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TABLOLARIN SUNUMUNA İLİŞKİN ESASLAR (Devamı)

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DİPNOT 2-FİNANSAL TABLOLARIN SUNUMUNA İLİŞKİN ESASLAR (Devamı)

Oh! Dis-moi ce qu'on peut faire après Charlemagne! (Victor Hugo)

O livro sempre visou instaurar uma ordem; fosse a ordem de sua decifração, a ordem no interior da qual ele deve ser compreendido ou, ainda, a ordem desejada pela autoridade que o encomendou ou permitiu a sua publicação. Todavia, essa ordem de múltiplas fisionomias não obteve a onipotência de anular a liberdade dos leitores. Mesmo limitadas pelas competências e convenções, essa liberdade sabe como se desviar e reformular as significações que a reduziram. Essa dialética entre imposição e a apropriação, entre os limites transgredidos e as liberdades refreadas não é a mesma em toda parte, sempre e para todos. Reconhecer as suas modalidades diversas e ações múltiplas é o objeto primeiro de um projeto de leitura empenhado em capturar, nas suas diferenças, as identidades entre os leitores e sua arte de ler. (CHARTIER, 1998, p. 8).

O imaginário cavaleiresco resgatado pelos cordéis portugueses, os quais abrangeram temas inspirados em histórias tradicionais da Europa medieval, foi apropriado e adaptado pelo poeta popular na literatura de folhetos, produzida no Nordeste brasileiro no final do século XIX e início do século XX.

A popularidade desse gênero editorial transpassou Portugal e chegou às terras brasileiras. Dentre essas histórias do medievo europeu, destacamos uma em especial: História de Carlos Magno e dos Doze pares de França, traduzida por Jerônimo Moreira de Carvalho.

No sertão nordestino, o sucesso alcançado por este livro contribuiu para que os leitores e/ou ouvintes sertanejos recriassem as histórias carolíngias, reformulando as suas significações e seus personagens. Afinal, nos folhetos, observamos claramente como as figuras arquetípicas dos paladinos foram imiscuídas aos seus heróis populares, como por exemplo, a do cangaceiro; enriquecidas sobremaneira com elementos da cultura popular nativa, a partir de uma complexa técnica de recriação artística. Esta era decorrente de um processo de aculturação, sob o qual a literatura teve uma função primordial.

Convém salientar que, se há uma tradição conduzindo as atitudes e os comportamentos dos grupos sociais, esta possivelmente influencia as práticas leitoras desses povos, condicionando-os a uma interpretação de mundo muito particular e única, com base em suas experiências vivas.

Assim sendo, o que era recebido de Portugal passava por um “ajuste”, a fim de que pudesse se adaptar ao novo contexto sociocultural formado além-mar. Isto era possível graças às “brechas” (CHARTIER, 2009), resultantes dos intercâmbios culturais. Por isso, não foi difícil aproximar o cangaço e os seus protagonistas ao imaginário carolíngio, ao universo da cavalaria andante e aos seus intrépidos cavaleiros.

Deste modo, cotejando as duas literaturas em questão - o cordel português e os folhetos brasileiros -, podemos inferir que, embora compartilhando um fundo de histórias em comum com a portuguesa, a literatura de folhetos brasileira não é apenas uma extensão desta. Afinal, consolida-se enquanto gênero literário por apresentar um cânone de autores e obras, bem como um público receptor definido (ABREU, 2006).

Diante do exposto, a presença do ciclo carolíngio é uma peça chave para a compreensão das bases de formação da literatura de folhetos brasileira, distanciando-a da literatura de cordel portuguesa, mesmo dentro de uma perspectiva de continuidade cultural. Por isso que mesmo o ciclo carolíngio contando apenas com seis folhetos matriciais, assume uma grande função na fortuna dos folhetos brasileiros. Pois, através da matéria da França reproduzida no Brasil, podemos observar como se dá o processo de apropriação do cabedal português, e, por conseguinte, a sua adaptação ao contexto sociocultural brasileiro.

Além disso, a presença de autores e do público ledor, bem como as inúmeras edições e reedições ao longo de mais de meio século, ilustram como surgiu à literatura de folhetos no Nordeste brasileiro, final do século XIX e inícios do século XX; bem como, a sua consolidação nas primeiras décadas do século XX, estendendo-se ao seu ápice no final da década de 50 do mesmo século.

Neste contexto, a matéria carolíngia esteve presente durante todo processo de consolidação desse gênero literário, do início ao auge da literatura de folhetos, ajudando a popularizá-lo pelo sertão adentro, devido à predileção do povo sertanejo por histórias de aventuras, de homens corajosos e destemidos. E, em especial, graças ao carisma dos personagens carolíngios “nordestinizados”.

Tais composições reiteram a força de Carlos Magno e de seus paladinos como um evento reticente na memória coletiva dos sertanejos: já que: “Carlos Magno e os seus companheiros, os Pares de França, continuam ‘vivos’ em pleno século XX. Transformados de vultos históricos a personagens de ficção, permanecem na memória das gerações [...]” (CORREIA, 1993, p.11). Ou seja, tais vultos não são mais codificados como personagens históricos, mas sim, como arquétipos (FERREIRA, 1993). Sobretudo pela sua permanente recriação, como também pela existência dos mecanismos de adaptação que estes possuem, pautados em questões do imaginário.

O ponto central para entender o processo de adaptação, no qual se entremeiam fenômenos culturais como os que envolvem a continuidade da matéria carolíngia nos folhetos brasileiro, é, sem dúvida alguma, o texto-matriz. Isto é: “[...] texto-letra como fonte, que se

deve ater para a percepção do que acontece e permanece em produção do ciclo.” (FERREIRA, 1993, p16).

O “poeta legião” (BATISTA, 2013), ao se apropriar da matéria carolíngia, recria-a, atualizando-a ao seu contexto sócio-histórico, sem, contudo, desconsiderar o caráter arcaizante que a literatura popular do Nordeste possui, além de ser a continuidade de uma tradição. Sobre o tema, Ferreira (1993, p.13) esclarece:

Nesta literatura popular que se produz no Nordeste brasileiro, dá-se, como não podia deixar de ser, uma démarche arcaizante em vários níveis, preservadores de uma série de valores já postos de lado pela sociedade global, enquanto aí se realizam também os seus padrões. Acontece que ela

avança e se vanguardiza, no sentido em que se procede constantemente a um processo de crítica a esta sociedade, mesmo sem o pretender

conscientemente (FERREIRA, 1993, p. 13, grifo nosso).

Deste modo, em se tratando da adaptação do romanceiro épico medieval no sertão, destaca-se a atualização de uma matéria literária, cuja temática ao longo do seu trajeto de recriação conservava muito dos valores herdados no momento da sua colonização; no entanto, essa matéria também avançava na medida em que ia se incorporando ao modelo sociocultural nordestino e tratava de questões específicas da sociedade sertaneja.

Neste contexto, os folhetos carolíngios representam uma “persistência adequada proveniente de atuante historicidade, fundamentada em arraigada tradição cultural e não em modismo recente ou em artificiosidade literária” (FERREIRA, 1993, p.15, grifo nosso).

Na opinião da autora, um dos motivos que contribuíram para o sucesso destes folhetos foi a forma de como a história de Carlos Magno e de seus pares era transmitida, pois não havia elementos fantásticos, ao que ela chama de “artificiosidade literária”. Isto quer dizer que estes relatos estavam envoltos no efeito de real (BARTHES, 1972).

Da mesma forma, outro personagem típico desta região, o cangaceiro, também ganha esse status de “herói do mal” (SIQUEIRA, 2007a), cuja barbárie de seus atos era sempre associada à sua coragem exacerbada, a uma “ausência de medo” colossal. Suas posturas atrozes eram muito apreciadas pelos homens do sertão e seus feitos foram imortalizados pelo poeta popular.

No sertão nordestino, a matéria carolíngia não representa apenas uma permanência da herança dos romanceiros ibéricos em solo brasileiro, mas um modelo de como o imaginário cavaleiresco se amalgamou à situação social, de modo a irradiar novos elementos de criação literária, pautados nos sentimentos de destemor e valentia.

Estes, quando ressignificados pela comunidade nordestina, atuaram como um verdadeiro divisor de águas entre as duas literaturas. Pois através da popularização da matéria da França, as figuras arquetípicas dos paladinos contribuíram para a idealização dos heróis populares dessa região, como, por exemplo, os vaqueiros e cangaceiros; valentões admirados por possuírem uma coragem colossal, terem “sangue nos olhos” e, sobretudo, por não fugirem de uma boa briga, tal qual Roldão e seus companheiros, Lampião e os seus pares.

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