O conceito de linguagem é fundamental para aqueles que estão envolvidos com o processo ensino-aprendizagem. Assim, fazer um diagnóstico dos conhecimentos prévios das partícipes e trabalhar com elas a (re)elaboração desse conceito ganham relevância, pois a formação e desenvolvimento de conceitos é um processo contínuo que se inicia com os significados internalizados, via experiência empírica.
A análise que segue refere-se ao estágio em que se encontrava a formação e o desenvolvimento do conceito de linguagem de nossas partícipes antes do processo de intervenção.
Ao ser questionada sobre “O que é linguagem”, “Jóia Rara” respondeu:
Linguagem... eu acho que é a palavra que usamos para compreendermos as coisas do mundo que nos cerca, né? Sendo através da comunicação, da leitura e da escrita.
FONTE: Entrevista realizada em 2008.
“Jóia Rara” aponta dois dos atributos essenciais da linguagem: “usamos para compreender as coisas do mundo”- cognição humana - “a comunicação”, mas limita a linguagem à palavra usada para a compreensão das coisas do mundo que cercam os indivíduos, atrelando o uso da linguagem à comunicação, à leitura e à escrita. De fato, isso rompe com o caráter global da percepção, e as abstrações estão desprendidas dos elementos perceptivos. Contudo o grau de generalidade está restrito a algumas das singularidades e, portanto, constitui uma caracterização da linguagem, e não uma conceituação.
O explicitado por essa partícipe também é indicador do entendimento dela em relação à concepção de linguagem. Ao atrelar o uso da palavra à compreensão das
coisas do mundo, a professora nos revela que a concepção de linguagem como expressão do pensamento é a base de sua percepção sobre a linguagem, uma visão monológica, associada, como explicitado na evolução histórica da sua significação, à tendência que transpõe esse significado à corrente teórica chamada de subjetivismo idealista, ligada ao romantismo. Esta, como vimos, entende que as leis linguísticas são essencialmente as leis da psicologia individual, razão pela qual o fundamento da língua está, segundo essa visão, no psiquismo individual.
Bakhtin (2002, p. 72-73) sintetiza as posições fundamentais dessa tendência quanto à língua com as seguintes proposições:
d. A língua é uma atividade, um processo criativo ininterrupto de construção (“energia”), que se materializa sob a forma de atos individuais de fala.
e. As leis da criação lingüística são essencialmente as da psicologia individual.
f. A criação lingüística é uma criação significativa, análoga à criação artística.
g. A língua, enquanto produto acabado (“ergon”), enquanto sistema estável (léxico, gramática, fonética), apresenta-se como um depósito inerte, tal como a lava fria da criação lingüística, abstratamente construída pelos lingüistas com vistas à sua aquisição prática como instrumento pronto para ser usado.
Essa teoria, tal como se apresenta, só pôde se desenvolver sobre um terreno idealista e espiritualista. Disso decorre a ideia de que os indivíduos que não conseguem se expressar é porque não pensam ou, ainda, se eles não organizarem logicamente o seu pensamento, a sua linguagem será, inevitavelmente, afetada.
É possível, pois, presumir a existência de regras que determinam o que seria a organização lógica do pensamento, isto é, o que pode ser considerado como o “pensar certo” e “expressar bem”. Nisso estariam as bases que iluminam os estudos tradicionais, representados, principalmente, pela gramática normativa, que tem gerado uma ideia de homem que produziu uma abordagem rígida e autoritária. Porque, como diz Koch (2003, p. 13-14):
[...] a concepção de língua como representação do pensamento corresponde a de um sujeito psicológico, individual, dono de sua vontade e de suas ações. Trata-se de um sujeito visto como um ego que constrói uma representação mental e deseja que esta seja “captada” pelo interlocutor da maneira como foi mentalizada.
Por valorizar, sobremaneira, o psiquismo individual e desprezar as contribuições externas, vivenciadas no processo de interação social, essa visão pode trazer sérios problemas ao ensino-aprendizagem da linguagem.
“Preciosa”, a exemplo de “Jóia Rara”, também não tem, ainda, desenvolvido o conceito de linguagem, visto que a resposta dada à pergunta formulada na entrevista “O que é linguagem?”, foi:
Linguagem, para mim, é o uso que a gente usa como meio de comunicação entre as pessoas.
FONTE: Entrevista realizada em 2008.
O dito por essa partícipe revela que o seu desenvolvimento acerca do conceito de linguagem não se configura, ainda, no estágio da conceituação. Ela aponta algumas das propriedades inerentes à linguagem, a saber: “o uso”, “o meio” e “comunicação entre as pessoas”, alguns dos atributos essenciais da linguagem que se constrói no uso que fazemos dela, utilizando algum veículo, isto é, meio, no processo de comunicação entre as pessoas.
No entanto, o expresso por essa docente não esgota todas as propriedades, relações e conexões que comportam a acepção conceitual de linguagem. O explicitado entra, pois, na categoria da caracterização apontada por Ferreira (2007), visto que “Preciosa”, ao expressar “ e o uso que a gente usa”, apresenta um grau de generalidade restrito às singularidades, explicando o uso da linguagem pelo próprio uso que fazemos dela para a comunicação.
Isso significa que o enunciado dessa professora sobre o que é linguagem ressente-se não só a alguns dos critérios essenciais e necessários, mas também a particulares e singulares, aos nexos e às relações que constituem o conceito linguagem, que expressam esse fenômeno e a natureza interna dele.
O dito por essa partícipe também é revelador da concepção de linguagem intrínseca em seu pensamento, a saber: linguagem como instrumento de comunicação. Concepção que tem caráter monológico. Assim, o significado prévio de linguagem atribuído por “Preciosa” remete, historicamente, à corrente filosófico-linguística denominada de objetivismo abstrato e à teoria da comunicação, centradas no código.
É a maneira que o indivíduo utiliza para se comunicar, seja gestual, oral, escrita ou através de símbolos (gravuras).
FONTE: Entrevista realizada em 2008.
Podemos perceber, no enunciado por essa partícipe, a abstração de alguns dos atributos essenciais e necessários ao conceito de linguagem “maneira que o indivíduo utiliza para se comunicar”. Também percebemos que não há circularidade das ideias, há clareza e ausência de ambiguidade. Há abstrações que se desprendem dos elementos perceptivos. Contudo apresenta um grau de generalidade restrito às singularidades, portanto não pode ser considerado uma definição ou conceito. Assim sendo, apesar de essa docente ter apresentado mais elementos que se aproximam do significado do termo linguagem, a exemplo das outras partícipes, “Comprometida” encontra-se no estágio da
caracterização.
Quanto à concepção de linguagem que subjaz desse conceito prévio, elaborado por “Comprometida”, semelhantemente ao que se verifica no significado expresso por “Preciosa”, trata-se da “linguagem como instrumento de comunicação”, e não um processo de interação, resquício da visão que a restringe ao processo de comunicação.
As bases que fundamentam essa concepção de linguagem não dão conta do processo de interação, que constitui um atributo essencial da linguagem. Isso porque, como afirma Bakhtin (2002, p. 82-83), nessa visão,
6. A língua é um sistema estável, imutável, de formas lingüísticas submetidas a uma norma fornecida tal qual a consciência individual e peremptória para esta.
7. As leis da língua são essencialmente leis lingüísticas específicas, que estabelecem ligações entre os signos lingüísticos no interior de um sistema fechado. Estas leis são objetivas relativamente a toda consciência subjetiva.
8. As ligações lingüísticas específicas nada têm a ver com valores ideológicos (artísticos, cognitivos ou outros). Não se encontra, na base dos fatos lingüísticos, nenhum motor ideológico. Entre a palavra e seu sentido não existe vínculo artístico.
9. Os atos individuais de fala constituem, do ponto de vista da língua, simples refrações ou variações fortuitas ou mesmo deformações das formas normativas. Mas são justamente estes atos individuais de fala que explicam a mudança histórica das formas da língua; enquanto tal, a mudança é, do ponto de vista do sistema, irracional e mesmo desprovida de sentido. Entre o sistema da língua e sua história não existe nem vínculo nem afinidade de motivos. Eles são estranhos entre si.
Nessa concepção, a língua, tida como sistema de formas que remetem a uma norma, é uma abstração que “só pode ser demonstrada no ponto de vista do deciframento de uma língua morta e do seu ensino” (BAKHTIN, 2002, p. 110).
Em suma, acerca do processo de elaboração do conceito de linguagem por nossas partícipes, podemos dizer que, apesar de a partícipe “Comprometida” ter feito apenas uma caracterização, é inegável que ela se encontra em um estágio de desenvolvimento maior do que o das partícipes “Preciosa” e “Jóia Rara”. No entanto, os significados atribuídos à linguagem pelas três docentes são, ainda, marcados por conhecimentos fragmentados, carentes de fundamentação teórica que possibilite a conceituação.
Assim sendo, no que se refere à análise do aspecto lógico dos significados elaborados por essas docentes, atinente à tentativa de conceituar linguagem, ficou evidente que todas estão no estágio da caracterização.
No tocante ao aspecto histórico dos significados prévios atribuídos à linguagem por essas partícipes, podemos afirmar que todas têm uma visão monológica. “Preciosa” e “Comprometida” privilegiam o código e “Jóia Rara”, o psiquismo individualista.