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O primeiro autor a relatar o uso dos esporões foi Rogers (ROGERS, 1927) e nos últimos anos, diversos autores relataram o uso deste aparelho como uma opção para o tratamento da mordida aberta anterior (ALMEIDA, A.B. et al., 2002; CASSIS, 2009; CASSIS et al., 2012; COZZA et al., 2006; FRANCO; ARAÚJO; HABIB, 2001; GIUNTINI et al., 2008; GRABER, M.T., 1963; HARYETT; HANSEN; DAVIDSON, 1970; HARYETT et al., 1967; HUANG, G. J. et al., 1990; JUSTUS, 1976, 2001; MEYER-MARCOTTY; HARTMANN; STELLZIG-EISENHAUER, 2007; NOGUEIRA et al., 2005; PARKER, 1971; ROGERS, 1927).

Os esporões podem se apresentar das seguintes maneiras: 1) soldados a um arco palatino, fixos às bandas dos molares superiores (COZZA et al., 2006; GIUNTINI et al., 2008; HARYETT; HANSEN; DAVIDSON, 1970; HARYETT et al., 1967; JUSTUS, 1976, 2001; MEYER-MARCOTTY; HARTMANN; STELLZIG- EISENHAUER, 2007) 2) soldados a um arco lingual inferior, cimentados por meio de bandas nos molares inferiores (ALMEIDA, A.B. et al., 2002; FRANCO; ARAÚJO; HABIB, 2001), 3) soldados às bandas dos incisivos centrais permanentes superiores (PARKER, 1971) ou ainda, 4) soldados a um arco lingual inferior, fixos nas bandas dos incisivos laterais inferiores (HICKHAM, 1991). Baseado nos princípios dos esporões tradicionais, Nogueira et al. (NOGUEIRA et al., 2005) desenvolveram um novo dispositivo, o esporão lingual colado Nogueira®, semelhante a um braquete ortodôntico, para colagem nos incisivos centrais superiores e/ou inferiores, que apresenta uma base e, unidas a esta base, duas hastes afiladas com as extremidades levemente arredondadas e medindo aproximadamente 3 mm.

Erroneamente, este aparelho foi considerado extremamente traumático e por isso o seu uso foi evitado, por receio de se provocar problemas psicológicos ou assustar pais e pacientes (JUSTUS, 1976, 2001). Apesar de obter sucesso no tratamento da mordida aberta anterior usando esporões, Parker (PARKER, 1971) discutiu a possibilidade do uso deste aparelho provocar um efeito traumático nas crianças. Entretanto, Haryett et al. (HARYETT; HANSEN; DAVIDSON, 1970; HARYETT et al., 1967) invalidaram tais afirmações, ao relatar que o uso da grade palatina com esporões é o meio mais eficiente para a remoção do hábito de sucção digital e que nenhum problema psicológico surgiu no uso de qualquer tipo de aparelho, incluindo os esporões. Seus estudos demonstraram que 50% dos

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pacientes tratados com esse dispositivo apresentaram uma redução da mordida aberta logo após a eliminação do hábito. Além disso, verificaram que a maioria das crianças tratadas com esporões abandonou o hábito com 7 dias de uso do acessório. Algumas desvantagens relativas a esse aparelho foram mencionadas: 1) o período de adaptação; 2) dificuldade ao falar; 3) dificuldade ao comer; 4) dificuldade para dormir. Porém, concluíram que todas estas alterações são passageiras, não oferecendo danos aos pacientes e não sobrepujando os benefícios do tratamento. Recentemente, Araújo et al.(ARAUJO et al., 2011) comprovaram que o tratamento com esporões é bem tolerado pelos pacientes e pais, já que 98% dos 72 pacientes tratados com esporões soldados a um arco lingual inferior demonstraram boa aceitação ao tratamento. Além disso, os autores relataram um período aproximado de 10 dias para adaptação ao uso dos esporões, sendo que as dificuldades passageiras de fala e mastigação foram os problemas relatados.

Graber (GRABER, M.T., 1963) citou várias funções do aparelho esporão: a primeira é impedir o hábito de sucção digital. O autor relata que a criança até poderá levar o polegar à boca, porém, não haverá mais satisfação durante a sucção. Segundo, devido a sua construção, o aparelho elimina a pressão do polegar sobre os incisivos superiores, prevenindo a criação de alterações na musculatura bucal e lingual, ou mesmo o agravamento destas alterações. Terceiro, o aparelho força a língua para uma posição mais retruída, alterando a sua forma e tônus durante a postura de repouso, e como resultado, a língua tende a exercer mais pressão nos segmentos posteriores da maxila, revertendo o hipodesenvolvimento maxilar. O autor relatou que, durante 17 anos, mais de 600 casos com hábito de sucção digital foram tratados no período de dentadura decídua e mista precoce e o sucesso com o tratamento foi plenamente obtido.

Há uma concordância entre alguns autores (HARYETT et al., 1967; JUSTUS, 2003) de que os esporões são mais efetivos em impedir o hábito de sucção digital e corrigir a mordida aberta anterior do que apenas uma grade palatina. Isso porque a grade impede somente o hábito, enquanto os esporões desencorajam a língua de repousar sobre eles (FRANCO; ARAÚJO; HABIB, 2001; JUSTUS, 1976, 2003; NOGUEIRA et al., 2005). Moyers (MOYERS, 1991) não aconselha o uso de grades, pois estas são muito grandes e atrapalham as funções normais da fala e deglutição, indicando o uso dos esporões para a correção do hábito de sucção do polegar, interposição lingual e deglutição atípica.

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Vários autores relataram uma alteração postural da língua com o uso dos esporões (ALMEIDA, A.B. et al., 2002; CASSIS et al., 2012; FRANCO; ARAÚJO; HABIB, 2001; HICKHAM, 1991; HUANG, G. J. et al., 1990; JUSTUS, 1976, 2001, 2003; MEYER-MARCOTTY; HARTMANN; STELLZIG-EISENHAUER, 2007; NOGUEIRA et al., 2005). Os esporões produzem uma modificação no ambiente bucal, permitindo que a língua não se apóie sobre os dentes e sobre o dispositivo, deixando que os incisivos irrompam normalmente. Esta alteração modifica a alimentação sensorial recebida pelo cérebro, obtendo-se uma nova resposta motora (funcional e uma postura normal da língua), ou seja, uma nova posição postural é obtida, provavelmente por um reflexo nociceptivo ou proprioceptivo (JUSTUS, 1976, 2001, 2003). Graças a esse reflexo, mesmo durante o sono, uma dor suave recorda o sistema neuromuscular de que é melhor não sugar o polegar (MOYERS, 1991). Hickham (HICKHAM, 1991) relatou durante a apresentação de um caso clínico sobre o tratamento da má oclusão de Classe III, que pacientes com obstruções das vias aéreas apresentam uma postura da língua baixa e para frente e esta postura leva à um hipodesenvolvimento e estreitamento da maxila, enquanto a mandíbula fica hiperdesenvolvida e larga. E apesar da remoção de adenóides e tonsilas palatinas, alguns pacientes continuam com a posição da língua protruída, indicando esporões linguais na face lingual dos incisivos inferiores, para ocorrer uma alteração da postura da língua. Nogueira et al. (NOGUEIRA et al., 2005) apresentaram 3 casos clínicos que demonstraram o uso de esporões linguais colados Nogueira® como tratamento coadjuvante da deglutição atípica por pressionamento lingual. Os pacientes foram submetidos a exames de eletromiografia (EMG) para avaliação neuromuscular, antes e após 10 meses do início do tratamento, demonstrando uma melhora no padrão da forma dos arcos e relações interarcos, com o uso de aparelhos ortopédicos e ortodônticos associados aos esporões. Os esporões estimularam a língua a mudar a sua postura nas funções de deglutição, fonação, mastigação e repouso, e isto, provavelmente ocorreu porque não foi encontrado nenhum sinal de ferimento na língua, comprovando que esta ficou estimulada a assumir uma nova posição durante suas funções e no repouso.

Franco et al. (FRANCO; ARAÚJO; HABIB, 2001) também apresentaram dois casos clínicos submetidos à terapia com esporões soldados a um arco lingual, para o tratamento da mordida aberta anterior. O caso clínico número 1 apresentou uma paciente com idade inicial de 11 anos e 8 meses, do gênero feminino, em fase de

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dentadura mista, má oclusão de Classe I de Angle, mordida aberta de 3 mm, overjet de 2 mm e função lingual anormal tanto durante a deglutição quanto na posição de repouso. Após 9 meses do uso do aparelho com esporões, observou-se a correção da mordida aberta e o estabelecimento de um trespasse vertical normal. O caso clínico número 2 apresentou uma paciente com idade inicial de 10 anos e 9 meses, gênero feminino, mordida aberta de 5 mm, envolvendo até a região dos primeiros pré-molares e overjet de 3 mm. Após 8 meses da instalação do arco lingual com esporões, ocorreu a correção da mordida aberta anterior. Os autores relataram que os esporões podem interferir na fonação, sobretudo nas duas primeiras semanas, porém afirma que esta alteração é passageira.

Utilizando o aparelho quadri-hélice com esporões, Cozza et al. (COZZA et al., 2006) obtiveram os seguintes resultados: das 23 crianças tratadas que foram comparadas com outras 23 não tratadas, pertencentes a um grupo controle, houve fechamento da mordida aberta anterior em 19 delas (90%). Em aproximadamente 1,5 anos de tratamento, o aumento do overbite foi de 3,6mm a mais no grupo experimental quando comparado com o grupo controle. Houve extrusão e verticalização dos incisivos superiores e inferiores e uma rotação no sentido horário do plano palatino. Os autores também constataram uma maior retrusão dos lábios superior e inferior no grupo tratado.

Em 2007, Meyer-Marcotty et al. (MEYER-MARCOTTY; HARTMANN; STELLZIG-EISENHAUER, 2007), realizaram um estudo prospectivo para avaliar isoladamente os efeitos dos esporões no complexo dentoalveolar e craniofacial de pacientes com mordida aberta anterior e deglutição atípica com interposição lingual. Seguindo um protocolo de tratamento padrão, 15 pacientes, com idade média de 13 anos e 10 meses foram tratados com esporões fixos a um arco palatino por 9 meses, em média. Os resultados demonstraram que os esporões proporcionaram uma mudança no padrão de comportamento neuromuscular da língua, propiciando a correção da mordida aberta anterior, com aumento do overbite, e da disfunção encontrada inicialmente.

Giuntini et al. (GIUNTINI et al., 2008) compararam os efeitos do quadri-hélice com esporões aos da grade palatina removível. Cada amostra consistiu de 20 pacientes. Ambos os aparelhos produziram efeitos dentoalveolares favoráveis ao fechamento da mordida aberta anterior e ambos os grupos mostraram retrusão dos lábios superior e inferior. Contudo, no período de 1,5 anos, o quadri-hélice com

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esporões, que não dependia de colaboração, foi efetivo em 90% dos casos, enquanto a placa com grade palatina o foi em apenas 60%. O quadri-hélice com esporões também proporcionou uma maior inclinação para lingual dos incisivos superiores, o que melhorou o selamento labial. Conforme relataram os autores, a utilização de um aparelho que não dependia da cooperação do paciente foi provavelmente o fator diferencial para o maior sucesso na correção da mordida aberta anterior.

Recentemente, Cassis et al. (CASSIS, 2009; CASSIS et al., 2010b, 2012) estudaram os efeitos do esporão lingual colado associado ao uso da mentoneira em pacientes na fase da dentadura mista, comparando um grupo tratado a um grupo controle não tratado. A mentoneira foi utilizada de 12 a 14 horas/dia, com força de 450 a 500 g/ lado para controle vertical da face. Os esporões foram colados nos incisivos centrais superiores e inferiores. Após 1 ano de tratamento, observou-se que as alterações dentoalveolares na região anterior dos arcos foram as responsáveis pelo fechamento da mordida aberta anterior, por meio da extrusão e lingualização dos incisivos superiores e inferiores. A mentoneira demonstrou ser eficiente para o controle vertical, evidenciando um fechamento do ângulo goníaco. Houve correção da mordida aberta anterior em 86,7% dos pacientes do grupo tratado em 1 ano de tratamento. Cassis et al. (CASSIS et al., 2010a) também apresentaram um caso clínico de um paciente de 9 anos e 6 meses, Classe I bilateral com mordida aberta anterior de -4,1mm inicialmente, tratado com o protocolo de tratamento descrito acima, demonstrando sucesso no tratamento. Houve fechamento da mordida aberta anterior em apenas 7 meses, com um overbite final positivo de 2,3mm.

Após o fechamento da mordida aberta anterior, um período de contenção de 3 a 6 meses foi recomendado por Haryett et al. (HARYETT et al., 1967).