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O poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999), num de seus poemas mais conhecidos, Tecendo a manhã, expressa metaforicamente a capacidade humana de, em grupo, traçar o destino, projetar o futuro. Diz ele:

Um galo sozinho não tece uma manhã: Ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele E o lance a outro: de um outro galo Que apanhe o grito de um galo antes

E o lance a outro; e de outros galos Que com muitos outros galos se cruzam

Os fios de sol de seus gritos de galo Para que a manhã, desde uma teia tênue,

Se vá tecendo, entre todos os galos. E se encorpando em tela, entre todos, Se erguendo tenda, onde entrem todos,

Se entretendendo para todos, no toldo (a manhã) que plana livre de armação. A manhã, toldo de um tecido tão aéreo Que, tecido, se eleva por si: luz balão.

É quase desnecessário informar que o poeta modernista inicia o seu poema com uma paráfrase do provérbio “uma andorinha sozinha não faz verão”, tão comum dizermos quando nos referirmos a algo que imaginamos de difícil ou impossível realização se não contarmos com a colaboração de outrem. No poema, a função do galo é despertar outros galos, que lançam juntos a outros os seus gritos até que entre tantos que se cruzem, uma manhã será tecida com os fios de sol dos gritos de galos.

Na intenção de enfatizar a importância dos laços colaborativos entre os sujeitos na construção de um projeto de futuro que beneficie a todos – a tenda “onde entrem todos” –, o poeta João Cabral de Melo Neto usa verbos como tecer, precisar,

apanhar, lançar, cruzar, como etapas necessárias para um tecimento coletivo do

Coletivamente, esses indivíduos “costuram”, “unem”, “entrelaçam” os fios que criarão o tecido da sua tenda protetora.

É importante alertar, entretanto, para o fato de que esse tecido não se faz sem crises, sem contestações, sem conflitos, daí porque o poeta pernambucano usa a palavra “grito” ao invés de “canto” do galo. O grito tem maior poder que o canto, pois ele evoca um estado de alerta, de protesto e de levante. Em outros termos, podemos afirmar que, como tudo o que é da ordem do humano, a confecção desse tecido da grande tenda protetora não se faz sem uma relação dialógica que opõe, mas também complementa, o individual e o coletivo, a discórdia e a concórdia, a

fantasia e a racionalidade, a ordem e a desordem.

Em São Rafael, os galos pareciam silenciados, sonolentos, porém, não conformados. Seus cantos, baixos, eram ouvidos apenas pelos mais próximos. Pareciam aguardar o chamado de outro galo que sonhasse cantar ou gritar mais alto que o convencional. Tão alto seria seu canto que ele conclamaria a todos os outros galos de pontos mais distantes, além da Serra Branca, da Lájea Formosa, da Serra da Pindoba. Com tal esforço, uniriam galos localizados além das fronteiras do município, da microrregião do Vale do Açu, do estado do Rio Grande do Norte e, quiçá, do Brasil.

Em inícios de 2008, ouve-se um primeiro grito e, como este logo foi seguido por outros, passou-se a compor uma rede que transcende as distâncias e une, continuamente, outros galos num coro cujo estribilho é a memória dessa cidade, expressa nas narrativas visuais e orais, que logo se fazem escritas e disponibilizadas a todos.

A possibilidade de isso ocorrer parecia remota, senão utópica, até há poucos anos, quando ainda não havia se popularizado uma das mais novas tecnologias da informação: a internet e, como efeito dela, a disseminação das redes sociais on line que unem milhões de pessoas numa teia de muitos fios e de muitos nós. Certamente, é por essa capacidade de unir que a internet é considerada por Castells como o “tecido de nossas vidas” (2004, p. 15).

A colaboração intelectual entre as pessoas, característica que sempre esteve presente nas sociedades humanas, foi potencializada pelas tecnologias do virtual. No passado, as possibilidades de interação entre os sujeitos eram dificultadas

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devido à carência de meios tecnológicos que facilitassem esses contatos. Todavia, com o advento da internet, a interatividade, uma possibilidade muito antiga, tornou- se de tal forma exequível que, hoje, contatamo-nos, para os mais diversos fins, com uma rapidez nunca antes vista ou imaginada.

Em face disso, Pierre Lévy, em conferência proferida no SESC São Paulo, ressalta a importância da internet como ferramenta para o desenvolvimento humano, uma vez que ela permite e estimula a sociabilidade, a troca de ideias, a cooperação intelectual, o estabelecimento de vínculos. No seu ponto de vista, “estamos percebendo hoje a importância da relação social organizada, inventiva e viva. Quando eu digo organizada não quero dizer por um centro, uma instância superior, mas auto-organizada, espontânea, de alguma forma” (2002).

Se um galo só não tece uma manhã, como afirma o poeta João Cabral, também um homem só não se constrói. Ele precisa, antes de qualquer coisa, dos seus semelhantes. Ele necessita pertencer, como afirma Cyrulnik: “não pertencer a ninguém é não se tornar ninguém” (2007, p. 79). Adiante, o referido autor reflete: “o paradoxo da condição humana é que só é possível tornar-se si mesmo sobre a influência dos outros. O homem só não é um homem” (Idem, p. 97).

É também em grupo que reconstruímos nossa memória, traçamos os nossos destinos, tecemos uma manhã. Os narradores de São Rafael lembram a sua antiga cidade em seu grupo de pertença. Para isso, fazem despertar de um longo sono as fotografias guardadas há muito tempo num álbum, num fundo de gavetas, num guarda-roupa, numa caixa ou num saco plástico. Antes relegadas ao esquecimento, portanto, envelhecidas, descoloridas, amassadas ou rasgadas, elas agora ganham vida nova: são rejuvenescidas, graças a um tratamento digital, desamassadas, coladas, escaneadas e, finalmente, expostas para todos aqueles que se interessem em vê-las. A partir de tais possibilidades, as imagens não mais estarão congeladas no tempo, mas sim, devidamente formatadas e armazenadas em computadores. Aos poucos, esses fragmentos de vidas transformam-se em fontes de recordação e emoção, mas também de informação, haja vista que toda fotografia é um resíduo do passado, um registro visual que traz um inventário de informações acerca de um espaço/tempo retratado.

Como observa Kossoy (2007), nessa nova fase de suas vidas, as fotografias aguardam por sua nova condição de documentos/representações, porém, já em