativo às diferentes etapas deste encadeamento. A conexão entre estas etapas é um jeito de organizar somente daquele corpo. Neste momento, é importante que o criador desenhe em seu caderno a linha que configura a trajetória dos seus movimentos e observe a figura que se forma entre linhas retas, curvas, elipses e tantos outros modos de projetar no espaço bidimensional (o papel) o que aquele corpo experimenta no espaço tridimensional. Estas figuras devem, de algum modo, encontrar relações com as atribuições dadas aos movimentos.
É uma fase em que inúmeras imagens mentais começam a fazer parte do processo de modo consciente, o que permite ampliar as relações com o contexto. Este contexto se forma na interação corpo/ambiente. O modo como o indivíduo percebe o mundo, a sua história, os seus movimentos. A próxima instrução inclui encontrar textos do mundo com traços comuns às qualidades de movimento encontradas. Este é o exercício “como se”. O verbo ou advérbio atribuído a cada movimento indica algo “como se” fosse este ou aquele objeto conhecido. Daqui emerge outra diversidade de imagens coerentes com esta proposta, material suficiente para que o criador possa elaborar a sua idéia em forma de dança. Este processo de agregar padrões que emergiram de experiências anteriores é ininterrupto e inestancável. Mesmo que o artista exiba a sua obra como um sistema semifechado, o processo é inestancável. Basta observar que, no momento em que o artista aposenta a sua obra, esta já pode ter contaminado inúmeros corpos.
O modo como o padrão em estudo foi explorado anteriormente acrescenta vocabulário ao criador, antes mesmo que seja possível reconhecê-lo como um formatador. A própria idéia de indutor de alterações dos estados do corpo já derruba a possibilidade de trabalhar com formas precisamente estabelecidas e aumenta a
possibilidade de experimentar cadeias de movimentos coerentemente organizadas pelo fluxo de informação criado pelo trânsito corpo/ambiente. Elas se reconfiguram em cada corpo e evoluem para outras combinações.
Assim, iniciar o aquecimento pela instrução inicial I0 e seguir com cada etapa como proposta para o processo, instaura a condição de efetivamente pesquisar movimentos que tendem a evoluir de acordo com os grupos musculares solicitados para diferentes esforços associados a diversos ritmos respiratórios. Aqui pode-se trabalhar com a contração muscular e a respiração voluntárias e involuntárias, o que permite encontrar diversas qualidades de movimento. Estabelece-se um fluxo coerente com a possibilidade de criar um pensamento dentro do curso natural do corpo de elaborar conhecimento. O corpo experimenta possibilidades e organiza algumas que serão selecionadas pelo processo, podendo começar por uma idéia latente, que tende a se apresentar no decurso do experimento.
Desde que se inicia o experimento, fica entendido que os padrões de movimento aplicados funcionam como indutores de alterações dos estados do corpo e que cada corpo tem um modo de manifestar essas alterações. Nisto inclui-se a experiência daquele corpo com atividades coerentes com o fazer artístico. O que está internalizado neste corpo é um vocabulário importante ao processo de criação. Eis a oportunidade de observar a diversidade de textos que podem ser criados. As idéias, assim como todas as outras partes do corpo, são atravessadas pelo tempo irreversivelmente transformadas. Podemos falar da mesma idéia de modos completamente diferentes. É esta a garantia de gerar complexidade no processo de criação.
A instrução evolui agora para o que deve ser entendido como o tempo interno do corpo, esse tempo que sugere uma fronteira entre ele e o resto do mundo. Esta é uma etapa que agrega as etapas anteriores, portanto, teremos todos os padrões de movimento formadores das instruções - e os que emergiram desta fase do processo - contidos por uma espécie de bolha, o Umwelt do criador. Surge aqui a possibilidade de estabelecer o diálogo com diversos textos que apresentam traços comuns ao texto que começa a se formar e tende a evoluir. A diversidade de textos que colaboram com o processo de criação faz parte do ambiente, “fronteira” do Umwelt. Os arredores do meu corpo, de forma alguma separados do meu corpo.