Os hábitos de sucção digital e de chupeta têm um importante papel etiológico no desenvolvimento da mordida aberta anterior dentária e dentoalveolar (WORMS; MESKIN; ISAACSON, 1971). Entretanto, o hábito de sucção dos dedos ou chupeta até a idade de 3 anos consiste em um mecanismo de suprimento emocional da criança que, preferencialmente, não deve sofrer interferência (GRABER, T.M., 1959) Isto porque, as alterações causadas pela sucção, nesta fase do desenvolvimento da oclusão, restringem-se ao segmento anterior dos arcos dentários e podem ser
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revertidas espontaneamente com a interrupção do hábito, de tal forma que os prejuízos emocionais podem superar os prejuízos funcionais (GRABER, T.M., 1959). Além disso, existe uma tendência natural da criança abandonar o hábito com o desenvolvimento de sua maturidade emocional e com o início de sua socialização, que normalmente ocorre a partir dos 5 anos de idade (ALMEIDA, R.R.; URSI, 1990).
De acordo com Almeida, et al. (ALMEIDA, R.R. et al., 2000), ainda no ventre da mãe, o ser humano já começa a exercer a sucção dos dedos, língua e lábios, numa atitude instintiva dos mamíferos. Ao nascer, o indivíduo apresenta a função de sucção completamente desenvolvida, e por meio desta, adquirirá o nutriente necessário para a vida. O hábito nesta fase é inconsciente à criança, que se apresenta totalmente dependente e até os três meses praticamente leva uma vida vegetativa, comendo, dormindo e crescendo, e quando sente fome, a reação é chorar (MASSLER, 1983).
Justus (JUSTUS, 1976) afirmou que a interrupção de um hábito pode algumas vezes ser traumática às crianças devido a necessidades emocionais. A interrupção abrupta pode fazer com que a criança adquira um novo hábito, algumas vezes mais danoso e menos aceitável socialmente. Com este mesmo pensamento, VanNorman (VANNORMAN, 1985) sugeriu que se ignore o hábito de sucção até a idade de 5 a 6 anos, momento a partir do qual a criança desenvolve uma mentalidade mais racional e se torna mais colaboradora, possibilitando o tratamento. Há basicamente dois tipos de tratamento que auxiliam na remoção dos hábitos de sucção: o uso de aparelhos ortodônticos e as terapias de motivação do paciente. Segundo o autor, estes métodos podem ser utilizados em conjunto.
A troca do hábito de sucção pela onicofagia pode ocorrer por volta dos 4 aos 6 anos de idade, quando as responsabilidades da criança aumentam e com elas, as frustrações. As meninas, com a evolução social em sua vida, abandonam mais precocemente o hábito. Quando este vem associado a problemas emocionais, normalmente não se acaba, mas se transfere. Existem evidências de que o bruxismo pode ser resultado da transferência das tensões e frustrações durante o sono (MASSLER, 1983).
A persistência do hábito durante a fase inicial da dentadura mista deve ser considerada como deletéria, uma vez que os incisivos estão irrompendo e o hábito pode prejudicar o desenvolvimento normal da oclusão e do crescimento facial (NGAN; FIELDS, 1997; SILVA FILHO, O.G.; CHAVES; ALMEIDA, 1995/1996; SILVA
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37FILHO, O. G.; GOMES GLONCALVES; MAIA, 1991). Os hábitos devem ser eliminados precocemente, durante o período da dentadura mista, para evitar o posterior estabelecimento de alterações dentoesqueléticas severas (DE FIGUEIREDO et al., 2007).
A relação entre os hábitos de sucção e a mordida aberta anterior foi estudada por Silva Filho et al. (SILVA FILHO, O.G.; FREITAS; CAVASSAN, 1990) que observaram a presença de mordida aberta anterior em 78,5% das crianças com hábitos de sucção prolongados. A sucção de chupeta normalmente causa um maior desenvolvimento da mordida cruzada posterior, enquanto a sucção digital origina um maior aumento do overjet e um maior aprofundamento do palato (WARREN; BISHARA, 2002).
No intuito de revelar os fatores que desencadeiam os hábitos de sucção, Warren e Bishara (WARREN; BISHARA, 2002) realizaram um estudo no qual acompanharam 372 crianças, do nascimento até os 5 anos de idade. Durante este período, questionários foram preenchidos pelos pais e modelos de gesso foram obtidos das crianças, que estavam divididas em grupos, de acordo com o hábito que possuíam e tempo durante o qual haviam sido amamentadas. Não houve relação entre o tempo de amamentação e as alterações oclusais a longo prazo. Por sua vez, as afirmações de Larsson e Dahlin (LARSSON; DAHLIN, 1985), indicaram a existência de uma proporção inversa entre o tempo de amamentação no peito e a dependência de hábitos de sucção, conclusão esta compartilhada por Guimarães Jr. (GUIMARÃES, 2004), quando afirmou que crianças de 3 a 6 anos, que haviam sido amamentadas no peito por 9 meses ou mais, apresentaram uma menor prevalência de hábitos de sucção não nutritivos.
A instalação da má oclusão não depende apenas da simples existência do hábito, mas também do padrão de crescimento facial que a criança possui, bem como da duração, intensidade e frequência com que o hábito é realizado (Tríade de Graber) (GRABER, T.M., 1959). Este fato explica porque há crianças que, não obstante possuam algum tipo de hábito, ainda assim não apresentam a má oclusão característica (ALMEIDA, R.R. et al., 1998b). Moyers (MOYERS, 1991) explica que o tecido ósseo, apesar de ser um dos tecidos mais duros do organismo, é bastante plástico, e reage à pressão, principalmente àquelas de baixa magnitude e relativamente constantes, como a pressão da musculatura peribucal ou de hábitos
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de sucção, que podem facilmente modificar a morfologia óssea, sobretudo quando incidem na fase de crescimento e desenvolvimento dentofacial.
2.2.1.1 Alterações morfológicas causadas pelos hábitos de sucção
A sucção digital constitui-se no hábito bucal mais frequentemente encontrado entre as crianças, ao lado da sucção de chupetas. O dedo de eleição para o desenvolvimento do hábito consiste em geral do polegar, mas outros dedos da mão podem ser escolhidos, ou mesmo juntar-se à sucção do polegar (ALMEIDA, R.R. et al., 1998b). Quando o dedo é sugado, várias alterações ocorrem na região dos dentes e da musculatura peribucal. Os dentes ântero-superiores e o processo alveolar sofrem uma pressão nos sentidos vestibular e apical, favorecendo o aparecimento de diastemas entre os incisivos, enquanto os incisivos inferiores são inclinados para lingual e apical, com consequente aumento do trespasse horizontal (SILVA FILHO, O.G.; OKADA; SANTOS, 1986). Com a interposição do dedo ocorre, ainda, o bloqueio da irrupção dos incisivos, criando condições para o desenvolvimento da mordida aberta anterior (WARREN; BISHARA, 2002), acompanhada de mordida cruzada posterior e um aprofundamento do palato, também chamado de palato ogival (ALMEIDA, R.R. et al., 1998a; ALMEIDA, R.R.; URSI, 1990; SILVA FILHO, O.G.; OKADA; SANTOS, 1986). Se o hábito for de 2 ou 3 dedos, a abertura pode se estender até a região dos molares (SWINEHART, 1942). No caso de sucção de chupeta, as alterações morfológicas produzidas são as mesmas que as observadas pela sucção digital, porém a mordida aberta anterior desenvolvida nestas condições mostra um aspecto mais circular, e dependendo da forma da sucção, pode causar outras alterações (ALMEIDA, R.R.; URSI, 1990; NGAN; FIELDS, 1997).