3.8. Araştırmanın Bulguları
3.8.5. t Testi Analizinin İncelenmesi
A partir de meados do século XX, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, a reorganização do capital e da divisão internacional do trabalho impulsiona o deslocamento maciço de pessoas em todo o planeta. Segundo o relatório das Nações Unidas (1997), as migrações internacionais saltaram de 75 milhões, em 1965, para 120 milhões de deslocados, em 1990, cifras sem precedentes na história da humanidade. Além disso, as categorias de migrantes (refugiados, clandestinos, deslocados compulsórios, transnacionais, diaspóricos, laborais, imigrantes de segunda geração, turistas etc.) surgidas nesse período revelam a complexidade do fenômeno alcançado no final do século XX.
Segundo Mary KRITZ e Hania ZLOTNIK (1992), a defasagem entre teorias e conceitos, e os movimentos migratórios contemporâneos e seus padrões empíricos, determinaram o direcionamento dos estudos de migração para uma abordagem sistêmica e processual, iniciada na década de 1970. Deslocamentos orientados por conexões transnacionais, além de fluxos de bens e serviços amparados por redes sociais organizadas sob os ditames do trabalho e do consumo, revelaram uma crescente integração e sobreposição de escalas, eventos e contextos (HANNERZ, 1996; APPADURAI, 1996; GUPTA e FERGUSON, 1997; FAIST, 1999).
Nas abordagens sistêmicas o papel individual (especialmente o pressuposto da liberdade de escolhas) é questionado e relativizado nos contextos estruturais em que se justapõem diferentes trajetórias individuais e coletivas, instituições e forças sociais, econômicas, políticas e culturais.
Pesquisas apontam para a complexidade das relações estabelecidas entre Estados, organizações civis e o deslocamento de pessoas entre fronteiras nacionais. As políticas internacionais demandadas para a coordenação dos fluxos migratórios não devem se restringir às questões contratuais entre trabalho e capital, pois, uma parcela substancial dos agentes da migração se encontra alienada de qualquer processo decisório, tomando parte de grupos excluídos dos direitos humanos básicos, como refugiados e clandestinos.
Além disso, noutra dimensão do fenômeno migratório, através dos deslocamentos ditos transnacionais (e também os diaspóricos), questões que permaneceram muito tempo ocultas do campo de análise tomam forma e denunciam os conflitos culturais e psicológicos sofridos pelos migrantes, os constrangimentos diários no processo de adaptação das identidades e formação das comunidades imigrantes, e as disputas em torno das relações de gênero e raça (SAYAD, 1998; BRETTEL, 2000; HALL, 2003; MARTES e FLEISCHER, 2003).
A análise sistêmica é também uma análise processual e relacional, pois demanda que os mecanismos de operação em um sistema migratório sejam compreendidos em sua interdependência e concomitância. Ao se questionar ou relativizar o papel das escolhas individuais na migração, as ações políticas dos Estados na origem e no destino, e os constrangimentos estruturais sofridos pelos migrantes, percebe-se que não se pode abordar o fenômeno migratório desconsiderando os mecanismos conectivos entre as diversas
posições estruturais (isto é, posições ocupadas por diferentes atores num sistema de migração como: emigrantes, imigrantes, comunidades de origem e destino, autoridades públicas, empreendedores, empregadores, agentes e atravessadores, recrutadores, famílias, legisladores, cientistas etc.).
Enfim, não podemos compreender e interpretar de forma adequada os fatos empíricos dos deslocamentos sem considerarmos, detalhadamente, os laços e relações (tanto formais quanto reais) que permitem a distintos atores sociais coexistirem em um sistema social concreto comum — laços e relações que se estruturam segundo padrões formais e sociais específicos e que, dinamicamente, constrangem e facilitam a ação dos indivíduos e das coletividades além da própria “trajetória”, a migração.
Indissociavelmente ligada às abordagens sistêmico-estruturalistas, a perspectiva sobre as redes sociais na migração toma grande impulso na década de 1980. Esta perspectiva de análise contribuiu de maneira decisiva para uma compreensão mais processual e dinâmica dos deslocamentos e, por conseqüência, também revelou, mesmo que indiretamente, a importância dos mecanismos intermediários no processo migratório.
Com as pesquisas de MASSEY e seus colegas (1987) sobre os processos da migração internacional mexicana, fica evidenciado o papel das redes sociais (de parentesco e amizade, neste caso) na avaliação e consecução das estratégias de deslocamento e adaptação no destino — aqui, os mecanismos intermediários podem ser identificados como as famílias e grupos informais de filiação (apoiados na instituição do compadrazgo).20
Não obstante a presença decisiva das redes sociais no processo migratório, as dificuldades analíticas e operacionais persistem nas pesquisas e, mesmo tendo sido referidas em diversos trabalhos, as redes sociais, em geral, não são apreendidas além da metáfora (HUGO, 1981; MASSEY et al., 1987; BOYD, 1989; FAWCETT, 1989; TILLY, 1990; GURAK e CACES, 1992; PORTES e SENSENBRENNER, 1993; PORTES, 1995; MARTES, 2000).21 Talvez por isto se justifique também a ausência de uma análise mais sistemática e centrada nos mecanismos intermediários, visto que sua percepção depende de
20 O compadrazgo se refere ao sistema de apadrinhamento nas comunidades latinas, não apenas mexicanas,
mas presentes em todas as sociedades latino-americanas.
21 Para uma revisão crítica e bem fundamentada das perspectivas metafóricas sobre as redes sociais na
uma compreensão objetiva e detalhada das posições formais e atores concretos, inseridos na estrutura social do sistema de migração.
TILLY (1990) explora os aspectos conceituais das redes sociais no processo migratório e considera as interações dinâmicas entre estruturas sociais e indivíduos. Embora não haja uma operacionalização das redes sociais, o autor reconhece e repudia seu tratamento “metafórico”. Assim, ao analisar o caso concreto da imigração nos Estados Unidos ao longo do século XX, ele sugere alguns importantes marcos conceituais.
Primeiro, a compreensão de que o processo migratório não é homogêneo e não depende (ao menos exclusivamente) das decisões individuais. Para TILLY, a imigração não se produz a partir de decisões individuais isoladas “porém, a partir de grupos de pessoas unidas entre si através de laços íntimos e destino comum — tão pouco esses grupos são categorias” (1990:83) e, nesse sentido, a migração se apresenta como um processo coletivo de transformação social, onde tais “categorias” são, muitas vezes, moldadas e reformuladas no destino.
Desse modo, as redes podem ser não apenas mecanismos que possibilitam o movimento migratório, como também estruturas coletivas passíveis de mudança e reorganização — como veremos no capítulo 5, este parece ser o caso dos mecanismos intermediários na emigração internacional de valadarenses para os EUA, onde as agências de turismo passam a ocupar uma posição estrutural de intermediação devido a constrangimentos formais e a uma coincidência histórica bem específica.
Como afirma TILLY, as redes migram e também criam novas categorias. Talvez, por esse constrangimento estrutural exercido largamente pelas redes sociais, pudesse se explicar algumas das principais motivações individuais para a decisão de migrar.
“Constrangido por redes pessoais, migrantes potenciais falham ao considerar teoricamente os diversos destinos disponíveis, e se concentram naquelas poucas localidades com as quais o lugar de origem apresenta fortes conexões. Quanto mais alto o risco e custo do retorno, mais intensa é a confiança sobre laços previamente estabelecidos” (TILLY, 1990:84).
Segundo, e mais importante, o autor sugere que a migração seja compreendida através da noção de comunidade (implícita é sua perspectiva estruturalista e organizacional). Nesse sentido, o processo migratório seria definido por estruturas sociais próprias a cada coletividade organizada localmente — comunidades que enviam e recebem
migrantes teriam, teoricamente, redes e categorias diferenciadas, e o próprio processo de seleção e adaptação dos indivíduos dependeria dos constrangimentos estruturais de tais “redes comunitárias” — constrangimentos de ordem formal, exercidos pela relação entre as diversas posições sociais ocupadas, por exemplo, a disponibilidade de agentes especializados na travessia ilegal é necessária em um sistema migratório restritivo, e as categorias de imigrantes nas comunidades de destino são determinadas pela trajetória encetada, se ilegal ou oficial.
Enfim, para TILLY (1990:88) “deveríamos pensar na migração como pensamos nas estruturas comunitárias: irredutíveis às características e intenções individuais. O aspecto determinante, as regularidades recorrentes são relativas à estrutura das redes migratórias por elas mesmas”.
2.3. Considerações finais: uma ordem dos indícios demográficos sobre os