Segundo Coriolano (2006), até meados do século XX, a região costeira do Ceará não era valorizada como espaço urbano para o turismo, onde apenas as atividades portuárias, de pesca artesanal e atividades socialmente marginalizadas (boemia, artesanato e cultura popular), além das residências, ocupavam esse lócus.
Entre as décadas de 1950 a 1970, embora não houvesse uma política de turismo específica, algumas obras foram executadas no Ceará, destinadas ao lazer e ao turismo de forma isolada, tais como:
(...) alargamento da orla marítima de Fortaleza, com o prolongamento da Av. Santos Dumont e a construção da Praça 31 de Março, além da construção da estrada para o
Maciço de Baturité. Diretamente relacionada estava a instituição da Empresa Cearense de Turismo S.A. – EMCETUR, em 1971, ensaiando as primeiras políticas de turismo como apoio a essa promissora atividade. (CORIOLANO, 2006, p.63)
Os Esboços de Políticas de Turismo Iniciais: A EMCETUR, o PDIT-CE e a CODITUR
Para Coriolano (2006), os planos da EMCETUR referiam-se à atividade turística como possibilidade futura, não chegando a se concretizar como uma política consistente para o turismo no Ceará. Neste sentido, a autora diz que o turismo na atual fase de reestruturação capitalista só teve seus investimentos no Estado no final dos anos 80, posteriormente ao Sul, Sudeste e a cidade de Salvador no Nordeste, concomitantemente com o movimento das segundas residências durante os governos militares (1971-1986).
Entrementes, em 1979, foi elaborado um Plano de Desenvolvimento Turístico do Estado do Ceará (PIDT/CE) que, segundo Coriolano (2006), por se tratar mais de um diagnóstico do que um programa de ação, contribuiu para a primeira regionalização do Ceará para o turismo.
Durante o primeiro Governo empresarial do Ceará46, em 1987, o turismo foi retomado como atividade prioritária, integrante da política industrial – uma vez que era considerado uma “indústria sem chaminé” - e priorizado como meio de acelerar o desenvolvimento econômico no Estado.
A Companhia de Desenvolvimento Industrial e Turístico do Ceará – CODITUR, que substituíra a EMCETUR e fora transformada na Companhia de Desenvolvimento Econômico do Ceará – CODECE, evoluiu para uma Secretaria de Turismo do Estado do Ceará – SETUR, que passou a assumir a política de turismo do Ceará. (CORIOLANO, 2006, p. 67)
O PRODETURIS-CE
Por outro lado, verifica-se uma maior preocupação com a elaboração de políticas para a atividade, a partir de 1989, com a elaboração do PRODETURIS-CE, que se tratava de um “programa de ordenamento do espaço litorâneo cuja concepção orienta o uso e a ocupação
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Denominação dada ao Governo de Tasso Jereissati do PSDB, uma vez que, após anos de controle político pelas oligarquias locais, assume o poder um grupo de empresários emergentes de uma vertente advinda diretamente do corporativismo industrial. Para um maior aprofundamento acerca do tema, ver: MORAES (2006).
do solo para atividades produtivas voltadas para o turismo, na perspectiva do desenvolvimento da região, fundamentado em um zoneamento integrado” (SETUR/CE, 1995, p.58).
O Programa propunha um zoneamento turístico do litoral em quatro regiões turísticas:
Região Turística I – Região Metropolitana de Fortaleza e os municípios costeiros de Caucaia e Aquiraz;
Região Turística II – Litoral a oeste de Fortaleza: Itapipoca, Trairi, Paraipaba, Paracuru, São Gonçalo do Amarante e Caucaia; em uma extensão de 130 km de litoral;
Região Turística III – Litoral Leste de Fortaleza: Aquiraz, Pindoretama, Cascavel, Beberibe, Fortim, Aracati e Icapuí.
Região Turística IV – situada no litoral extremo oeste de Fortaleza: Barroquinha, Chaval, Itarema e Amontada.
Embora se trate do primeiro Programa voltado para o desenvolvimento do turismo com uma proposta de desenvolvimento sustentável para a atividade, percebe-se que o PRODETURIS-CE não enxergava o interior do Ceará como uma região potencial para o desenvolvimento turístico. Tal fato irá rebater, inclusive no PRODETUR/CE que, segundo a SETUR/CE (1995), foi montado com base nos paradigmas conceituais do PRODETURIS. Porém, é bem verdade que tal fato não se trata de um privilégio do estado cearense, uma vez que, “O turismo, considerado nos estados, atividade industrial, praticamente concentra-se nos litorais e áreas restritas, não atingindo todos os Territórios nordestinos, sendo necessárias políticas que possam contribuir mais amplamente para o processo de desenvolvimento.” (CORIOLANO, 2006, p.119)
O PRODETUR/CE
O PRODETUR/CE faz parte do PRODETUR/NE, discutido no capítulo anterior, e englobou, em sua primeira etapa, o Litoral Oeste de Fortaleza em uma extensão de cerca de 130 km de litoral e, posteriormente, também o Litoral Leste, através da construção de um aeroporto internacional, rodovias, saneamento básico, recuperação e conservação de praias e
lagoas, fortalecimento de municípios e órgãos públicos, projetos de educação ambiental e ações de capacitação.
Embora das obras realizadas e do aumento no fluxo turístico, uma das principais críticas à primeira etapa do Programa foi o fato de “ter sido projetado de cima para baixo, de estar voltado ao turismo internacional, sem ter o cearense uma história de turismo, sendo limitadas as atividades voltadas ao turismo doméstico, quiçá para o internacional.” (CORIOLANO, 2006, p. 114)
Cabe a observação que, embora se reconheça a importância da participação da comunidade na construção do planejamento turístico - melhor ainda se fosse a partir de um movimento endógeno – não se pode deixar de concordar com a citação final da autora, uma vez que, conforme discutido no capítulo anterior, o turismo não deve ser planejado primordialmente para o turista internacional, mas, para atender, primeiramente, às necessidades da população local e do mercado doméstico.
Com o atual andamento do PRODETUR/CE II, fazem parte do planejamento 10 municípios - que correspondem a 36,9% do Estado e 2.743.596 habitantes - com a premissa básica de completar e complementar os investimentos previstos no âmbito do PRODETUR/CE I necessários à sustentabilidade do turismo da região e à implantação do Pólo Ceará Costa do Sol. Embora o PRODETUR/CE I tenha gerado impactos negativos em termos, sobretudo, sociais e ambientais47, reconhecem-se mudanças na concepção de sua segunda fase, as quais, destacam-se:
(...) enquanto no PRODETUR I o Estado deliberava tudo, no PRODETUR II todas as ações são consultadas e aprovadas nos fóruns e conselhos de turismo; a tônica deixa de ser o município, passando a ser as regiões e os pólos. O foco das ações era nos espaços físicos, para instalação das infra-estruturas, agora, as ações dizem-se voltadas à capacitação das pessoas, ao desenvolvimento social; abriu-se maior espaço para participação da sociedade civil, em quase todos os segmentos, sobretudo com a participação das comunidades, das ONG´s e das universidades. Os planos eram aprovados pelo Estado, bancos financiadores como BID e BN, agora, além dessas aprovações, são exigidas aprovações dos conselhos estaduais e municipais de turismo, e dos fóruns. (CORIOLANO, 2006, p.133)
Por outro lado, conforme já foi mencionado anteriormente, o Programa ainda “peca” por excluir regiões interioranas e potencialmente turísticas de sua área de planejamento,
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questão que se espera ser solucionada com a execução do PRODETUR Nacional ou do PRODETUR/NE III48.
A SETUR/CE
Embora das referidas políticas públicas de desenvolvimento turístico do estado, apenas em 1995 é que a Companhia do Desenvolvimento Industrial e Turístico do Ceará – CODITUR passou a ter status de Secretaria de Turismo do Ceará - SETUR – formalizada através da Lei n° 12.456 de 16 de junho de 1995 com o objetivo de:
(…) planejar, coordenar, executar, promover, informar, integrar as atividades pertinentes ao turismo, fomentar o seu desenvolvimento através de investimentos locais, nacionais e estrangeiros, bem como capacitar e qualificar os segmentos envolvidos, implantando a política do Governo para o setor, já enquadrada no novo modelo de gestão pública, concebido no Plano de Desenvolvimento Sustentável. (SETUR/CE, 1995, p.1)
Com a criação da SETUR, foi também lançada a primeira política da Secretaria Estadual para o Turismo – O Turismo: Uma Política Estratégica para o Desenvolvimento Sustentável do Ceará 1998-2020 – que tinha como princípios básicos: a sustentabilidade, descentralização, re-ordenamento do espaço, desenvolvimento social e visão de longo prazo.
A referida política foi centrada nas vertentes estratégicas de desenvolver o produto e o marketing turístico e dividiu o Ceará em seis macrorregiões turísticas – Fortaleza Metropolitana, Litoral Oeste / Ibiapaba; Litoral Leste / Apodi, Serras Úmidas / Baturité, Sertão Central, Araripe / Cariri - identificadas a partir das suas potencialidades e vocações, conforme figura 6. De forma a operacionalizar as diretrizes e estratégias, a Política propôs como linhas de ações: a ação territorial para ordenamento do espaço e a ação institucional para promoção do produto.
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Conforme informações informais, o PRODETUR III irá beneficiar o Maciço de Baturité com a construção de estradas.
FIGURA 6: Macrorregiões Turísticas do Ceará FONTE: SETUR/CE (2008a)
A supracitada política propunha como ação institucional a criação de Sistemas - informação, capacitação, promoção e gestão – ações de fomento com diretrizes estratégicas e propostas de programas e atividades específicas em articulação com as demais políticas públicas que exercem interfaces com o turismo. Ressalte-se que as diretrizes previstas no Plano de Turismo foram transformadas em Planos de Ação para o Turismo – (PAT)49 em 22 municípios turísticos50, o que se tratou de um passo qualitativo, uma vez que muitos municípios cearenses ainda não contavam com nenhum planejamento turístico e por ser um desdobramento do planejamento estadual. Por outro lado,
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O PAT/PLANO DE AÇÃO TURÍSTICA tem por função definir e implantar projetos que visem resultados eficazes na transformação das potencialidades turísticas do município em produtos competitivos no mercado. 50
Aquiraz, Aratuba, Aracati, Acaraú, Barbalha, Baturité, Camocim, Canindé, Crato, Guaiúba, Guaramiranga, Icapuí, Jijoca de Jericoacoara, Juazeiro do Norte, Maranguape, Nova Olinda, Pacatuba, Pacoti, Quixadá, Quixeramobim, Santana do Cariri, Viçosa do Ceará.
Instalava-se o modelo da gestão governamental e industrial, passando o Estado a ser controlado, transformado e gestado como uma empresa, na opinião de muitos, pois esta é uma das características do Estado neoliberal. A ruptura com o modelo antigo era outro indício de que o Ceará ajustava-se ao capitalismo moderno, que se segura na produção industrial e financeira, dando destaque aos serviços, pois a produção flexível não necessita mais da estrutura pesada, típicas da produção industrial. (CORIOLANO, 2006 p. 86-87)
É importante destacar que a referida Política foi a primeira, no Estado, a vislumbrar o interior no planejamento turístico, em uma perspectiva de longo prazo (com a definição de metas até 2002 e desafios para 2020), inclusive, mapeando os produtos turísticos e propondo linhas estratégicas para o desenvolvimento turístico das macrorregiões definidas.
Outrossim, verificam-se iniciativas de políticas públicas para regiões interioranas do Estado que, embora não se tratem de políticas voltadas exclusivamente para o turismo, trazem, em seu planejamento, diretrizes orientadoras para o desenvolvimento da atividade, a exemplo dos Programas de Desenvolvimento Regional (PDR´s).
A Política Estratégica do Turismo 2003-2006
Em 2003, com a mudança de gestão da SETUR-CE, foi definida uma nova política para o turismo, a “Política Estratégica do Turismo 2003-2006”, que se propôs como um novo ciclo do turismo com a missão de:
Consolidar o Ceará como um destino turístico nacional e internacional, mantendo e estimulando a competitividade econômica, social e ambiental e a rentabilidade os investimentos públicos e privados, contribuindo para uma sociedade com distribuição de riqueza mais eqüitativa e desenvolvida. (SETUR/CE, 2003, p.8)
A consolidação das atividades da Política Estratégica do Turismo 2002-2006 se baseou nos princípios do turismo como negócio, fator de desenvolvimento econômico, inclusão social e competitividade territorial, econômica, social e ambiental das diversas regiões do Estado. Como linhas de ação, a política propõe o desenvolvimento de destinos, produtos e marketing turísticos, a captação de negócios e a gestão em parceria.
Interessante destacar que a referida política avançou com relação à anterior no que diz respeito ao detalhamento dos indicadores turísticos e também na variedade de programas propostos. Além disso, como importante fato para a continuidade e integração das políticas de turismo para o Estado, embora da mudança na gestão, a Secretaria do Turismo manteve a política de regionalização do turismo do governo anterior. Por outro lado, segundo Silva
(2005), o Governo se limita a atuar na disponibilização de infra-estrutura, deixando que a iniciativa privada explore os serviços turísticos implantando e administrando os equipamentos necessários.
O Plano Integrado de Desenvolvimento Turístico do Ceará - 2004 a 2007
Embora a atual Secretaria do Turismo também tenha mantido a política de regionalização do turismo do primeiro mandato, priorizou o desenvolvimento turístico nas macro-regiões: Cariri, Litoral Leste, Pólo Fortaleza, Litoral Extremo Oeste e Litoral Médio Oeste, com base na proposta de ordenamento da atividade turística do Programa de Regionalização do Ministério do Turismo. Especificamente, no âmbito dessas macro-regiões, foram priorizados como indutores do desenvolvimento turístico regional os municípios de: Fortaleza, Canoa Quebrada, Jericoacoara e Nova Olinda.
Segundo a SETUR/CE (2008a), a priorização das regiões foi com base nos seguintes critérios: nível de investimento governamental, recursos do PRODETUR/NE, oferta turística, atrativos naturais e culturais, demanda turística, acesso aéreo e rodoviário e nível de conscientização da comunidade.
Em que pese a crítica no capítulo anterior à política dos destinos indutores do MTUR, ainda que se fosse considerar os critérios de priorização dos municípios anteriormente relacionados, verifica-se que ainda existem encaminhamentos políticos que ignoram as mais consistentes orientações técnicas de delimitação para os investimentos nas regiões e localidades. Como exemplo, cita-se o caso da cidade de Nova Olinda-CE que, ainda que inserido na Região Turística do Cariri, foi priorizada como o município indutor da Região, embora não tenha recebido recursos do PRODETUR/NE, possua apenas um meio de hospedagem e não apresente fluxo turístico expressivo e nem aeroporto.
Mas, por agora, considerando o enfoque do presente trabalho na Macrorregião Serras Úmidas/Baturité (com exceção dos municípios pertencentes à Serra de Aratanha) serão detalhados, a seguir, a caracterização natural e histórica e o potencial turístico do Maciço de Baturité e de seus municípios, assim como também as políticas voltadas para o desenvolvimento do turismo da região.
5. CONHECENDO O RECORTE: DELIMITAÇÕES DO MACIÇO DE BATURITÉ -